Reviro os olhos como antigamente e mal consigo evitar a saudade que tende a invadir em momentos como esse.

— Tom! – Cumprimento o loiro primeiro, dando um abraço nele, que retribui com seu jeito alegre.

— Thiago! – Digo e dou um abraço desajeitado no meu antigo amigo. Ele faz o mesmo. Não sabemos mais como agir em situações como essa. Wendy está parada encarando admirada Tom, que abre os braços para dar um abraço, que é o jeito brasileiro. Vejo que Wendy estranha o gesto, apesar de me conhecer a uns 2 meses, ela ainda não se acostumou com alguns gestos.

– Essa aqui é a Wendy. – Vou ao socorro da minha foster sister, que mal consegue se mexer. – Wendy este é o Tom. – Ele balança a cabeça e se limita a um aceno ao perceber que a garota não irá lhe abraçar de volta. Não sei se falo em inglês ou em português e acabo misturando os dois.

– E aí, Leticia, como está? Está fazendo o que aqui em Los Angeles? – Thiago é quem puxa assunto. Olho para e ele e vejo que continua com aquele rosto belo que sempre teve. Sua pele branca sem espinhas e o cabelo preto curto está em um corte bem arrumado. Nunca olhei para Thiago do mesmo jeito que as outras garotas e nunca dei bola para as suas míseras cantadas. Espero que pelo menos nisso ele tenha melhorado.

– Vou bem. Estou fazendo meu mestrado na UCLA, mas vou voltar para o Brasil daqui a 6 meses. – Respondo-o em inglês, consciente de que Wendy está prestando atenção na conversa. Não quero exclui-la, porém tenho que confessar que é bom ouvir um pouco de português depois de algum tempo.

— Caramba, mestrado, hein? E ainda na UCLA! – Ele diz animado. UCLA é sigla para a Universidade da Califórnia em Los Angeles, uma das mais difíceis de conseguir passar e possui uma alta taxa de aceitação. Contudo, com muito esforço e preparação consegui passar e ainda com uma ótima bolsa para ajudar a me bancar nos Estados Unidos.

— Você cursou o que, afinal? – Dessa vez quem pergunta é o Tom, que também perdi contato, só acompanhando pelas redes sociais.

— Psicologia e estou fazendo mestrado em Neuro.

— Uau! Estou muito impressionado. Parabéns! – Thiago comenta e noto sua bochecha ficar vermelha. – Obrigada. – Respondo um pouco constrangida com a atenção.

– E você... – Quero perguntá-lo o que ele faz da vida, já que desistiu da faculdade de educação física, mas sou interrompida antes de conseguir terminar a frase.

– Trisha! Wendy! – É a Miley quem nos chama. Nós duas olhamos para trás ao mesmo tempo. – Vamos, já vamos começar!

— Estamos indo! – Wendy responde. Estranho sua ausência na conversa com os garotos, pois normalmente ela é a faladeira. Tom deve ter causado algum efeito extraordinário para ela ficar desse jeito. Não é todo garoto que consegue. Faço uma nota mental para conversarmos sobre isso depois e me despeço dos garotos, dizendo que gostaria muito de continuar nossa conversa.

— Nós não vamos embora tão cedo, princesa. – Tom diz chamando-me pelo antigo apelido. Dou um sorriso e aceno para os dois antes de me virar e seguir a Wendy, que se afastou tão rapidamente. Eu não canto e não faço parte da banda delas, mas de vez em quando a filmagem fica por minha conta e hoje essa era uma dessas ocasiões. Elas pegavam os filmes depois e Tara editava formando um único vídeo incrível. Não me surpreendia que em tão pouco tempo elas já conseguiram tanto sucesso.

Tiro algumas fotos e faço as filmagens, alterando de irmã para irmã e tento pegar as melhores partes. É mais complicado quando estão ao vivo. Jack me ajuda e também está com uma câmera. O ruim é que as vezes temos que entrar na frente das pessoas e acabamos atrapalhando um pouco. Elas cantam alguns covers, antes de ir para algumas originas – 3 para ser mais exato, é o que elas têm por enquanto. É Tara quem começa a cantar e enche o lugar com sua voz graciosa.

A música é suave e tem o piano como base inicial. Eu já ouvi essa música antes quando Wendy a compôs pela primeira vez e foi correndo me mostrar. A partir daí me apaixonei pela melodia e a letra era tudo, não consegui parar de escutar.

"Pull me close

Hold me tight

Fill my heart with simple notes

Don't let me go"


O lugar encheu e de vez em quando Marley e Frank (a mãe e o pai) me chamam e me apresentam para alguns parentes. Faço esforço para gravar o nome de todos, mas é impossível.

Perto do final da segunda música original, a bateria da câmera acaba e vou correndo pegar outra. Me esguio para fora dos olhares e vou para uma salinha pequena onde estão os equipamentos. Pego o que preciso e saio logo dali. Volto para a parte externa e quando estou trocando a bateria Thiago me assusta por trás.

— Desculpa. – Ele diz, tentando disfarçar o riso. Aparentemente, é uma diversão extra me assustar hoje.

— Não foi minha intenção.

— Tudo bem. – Estamos falando em português e algum parente (acho que é um primo) na mesa mais próxima nos olha com uma cara curiosa. Dou de ombros e o ignoro, voltando minha atenção para a câmera e tento encaixar a bateria no lugar correto, pelo menos onde eu acho que é.

— Então... – Thiago volta a falar.

— Então? – Pergunto quando ele demora a falar. Percebo que está tentando puxar assunto e facilito para ele. – Vai ficar aqui em LA por quanto tempo? – Ele dá um sorriso lindo antes de me responder.

— 48 horas.

— Nossa bem contado assim?

— É, pois é. Sou comissário e esse é apenas um layover.

– Ah. – Deixo escapar. "Ah?", sério? É tudo o que consigo dizer? Nunca imaginei que Thiago Santos se tornaria um comissário. Imaginava-o sendo famoso com o basquete ou sei lá algo na educação física, mas nunca comissário. Se bem que ele sempre manjou no inglês e aposto que fica gato demais no uniforme da tripulação. Caramba, o que é que estou pensando? Olho para ele e desisto de trocar a bateria da câmera.

— Você está no Brasil ainda?

— Sim, trabalho para a Velox. Uma companhia que tem crescido bastante nos últimos anos. – Ele fala orgulhoso.

— Hm. E há quanto tempo?

— Trabalho nela há uns 3 anos. – Ele sorri novamente e noto uma expressão sonhador em seu rosto.

— Quem diria, né? Quais seriam as chances de nos encontrarmos na mesma cidade e na mesma festa em outro continente? – Diz sarcasticamente e reconheço a ironia na sua voz. Lembro-me das piadas sem graça e as cantadas falhas toda vez que ele se aproximava de mim. Era como se quisesse errar mesmo. Fico pensativa por um instante. Quais seriam mesmo as chances?

— Eu...Eu estava querendo saber. – Ele me encara e pergunta nervoso. – Se...se fosse não gostaria de sair comigo? – Thiago pergunta sem graça e minha primeira reação é rir. No entanto, consigo me conter a tempo de ver que um dos meus melhores amigos está sério e sem piadas ou cantadas idiotas dessa vez. Eu nunca disse sim no ensino médio, o que faz ele achar que vou aceitar dessa vez?

— Sério, Trisha? – Ele me chama pelo meu novo apelido. – Desde o ensino médio...eu...eu... – Ele gagueja antes de conseguir perguntar. – O que tenho que fazer para te provar que mereço uma chance? – Encaro-o e fico perdida no seu olhar por alguns segundos e volto atordoada para a realidade com a sua voz. – Você nunca me notou no colegial e mesmo agora após 5 anos vai me dizer que nunca te ocorreu voltar para o passado e mudar algumas coisas? E ainda tem a chance de fazer diferente agora? – Thiago me olha com expectativa e reconheço a saudade no seu olhar.

Era verdade que nunca o notei no ensino médio, não do jeito que ele queria. Já havíamos conversado sobre isso na época e deixei meus sentimentos bem claros. E mesmo depois de tanto tempo ele ainda sentia o mesmo? – Além do mais, achei que Los Angeles fosse a terra onde os sonhos se tornam realidade. Você sempre foi meu sonho. – Ele completa ajeitando o cabelo e desviando o olhar, claramente desconfortável com a situação. – O que mais eu tenho que fazer para te provar?

Ele pega a câmera e a bateria da minha mão e consegue colocá-la para dentro. – Não era essa a posição e você estava na entrada errada. – Diz ao me devolver o objeto. Hesito antes de pegá-la de volta. No processo nossos dedos se tocam por um instante e sinto um formigamento percorrer meu corpo. O que ele diz é verdade. Eu nunca o notei. Por que iria notá-lo agora? E que frio era esse na minha barriga e por que o meu coração batia descompassadamente?

Volto para a realidade quando as pessoas batem palma e percebo que elas já vão para a última e terceira música original. Mordo o lábio inferior e me afasto de Thiago sem dizer nada. Meu coração ainda não voltou ao normal e preciso me concentrar para pegar essa última filmagem.

Notas finais
layover - pernoite -> regra das companhias aéreas, que em voos muito longos os comissários precisam de pelo menos 48 horas em solo para descansar. Tradução da música original (é original mesmo) "Me puxe para perto Me segure no teu abraço Enche o meu coração com o seu som E não me deixe ir ... " Nota da autora Olá! Espero que estejam gostando da história! O que acham que a Leticia vai fazer? Me segue lá no Instagram @entrepaginasdoslivros
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.