Você Sempre Esteve Em Mim
44 Capítulo 44 - Prece...
Notas iniciais
Quinn estava sentada, encarando as portas azuis à espera de que se abrissem com boas notícias. Suas mãos apertavam seus joelhos, buscando algum alívio que não vinha. Britt estava a seu lado e Kurt logo em seguida. Algumas cadeiras depois, estavam Hiram e Leroy, consolando-se mutuamente. Santana já havia feito sua doação e se juntou a eles, abaixando-se em frente à Quinn, forçando-a a olhar para ela.
S: Q? Q, olha pra mim... [disse baixinho]
Q: Ela vai acordar... Não vai, S?
S: Vai sim! Agora ela terá sangue de Lima Heights Adjacent correndo em suas veias... Não tem como ela não acordar! [disse, tentando parecer divertida, mesmo que estivesse tão amedrontada quanto todos ali]
S: Vamos ao banheiro para lavar suas mãos, seus braços e seu rosto?
B: Eu tentei levá-la, mas ela não quis, San...
S: Tudo bem, B! Eu a levo. Você pode ir lá em casa e pegar alguma coisa pra Q vestir? Ela precisa tirar essa roupa.
B: Claro! Eu vou...
K: Eu vou com você, Britt. Eu não aguento ficar aqui! [disse chorando]
Os dois saíram em direção ao apartamento de Santana e Quinn. A loira não havia se movido, então Santana sentou-se ao seu lado, esperando que a amiga estivesse preparada para sair dali.
Q: Obrigada... Por doar... [disse baixinho com a voz falha]
S: Não tem que agradecer...
Q: A culpa é minha... [disse, com o choro voltando a ficar forte]
S: Não fala bobagem, Quinn! Foi um acidente e você nem estava lá! [disse irritada]
Q: Eu não devia ter ido pra casa. Eu devia ter dormido com ela... Assim ela não teria acordado tão cedo e não teria saído de casa... [o choro ficava ainda mais forte] Estávamos dormindo juntas todos os dias e eu quebrei a ordem do universo. EU quebrei a ordem do nosso universo. [dizia olhando pra Santana de uma forma que mostrava que realmente acreditava no que dizia]
S: Oh meu Deus, Q! Você não teve culpa! Pelo amor de Deus, tira isso da cabeça! [disse enquanto segurava em suas mãos sujas de sangue] Vem! Não quero saber se você quer vir, mas você vai se limpar...
Santana a levou ao banheiro mais próximo e a encostou na pia. Pegou uma quantidade grande de papel e molhou, começando a limpar Quinn pelo rosto. Havia sangue perto dos lábios da loira, mas Santana não sabia se tinha sido da respiração boca-a-boca ou se a amiga tinha levado a mão à região. Novamente, Quinn estava apática, sem expressão. A latina concluiu que seria assim por um bom tempo: a loira alternando entre o choque e explosão de emoções. Santana prosseguiu na limpeza: testa, pescoço, braços e mãos. Percebeu que Quinn chorava silenciosamente enquanto via o sangue desaparecendo, como se Rachel estivesse nela, indo embora aos poucos...
S: Q, você precisa acreditar que vai dar tudo certo...
Q: Eu preciso voltar pra lá! [disse enquanto se movia em direção à porta]
Santana a seguiu. Nada havia mudado. Nenhuma notícia nova. Nenhuma nova esperança. Algum tempo depois, Britt e Kurt estavam de volta, mas Quinn se recusou a sair dali para se trocar. A latina não insistiu, sabendo que mais cedo ou mais tarde, ela trocaria.
As portas se abriram e dois médicos a atravessaram. Quinn levantou a cabeça, enquanto Hiram e Leroy se levantaram, indo em direção a eles.
Dr. Lawrence: Vocês são parentes de Rachel Berry?
L: Sim. Somos os pais! [disse preocupado]
Dr. Lawrence: Sou John Lawrence, cirurgião responsável por sua filha.
L: Por favor, diga como ela está!
Quinn não se movia. Seus olhos estavam parados no rosto do médico, tentando decifrar a expressão que ele trazia. Estava apavorada, temendo que as palavras ditas por ele acabassem de vez com qualquer esperança...
Dr. Lawrence: Ela teve três costelas quebradas, uma torção no braço esquerdo, cortes profundos e uma grande perda de sangue. Tudo isso foi facilmente resolvido por nossa equipe. Nosso melhor cirurgião plástico cuidou das suturas dos cortes para que não deixem marcas visíveis.
L: Então ela está bem?
Dr. Lawrence: Sr. Berry, Rachel sofreu um sério trauma na cabeça. Ela tem uma hemorragia sub-dural grande que não foi possível conter na cirurgia, pois a perdemos duas vezes. Ela teve duas novas paradas cardíacas e demorou para voltar da segunda. Não podemos arriscar mais. Ela não está forte o suficiente para aguentar a cirurgia. Então ela está em coma induzido, para que possamos controlar melhor e esperar que a hemorragia não cresça.
H: Vocês vão simplesmente esperar? [perguntou nervoso]
Dr. Lawrence: É o que devemos fazer no momento.
L: E sequelas, Dr. Vocês já sabem se há alguma sequela?
Dr. Lawrence: Não temos como arriscar nada agora. Mas a boa notícia é que ela não teve nenhum dano na coluna, o que afasta sequelas físicas mais graves. Mas quanto às neurológicas, ainda não podemos afirmar nada. O cérebro de Rachel ficou sem receber oxigênio por bastante tempo na mesa de cirurgia e não sabemos se o mesmo ocorreu na parada que sofreu na ambulância e na do local do acidente.
H: Pode nunca mais acordar? Ela pode perder a memória?
Dr. Lawrence: Não podemos afirmar nenhuma dessas coisas com 100% de certeza ainda. Mas não contamos com a possibilidade de perda de memória. A localização da hemorragia não nos leva a acreditar que ela poderá sofrer alguma perda de memória. Mas, infelizmente, não podemos afastar perda cognitiva, então não podemos garantir que ela não terá alguma sequela grave que interfira em seu aprendizado ou em sua capacidade motora. Nossa preocupação, Senhor, vai além das sequelas. Nos preocupamos em mantê-la viva, pois o maior risco que ela ainda corre é o de morte.
H: Por favor, não deixe nossa estrelinha morrer! Por favor! [chorava desesperado, enquanto Leroy tentava manter a calma]
L: Nós podemos vê-la?
Dr. Lawrence: Ela está na UTI e as visitas são muito restritas. Mas podemos permitir que a vejam através do vidro.
Hiram correu em direção a UTI e Leroy foi atrás. Quinn continuava sentada, sem ação alguma, tentando absorver todas aquelas informações que o médico disse. De repente, levantou-se e caminhou na mesma direção que Hiram e Leroy, quando um enfermeiro a impediu de passar:
Enfermeiro: Desculpe, mas você não pode passar. Só parentes podem entrar.
S: Ela é namorada dela. [disse, colocando-se ao lado de Quinn]
Enfermeiro: Desculpe, mas pela norma do hospital, namorados não são considerados parentes.
S: Seu idiota! Ela é a pessoa mais próxima dela e...
Q: Calma, San... Ele só está fazendo o trabalho dele. [disse passivamente, com uma calma fria, de quem não tinha forças para mais nada]
Quinn virou-se e começou a caminhar aparentemente sem rumo, olhando as placas indicativas pelos corredores. Santana começou a acompanhá-la, quando ela parou e se virou para a amiga:
Q: San, eu queria ficar um pouco sozinha... [disse baixo, de forma quase inaudível]
S: Não posso deixar você sozinha, Quinn.
Q: Eu preciso ir à capela e eu quero ir sozinha...
S: Tudo bem! Promete que não vai sair de lá para ir a outro lugar?
Quinn a olhou nos olhos e, chorando silenciosamente, disse:
Q: Eu não tenho outro lugar pra ir, San... Ela é o meu lugar...
Santana estava devastada por dentro. Ver sua amiga sofrendo dessa forma era algo que ela não queria. A latina achava que Quinn já havia sofrido demais na vida e que ela não merecia passar por isso.
A loira seguiu em direção à capela, enquanto Santana voltava para ficar com Britt e Kurt à espera de mais notícias.
Quinn entrou na capela e ficou aliviada ao perceber que não havia mais ninguém lá. Precisava de um momento a sós, onde pudesse conversar em paz com Deus. Benzeu-se e escolheu uma das fileiras do meio. Respirou fundo e se ajoelhou. Juntou as mãos com força e esperou... Esperou que seus pensamentos se organizassem, esperou que as palavras lhe voltassem... Esperou...
Leroy e Hiram voltaram a encontrar os amigos de Rachel e estranharam a ausência de Quinn.
H: Onde está Quinn? [perguntou choroso]
S: Está na capela.
L: Sozinha?
S: Ela não queria companhia.
H: Ela não quis entrar para ver a Rach?
S: Ela tentou, mas o enfermeiro não deixou porque ela não é parente legal.
H: Que absurdo!
Leroy sentiu um aperto no peito ao ouvir que Quinn havia sido privada de ver Rachel, imaginando o quão insignificante deve ter se sentido ao ouvir que não podia entrar, ao ver sua relação com Rachel ser reduzida a nada por mero formalismo.
L: Eu vou à capela.
S: Ela quer ficar sozinha.
L: Eu não vou atrapalhá-la.
Lá chegando, Leroy manteve distância, encostando-se numa das pilastras, para não fazer barulho e incomodar Quinn. O vazio da capela permitia que ele pudesse ouvir tudo o que ela falasse, mas a loira continuava em silêncio, buscando forças para falar alguma coisa. Enfim, Quinn conseguiu respirar e organizar seus pensamentos:
Q: SENHOR, eu sei que não sou uma filha perfeita. Sei que já pequei bastante, sei que o decepcionei... Mas eu imploro que não tire a Rachel de mim! [dizia com dificuldade enquanto chorava] Eu imploro! Eu imploro... Ela, mais do que ninguém, merece uma vida longa, porque ela ainda tem muito o que construir, muito o que brilhar. Ela é uma de suas obras mais perfeitas, Senhor! Não a desperdice levando-a embora. Por favor! Por favor! Por favor! [chorava copiosamente] Quando eu descubro o que é o amor, isso acontece... Ela é a melhor coisa que eu poderia ter e já não vejo minha vida sem ela... O Senhor sabe disso, pois me conhece melhor do que ninguém. O Senhor que enxerga minha alma, sabe que eu já não vivo sem ela. Por favor, não a leve de mim! Eu sei que pareço egoísta, que estou apenas pensando em mim, em não viver sem ela, mas não é isso. Ela tem muito o que viver. Ela vai ser uma estrela aqui... Ela tem muito o que viver. Por favor, não a leve para perto de Ti! Não a leve para perto de Ti...
Quinn chorava compulsivamente, apertando as mãos e os olhos com força. Sentia todo o peso do mundo em seus joelhos. Respirou fundo, tentando conter os soluços e voltou a rezar:
Q: Me leve no lugar dela, Senhor! Se alguém tiver que ir para Teu reino, que seja eu. Me leve no lugar dela, pois ela tem muito mais a oferecer aqui! Ela é uma pessoa muito melhor do que eu sou e eu jamais saberia viver num mundo onde ela não existisse. Então me leve, por favor me leve e a deixe aqui! Me leve! Me leve, Senhor! Me leve... [chorava intensamente]
Leroy não conseguiu permanecer afastado e se aproximou de Quinn com o coração partido, sentou-se ao seu lado e pôs a mão sobre seu ombro, assustando a loira.
L: Desculpe! Eu não quis assustá-la, nem atrapalhá-la...
Quinn não disse nada. Apenas se levantou e se sentou, tentando enxugar as lágrimas que teimavam em continuar caindo.
L: Você deveria ir vê-la. [disse com a voz calma, tentando não piorar o estado de Quinn]
Q: Eles não me deixam vê-la... porque eu não sou da família... [disse baixinho, com a voz embargada de dor]
L: Você vai entrar! Hoje, ninguém é mais da família do que você! Nós três somos a família dela e você vai entrar lá! [disse chorando. Estava sendo completamente sincero]
Quinn não disse nada. Apenas o olhou profundamente agradecida e o seguiu. Antes de abandonar a capela, virou-se para o altar e benzeu-se novamente, fazendo uma última prece silenciosa.
Leroy disse ao enfermeiro que avisasse a todos que Quinn teria acesso livre à Rachel sempre que fosse possível vê-la. E que se alguém a impedisse, ele iria processar o hospital.
Enquanto Quinn ia em direção à UTI, Leroy sentou-se ao lado de Hiram para conversar:
L: As coisas que ouvi a Quinn dizendo na capela, me partiram o coração...
H: O que ela disse?
L: Ela rezava desesperada, pedindo a Deus que não levasse nossa estrelinha. Mas o que mais me deixou chocado, foi ouvi-la dizendo que queria ir no lugar dela. Que Deus a levasse no lugar da Rach... [contou chorando]
H: Oh meu Deus! Ela disse isso?
L: Sim...
H: Ela a ama mesmo!
L: Já não tenho nenhuma dúvida quanto a isso...
Quinn, finalmente, chegou à UTI. Não podia entrar, mas podia ver Rachel através do vidro. Seu coração começou a bater com violência em seu peito ao ver seu amor tão indefeso. A quantidade de aparelhos que cercavam a morena, o tubo colocado em sua garganta, as ataduras dos cortes... Cada detalhe fazia com que Quinn reforçasse sua prece: Me leve no lugar dela! Por favor, Senhor, me leve no lugar dela!
A loira começou a lembrar do cheiro de Rachel, da voz, do sorriso, do calor de seu corpo e se forçou a lembrar da última coisa que conversaram. Da última coisa que ouviu Rachel dizer ao telefone: "Eu te amo mais". Levantou a mão direita e a colocou sobre o vidro, como se assim, conseguisse tocar a morena. Encontrando um ar que já não sabia que tinha em seus pulmões, pôs-se a falar, baixinho, quase inaudível, forçando-se a acreditar que, de alguma forma, Rachel poderia ouvi-la:
Q: Você se equivocou, meu amor... Sou eu que te amo mais...
Notas finais
E, mais uma vez, eu peço: confiem em mim! ;)
Obrigada por acompanharem e, mais do que em todos os capítulos anteriores, espero comentários.
Beijos!
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