Você Sempre Esteve Em Mim (parte 2)
28 Capítulo 28 - Sob as asas do ciúme...
Notas iniciais
Por muitos anos, Quinn manteve o costume de dormir de bruços. Era a única forma que a deixava completamente confortável. Mas as coisas definitivamente mudaram quando ela começou a namorar Rachel. Acordar com os cabelos negros da morena em seu rosto tinha virado rotina. E ela amava esta rotina... Rachel se agarrava a ela durante o sono, como se tivesse medo de acordar sozinha. Então dormir de bruços virou coisa do passado... Ela tinha desaprendido a dormir só. Precisava daquele calor único que só o corpo de Rachel era capaz de lhe dar. A perna excitante sobre as suas, movendo-se no meio da noite para se encaixar entre elas. A respiração tranquila batendo em seu pescoço... O braço acomodado sobre seu peito... Ela amava aquilo, assim como amava as manhãs na cozinha, a forma como Rachel aspirava o cheiro do café antes de levar a xícara à boca, como prendia os cabelos num coque despretensioso para comer melhor, como mantinha uma alimentação regrada e como só a beijava no canto dos lábios quando bacon ou presunto era sua escolha para o café da manhã. Ela amava o cheiro do banheiro após Rachel tomar banho, assim como o cheiro de seus cremes se espalhando pelo quarto. Amava a forma naturalmente distraída com que a morena cantarolava enquanto se vestia. E todos os dias, Quinn prestava atenção em tudo isso. Ela nunca havia tido uma rotina prazerosa, nunca havia sido feliz dia após dia. Com Rachel, ela era...
A consciência de que as coisas entre elas se fortaleciam cada vez mais, dava a Quinn uma segurança que ela pensou que demoraria mais para adquirir. Mas nos últimos tempos, elas tinham agido de forma passional, agredindo seus candidatos a rivais, e nada disso fez com que elas se desentendessem. Sabia que se tivesse agredido Finn no passado, ela e Rachel teriam protagonizado uma briga gigantesca. O mesmo serviria para a agressão da morena contra Jennifer. Elas estavam se mantendo firmes no propósito de se pertencerem e de se colocarem em primeiro lugar diante de tudo.
Pensando assim, Quinn continuava evitando qualquer possibilidade de se afastar da namorada. Procurou o Sr. Thomas para deixar claro que não queria mais ser chamada para nenhuma reunião sobre qualquer proposta que pudessem ter para ela. Que recusaria qualquer uma delas sem sequer ouvir, pedindo encarecidamente que ele a ajudasse a ficar em paz na universidade. Ela mesma ligou para o agente Cooper e agradeceu pelo interesse, mas explicou que a ideia de ir para o FBI estava muito fora de seus planos. Tinha eliminado esses dois itens de sua lista de afazeres importantes.
Pelos corredores de Columbia, tudo o que ela não queria era encontrar Jennifer. E com o passar dos dias, seu desejo se mostrava fortemente atendido, pois a garota não aparecia nas aulas em comum. Até Michael achava isso estranho. Quinn se desculpou várias vezes com o rapaz pela confusão gerada na boate, dizendo que aquela não tinha sido uma boa impressão para Lauren, mas ele fez questão de esclarecer que a namorada tinha adorado todo mundo e que eles achavam que Rachel tinha toda razão para agir da forma que agiu.
Em NYADA, Rachel ouvia rumores de que havia uma peça off-broadway sendo produzida no mais absoluto sigilo e que o produtor estava buscando os atores principais assistindo ao desempenho dos alunos de lá e de Juilliard. Quando Brittany ligou para ela, dizendo que só se falava nisso nos corredores de Juilliard, a morena ficou eufórica para tentar descobrir mais detalhes. Era sua chance de começar a se destacar de verdade em NY... Não precisou se esforçar muito para descobrir: Brody a procurou para dizer que ela tinha tudo para conquistar o papel principal:
R: Como você sabe que eu tenho tudo para ser a protagonista se você nem sabe qual é a peça?
B: Porque você tem tudo para ser qualquer protagonista! [disse-lhe com seu charmoso sorriso]
R: Esse é um elogio meio genérico. [provocou]
B: No seu caso, é um elogio verdadeiro... [piscou-lhe]
R: Você sabe como eu faço para descobrir quem é esse produtor e ficar na mira dele? [desconversou]
B: Hoje a aula será no auditório. Se ele passar por aqui, com certeza passará por lá. Dê tudo de si a todo o momento. Em algum instante ele verá você.
R: Tenho certeza de que não estão em busca só de dançarinos.
B: Então farei vocês cantarem também...
Do palco do auditório, Rachel parecia não enxergar ninguém. Era quase impossível saber se sua desenvoltura era resultado da possibilidade do aparecimento do tal produtor ou se era natural de seu talento. Quinn sabia... Sabia que era natural... A loira caminhava a passos curtos, devagar, com os olhos vidrados na namorada. Havia outros alunos, outros elementos no palco, mas ela não os enxergava. Ela só via os passos leves da morena e a voz acompanhando a canção. Como se estivesse num estado de hipnose, guiou-se naturalmente até uma das centenas de cadeiras, e sentou em uma das mais discretas, querendo passar despercebida. Permaneceria quieta até o fim da aula, para surpreender Rachel, mas algo lhe chamou a atenção. Havia algo diferente no professor. Era um rapaz bonito. Lindo, quer dizer... Rachel não havia mencionado isso e, naquele momento, Quinn se perguntava o porquê de tal omissão. Mas não era só pela beleza surpreendente do rapaz... A forma como ele olhava para sua garota a incomodou. Ele tinha vários outros alunos, muitas outras alunas, mas a forma como encarava a morena era diferente. Os passos dela eram seguidos por ele com um olhar cheio de desejo e Quinn percebia isso. Ela, melhor do que ninguém, sabe reconhecer um olhar de desejo sobre sua garota. E havia ainda mais a se observar: a forma como ele tocava na cintura de Rachel, com o pretexto de mostrar à classe o passo certo. Mas ele não precisava sorrir daquela forma, ele não precisava daquela proximidade, nem dizer nada ao ouvido dela. Nada disso parecia fundamental à dinâmica do grupo, à didática da aula, mas ele fez tudo isso... Rachel sorriu e Quinn queria silenciar o mundo inteiro para ter ouvido a razão daquele sorriso...
Um, dois, gira, salta... Um, dois, gira, salta... A loira acompanhou cada passo com olhos de lince e marcou em sua memória cada gesto suspeito daquele rapaz que ela sabia ser um perigo. Por um momento tentou analisar a sensação que ele lhe causava e se perguntou se não estava vendo coisa onde não existia por puro ciúme. Mas, novamente, a mão dele na cintura de Rachel e o olhar malandro de desejo sobre o corpo dela, fez o corpo de Quinn ferver de raiva. Por um momento, ele pegou uma aluna qualquer e mostrou como eram os passos certos. O jeito de conduzi-la na dança era completamente diferente. Não havia qualquer química entre eles e logo o professor a dispensou para voltar sua atenção à Rachel. Toda sua atenção... Em alguns momentos, a morena parecia não perceber isso, e Quinn se sentia aliviada, mas em outros, era difícil, até pra ela, identificar se Rachel não estava mesmo ciente de que ele a tratava diferente. Ele despertava o sorriso fácil dela, com passos de dança e “sabe-se lá o quê” dito em seu ouvido... Quinn respirou fundo e por um breve segundo se arrependeu por ter provocado a saída de Cassandra July...
Quem aquele cara pensava que era para olhar, tocar e tratar sua garota daquela forma sutilmente conquistadora? E pior: sendo professor dela! Mais uma vez algo foi dito ao pé do ouvido e, mais uma vez, Rachel sorriu. Quinn respirou fundo e sentiu suas mãos tremerem. A consciência de que seus ciúmes não se restringem a Finn a incomodou. Era óbvio que ele não seria seu único calo. O mundo está cheio de muitos outros homens e mulheres inconvenientes. É claro que ela não seria a única a perceber o quanto Rachel é linda e gostosa. Restava saber o que a consciência de que era desejava por outras pessoas causava na morena. Mais uma coisa dita ao ouvido, o sorriso de Rachel e ela não aguentou. Quinn saiu do auditório, tão discreta quanto entrou... Para quem olhasse de fora, era mesmo estranho ver a quantidade de vezes que Brody falava com Rachel e a forma como falava. Era difícil deduzir que em todas as vezes ele só dizia “Empenhe-se! Pense na peça! Pense no Tony! Você é a melhor daqui!” A morena ria, sentindo-se incentivada, apoiada. Era divertido e gratificante ter outro professor que acreditava em seu potencial, principalmente depois de ter ouvido os absurdos de Cassandra. Naquela aula, ela esqueceu completamente das vezes em que ele se mostrou interessado nela.
Brody realmente acreditava no potencial de Rachel e sabia que ela precisava ser estimulada na aula de dança, mas ele realmente a desejava e o que Quinn havia enxergado era real. A aliança na mão da morena o lembrava de que ela era comprometida, mas ele pensava que talvez pudesse ter uma chance. Sabia que não poderia dar em cima dela descaradamente em NYADA. Já havia feito isso e não deu resultado. Ele precisava ganhar a confiança dela e parecia empenhado nisso. Seus planos de conquista precisavam ser bem estudados e seus passos calculados. Mas ele tinha certeza de que poderia tê-la de alguma forma...
Do lado de fora de NYADA, Quinn observava uma cafeteria próxima. Sua ideia inicial era esperar Rachel com um copo de café. Desistiu quando decidiu assistir à aula dela. Mas, de volta ao carro, pensou se deveria pôr em prática o primeiro plano. Não estava mais tão animada a fazer isso, mas fez. Dirigiu-se à cafeteria e pediu o maior copo de café que havia, forte e adoçado como Rachel gostava. Apesar do frio, permaneceu encostada no carro, observando a porta de saída de NYADA, contando os segundos para a saída da morena. Sua mente vagava para dentro do prédio, pensando na razão daquela demora, perguntando-se se ela estava sozinha, com os colegas ou com ele. Levou a mão livre ao bolso do casaco e a fechou em punho. A força empregada era tamanha que não seria surpresa se suas unhas cravassem em sua pele. Por sorte, suas unhas curtas não tiveram força suficiente para isso... Seu corpo enrijeceu quando viu Rachel sozinha, saindo do prédio, distraída. A roupa diferente explicou em parte a demora. Ela precisava de tempo para se vestir, afinal. Mas e se ele a tivesse visto se trocando? Quinn balançou a cabeça freneticamente para os lados, tentando expulsar esse pensamento. Sabia que tinha ido longe demais...
Quando Rachel ergueu o olhar e avistou a namorada encostada no carro com o copo de café, seu sorriso surgiu imediatamente. Um sorriso tão lindo e tão quente que era capaz de dissipar todo o frio daquele dia... Por um momento, Quinn pensou que, talvez, não houvesse razão para ciúmes... A morena apressou os passos e logo alcançou a namorada. Seus braços logo rodearam o pescoço da loira e seus corpos se encaixaram perfeitamente. Como sempre! Se não estivesse encostada, Quinn teria facilmente se desequilibrado e derrubado o copo de café, tamanha a força com que Rachel a abraçou:
R: Que bom que você está aqui! [murmurou em seu pescoço]
Quinn só apertou o abraço, sem nada dizer...
R: Por que você não me disse que vinha?
Q: Quis fazer surpresa...
Rachel se soltou do abraço e a olhou carinhosa:
R: E fez! [sorriu imensamente] E como fez! Que surpresa maravilhosa!
Quinn nem teve tempo de dizer mais nada, pois Rachel a beijou apaixonadamente. A morena a puxava pelo casaco e praticamente se afundava em seu corpo. Rachel estava envolvida por inteiro por Quinn... Elas pareciam uma só e a loira nem tinha percebido que a havia envolvido com seu grande casaco... Só conseguia registrar que a língua de Rachel deslizava sobre a sua e que seu lábio inferior era sugado com extremo carinho...
R: E ainda me trouxe café... [sussurrou sobre os lábios da loira] O quanto mais é possível amar você?
Quinn estremeceu como se fosse a primeira vez que Rachel falava de amor... O frio que fazia não permitiu que a morena identificasse isso... Ainda entorpecida pela recepção da namorada, Quinn a guiou até o interior do carro e deu a partida. Durante o percurso, a loira manteve-se em silêncio, enquanto Rachel degustava o café como se fosse a maior perfeição do mundo. Quando o líquido tinha chegado a menos da metade do copo, concluiu que já não precisava das duas mãos para segurá-lo. Levou a mão esquerda ao pescoço de Quinn, acariciando o local. A loira a olhou rapidamente e sorriu suavemente. O olhar de Rachel era apaixonado, de pura devoção, um carinho desenfreado de quem não fazia ideia do que se passava na cabeça da namorada.
R: Como foi seu dia?
Q: Foi tranquilo...
R: Não, Quinn! Eu não quero saber isso. Eu quero que você me conte como foi.
Q: Por quê?
R: Porque eu quero ouvir sua voz...
Então a loira contou cada passo de todo seu dia, até os mais irrelevantes, porque Rachel exigia ouvir sua voz por todo o caminho. Claro que a parte em que ela assistiu à aula de dança dela foi omitida. Estranhamente, Quinn não queria falar sobre aquilo naquele momento. Estava incomodada, mas tentaria disfarçar o máximo...
No apartamento, Rachel correu para o banho e Quinn evitou ir com ela, usando a desculpa de que iria preparar algo para comerem. A morena não percebeu que havia algo errado, pois a loira se apressou a buscar tudo o que podia na geladeira. De “pensativa sem explicação óbvia”, a loira passaria a impressão de “concentrada no jantar”. Rachel não demorou a voltar à cozinha e surpreender Quinn um molhado beijo na nuca:
R: Teria sido mais divertido ter tomado banho com você...
Q: Posso apostar que sim... [tentou responder naturalmente, sem demonstrar haver algum problema, mas Rachel percebeu algo diferente em sua voz]
R: Está tudo bem? [ela conhecia Quinn como ninguém]
Q: Só uma pequena dor de cabeça... [mentiu]
Rachel deu um beijo demorado, quase infantil, na lateral da cabeça dela e sussurrou em seu ouvido:
R: Vai passar logo, meu amor! Meu beijo é mágico...
A gargalhada que Quinn soltou fez Rachel sorrir também. A loira se virou e a puxou pela cintura, encarando-a firmemente. Olhava o rosto da morena com desejo e carinho... Cada pedaço, cada traço... Ela conhecia cada um deles e fazia uma prece silenciosa para sempre serem seus... As mãos de Rachel em seu rosto a tiraram do transe em que se encontrava:
R: Olha nos meus olhos... [Quinn obedeceu] Está mesmo tudo bem?
Sem responder, a loira a beijou. O beijo calmo lhe devolvia um pouco da tranquilidade perdida naquele dia. No beijo e na forma como Quinn a segurava, Rachel percebeu que havia algo errado, mas não pressionaria. Ela descobriria de qualquer jeito...
Durante todo o tempo, Quinn mantinha a imagem de Brody e Rachel em sua mente e só a voz da morena a fazia esquecer por um momento. Enquanto tomava banho, tomou o cuidado de não demorar demais e logo estava na cama, pronta pra dormir. Rachel a havia esperado acordada, aninhando-se em seus braços assim que a loira deitou. Mais uma vez, ficava claro que dormir de bruços nunca mais... Antes que iniciassem uma conversa sobre qualquer coisa, o celular de Quinn tocou. Rachel ergueu a cabeça para olhá-la, estranhando uma ligação naquela hora. A loira esticou o braço e pegou o telefone na mesinha ao lado da cama. Sua expressão se fechou, o que preocupou a morena. Não deu tempo de perguntar quem era, pois a loira logo se sentou e iniciou a conversa. Rachel se preocupou, pois a expressão de Quinn era fria e ela nada dizia além de concordar com o que era dito do outro lado da linha. Tão logo a ligação foi finalizada, a morena não precisou perguntar quem e sobre o que era...
Q: Era o Dr. McCarty... [disse ainda olhando para o celular]
R: O advogado? Aconteceu alguma coisa? [começou a tremer sem perceber, sentando-se também]
Quinn desviou o olhar para ela com o máximo de calma que conseguia, tentando parecer tranquila, quando não estava nem um pouco...
Q: Marcaram o julgamento do Russel...
[CONTINUA...]
Notas finais
Será que Brody causará algum problema? E como será que Rachel reagirá ao saber que o julgamento de Russel já tem data marcada?
Comentem! ;-)
Beijos!
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