Eu desci do ônibus vazio e fui indo até ele. Eu morava num lugar afastado da cidade, havia mais mato do que gente. Minha casa era enorme, e não tinha portões, apenas um cercadinho com uma porta no meio.

–Olá. — Ele disse. Eu não estava entendendo. O que ele fazia ali?

Antes que eu pudesse abrir a boca, tia Guida apareceu. Eu não morava com meus pais, ela era responsável por mim.

–Taylor, quero que conheça Marcus, nosso novo vizinho. Marcus, essa é Taylor, minha sobrinha.

–Olá. –Eu disse. Pensei em cumprimentar ele com a mão, mas eu não era acostumada a fazer isso. E ao que parecia, ele também não.

Fiquei olhando pra ele. Ele era diferente da maioria dos adolescentes. Usava roupas formais e tinha uma expressão séria.

–Ele se mudou hoje pra casa ao lado., tem 17 anos e vai estudar no colégio com você. Espero que se tornem amigos. Bons amigos.

Ela deu um sorrisinho e entrou pra dentro de casa. Meu rosto esquentou, e não sabia o que dizer pra ele.

Guida tinha seus quarento e oito anos, e não era alguém que sorria com frequência ou demonstrava sentimentos. Não que ela fosse alguém ruim, mas ela gostava de privacidade e de ficar sozinha. Ela queria que eu tivesse amigos e não me sentisse só, mas, como ela, eu não me importava muito de passar o dia sem ninguém.

–Você se mudou hoje e já começou a estudar?- Perguntei. Eu não era muito boa em puxar conversa.

–Ah, não, só passei por lá pra confirmar a matrícula e conhecer o local.

–Espero que goste do colégio.

–É , ele parece ser legal.

Eu não tinha mais o que dizer. Nem ele. Então ele encerrou a conversa:

–Preciso ajudar meus tios a ajeitarem a casa, então a gente se vê amanhã.

–Claro, até amanhã.

Andei apressada pra dentro e fechei a porta. Sentei no chão e fiquei ali, controlando minha respiração. Qual era o meu problema?

Me levantei e subi as escadas até meu quarto. Ele era grande e aberto. Do lado direito, ao invés de ter paredes, tinha o que parecia um portão, só que de vidro, e geralmente eu deixava aberto. Eu gostava de olhar as árvores e o mato que tinha ali. Eu tinha uma varanda e nela uma beliche branca. Minha cama era de casal e ficava do lado squerdo do quarto, e tinha uma janela nela que dava pra casa do vizinho. A do garoto, agora.

A casa deles não era habitada havia anos. O último que morou lá foi um cara bêbado, mas já faz uns dez anos isso.

Tomei um banho, almocei e comecei a fazer meus deveres na sala. Guida se sentou no sofá com uma caixa de bombons e me ofereceu um, que aceitei.

–O que achou daquele garoto?

Com fingida voz de indiferença, respondi:

–Normal. E você?

–Quando olhei pra ele pensei, é a cópia masculina da Taylor.

Ela ficou rindo e eu ri junto com ela. Guida não tinha o costume de rir, mas quando ria era contagiante.

–Minha cópia versão masculina?

–É, com os óculos e tudo mais. Ele parece ser intelectual, sabe? Que nem você.

–Não sou intelectual. Só estudo.

–Tanto faz. Ele me pareceu um pouco fechado, mas é muito educado. Ele veio aqui a pedido dos tios, pra conhecer a vizinhança.

Eu assenti com a cabeça. A vizinha da frente era uma senhora idosa que amava tomar chá, e do lado da casa dela vivia um cara rabugento que só sabia reclamar da vida. Tirando eles, não tinha mais gente por perto. Será que Marcus e os tios dele iriam querer ajuda na mudança? Guida com certeza não ajudaria.

–Vou lavar roupa e ao anoitecer vou a feira comprar umas verduras. Quer ir comigo?

–Não, to cheia de lição de casa hoje.

Ela foi pra lavanderia e eu voltei a lição. Passei a tarde estudando, quando terminei tudo já tinha escurecido e Guida já tinha saído.

Pra descontrair resolvi subir pro quarto e ouvir música. Peguei uma escova de cabelo, virei ela pra baixo e comecei a cantar e dançar . Isso era o que acontecia quando eu me empolgava.

Eu comecei a dar risada de mim mesma, e pulava na cama fingindo ser uma super star. Quando a música acabou, olhei pra janela perto da cama e levei um susto: Marcus estava debruçado na sua janela olhando pra mim e rindo.

Notas finais
O que acharam? Não deixem de comentar. Até breve.