Você Não Está Sozinho

1 A Detestada Invasora Solitária


Notas iniciais
Capítulo baseado nas músicas A Realistic Logical Ideologist (IA) e Replicant (Gumi).

IA

Amor... O que é o amor afinal? Um sentimento de afeição que leva a vários outros, raiva, tristeza, alegria. Mas certamente foi distorcido pela raça humana. Eles não sabem amar. Não sei se posso afirmar isso, não sei se não sou igual a eles.

Quem sou eu? Um ser de carne e osso, composto por milhares de células e moléculas e neurônios e... Chega! Isso aqui não é uma aula de ciências!

Bem, eu me chamo IA. Porque não tenho emoções como as pessoas normais, sou um pouco fria sim, mas nunca me deram a chance de sorrir. Me sinto um bug aqui, uma invasora neste mundo corrompido pelo que as pessoas acham que é certo. Então o que é certo? É certo nos entregar à falsos sorrisos, problemas políticos, crimes ideológicos, corações apodrecidos, trapaças e sei lá mais o quê? É certo seguirmos esse bando de falcões mascarados de inocentes passarinhos? As pessoas não sabem mais o que é certo. Mas eu talvez esteja errada quanto a isso. Ninguém responderá.

Todo dia me acordo e penso nas milhares de perguntas que rondam minha cabeça. Sou obrigada a ouvir as mesmas criticas. Porém essas lâminas pontiagudas e dolorosas já não conseguem ferir meu coração. Já sofri muito por causa dessas feridas e meu coração, sem permissão, fez uma barreira pra se proteger. Ele é um idiota fraco.

Novamente tenho de entrar no trem, uma passagem grátis para mais criticas. Os olhares assustadores me dão a certeza de que aqui à minha volta há inimigos, zombando de mim, tentando fuzilar meu coração como sempre. Não posso deixar.

Ainda me pergunto por que continuo vivendo. Minha existência não faz sentido, pra muitos eu nem deveria existir. Simplesmente uma ninguém.

Ah, onde estou? Pra onde vou? O que devo fazer Deus? Será que até Você é meu inimigo?

Esses tantos rostos com diferente expressões sabem muito bem que aqui está uma parasita, me olham como se quisessem me esmagar, como se dissessem: “Você não é bem-vinda aqui”.

O que será que aconteceria se eu me atirasse na frente do trem? Imagino que passaria despercebido ou talvez vários sorrisos passassem pela cena.

Espero o ônibus querendo que um dia o céu se torne azul de novo e vejo um garoto, ele sempre está ali, lendo aquele mesmo livro. Sem se importar de estar ao lado desta parasita, afinal, ele nem me vê. Ah, queria que visse. Queria que falasse comigo e que fôssemos amigos. Nunca tive um amigo, nunca tive ninguém, nem mesmo meus pais me amavam. Me pergunto como é a sensação de ser amada.

Você deve estar pensando que isso é muito triste, não, não é. Não preciso que tenha pena, nunca fiz nada por ninguém. Por que eles fariam algo por mim? Não posso sequer chorar pelo sofrimento de uma mãe que perdeu um filho para um acidente de carro, não posso chorar por ninguém. E me odeio.

O garoto pega o ônibus e suspiro, meu coração está batendo forte, quero gritar e chamá-lo. O que aconteceria se eu falasse com ele? Será que ele me odiaria como todos?

Depois da aula chego em casa, só mais um dia solitário. Odeio estar aqui.

Minha mãe e meu pai... O que estarão fazendo? Trancados no quarto. Imagino bobagens sabendo da situação, mas não sou uma criança para me impressionar com um acontecimento tão banal e idiota.

Me atiro na cama e finjo estar dormindo, ouço a língua afiada de minha irmã tentando me atingir. Ela nunca desiste, tenho que suportar. Mexo no celular, mas sei que nem a esse mundo pertenço.

Penso no garoto da estação de ônibus, meu coração acelera. Ah, pare. Não tenho chance alguma de ter amigos, que dirá ser amada por alguém como ele? Olho-me no espelho. Quem é essa idiota encarando? Ele poderia gostar da quatro-olhos invasora e detestável aqui? Jamais.

No dia seguinte ouço aquela voz imaginária chamando meu nome. Ela me dá forças pra continuar. “Miyako... Miyako...” Nunca soube o porquê disso, mas gosto. Até parece que sou uma heroína que alguém chama.

Na televisão passam aquelas noticias dramáticas e deprimentes que enchem a cabeça das pessoas com sujeira, de qualquer forma, isso nunca alcançará meus ouvidos.

Encontro aquele garoto na estação de ônibus novamente, sutilmente espio o nome do livro que ele admira tanto: “Repita”. O gravo em minha mente e tomo uma decisão idiota, pego o mesmo livro na biblioteca da escola.

Estou agindo como uma tolinha apaixonada, certo? Mas tem algum problema? As pessoas continuarão me odiando, o mundo continuará naquele cinza monocromático, eu continuarei uma invasora. Nada mudará.

Ou talvez mude.

Chego em casa com um sorriso misterioso, eu não deveria estar assim, mas este sentimento que sinto é tão amável.

Olho-me no espelho. Estes óculos... Acho que são horríveis, se eu tirá-los ficarei mais bonita talvez. Como não consigo enxergar sem óculos, coloco lentes de contato com um pouco de esforço. Não me importo em estar sendo um pouco falsa, talvez assim ele me veja, fale comigo e quem sabe... Goste de mim...

Coro com esse pensamento. Estou apaixonada, que sentimento nostálgico, eu gosto.

Meu coração se ilumina com uma esperança desconhecida. Espero que amanhã seja um bom dia, e dessa vez imagino o que seria bom pra me fazer sorrir.

Acordo com aquela emoção boba e confusa, saio de casa sorrindo e ignoro qualquer olhar ou palavra esmagadora, isso nunca irá me atingir. Chego à estação de ônibus determinada a falar com o garoto, conhecê-lo e agir como uma pessoa normal. Eu quero deixar de ser uma invasora e ser odiada por todos.

Avisto algo que me deixa confusa, um vislumbre de algo esverdeado ao lado dele. Então vejo um rosto, há alguém falando com ele. Uma garota, bonita e normal, ela me olha e faz uma expressão que já diz tudo: “O que você está fazendo aqui? Acha mesmo que ele gostaria de uma garota detestável como você?”

Será que ela é...alguém especial pra ele? Ele gosta dela? Agora sim que eu não falo com o garoto, nunca mais.

Eu não poderia ter um momento feliz em minha vida miserável e injusta?

Ah, como eu odeio sentir! Qualquer emoção feliz que sinto logo se transforma em lágrimas e sofrimento. Meu coração foi perfurado pela solidão e decepção e assim teve que odiar tudo.

Eu detesto, detesto, detesto meu coração! Preferia estar lutando numa guerra e morrendo do que passar por isso! Por que nada pode dar certo nesta vida detestável que eu vivo?! Que destino mais injusto o que me espera! É inevitável odiá-lo.

Eu realmente odeio esta vida que nunca me deixará sorrir sem ter que chorar logo depois! Estou começando a enlouquecer esquecida nesta solidão monocromática sem nada. Totalmente estragada e vazia. Não tenho nada além de um coração estragado e minhas lágrimas brilhantes.

Mas isso não é triste – menti pra mim mesma sozinha na escuridão.

Notas finais
Se gostaram deixem reviews, o próximo cap será com a visão do Kotoba (meu namorado kkk Tô de brinks, mas ele é muito parecido comigo).