Você Mudou

16 Capítulo Final


—Alice você pode vir pegar a Jade aqui no quarto, por favor? –digo ao telefone. Preciso estar sozinha com Cristiano, pois a conversa será longa.

—Ah não mamãe! Você prometeu que a gente ia na lanchonete. –Jade contesta.

Enquanto convenço minha pequena teimosa a ir com a madrinha, posso ver de relance Cristiano observando nossa conversa atentamente. Seu olhar mostra o quanto esta maravilhado com nossa menina, não posso culpa-lo, pois tê-la como filha é como um daqueles sonhos que não queremos acordar nunca.

Alice aparece prontamente para buscar sua afilhada e se assusta ao ver o motivo de eu tê-la chamado.

—Oi Cris. –ela acena irritante como sempre.

—Oi Alice. –responde seco. Pelo modo que a tratou, fico imaginando como será comigo. O frio do medo aparece com força total em minha espinha.

Quando elas saem sou brutalmente forçada a olha-lo nos olhos. Aqueles olhos que podem ver dentro de mim.

—Cris... –começo sem ter ideia do que dizer.

—Por que Maria Luiza? –ele me interrompe me olhando nos olhos.

Sua voz, ainda que cálida como melodia, é dura. Mesmo temendo sua reação eu não me importo pois poder ouvi-lo falar comigo é motivo para despertar uma felicidade que há muito eu não sentia.

—Por que fez isso comigo? –a dor e decepção no olhar dele me fez estremecer.

—Cris eu, eu não podia. A verdade é que, eu não consegui, eu tentei, eu... –não encontro palavras para explicar o inexplicável, e o olhar acusatório dele me intimida.

—Você quis me punir, é isso? Quis me castigar por causa de um capricho seu? Me diz? –agora a temperatura atingiu números negativos de tão fria que esta sua voz.

—Não, eu não quis punir ninguém. Só não acreditei que a existência dela faria diferença para você. Você tem sua vida, sua carreira. Eu não encontrei maneiras de fazer uma criança se encaixar na sua vida, Cristiano. –digo sincera.

—Você esta se ouvindo falar, Maria Luiza? Ela não é um violão, não é um carro. Ela é minha filha, como você pode decidir se ela faria diferença ou não pra mim? –vocifera.

—Pare de me chamar de Maria Luiza por favor. –peço engolindo o choro. –Me perdoa eu só não soube como agir e você logo se casou, eu não quis atrapalhar. –continuo.

—Maria Luiza, eu te chamo assim por que não te conheço, a Malu que eu amei jamais me negaria minha filha. –diz desviando o olhar do meu. Eu perco o controle e começo a chorar.

—Eu nunca vou te perdoar, entende isso? NUNCA!

—Cris por favor, eu... –antes que eu encontrasse uma maneira de implorar seu perdão a mãe dele entra no quarto seguida pelo restante da família.

—Cristiano! –ela se exalta indo ao encontro dele para abraça-lo.

Ele quase não percebe a presença das pessoas ali. Esta com raiva. E com o olhar mais duro que já vi em seu rosto ele me expulsa do quarto.

—Sai daqui. –eu penso em insistir, mas seria em vão. Precisamos de tempo para conversar sozinhos, não é o momento. Sua mãe me olha com pena, totalmente sem graça eu desvio o olhar.

—Mamãe. –Jade entra de volta no quarto e me abraça.

Todos param de conversar e nos olham estranhando a cena. Eu nem me dou ao trabalho de tentar explicar, já é chegado o momento de que a verdade seja dita.

—Vamos para casa? –pergunto quase sem voz.

—Vamos. –diz sorrindo.

Jade em toda sua inocência não se da conta da atmosfera complicada em que estamos, então com simplicidade que só uma criança pode ter, ela se dirige para perto de Cristiano e se inclina sobre a cama para beijá-lo no rosto.

—Tchau Cristiano. –se despede. Eu não contenho mais as lagrimas então viro o rosto, não quero que ninguém mais veja a culpa estampada no meu rosto.

—Tchau princesa. –ele beija sua cabeça e sinto que ela o amoleceu.

...

Sinto a obrigação de comer alguma coisa, são quase três dias sem comer nada. Chorar e me culpar pelas decisões estupidas que tomei, foram as únicas coisas que fiz.

—Malu, deixei o jantar pronto na mesa, por favor, coma. –Alice insiste.

—Eu e o Fernando vamos dar uma noite de princesa à Jade, então você vai ficar sozinha em casa. Posso sair tranquila? –ela só pode estar brincando.

—Acha que vou tentar suicídio? –tento fazer uma piada e falho miseravelmente.

—Amiga você esta um caco, anime-se mesmo que para ficar em casa. Penteie o cabelo pelo menos, meu Deus. –sem querer ouvir mais absurdos eu a empurro para fora de casa.

—Cuide bem da minha filha. –ordeno.

...

Depois de dar razão a Alice ao ver o monstro que me tornei, decido tomar um banho e claro, pentear o cabelo. Também comer alguma coisa.

Franzo a testa ao encontrar na sala de jantar a mesa posta, elegantemente com dois lugares, iluminada e enfeitada com flores. Se eu não conhecesse bem a Alice poderia jurar que ela esta aprontando uma comigo.

Pego o celular para descobrir qual a pegadinha que ela tramou dessa vez, mas antes do primeiro toque ouço a campainha tocar. Instantaneamente sei que é ela de volta. Vou atender a porta bastante irritada sem ao menos saber o porquê de tudo isso.

—Você se acha muito esperta não é A..Cristiano? –se essa cena fosse de um filme, com certeza seria de terror.

—Posso entrar? –mal consigo parar em pé por não acreditar que ele esta aqui, imagine falar qualquer coisa.

Ele entra sem que eu tente convida-lo. Seu olhar não tem mais o ódio daquele dia, me sinto mais confiante ao perceber isso, por que decidi que não vou mais perder nenhuma chance com ele, nunca mais o deixarei partir da minha vida. Ele vai ter que me perdoar.

—O que você... –não consigo terminar a pergunta pois ele me interrompe.

—O que vim fazer aqui? –ele ergue uma sobrancelha.

—É.

—Vim ver os tais e-mails que você “não escreveu” pra mim. –diz debochando.

—Ah ta os... o que? –só posso ter passado maconha em vez de shampoo na cabeça. Só tenho dito idiotices.

–Quem te falou dos e-mails? –mais uma idiotice. Somente Alice e Guilherme sabem dos e-mails, como ele esta viajando, claro que foi ela. Balanço a cabeça frustrada comigo mesma.

—Alice esteve ontem na minha casa e conversamos por um bom tempo sabe. –ele me encara com o olhar misterioso.

—Bom, se você esta aqui, posso concluir que ela te convenceu a me dar uma chance de defesa.

—É isso. Mas primeiro quero jantar, depois ver os e-mails e se estiverem como imaginei, ai sim te dou uma chance de defesa. –diz em tom de brincadeira.

Suspiro aliviada em pensar que, talvez, eu tenha a chance de conseguir seu perdão antes mesmo do que esperava. Sem demora eu o levo ate a sala de jantar, e como não fazíamos há anos jantamos sem pressa, sem nada que nos interrompa.

—Quer ver meus e-mails agora? –pergunto receosa depois de juntar os pratos.

—Quero ver os “meus” e-mails agora. –ele sorri. Nada no mundo, nenhum premio seria mais valioso do que ter esse sorriso para sempre, só para mim.

...

—Eu imprimi todos eles na noite que você se acidentou, talvez por saber que estava na hora de contar pra você a verdade.

—Posso? –ele pega as folhas da minha mão.

Depois de muito tempo totalmente em silencio, ele acaba de ler todos, um a um.

—Ela nasceu com 3.850kg? –pergunta surpreso.

Eu não tenho mais forças para ignorar o choro preso na garganta, então desabo.

Culpada eu deixo as lagrimas seguirem seu percurso pelo rosto imóvel e olho para ele suplicando por perdão.

—Me perdoa. –digo soluçando.

—Eu já te perdoei Malu. Desde o minuto que a Jade me deu aquele beijo no hospital, eu não me vi vivendo outra vida senão uma que inclua vocês duas.

—Cris... –ele me interrompe outra vez.

—Eu estava triste, desolado na verdade, por você ter me privado de tanta coisa com a Jade. Isso eu pensei que não perdoaria. Mas eu tinha que inventar um jeito de consertar as coisas, então ontem a Alice esteve na minha casa e depois de me xingar bastante. –ele revira os olhos. –Ela me contou tudo o que você teve que enfrentar por não ter dito a mim. Disse também que você foi ao meu apartamento aquele dia para contar, mas foi desmotivada pela minha maneira de falar. E depois falou dos e-mails. –suspira profundamente. –Então eu me lembrei que só a minha doce Malu poderia inventar uma maneira tão delicada de me manter por perto.

Eu não consigo falar nada, não consigo. As lagrimas que tanto guardei para esse momento me impedem de falar. Me sinto sufocando.

—Chega Malu, chega de chorar. Acabou. –ele limpa meu rosto com o polegar.

—Então por que não me sinto feliz? –pergunto entre soluços.

—Por que você ainda não acredita que acabou. –ele toca meu rosto com a mão e me sinto refrigerada, é como um balsamo para a dor.

Se aproximando lenta e delicadamente, ele encosta os lábios quentes nos meus. O sabor maravilhoso de menta ainda é o mesmo. Apaixonada como sempre fui, eu o deixo me beijar. Beijos delicados por todo o corpo me marcam como tatuagens, para sempre.

Como um termômetro ao ser colocado em brasa sinto a temperatura do beijo subir a ponto de explodir em milhares de pedaços. Divididos entre o amor adormecido e o fervor da saudade, caímos do sofá que ficou pequeno diante de tanta vontade. Arfando paro para recuperar o folego.

Não podemos mais conter o desejo, ele esta ardendo entre nós, então inconscientemente tiro minha roupa desajeitadamente, o que não faz a mínima diferença agora. Ele sem tirar os olhos dos meus, também tira as suas.

Sem mais demora, sem mais impedimentos e sabendo o tanto que nossos corpos demoraram em se unir novamente, nos entregamos ao delirante prazer de ser um do outro.

Me sinto dentro da sua pele, dentro de sua alma transparente. Unidos de uma forma única e irreparável. Com toda a força que tem a paixão, sou dele e ele é meu, como sempre foi e sempre será.

Não uma, não duas, mas três vezes o incansável desejo esteve ali, se fazendo digno do nosso amor.

Eu queria poder voltar atrás e não ter estragado nosso futuro, mas agora diante desse amor quase visível, que se fosse, seria colorido, entre nós percebo que as coisas acontecem mesmo quando tem que acontecer.

—Meu Cristiano. –digo deitada em seu peito nu.

—Minha Malu. –diz afagando meus cabelos.

—Casa comigo? –pergunta direto.

Não sei se é sua voz, ou se é uma musica, mas emociona. Me deleito na maravilhosa sensação de poder ouvir a frase que esperei desde o dia em que o conheci. O que dizer diante disso? Como dizer a ele que é o que mais quero nessa vida? Só há uma forma.

—Sim, para você será sempre sim. –digo olhando-o de olhos marejados, agora de felicidade.

Por milhares de segundos, ficamos apenas olhando um para o outro, declarações de amor sendo ditas no silencio. Nessa noite ninguém cedeu ao sono, talvez por temermos acordar e não ser real.

O sol em toda sua majestade assumiu seu lugar e nós ainda ali, nos amando incansáveis. A sensação é... inenarrável.

...

Sentada em seu colo no sofá da sala, juntos, estamos vendo os álbuns de fotos da Jade. Ele cada vez mais apaixonado pela filha, e eu cada vez mais por ele.

—Mamãe? –ouço a voz espantada da minha pequena. Ela nos encara observadora.

Alice a coloca dentro de casa e com um sorrisinho travesso volta para a porta a fim de deixar a família a sós. Eu sorrio para ela com o sorriso mais sincero que posso, com a intenção de dizer a ela o quanto sou grata por sua amizade, e por tudo o que fez por mim.

—Filha, vem aqui, mamãe tem uma coisa pra te contar.