Você Nunca Me Notou
2 Capítulo 02
Reviro os olhos como antigamente e mal consigo evitar a saudade que tende a invadir em momentos como esse.
— Tom! – Cumprimento o loiro primeiro, dando um abraço nele, que retribui com seu jeito alegre.
— Thiago! – Digo e dou um abraço desajeitado no meu antigo amigo. Ele faz o mesmo. Não sabemos mais como agir em situações como essa. Wendy está parada encarando admirada Tom, que abre os braços para dar um abraço, que é o jeito brasileiro. Vejo que Wendy estranha o gesto, apesar de me conhecer a uns 2 meses, ela ainda não se acostumou com alguns gestos.
– Essa aqui é a Wendy. – Vou ao socorro da minha foster sister, que mal consegue se mexer. – Wendy este é o Tom. – Ele balança a cabeça e se limita a um aceno ao perceber que a garota não irá lhe abraçar de volta. Não sei se falo em inglês ou em português e acabo misturando os dois.
– E aí, Leticia, como está? Está fazendo o que aqui em Los Angeles? – Thiago é quem puxa assunto. Olho para e ele e vejo que continua com aquele rosto belo que sempre teve. Sua pele branca sem espinhas e o cabelo preto curto está em um corte bem arrumado. Nunca olhei para Thiago do mesmo jeito que as outras garotas e nunca dei bola para as suas míseras cantadas. Espero que pelo menos nisso ele tenha melhorado.
– Vou bem. Estou fazendo meu mestrado na UCLA, mas vou voltar para o Brasil daqui a 6 meses. – Respondo-o em inglês, consciente de que Wendy está prestando atenção na conversa. Não quero exclui-la, porém tenho que confessar que é bom ouvir um pouco de português depois de algum tempo.
— Caramba, mestrado, hein? E ainda na UCLA! – Ele diz animado. UCLA é sigla para a Universidade da Califórnia em Los Angeles, uma das mais difíceis de conseguir passar e possui uma alta taxa de aceitação. Contudo, com muito esforço e preparação consegui passar e ainda com uma ótima bolsa para ajudar a me bancar nos Estados Unidos.
— Você cursou o que, afinal? – Dessa vez quem pergunta é o Tom, que também perdi contato, só acompanhando pelas redes sociais.
— Psicologia e estou fazendo mestrado em Neuro.
— Uau! Estou muito impressionado. Parabéns! – Thiago comenta e noto sua bochecha ficar vermelha. – Obrigada. – Respondo um pouco constrangida com a atenção.
– E você... – Quero perguntá-lo o que ele faz da vida, já que desistiu da faculdade de educação física, mas sou interrompida antes de conseguir terminar a frase.
– Trisha! Wendy! – É a Miley quem nos chama. Nós duas olhamos para trás ao mesmo tempo. – Vamos, já vamos começar!
— Estamos indo! – Wendy responde. Estranho sua ausência na conversa com os garotos, pois normalmente ela é a faladeira. Tom deve ter causado algum efeito extraordinário para ela ficar desse jeito. Não é todo garoto que consegue. Faço uma nota mental para conversarmos sobre isso depois e me despeço dos garotos, dizendo que gostaria muito de continuar nossa conversa.
— Nós não vamos embora tão cedo, princesa. – Tom diz chamando-me pelo antigo apelido. Dou um sorriso e aceno para os dois antes de me virar e seguir a Wendy, que se afastou tão rapidamente. Eu não canto e não faço parte da banda delas, mas de vez em quando a filmagem fica por minha conta e hoje essa era uma dessas ocasiões. Elas pegavam os filmes depois e Tara editava formando um único vídeo incrível. Não me surpreendia que em tão pouco tempo elas já conseguiram tanto sucesso.
Tiro algumas fotos e faço as filmagens, alterando de irmã para irmã e tento pegar as melhores partes. É mais complicado quando estão ao vivo. Jack me ajuda e também está com uma câmera. O ruim é que as vezes temos que entrar na frente das pessoas e acabamos atrapalhando um pouco. Elas cantam alguns covers, antes de ir para algumas originas – 3 para ser mais exato, é o que elas têm por enquanto. É Tara quem começa a cantar e enche o lugar com sua voz graciosa.
A música é suave e tem o piano como base inicial. Eu já ouvi essa música antes quando Wendy a compôs pela primeira vez e foi correndo me mostrar. A partir daí me apaixonei pela melodia e a letra era tudo, não consegui parar de escutar.
"Pull me close
Hold me tight
Fill my heart with simple notes
Don't let me go"
O lugar encheu e de vez em quando Marley e Frank (a mãe e o pai) me chamam e me apresentam para alguns parentes. Faço esforço para gravar o nome de todos, mas é impossível.
Perto do final da segunda música original, a bateria da câmera acaba e vou correndo pegar outra. Me esguio para fora dos olhares e vou para uma salinha pequena onde estão os equipamentos. Pego o que preciso e saio logo dali. Volto para a parte externa e quando estou trocando a bateria Thiago me assusta por trás.
— Desculpa. – Ele diz, tentando disfarçar o riso. Aparentemente, é uma diversão extra me assustar hoje.
— Não foi minha intenção.
— Tudo bem. – Estamos falando em português e algum parente (acho que é um primo) na mesa mais próxima nos olha com uma cara curiosa. Dou de ombros e o ignoro, voltando minha atenção para a câmera e tento encaixar a bateria no lugar correto, pelo menos onde eu acho que é.
— Então... – Thiago volta a falar.
— Então? – Pergunto quando ele demora a falar. Percebo que está tentando puxar assunto e facilito para ele. – Vai ficar aqui em LA por quanto tempo? – Ele dá um sorriso lindo antes de me responder.
— 48 horas.
— Nossa bem contado assim?
— É, pois é. Sou comissário e esse é apenas um layover.
– Ah. – Deixo escapar. "Ah?", sério? É tudo o que consigo dizer? Nunca imaginei que Thiago Santos se tornaria um comissário. Imaginava-o sendo famoso com o basquete ou sei lá algo na educação física, mas nunca comissário. Se bem que ele sempre manjou no inglês e aposto que fica gato demais no uniforme da tripulação. Caramba, o que é que estou pensando? Olho para ele e desisto de trocar a bateria da câmera.
— Você está no Brasil ainda?
— Sim, trabalho para a Velox. Uma companhia que tem crescido bastante nos últimos anos. – Ele fala orgulhoso.
— Hm. E há quanto tempo?
— Trabalho nela há uns 3 anos. – Ele sorri novamente e noto uma expressão sonhador em seu rosto.
— Quem diria, né? Quais seriam as chances de nos encontrarmos na mesma cidade e na mesma festa em outro continente? – Diz sarcasticamente e reconheço a ironia na sua voz. Lembro-me das piadas sem graça e as cantadas falhas toda vez que ele se aproximava de mim. Era como se quisesse errar mesmo. Fico pensativa por um instante. Quais seriam mesmo as chances?
— Eu...Eu estava querendo saber. – Ele me encara e pergunta nervoso. – Se...se fosse não gostaria de sair comigo? – Thiago pergunta sem graça e minha primeira reação é rir. No entanto, consigo me conter a tempo de ver que um dos meus melhores amigos está sério e sem piadas ou cantadas idiotas dessa vez. Eu nunca disse sim no ensino médio, o que faz ele achar que vou aceitar dessa vez?
— Sério, Trisha? – Ele me chama pelo meu novo apelido. – Desde o ensino médio...eu...eu... – Ele gagueja antes de conseguir perguntar. – O que tenho que fazer para te provar que mereço uma chance? – Encaro-o e fico perdida no seu olhar por alguns segundos e volto atordoada para a realidade com a sua voz. – Você nunca me notou no colegial e mesmo agora após 5 anos vai me dizer que nunca te ocorreu voltar para o passado e mudar algumas coisas? E ainda tem a chance de fazer diferente agora? – Thiago me olha com expectativa e reconheço a saudade no seu olhar.
Era verdade que nunca o notei no ensino médio, não do jeito que ele queria. Já havíamos conversado sobre isso na época e deixei meus sentimentos bem claros. E mesmo depois de tanto tempo ele ainda sentia o mesmo? – Além do mais, achei que Los Angeles fosse a terra onde os sonhos se tornam realidade. Você sempre foi meu sonho. – Ele completa ajeitando o cabelo e desviando o olhar, claramente desconfortável com a situação. – O que mais eu tenho que fazer para te provar?
Ele pega a câmera e a bateria da minha mão e consegue colocá-la para dentro. – Não era essa a posição e você estava na entrada errada. – Diz ao me devolver o objeto. Hesito antes de pegá-la de volta. No processo nossos dedos se tocam por um instante e sinto um formigamento percorrer meu corpo. O que ele diz é verdade. Eu nunca o notei. Por que iria notá-lo agora? E que frio era esse na minha barriga e por que o meu coração batia descompassadamente?
Volto para a realidade quando as pessoas batem palma e percebo que elas já vão para a última e terceira música original. Mordo o lábio inferior e me afasto de Thiago sem dizer nada. Meu coração ainda não voltou ao normal e preciso me concentrar para pegar essa última filmagem.
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