Você Não Me Ensinou A Te Esquecer
1 Que Faço Eu da Vida Sem Você?
Notas iniciais
Estou me aventurando com mais uma fanfic dramática.
Não sei se serei capaz de emocionar alguém com isso, mas espero que pelo menos vocês gostem de lê-la.
Como é uma songfic,recomendo que ouçam a música "Você Não Me Ensinou A Te Esquecer" do Caetano Veloso enquanto fazem a leitura.
Não foi betada!
Bem, é isso!
Boa leitura!
Você Não Me Ensinou A Te Esquecer
Capítulo Único
Eu sentia o suor escorrendo pela testa e pela nuca, molhando o travesseiro. Minha respiração estava descompassada e meu corpo parecia pesado. A angústia crescia em meu peito e talvez eu balbuciasse algo durante o sono, não tenho certeza.
Abri os olhos de súbito, fugindo daquele pesadelo e deparando-me com o já conhecido teto do meu antigo apartamento. Ou, como eu deveria dizer, do meu atual apartamento.
Já havia três meses que aquele voltara a ser meu lar, embora eu não conseguisse sentir isso. Não fazia sentido para mim, chamar de lar um lugar sem aquele loiro. Sem seus porta-retratos espalhados pela casa, sem o cheiro de lavanda do bom ar que ele insistia em usar, sem as malditas regras de não comer em qualquer outro lugar que não fosse a cozinha. Não havia lar se não havia quem me esperasse em casa.
E, confesso agora, que sinto saudades até dessas regras ridículas.
Três meses. Já fazia tudo isso? Pergunto-me como eu sobrevivi até aqui, pois a cada dia uma parte de mim morre só com o mero pensamento de que ele não me quer mais. De que me expulsou da sua vida e nunca mais terei outra chance.
Mas não é como se fosse culpa dele.
Às vezes penso que vou sufocar de saudades. Então eu ligo. Nas primeiras três vezes ele atendeu. Claro que me xingou, chorou e desligou na minha cara, mas foi melhor do que as outras vezes em que ele apenas ignorou as chamadas.
Não vejo mais você faz tanto tempo
Que vontade que eu sinto
De olhar em seus olhos, ganhar seus abraços
É verdade, eu não minto
E nesse desespero em que me vejo
Já cheguei a tal ponto
De me trocar diversas vezes por você
Só pra ver se te encontro
Com um suspiro, levanto-me e caminho em direção ao banheiro. Tropeço em uma ou duas peças de roupas sujas — ou limpas, já não sei — pelo caminho. Acendo a luz e a claridade machuca meus olhos, mas tento não me importar.
A imagem que vejo no espelho me assusta. Quem era aquele homem de tez acinzentada e profundas olheiras sob os olhos que, um dia, possuíram um azul escuro brilhante e hoje, no entanto, não passavam de olhos opacos. Sem luz, sem vida.
Pergunto-me onde foi parar o tom moreno de minha pele e lembro que não tenho saído de casa. O cadáver que vejo no espelho tem a barba por fazer e passo a mão em meu próprio rosto, vendo o reflexo imitar o movimento. Sorrio parcamente ao lembrar que meu russo odeia essa barba. Ele reclama que espeta e pinica.
Sim, meu russo, meu loiro, meu Hyoga.
Porque ele é meu. Mesmo que não queira me ver nem falar comigo. Embora a culpa seja unicamente minha. Eu estraguei tudo, como sempre.
Eu já havia pisado na bola, logo no começo do namoro, há dois anos. Esmeralda veio toda chorosa, pedindo para conversar e eu fui burro o bastante para achar que se resumiria a uma conversa. Acabamos na cama dela como “despedida”. É óbvio que Hyoga não ficou muito feliz com isso. Eu me lembro de como ele chorou e me estapeou quando lhe contei, e isso me machuca até hoje.
Machuca principalmente por eu saber que ele se lembrou de tudo isso há três meses. Lembrou-se de como eu o abracei e chorei também, jurando que o amava e que jamais faria algo assim de novo. Foi difícil, mas ele me perdoou.
Entretanto, até hoje, eu mesmo não me perdoei.
Mas estávamos vivendo bem. Morando juntos há mais de um ano e cada vez mais loucos um pelo outro. Pelo menos eu sou cada vez mais louco por ele... Pelo meu patinho gelado.
Então por que coloquei tudo a perder? Por que estraguei, eu mesmo, a vida que sempre sonhei em levar? Porque eu sou um idiota.
Sinto as lágrimas arderem meus olhos, mas as controlo. Não sei exatamente por quê, já que ali ninguém me veria chorar. Mas, como bom leonino que sou, aprendi a controlar minhas lágrimas desde muito cedo.
Abro a torneira e encho as mãos com a água fria, lavando meu rosto sem parar. Talvez algumas lágrimas tenham se misturado à água, não sei ao certo. Meu peito ardia e a cabeça doía.
Minha mente se vê preenchida por imagens que eu não queria lembrar. Por coisas que eu preferia esquecer. Melhor: preferia nunca ter vivido.
Ainda posso sentir o cheiro enjoativo do perfume dela. As unhas compridas e vulgares a me arranharem as costas. Os cabelos enchendo a cama com um manto negro, fúnebre. Tão diferente da cascata loira e brilhante que perfumava os travesseiros de minha cama.
Eu queria não ter sentido ciúmes dele naquele dia. Queria que ele não sorrisse daquela forma para Camus. Queria que ele tivesse me dado mais atenção.
O que estou dizendo? Não é como se fosse culpa dele...
Você bem que podia perdoar
E só mais uma vez me aceitar
Prometo agora vou fazer por onde nunca mais perdê-lo
Arrastei-me de volta para o quarto, xingando todos os palavrões que conhecia ao bater o dedinho do pé na quina de um móvel qualquer.
— Yebat! — gritei antes de me dar conta, caindo sobre a cama.
Um mísero sorriso apareceu em meus lábios. Lembrei-me de quando, muito raramente, Hyoga perdia a pose e soltava o palavrão russo.
"— Vou lavar essa sua boca com sabão, loirinho — o abracei por trás.
— Me solta, Ikki, e vai tirar aquela porcaria de cueca do canto do banheiro!”
Fresco. Do jeito que eu sempre gostei.
Não que eu já tenha gostado de outros homens. É só o Hyoga. Fresco, mandão, chato e gostoso. Muito gostoso.
Encarei o teto de gesso.
A coisa ia mal assim. Até batendo o dedo na porra da cômoda eu lembrava dele. Na verdade, eu não parava de pensar nele. Tudo me lembrava Hyoga e eu já estava sufocando.
Isso pode soar idiota, mas eu acho que não consigo sobreviver sem ele...
Merda, estou chorando de novo. E dessa vez nem me preocupei em controlar. Chorei como um garoto, aproveitando que ninguém me ouvia, chorei como não fazia há muitos anos.
Meus soluços ecoavam pelo quarto. Era desesperador. A situação toda era de um desespero imenso. Eu, Ikki Amamiya, chorando sonoramente, encolhido no meio da cama, por alguém que não queria me ver nem pintado de ouro.
Eu estou tão ferrado.
Ah, Hyoga, por que você fez isso comigo? Por que você me seduziu dessa forma? Por que fez com que eu me apaixonasse por você? Por que, loiro?
Eu nunca havia amado ninguém a não ser Shun, mas era um amor diferente, fraterno. De repente esse loiro gira meu mundo de cabeça para baixo, tornando-me viciado nele. Dependente dele.
Foi ele quem me agarrou na festa de aniversário do Shun. Estávamos os dois bêbados, não nego que estava louco para beijá-lo, mas foi ele quem tomou a iniciativa. Ele sempre foi assim... Invadindo meu espaço e se enfiando tão fundo em meu coração, que já não havia como sair.
Por que você insistiu tanto em mim, Hyoga? Se eu sou um cara que não vale à pena. Que não é capaz de fazer feliz a única pessoa que amou na vida! Que não consegue manter a merda do pau dentro da calça!
Um grito rasgou o silêncio do apartamento. Um grito de dor e desespero. Não me surpreendi ao notar que era a minha voz.
Tateei o criado-mudo em busca de um lenço, pois, miseravelmente, meu nariz começava a escorrer. Mas o que achei primeiro era algo bem diferente de lenços de papel.
Uma calcinha.
Uma minúscula calcinha rendada que em nada parecia com as boxers coloridas que Hyoga gostava de usar. Uma calcinha cuja dona eu nem lembrava o rosto, quanto mais o nome.
E mais uma vez me odiei, o choro voltando com mais força.
Era sempre assim depois que alguma garota me visitava. Na hora do ato, meu corpo se sentia confortado, eu podia fechar os olhos e imaginar que era Hyoga ali, me tocando, me amando.
Mas sempre havia o depois.
Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando te encontrar
Vou me perdendo
Buscando em outros braços seus abraços
Perdido no vazio de outros passos
Do abismo em que você se retirou
E me atirou e me deixou aqui sozinho
Atirei aquela peça longe, continuando a busca pelos lenços, finalmente encontrando-os. Desisti de tentar secar minhas lágrimas, pois elas caíam em cada vez mais quantidade. Pelo menos assoei meu nariz, já que eu estava patético todo molhado daquele jeito.
Peguei o iPhone sob o travesseiro para ver a hora. Passava das duas da manhã, mas não me importei com isso. Na verdade “olhar as horas” era uma desculpa esfarrapada para contemplar a imagem de fundo da tela do aparelho.
Hyoga.
Na verdade, Hyoga e eu, mas e daí? Ele estava lindo.
Tiramos aquela foto num parque, perto do nosso apartamento. Bem, do apartamento dele. Fizemos um piquenique ao ar livre naquele dia.
Sorri apenas com as lembranças, deixando meus dedos deslizarem pela tela do celular como se pudesse tocar o russo. Ele estava tão lindo naquele dia. Tão lindo que eu não resisti e o tomei para mim ali mesmo, entre as árvores. Ele resistiu no começo. Brigou, como eu sabia que faria. Mas eu sabia acalmar aquela fera. Em poucos minutos ele gemia tão gostoso que até esqueceu que estávamos em um parque público em plena luz do dia.
Então tirei a foto. Ele ficou bravo. Mas esta, secretamente, é minha foto favorita. Mesmo que, como fotógrafo, eu saiba que ela ficou uma porcaria para certos padrões, era uma foto onde eu podia sentir o quanto éramos felizes. Eu o abraçava por trás, com o queixo apoiado em seu ombro. Meu rosto tinha uma expressão mais séria do que eu achei que fazia enquanto tirava a foto. Na verdade, achei que estava sorrindo. Já Hyoga estava corado e um pouco despenteado, com um sorriso enorme no rosto. Eu o satisfazia.
Ele me satisfazia.
Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando me encontrar
E nesse desespero em que me vejo
Já cheguei a tal ponto
De me trocar diversas vezes por você
Só pra ver se te encontro
Passei as costas das mãos sobre os olhos, tentando secar as lágrimas que não pararam em momento algum. Lembrar dos bons momentos machucava mais do que lembrar dos momentos ruins.
Era doloroso saber que existia tanto amor entre nós, mas que eu estraguei tudo. Estraguei tudo por ciúmes sem causa e ideias malévolas que Pandora me enfiou na cabeça. Não, não estou jogando a culpa dos meus atos para cima dela. Mas ela tem lá sua parcela de culpa.
Ela teve culpa quando me envenenou contra Hyoga. Mas eu... Eu tive culpa em acreditar nela. Em duvidar da fidelidade do russo. Porque ele, ao contrário de mim, nunca me deu motivos para desconfiar de algo. Eu apenas sou desconfiado por natureza. Sou extremamente ciumento e possessivo. E queria morrer sempre que o via sorrir para outro homem que não fosse eu mesmo.
Morrer, não. Matar. Sempre tive esse instinto assassino. Se eu pudesse mataria cada um que o teve antes de mim. Mataria lentamente, um a um...
Será que ele teve outro homem nesses três meses?
Caralho, Ikki, quem é você para cobrar algo? Você não trepou com qualquer uma que apareceu?
Mas é diferente...
Não, não é.
Eu preciso do Hyoga para me dar equilíbrio. Foi ele quem sempre me fez mais humano. Sem ele eu sou apenas um animal, como agora. Um animal raivoso e doente, louco para quebrar a cara de qualquer homem que apenas olhar para ele por mais de três segundos.
Eu preciso dele...
Você bem que podia perdoar
E só mais uma vez me aceitar
Prometo agora vou fazer por onde nunca mais perdê-la
Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando te encontrar
Vou me perdendo
Buscando em outros braços seus abraços
Perdido no vazio de outros passos
Do abismo em que você se retirou
E me atirou e me deixou aqui sozinho
Num impulso, meus dedos agiram mais rápido que meu cérebro. E, mesmo que eu não enxergasse direito graças às lágrimas que não paravam de escorrer, eu nem precisava olhar para digitar aquele número.
Não me importei com o horário. Mas de repente, ele poderia estar dormindo. Talvez até mesmo acompanhado.
Apenas a parca ideia de que ele poderia estar sendo envolvido por outros braços que não os meus me fez perder o controle. Minha vontade era dirigir até o apartamento dele. O dele uma ova! O nosso apartamento! Onde minhas coisas ainda estão porque eu simplesmente não tinha coragem de ir buscar. Não só porque eu não queria dar um fim à nossa história, mas também por não ter coragem de encarar aqueles olhos azuis claríssimos como o céu depois de tudo o que fiz.
E por isso eu não tinha coragem de ir vê-lo.
Mas eu precisava ouvir a voz dele. Precisava ouvir de qualquer jeito, nem que fosse para me mandar para o inferno. Ou para ouvir xingamentos em russo, eu não ligava! Eu precisava dele. Como nunca precisei de ninguém antes.
Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando te encontrar
Vou me perdendo
Buscando em outros braços seus abraços
Perdido no vazio de outros passos
Do abismo em que você se retirou
E me atirou e me deixou aqui sozinho
Chamou.
Meu coração deu um salto, batendo tão rápido que machucava.
Outra vez.
E mais outra, e mais outra. Quanto mais chamava, menos eu tinha esperanças de que ele atendesse. E assim foi: chamou até cair na caixa de mensagens.
Era óbvio que ele não atenderia. Devia estar dormindo. Eu tentava me convencer que ele estava dormindo sozinho na nossa cama. Seria egoísmo demais querer que ele também estivesse acordado, sofrendo como eu estava?
Larguei o celular no colchão e cobri meus olhos com o antebraço.
Derrotado. Dilacerado. Destruído.
Ouvi o toque do celular e sentei-me de supetão na cama. Meu coração batia tão rápido que sacudia meu corpo inteiro. Foi difícil conseguir atender e acho que soei muito desesperado quando praticamente gritei:
— Alô!
— Oh, atendeu rápido, gatinho.
Senti-me murchar.
Ora, Ikki, achou mesmo que ele te ligaria?
Sim, achei.
— Quem é? — fui ríspido. Mais para disfarçar minha voz chorosa do que por rudeza.
— Sou eu, Shina.
Quem demônios é Shina?
— Hum.
— Não consegui dormir essa noite... Estava pensando em você — ela forçava uma voz melosa que, confesso, estava me enojando.
— Fale logo, eu estava dormindo — cortei.
— Hum,como você é mal-humorado, Ikki — suspirou. — Achou o presentinho que deixei para você essa tarde?
Ah, então é a garota que esteve aqui hoje. De que cor eram mesmo os olhos dela?
— Vou dormir, não ligue de novo.
Encerrei a chamada, suspirando pesadamente.
Deixei-me cair num pranto desesperado. Que merda eu estava fazendo da minha vida? Como eu quero conquistar aquele loiro de novo se faço tudo errado? Eu não o mereço. Mas sou um desgraçado egoísta que o quer mesmo assim. Mesmo sabendo que ele merece coisa muito melhor do que eu.
O celular tocou de novo e atendi pronto para xingar a garota.
— O que é agora?
Silêncio do outro lado. Eu podia ouvir a respiração entrecortada. Eu reconheceria aquela respiração em qualquer lugar. Mesmo se eu fosse surdo, eu saberia identificá-la de qualquer jeito.
Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando me encontrar
— H-Hyoga? — arrisquei.
— Você me ligou?
E, naquele momento, o mundo inteiro pareceu girar ao contrário, numa velocidade tão rápida que me deixou tonto. E tudo o que consegui foi chorar. Chorar como a criança que eu sabia que era. Tampei minha boca, tentando controlar os soluços e só então percebi que ele também chorava.
— Eu te amo, Hyoga — foi só o que eu consegui balbuciar antes de ele desligar.
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