Você Mudou
4 Capítulo III
Primeiro ele nos reconhece normalmente mas aos poucos seu sorriso vai murchando e ele nos encara sério.
—Oi Cris! -a minha quase ex amiga acena freneticamente para ele que, por sua vez, só balança a cabeça.
Meus olhos se encheram com aquela imagem, tão lindo, tão desejável, tão...perverso! Engulo em seco e mantenho a postura ridícula que Alice me impôs.
—Oi Malu! -ele cumprimenta vindo em minha direção, olho disfarçadamente para Alice que sumiu em busca de carne me deixando ali sozinha.
Cada passo que ele dá em minha direção sinto me mais próxima da perdição, minhas mãos suam frias e me controlo para não pular em cima dele. Respiro fundo e encarno meu papel.
—Maria Luiza por favor! -digo com a voz rouca e o mais sensual que consigo.
—Maria Luiza? O que houve? Não gostava de ser chamada de Malu? -ele para na minha frente, perto demais...confundo sua voz com música. -respiro, não posso falhar.
—Não gosto mais! -respondo com desdém e ele franze a testa intrigado. -Isso! Comemoro mentalmente.
—Tá diferente, perdi alguma coisa? -se perdeu alguma coisa? Perdeu sim seu cara de pau, perdeu a mulher que mais te amou na vida. -ainda estou gritando com ele na minha cabeça quando ele me interrompe.
—Não quer responder? -pergunta ainda mais confuso diante da minha apatia.
—Não, não perdeu Nada, nada que faça diferença pra você. -digo olhando o nos olhos com um sorriso debochado que eu nem sabia que tinha.
—Vem, vamos beber alguma coisa. -ele me estende a mão. Ah não, eu não tinha ensaiado isso, droga! droga! Respiro fundo e ignoro a mão estendida à minha frente e vou em busca da bebida, talvez eu me embebede hoje.
—Malu...Maria Luiza, você está diferente mas confesso que gostei. -diz quando me alcança.
Ele gostou, será que ele sempre quis que eu me comportasse como uma mulher e deixasse de ser uma menina tola? -respiro fundo.
Decido dar férias a minha razão e dar espaço a um pouco de loucura só pra ver no que vai dar. Me sinto estranhamente corajosa.
—É mesmo? -arqueio uma sobrancelha, antes de continuar.
—Ah, meu cheiro você ficaria surpreso com a intensidade da minha mudança. -Uau! Reconheço minha voz mas não consigo acreditar que essas palavras foram mesmo ditas por mim, espero que não tenha exagerado.
—Meu cheiro? -ele franze a testa outra vez. -Estranho, você nunca gostou que eu usasse esse apelido com você... você tá legal? -ah droga! Exagerei mesmo, cadê a Alice pra me salvar? -eu abro a boca para responder qualquer idiotice que apareça de última hora, mas como uma graça divina o celular dele toca. -inspiro o ar para me aliviar da tensão mas ele fica preso nos pulmões deixando meus olhos ainda mais arregalados quando ouço partes da ligação.
—Oi amor! -ele atende se afastando de mim. -tô na fazenda de uns amigos... -nesse momento não consigo mais ouvir, ele se afastou ainda mais.
Amor? ele está namorando? Claro que esta! A ficha cai num ruído barulhento e doloroso dentro de mim. Ele não te ama Malu, ele não te ama, a inoportuna voz está aqui, novamente, me torturando.
Sinto meu coração bater acelerado a ponto de poder ouvi-lo,só então percebo que estava prendendo o ar até agora.
Preciso beber alguma coisa, então pego a garrafa de Budweiser no cooler e abro num só golpe no canto da mesa, queria dar esse golpe na minha péssima melhor amiga que me meteu nesse problemão, saio a procura dela deixando Cristiano a vontade para falar com sua namorada.
Alice sumiu, provavelmente está fugindo de mim e da minha fúria, me sinto perdida e terrivelmente triste, eu sempre soube que ele não me ama mais, mas a cada prova que tenho disso me vejo morrendo de novo, e de novo.
Me sento desajeitada a beira da piscina para observar a beleza da lua refletindo-se na água, tão calma e serena, é o oposto de mim e meus sentimentos turbulentos. Queria ser como ela bela e irresistível para qualquer olhar.
Num súbito de inconsciência me vejo andando em direção a água, como se ela me chamasse para unir-me a ela, talvez seja o efeito das duas garrafas de cerveja que tomei, mesmo com um pouco de medo não desisto,entro na piscina expirando todo o ar que havia reservado para submergir e afundo...
Ainda estou submersa aproveitando meus raros segundos de paz quando sinto um puxão no braço levando me para fora da água, subindo totalmente contra minha vontade, sou salva mesmo quando não precisava de salvação.
—Que merda você pensa que tá fazendo Malu? -mesmo com os olhos fechados conheço bem a voz cálida e doce de Cristiano.
—Nadando, não é óbvio?! -respondo lhe sem olhar nos olhos pois ainda sinto latejar na cabeça às frases da sua ligação, ou talvez seja só a bebida avisando me que está no ápice.
—Não me pareceu que estivesse apenas nadando, pelo contrário, imaginei que não te alcançaria a tempo antes que se afogasse. -diz seco.
—Garanto que não sou tão frágil, não precisa perder seu precioso tempo e claro, estragar suas roupas caríssimas tentando me salvar. -meu tom é ríspido.
—Você ainda não esqueceu a mágoa não é? Ainda carrega os piores sentimentos por mim. -ele balança a cabeça.
—Está enganado Cristiano, o único sentimento que carrego por você nesse momento é a indiferença. -minto debilmente, pois está na cara que ainda sofro por ele.
—Não é o que parece, posso sentir você tremendo daqui e sei que não é por estar molhada. -diz se aproximando.
—Sente? Acho meio ilógico alguém sem coração sentir coisas. -tento inutilmente mudar o rumo da conversa.
—Eu sinto coisas, quer ver? -ele pega minha mão e coloca sobre seu peito, o coração bate acelerado, quase se igualando ao ritmo do meu.
—Viu? -me encara serio.
Retiro minha mão depressa demais, parte de mim queria deixá la ali, matando a saudade, mas aquela corrente fervilhando meu sangue nas veias me denunciaria, não posso permitir.
—Senti sua falta! -se aproxima, perto demais...demais. Minha respiração está fora de controle, entrecortada, descompassada.
O olhar no meu, aquele olhar qual eu nunca tive forças para resistir, me chamando...E como um peixe atraído pela isca, eu me deixo atrair. todo resquício da raiva saindo de mim como a água que escorre pela minha pele ainda encharcada.
Ele toca meu rosto e dou-me o prazer de aproveitar o toque deitando minha cabeça sobre sua mão, fechando os olhos sinto a sensação de ter novamente o alimento que me mantinha viva, o hálito de menta encontra minha respiração, entregando seu propósito para mim.
Seus lábios quentes enfim tocam nos meus, pressionando, implorando e eu me entrego...
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