Você Vai Longe, Garoto
1 Capitulo Único
Notas iniciais
Espero que gostem.
“Você vai longe, garoto”, essas eram as palavras de meu pai quando era mais jovem. Estou sentado em meu escritório remoendo lembranças, enquanto me esperam para mais uma reunião, onde fecharemos outro acordo milionario.
Meu nome é Stanley e sou dono de uma das maiores empresas de construção dos Estados Unidos, tenho uma esposa linda e dois filhos maravilhosos e minha vida não poderia ser melhor.
Sim, de fato cheguei longe... Como meu pai queria, ou até exigia... Mas me sinto vazio por dentro, corroído por culpa e preciso desabafar, nem que seja com este pedaço de papel. Espero que isto chegue às mãos das pessoas certas...
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Era o primeiro dia de aula de meu Ensino Médio, eu estava nervoso, enquanto o ônibus escolar chegava cada vez mais perto de seu destino. Olhava pela janela enquanto escutava música, com um assento vazio do meu lado, meu cabelo castanho balançava com o vento e meus olhos verdes estavam fechados para me acalmar. Não estava disposto a conversar com ninguém, mas foi naquele dia que conheci o meu melhor, e talvez o único verdadeiro, amigo de minha vida.
–Posso sentar aqui? – um garoto alto, de boa aparência, com a pele clara, cabelos negros, olhos castanho-escuro e feições longas e finas estava parado no corredor do ônibus olhando para mim.
–Ah... C-claro que pode – respondi timidamente, sempre fui ruim em falar com pessoas que não conhecia.
–Ah, valeu! – ele respondeu simpático – você também é calouro?
–Sim... – respondi meio sem graça.
–Ótimo! Quer dizer que não sou o único nesse ônibus – ele riu um pouco e eu o acompanhei – a propósito, qual seu nome?
–Stanley, e você? – respondi perdendo a timidez, aquele garoto tinha uma aura que me fazia sentir seguro.
–Meu nome é Alexander – ele respondeu ainda sorrindo – então Stan, acho bom nós ficarmos juntos nesse primeiro dia... Sendo calouros e tudo mais, o que você acha?
Eu sorri e acenei com a cabeça, continuamos conversando a viagem inteira. Era um pouco assustador como a conversa dele me fazia sentir como se fosse a única pessoa que merecia atenção naquele ônibus, eu simplesmente não consiguia me desligar dos assuntos.
Quando chegamos à escola todos nós calouros fomos encaminhados para o ginásio, onde recebemos nossa recepção. Logo o nosso primeiro dia acabou, assim como a primeira semana e os primeiros meses.
Após pouco tempo, eu e Alex (o apelido que todos haviam dado a ele) éramos melhores amigos. Ele sempre foi muito popular, desde seu ano de calouro, todos o amavam, e conseqüentemente eu também me tornei popular por ser seu melhor amigo. Nós também “acolhemos” em nosso grupo mais três calouros; Lilly, Morgana e Peter.
Lilly era uma das líderes de torcida, uma garota linda, loira de olhos azuis. Ela costumava falar mais do que devia, mas tinha o coração de ouro, e nunca conheci ninguém mais bondosa que ela.
Morgana era a rebelde de nosso grupo, ela nunca ligou muito para a popularidade, mas sabíamos que ela gostava de estar junto conosco e todos nós a amávamos, como amávamos o resto do grupo. Ela tinha uma banda de punk-rock em ascensão, cabelo roxo comprido e sempre estava de sombra.
Peter era, possivelmente, o garoto mais bonito que eu já conheci. Ele tinha porte atlético, cabelos castanho-escuro, olhos azuis e feições invejáveis. Ele nunca fora muito inteligente, mas era uma das melhores pessoas que eu conhecia.
Eu e Alex nos esforçávamos muito nos estudos, além de termos entrado para o time de futebol da escola junto com Peter, e ainda saíamos todo final de semana com os outros três membros do nosso grupo. Durante aqueles tempos o que não faltava era risadas e diversão... O tempo passou voando em nosso primeiro ano juntos, e quando notamos já estávamos na semana de provas finais.
–Stan – Alex tentou chamar minha atenção – STAN! ACORDA CARA!
–Ah... O que...? – eu estava com muito sono, não havia conseguido dormir por causa das provas.
–Sério, pega mais leve nos estudos – Alex falou sério – eu sei que seu pai bota muita pressão, mas a vida não é só estudo, futebol e festas. Não fazer nada às vezes é bom também.
–Ah, cala a boca – falei brincando.
–A Lilly ainda está esperando uma resposta sua, sabia? – ele falou, ainda um pouco sério.
–A Lilly que vá se foder – falei áspero – eu já falei que não quero nada com ninguém do nosso grupo, será que ela é tão tapada assim?
–Caaalma cara! – Alex falou surpreso – me promete que a primeira coisa que você vai fazer quando chegar em casa é tirar uma boa noite de sono.
Eu apenas resmunguei um palavrão, mas ele fingiu não ouvir. Eu estava com raiva por ele estar tão calmo com tantas provas. Ele sempre fora mais inteligente que eu, e isso me irritava.
–Vai se sentar logo, que a prova já vai começar – eu falei irritado.
–Certo, senhor rabugento – ele se afastou rindo, as vezes eu me perguntava como ele me aguentava.
Como sempre, nós dois tiramos as notas mais altas, ele se saindo um pouco melhor claro, mas fomos os melhores alunos de nosso primeiro ano.
Durante as férias nós cinco só nos falamos por telefone, pois cada um foi passar o feriado com sua família, mas logo nos reencontramos e recomeçamos nossa rotina no segundo ano de nosso Ensino Médio; Alex, Lilly, Morgana, Peter e eu, éramos os alunos mais populares da escola, em tão pouco tempo.
O segundo ano foi quando tudo começou a mudar... Tudo dentro de mim entrou em caos e eu já não conseguia controlar minhas emoções. Eu estava apaixonado por uma garota, a Megan, linda Megan... Mas eu tinha medo de falar com ela, a garota era a presidente do clube de matemática da escola, e passava um ar de “inatingível”, então apenas guardei o sentimento para mim mesmo e segui com a minha vida. Como eu fui estúpido... E só percebi quando já era tarde demais.
–Gente, tenho uma ótima noticia para dar para vocês! – Alex chegou sorridente em nossa mesa durante o almoço, como sempre fazia – eu arranjei uma namorada!
–O QUÊ!? – Lilly e Peter exclamaram juntos.
–Quem é a figura? – Morgana perguntou, contendo a surpresa do comunicado.
–É a Megan, a do clube de matemática! – os olhos dele brilharam de emoção.
Meu sangue gelou na hora, eu provavelmente ficara pálido, mas não falei nada, apenas deixei meus amigos continuarem enquanto minhas emoções se misturavam entre rancor, magoa e tristeza.
–Ah, ela é bonita – Morgana continuou – acho um pouco apagada, sinceramente... Mas meus parabéns.
–Parabéns cara! Inteligente e bonita hein, cuidado com ela! – Peter falou contente.
–Todos se dando bem no amor... – Lilly suspirou e me olhou, eu fingi que não sabia de nada.
–E não é? Nós vamos sair juntos esse final de semana, vocês querem vir?
–E segurar vela? Há da um tempo né – falei irritado – pode sair com sua namoradinha e faça bom proveito.
Eu me levantei e sai andando lentamente até o banheiro e após entrar em um dos boxes, comecei a chorar. Um choro de raiva e rancor. Até nisso ele era melhor que eu?!
Após alguns segundos eu ouvi a porta do banheiro abrir e segurei o choro, para que ninguém me ouvisse.
–Stan? – a voz de Alex ecoou pelo banheiro.
Eu não respondi, não conseguia falar com ele.
–Stan, o que aconteceu? Você não gosta da Megan, é isso?
Eu ainda não estava pronto para responder, então ele tentou mais uma vez.
–Sério Stan... Se você não gosta dela, eu já termino tudo... É só você pedir...
Foi ai que eu percebi; ele não era apenas mais bonito e inteligente, mas também era uma pessoa melhor que eu afinal. Só que eu não iria deixá-lo saber disso. Não, eu iria fazê-lo ver como era ser quem chega sempre em segundo lugar.
–Não, está tudo bem – respondi com a voz firme – acho que só estou muito estressado com os estudos...
–Esse seu pai em, não é fácil... Ele devia dar um pouco de espaço para você – Alex falou aliviado – bem, eu vou voltar pro refeitório, volta logo!
Continuei falando com Alex normalmente após o incidente, afinal, ele não tinha culpa... Não é...?
Naquele final de semana saímos nós cinco, mais a Megan, para o boliche. Ela era muito linda... Cabelos castanhos e olhos cor de mel, a garota dos meus sonhos. Ela foi simpática com todos, inclusive comigo, o que me deixou contente.
Alex iria para a minha casa após o jogo, então tive que ficar até o final com ele e Megan. Ele foi ao banheiro antes de saírmos, então fiquei sozinho com ela, e a ficha caiu que aquela era minha oportunidade de ouro.
–O Alex é muito gente boa, né? – falei, puxando assunto.
–Sim, estou adorando sair com ele – ela falou contente.
–Mas tome cuidado... Com toda garota que ele sai, ele só pensa em uma coisa, se é que me entende – falei em um tom que mesclava seriedade e deboche – ele sempre dispensa depois de conseguir o que quer... Com todas as outras vinte e poucas foi assim.
–Como é que é!? – ela pareceu surpresa – o Alex não é assim...
–Você que sabe, mas a verdade é que eu gostei de você e não queria que você passasse pelo o que as outras passaram – eu ainda estava com o mesmo ar, falando com muita convicção.
–E-eu acho que é melhor eu ir embora... Desculpe qualquer coisa – a garota falou se levantando e saindo apressada pela porta, contendo o choro.
–Aonde a Megan está indo? – Alex perguntou surpreso, enquanto se aproximava de onde eu estava.
–Não sei, nem estava prestando atenção nela – menti.
–Depois eu falo com ela – Alex falou, preocupado – vamos para sua casa então?
Eu não soube como terminou a história, só sei que os dois nunca mais saíram juntos de novo e ele pediu consolo para mim, enquanto eu fingia pena pelo namoro não ter dado certo. Continuamos melhores amigos, junto com Lilly, Morgana e Peter, como sempre havia sido.
O resto do ano passou sem mais confusões e, realmente, nada do que havia se passado se comparava com o que estava prestes a acontecer.
As férias do segundo para o terceiro ano nós passamos todos juntos em uma cabana a beira do lago, que pertencia ao pai de Peter. Aqueles sim foram tempos para se lembrar, ninguém tinha compromissos, todos riam, brincavam... Se eu pudesse viveria eternamente naquelas férias...
Mas então o terceiro ano teve início. O começo do fim.
Tudo começou normalmente, nós cingo sempre sendo bajulados por todos os nossos colegas, jogos de futebol, festas e estudo. Tudo começou perfeitamente bem. Mas então eu e Alex fomos chamados na diretoria. Por que aquilo tinha que ter acontecido?
–O que será que a gente fez... – falei nervoso, temendo que meu pai se decepcionasse comigo.
–Calma, a gente não fez nada. Não é noticia ruim – Alex tentou me acalmar.
Nós chegamos à sala da diretora, a senhora Margareth, uma velha grisalha, baixa e gordas que estava sempre de óculos com aro de tartaruga. Ela aparentava ser chata e mal-amada, mas na verdade era uma pessoa muito bondosa.
–Ah, aí estão meus alunos-estrela! – a diretora exclamou quando nós dois entramos – por favor, sentem-se!
Fiquei um pouco mais calmo ao ver que a diretora estava feliz, mas ainda não conseguia relaxar.
–Então, eu não sei se vocês sabem do Projeto-Competição, um projeto que a faculdade mais prestigiada aqui dos Estados Unidos faz com as melhores escolas – nisso ela deu uma pausa e ajeitou os óculos – e com os dois melhores alunos, onde eles disputam uma bolsa integral em qualquer curso que quiserem seguir.
–Na verdade, senhora Margareth, nós não sabíamos – Alex falou calmamente.
–Mas então, agora já sabem! – ela deu uma risadinha irritante – e eles querem fazer isso com vocês dois, vocês topam?
–Bem... – Alex estava indeciso.
–É uma oportunidade de uma vida meninos, pensem bem!
–Stan – Alex se virou para mim – você promete que nossa amizade não vai se abalar por causa desse projeto? Afinal, nós dois iremos entrar em ótimas universidades mesmo sem esse pojeto...
–Prometo – falei sem pensar – não precisa ter medo de nada, Alex, nossa amizade não vai mudar.
–Então está certo! – a diretora falou feliz – bem, só continuem fazendo o que vocês fazem de melhor, futebol, estudo, essas coisas, que no final do ano faremos uma festa e anunciaremos o vencedor!
–Que vença o melhor! – Alex falou dando uma palmada nas minhas costas.
Eu sabia que precisava ganhar aquele concurso, sabia que se eu não ganhasse, meu pai iria me ver com outros olhos, iria me ver como um perdedor. Foi então que comecei a arquitetar meu plano, eu precisava fazer ele perder popularidade.
Minha primeira ação foi botar um forte sonífero em sua água durante nosso primeiro jogo na temporada, fazendo-o perder seu cargo de titular. Eu não me sentia mal o sabotando, afinal ele iria já para uma universidade ótima, melhor que a minha se eu não ganhasse o concurso.
Mas eu não parei por ai, espalhei algumas mentiras sobre ele entre os alunos, plantando pequenas sementes de duvida. Mas eu notei uma coisa, uma coisa que me deixou frustrado. Eu não iria vencê-lo, nem se eu o sabotasse. Ele precisava pagar o preço por sempre me deixar para trás, sempre ser melhor que eu em tudo, ter mais amigos, mais garotas. Ele tinha que pagar.
O final do ano foi chegando, e com isso a festa que iria anunciar quem venceu. Eu sabia o que deveria fazer, e que Deus me perdoe, eu fiz. Arranjei um álibi concreto e ajeitei tudo para que a noite da festa e do resultado do Projeto-Competição fosse inesquecível para todos.
Finalmente o dia fatídico chegou. Eu e Alex nos arrumamos juntos, como fazíamos sempre antes de ir para as festas.
–Stan... – ele parou e me olhou como se estivesse tentando me analisar – não importa o que aconteça, você vai ser sempre meu irmão...
–Alex... – fingi estar emocionado – obrigado...
A festa foi feita no ginásio e estava um sucesso, todos se divertiram muito, inclusive eu, que acabei por ceder aos encantos da doce Lilly e acabamos ficando juntos. Mas então chegou o momento esperado, e a diretora subiu no palco e pediu silencio a todos.
–Agora vou anunciar o grande vencedor da grande bolsa, desejada por 11 a cada 10 estudantes! Tambores por favor!
Nesta hora apertei forte o controle que estava no meu bolso, agora era o momento da verdade.
–E o vencedor é... Alex! Parabéns meu querido!
Todos aplaudiram muito e assobiaram. Alex realmente era o merecedor daquele prêmio, e enquanto ele subia a escada enxugava as lágrimas de emoção dos olhos, eu apertei o botão do controle que eu havia preparado. Eu não ligava mais para nada, apenas apertei o botão...
–Obrigado a todos... Especialmente ao meu irmão de outra mãe, Stan! – ele falou emocionado e me viu com o pequeno controle na mão, ele fez uma cara de curiosidade, mas não teve tempo de fazer mais nada.
O palco começou a pegar fogo rapidamente, juntamente com as laterais do ginásio, as chamas estavam consumindo tudo. Eu só conseguia pensar “Dance, desgraçado, dance. Você não é o bonzão??”
Todos corriam e gritavam tentando escapar e eu continuava parado, olhando para Alex, que também estava parado olhando para mim. Os olhos dele, que brilhavam com o fogo, não conseguiam conter as lágrimas que corriam violentamente, provavelmente estava se sentindo um lixo naquele momento, traído e indefeso, mas eu nunca vou saber... A última vez que eu o vi ele ainda estava parado, começando a ser consumido pelas chamas. Eu escondi o pequeno controle e também sai correndo do ginásio antes que ele queimasse por completo.
Naquela noite haviam acontecido nove fatalidades, entre elas estavam Alex, a diretora, Megan e mais alguns alunos. Ninguém nunca desconfiou de mim, na verdade todos sentiam pena de mim, com minhas mentiras eu havia criado um rebanho de inocentes que não paravam de me dar seus pêsames.
Tudo saiu conforme o planejado e eu entrei na melhor Universidade possível e deixei meu pai completamente orgulhoso. Tudo isso a um preço que, na época, eu julgava mínimo...
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E assim cheguei onde estou hoje.
Não agüento mais e precisei trazer esta verdade a tona, tomem isto como minha carta de suicídio, pois o único lugar que eu quero estar agora é naquelas férias no lago, junto com meus amigos...
Deixo meu adeus para minha esposa, Jeniffer, e meus dois filhos, Alex e Megan. Amo todos vocês.
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