Você Pode Ouvir Meu Coração?
70 Capítulo 70_ Parte I
Notas iniciais
Meus lábios estão nos dela agora e é como se todo esse tempo em que ficamos separados não tivesse existido, porque toda a dor que senti, toda a mágoa, está se desfazendo dentro de mim.
E eu só quero aprofundar ainda mais esse beijo, sentir esse gosto que procurei sentir em tantas outras bocas, porque eu percebo a falta que esses lábios me fizeram e que eu nunca vou conseguir encontrar outro beijo com esse sabor tão doce.
Posso dizer que me sinto vivo outra vez, porque é como se eu tivesse anestesiado todo esse tempo e agora todo esse peso enorme que eu vinha carregando, simplesmente desapareceu.
Enquanto eu a beijo, sinto uma lágrima descer pelos seus olhos e juro que agora o que eu menos quero no mundo é magoa-la outra vez. Então eu me afasto de sua boca devagar, ela está ofegante. Eu olho pra ela que também abre os olhos e ela olha pra mim e mais lágrimas caem dos seus olhos.
Eu não entendo o que tá acontecendo. Ela me olha nos olhos, em seguida coloca a mão na boca e começa a chorar ainda mais, eu me afasto dela e juro que nunca me senti tão confuso.
Ela passa por mim, vai em direção ao quarto e fecha a porta, me deixando ali parado tentando entender o que foi que aconteceu.
...
Eu estou parado encostado do lado de fora na porta que ela matem fechada.
Depois de muita hesitação, eu bato algumas vezes na porta e quase que um sussurro eu digo:
—_Emilly?
Mas assim que ela me ouve, ela parece soluçar ainda mais. Eu respiro fundo e digo:
—_Eu fiz alguma coisa errada? Por favor vamos conversar, eu...
Ouço ela apenas dizer:
—_Harry, esquece o que aconteceu e...apenas volte a dormir. Eu vou fazer isso.
Eu escuto aquilo e fico estático. Como ela pode supôr que eu vá conseguir dormir depois de tudo o que aconteceu aqui?
Eu digo mais uma vez:
—_Precisamos conversar!
—_Não! Não precisamos, vai dormir, sério,só faz isso!
Eu sei que não vou conseguir fazer isso nem que eu quisesse, então eu digo:
—_Eu não vou sair daqui! Eu vou ficar nessa porta a noite toda, até que você resolva sair e falar comigo o que aconteceu!
—_Eu não vou sair e você não vai ficar batendo nessa porta a noite toda, eu preciso dormir!
—_Eu não disse que vou ficar batendo na porta, eu disse que vou ficar aqui parado até você resolver sair!
—_Você não vai, Harry! Você precisa dormir!
Eu sei que não é hora pra isso, mas ouvir ela dizer meu nome depois de tanto tempo assim, me faz ficar com um sorriso meio bobo no rosto, porque eu gosto quando ela diz meu nome, soa diferente,mais demorado que o normal e é de uma forma única. Mas eu não deixo transparecer que eu tô sorrindo quando digo:
—_Quer pagar pra ver?
Ouço apenas um silêncio. Um tempo passa e eu começo a pensar que ela não vai mesmo sair pra falar comigo. Eu me viro e fico um tempo com a cabeça encostada na porta. Eu fecho meus olhos, como essa mulher pode me deixar tão frustrado sempre?
Então eu ouço um barulho e percebo que ela está destrancando a porta, eu me afasto alguns centímetros dali e a vejo erguer os lhos que estão um pouco vermelhos e me dizer:
—_Você é bem teimoso.
Eu acabo rindo,mas meu sorriso desaparece quando o dela não aparece em seu rosto. Ouço ela respirar fundo.
Ela então diz:
—_Sobre o quê você quer conversar?
Eu respondo:
—_Eu só quero saber o que aconteceu ali?
Eu aponto para onde estávamos quando nos beijamos minutos atrás.
Ela apenas dá alguns passos, ela não está olhando pra mim, ela olha pra algum lugar qualquer que não seja em minha direção. Ela respira fundo outra vez e eu sei que não vou gostar do que ela vai me dizer.
Ela então olha pra mim, ela não parece tão ansiosa quanto eu, ela apenas tem um olhar triste.
Ela então começa:
—_Harry,eu não quero passar por aquilo tudo outra vez.
De alguma forma eu sabia que não ia gostar do que ela tinha pra me dizer,mas ao ouvir isso eu me dou conta de que eu realmente tinha esperança de que ela tivesse outra explicação, que ela pedisse um tempo, que ela ia pensar no que aconteceu e amanhã tudo ficaria bem,ou sei lá o que as garotas fazem quando estão confusas.
Ela interrompe meus pensamentos quando continua:
—_Eu saí daquele jeito, porque já sei como isso tudo vai terminar, nós sabemos e eu juro que não quero passar por tudo de novo.
Eu apenas digo:
—_Você não pode saber o que vai acontecer e...
Ela apenas me olha com descrença enquanto diz:
—_Eu sei que o que todo mundo quer, é que conversemos e que nos tornemos amigos. Eu não vou pedir isso pra você, porque eu sei que isso é dificil e eu digo porque eu também sei que é. Mas estamos tendo essa conversa aqui e eu só te peço que tudo fique como está, vamos esquecer que aquilo aconteceu, vai ser melhor pra nós dois.
Eu tô meio sem palavras agora. Ela se referiu ao nosso beijo como aquilo? Bem talvez não tenha tido a mesma importância pra ela, que teve pra mim.
Eu apenas concordo, porque sei que não vai adiantar insistir com ela, ela parece decidida quando diz isso tudo. E eu fico aqui parado, enquanto ela me dá um sorriso sem graça, da mesma forma que eu tô fazendo e ela faz seu caminho de volta para o seu quarto me deixando aqui sozinho.
...
O problema é que agora que eu a beijei eu não consigo parar de pensar nisso. Eu sei que ela não ficou indiferente ao que aconteceu, ela só não quer que fiquemos juntos outra vez, porque de alguma maneira ela acha que tudo vai dar errado mais uma vez. Mal sabe ela que eu faria tudo diferente dessa vez,se ela quisesse ficar comigo outra vez.
E eu vou fazer de tudo para ela querer tentar mais uma vez. Eu tenho até amanhã a tarde para convencê-la de que podemos ficar juntos outra vez. Essa é minha última chance e eu não vou desperdiçá-la.
...
Eu acordo e ela está sentada no outro sofá. Ela tem um pequeno sorriso no rosto e me diz:
—_Bom dia.
Eu apenas sorrio de volta. Pelo menos agora ela saiu daquele quarto e está falando comigo.
Eu me olho no espelho do banheiro e sinto que talvez eu possa mesmo convencer ela do contrário, que nós temos tudo pra ficar juntos mais uma vez, que dessa vez eu não vou fazê-la sofrer.
...
—_Eu preparei o café da manhã!
Eu queria vê-la sorrir como se isso não fosse errado,mas ela não está completamente a vontade com isso. Eu sei que ela disse que podemos tentar ser amigos, ou pelo menos nos falar pra que todo mundo fique feliz,mas não é isso que eu quero.
Ela está de pé perto da pia pegando umas xícaras que estão ali perto e eu pergunto:
—_Onde tem copo?
Ela aponta para o armário que fica um pouco acima de onde ela se encontra. Eu vou até lá e ergo minha mão para pegar o copo. Ao fazer isso, nós ficamos bem perto um do outro e eu gostaria muito de saber que o corpo dela reage da mesma forma como o meu está reagindo agora que me dei conta que estou bem próximo dela e em algum ponto desse movimento nossos corpos se tocam, mesmo que só tenha sido um contato rápido.
Talvez sim, porque ela olha pra mim, enquanto volto com o copo em minha mão e ficamos mantendo um contato com os olhos mesmo que por um breve segundo, porque ela acaba de sair de perto de mim e vai se sentar na cadeira.
Eu respiro fundo. Vai ser meio difícil de convencê-la.
Eu quero ir até ela e segurar seu rosto e beijá-la outra vez como ontem á noite e já tive essa vontade várias vezes depois que nos sentamos pra tomar café da manhã.
Eu respiro fundo, eu sei que ela percebe isso,mas não comenta nada. Eu gosto de saber que minha presença afeta ela da mesma forma que a dela me afeta. Eu só queria que ela deixasse de ter tanto medo de tentar, eu vejo isso em seus olhos,mas eu não posso simplesmente dizer isso, eu quero que ela também sinta espontaneamente que pode dar certo, da mesma forma que eu sinto.
...
Estamos vendo TV. Não nos falamos muito depois de terminar o café. Ela sempre desvia o olhar quando percebo que ela está olhando na minha direção. Depois de um tempo, eu me levanto e vou até minha mala ali encostada, pego uma camiseta, ela me observa,mas não me pergunta nada.
Eu volto do banheiro e ela me olha de cima a baixo e pergunta:
—_Você vai correr?
Eu apenas digo:
—_Eu tenho que fazer alguma coisa ao invés de apenas ficar aqui e pensar nas várias formas que posso agarrar você!
Ela não esperava ouvir isso e eu gosto da forma como ela reage. Eu apenas sorrio e pisco pra ela que fica lá parada me olhando sair pela porta da frente.
No tempo em que estou correndo, eu só consigo sorrir e pensar que eu ainda tenho chance de fazer ela mudar de ideia.
...
Eu chego e tomo um banho rápido. Ela está na cozinha, ela gosta de cozinhar e eu gosto que ela goste disso.
Ela não quis trocar muitas palavras assim que cheguei, acho que ela não quer me encarar depois do que eu lhe disse antes de sair. Eu só consigo achar isso engraçado e mais um ponto ao meu favor.
Eu saio do banheiro e ela está sentada no sofá da sala. Eu vou até lá e me sento no meu sofá que também é minha cama. Ela me encara por um tempo e eu descubro que é porque eu estou sem camisa, foi meio que apenas coincidência, mas eu queria ter feito isso de propósito.
Ela apenas me diz depois de um tempo:
—_Dá pra você vestir uma camisa?
Eu acho isso engraçado,mas mordo meus lábios pra não rir, porque ela parece séria e é como se eu visse uma súplica em seus olhos quando ela pede isso. E eu gosto de ver isso.
Eu me viro pra ela e digo:
—_Por quê? Não tem nada aqui que você já não tenha visto!
Ela fica instantaneamente vermelha e Deus, como eu gosto de vê-la assim.
Ela se levanta e vai em direção ao seu quarto. Eu acabo rindo sozinho.
...
Algum tempo depois ela sai do quarto, acho que ela também está com fome, assim como eu.
Mas ela sai do quarto e vem até mim, fica bem perto de onde estou, eu fico de pé e ela diz:
—_Eu sei o que você tá tentando fazer!
Eu não digo nada, porque isso é divertido e me pega de surpresa ao mesmo tempo.
Ela continua:
—_E eu não vou cair nessa!
Eu levanto as mãos no ar e digo:
—_Eu não sei do que você tá falando!
Ela me olha e tenta parecer irritada,mas mal sabe ela que ela está mais pra graciosa do que irritada,mas eu não digo.
Ela se vira e vai em direção a cozinha dizendo:
—_Eu tô morrendo de fome!
Eu apenas a sigo sem dizer nada,mas por dentro, eu já estou satisfeito com a reação dela.
...
Terminamos o almoço e voltamos pra sala, ela vai no quarto e busca o laptop, isso é uma deixa pra me dizer que não iremos conversar tanto assim. Eu não me importo no entanto, só por ela estar aqui na sala comigo, já me faz sentir bem melhor do que antes.
Ligamos a TV,mas nenhum de nós está prestando atenção a programação. Ela está usando internet e que estou procurando alguma coisa interessante no meu celular. Não vou dizer que não fico olhando pra ela quando sei que ela não tá vendo, porque seria muita hipocrisia de minha parte mentir sobre isso.
O telefone dela toca, ela atende, eu apenas observo de longe fingindo uma falta de interesse que é óbvio que eu não tenho. Eu estou totalmente interessado sobre a conversa que ela tá tendo,mas não deixo isso ficar transparente.
Ela olha pra mim e sei na hora que esse telefonema tem a ver comigo,mas não pergunto.
Ela diz:
—_Tá sim Bill.
Bill? O que será que ele quer agora?
Pensar nele, me lembra que daqui a poucas horas ele vem me buscar e eu ainda não consegui o que eu pretendia, que era fazer a Emilly voltar pra mim.
Eles conversam e ela deixa pouca coisa transparecer sobre o assunto. Droga! eu preciso saber mais. Mas não vou dar a ela o gosto de saber como eu tô ansioso pra saber sobre o que eles falam tanto.
Ela termina o telefonema suspira fundo e diz:
—_Bill não vai poder te buscar hoje!
Nunca pensei que essas se tornariam minhas palavras favoritas no mundo. Eu pedi tanto pra ir embora daqui e agora que sei que Bill não vai poder me buscar é estranho como eu prefiro ainda mais que ele realmente faça isso.
Eu finjo que isso não me afeta nem pra bem,nem pra mal e digo:
—_Por quê?
Ela me olha meio confusa com a indiferença em minha pergunta e diz:
—_Tá chovendo muito em Londres.
Ela parece meio desapontada quando diz isso, eu pelo contrário. Mas então eu me dou conta de uma coisa.
—_Você vai embora hoje?
Ela responde com o mesmo desapontamento na voz:
—_Eu tinha planos de ir amanhã de manhã.
—_Que ótimo!
Ela me olha surpresa com essa minha euforia que eu logo disfarço:
—_Pelo menos não vou ficar aqui sozinho.
Ela sorri meio sem graça.
Eu agradeço mentalmente ao Bill por isso. Acho que tô começando a acreditar naquele tal destino que a Julliet vive tanto pregando a respeito.
Bill me manda uma mensagem perguntando se tá tudo ok ele não poder me buscar e eu apenas respondo com indiferença nas palavras que sim, que dá pra aguentar essa, ele responde como se já suspeitasse que o plano dele serviu pra alguma coisa. Eu não ligo, no entanto.
...
Depois do telefonema continuamos no nosso : "estamos juntos no mesmo ambiente,mas não precisamos trocar muitas palavras", que a Emilly criou. Eu até tento mas, poucas são as respostas dela.
Ela se levanta e vai em direção a cozinha, ela segue até a pia e eu me levanto e vou até dela e digo:
—_Não é justo você preparar o almoço e eu não ajudar em nada.
Ela me olha surpresa e eu continuo:
—_Deixa comigo! Eu lavo a louça.
Ela então se afasta devagar e fica ali por um tempo me olhando sem dizer nada. Eu olho pra ela e sorrio, ela me olha de volta, em seguida cruza os braços e vai em direção ao seu quarto outra vez.
O que eu tenho que fazer pra essa garota parar com isso? Será que ela tem tanto medo de sofrer assim? Será que eu a fiz sofrer tanto assim? Pelo que me lembro ela não foi a única a sofrer nessa história. Eu já estou quase me convencendo que não há mais jeito pra nós.
Eu lavo cada peça que usamos da cozinha de forma lenta e demorada, eu não tenho muita coisa pra fazer e já estou esgotando minhas forças de tanto tentar fazê-la entender que fomos feitos pra ficar juntos e não assim da forma que estamos.
Eu me viro meio que por acaso para a porta do quarto onde ela entrou minutos atrás,mas ela não está dentro do quarto, ela está na porta com a cabeça encostada, segurando o braço direito com a outra mão e olhando pra mim com um olhar meio perdido, triste eu diria.
Assim que eu me viro e fico olhando pra ela, tenho a impressão de que ela vá voltar para dentro do quarto,mas ela não faz. Ela simplesmente fica lá parada na mesma posição e olhando pra mim.
Eu faço o mesmo.
Ela então respira fundo como ela tem feito muito hoje e volta para o quarto lentamente e fecha a porta,mas não antes de olhar na minha direção outra vez.
E eu daria o mundo pra saber o que se passa na cabeça dessa garota.
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