Você De Novo?
6 Reunião com Satã
Notas iniciais
Boa leitura!
Moradia no Inferno dia 5
Eu estava enlouquecendo. Eu poderia mentir simplesmente, dizer que eu havia deitado na cama e dormido como uma princesa, mas se fizesse isso estaria sendo a mentirosa do ano com vocês. A verdade era que eu me sentia suja, culpada e mais nojenta do que nunca, depois do que aconteceu na noite anterior com Nicholas, eu sempre tive uma grande e extensa reversão pelo garoto, mas eu nem um milhão de anos, poderia sonhar que algo como aquilo poderia acontecer. Talvez beijar Nicholas já esteve em minha mente antes, mas pensei que pudessem apenas ser pesadelos ou então sinais de insanidade para mim, porém, eu via que a reação era reciproca, e aquilo me enjoava mais.
Eu tentei de tudo, desde Gossip Girl à conversar com estranhos no Omegle, mas nada conseguiu salvar-me dos meus pensamentos mais obscuros. No fundo eu tentava me convencer de que tudo o que havia acontecido era um mal intendido, pois afinal, éramos ambos adolescentes bonitos, não acostumados na companhia do outro e partilhando talvez uma espécie de amor fraternal que tenha sido acidentalmente confundido com desejo físico... Mesmo as vezes me perguntando se eu seria capaz de desenvolver qualquer amor fraternal com aquela coisa.
Por favor, aquilo não estava acontecendo. Agora era dia e eu tinha as olheiras tão negras quanto petróleo em meus olhos. Eu havia tentado ligar para minha amiga para conversarmos, mas todas as vezes que disquei seu número, mudei de ideia e cancelei a ligação. O que eu diria para ela? Que beijei meu irmão e que me sentia mal? Ela sentiria nojo de mim, eu tinha certeza. O que eu havia feito era algo extremamente errado e que eu teria que levar a culpa apenas comigo... Ou talvez partilha-la com aquele que causou tudo isso, mas mesmo assim, depois da noite anterior eu tinha uma grande certeza que preferia partilhar coisa alguma com ele.
Olhando por toda a minha lista telefônica, consegui me animar com um só nome que vi ali, e que talvez fosse capaz de me puxar para fora da escuridão onde minha cabeça estava: Christian. Ele era meu primeiro amigo ali e sair de casa poderia me fazer realmente bem, ver gente e esquecer gente, era do que eu precisava e como o bom e velho (não tão velho) fofo que o garoto era, concordou com apenas uma ligação em me encontrar na parque do bairro.
Sinceramente sair de casa não foi a parte mais complicada da minha missão. O pior mesmo foi ter que mais uma vez encontrar meu pai na cozinha, conversando com Jessica e Nicholas, partilhando de um olhar de concordância em pacto de silencio e tendo que olhar nos olhos tão idênticos do meu pai, fingindo que nada havia acontecido. Obviamente mais uma vez rejeitei qualquer conversa familiar que pudesse ter. Cortei o assunto sobre o colégio, dizendo que escolheria um no fim de verão e rejeitei com todas as minhas forças o almoço de família em um restaurante, eu mal suportava ficar em um mesmo cômodo com Nicholas sem sentir vontade de cortar a garganta, quem diria então partilhar uma mesa.
O sol bateu em minha cabeça e finalmente eu estava livre. Eu não sabia exatamente onde ficava aquele parque, mas se Chris havia me explicado bem, não era muito longe de onde eu estava. Eu conseguia ouvir algumas risadas e vozes vindo de longe, meus cabelos estavam presos em um rabo de cavalo, como se estivesse para caminhar, o que enganava junto com meu short preto colado de ginástica e minha camiseta de alcinhas branca que resgatei no fundo do armário, já que não costumava sair para praticar exercícios. Depois de um tempo de chão, pude ver algumas árvores ao longe e um enorme jardim se abrir diante dos meus olhos. Ao canto havia um pequeno parque, onde crianças brincavam acompanhadas dos seus pais, e do outro uma pista de cooper, onde outros corriam. Havia uma senhora sentada em um banco, alimentando um pombo e logo atrás havia uma pequena (nem tão pequena) lagoa que se abria, mostrando o bairro vizinho de sua extremidade oposta. Estreitei os olhos na luz forte tentando achar o ruivo gato que estava a minha espera em algum lugar por ali. Pude ouvir uma risada, vindo do outro lado e caminhando pela pista, tentando não ser atropelada pelas pessoas que corriam, atravessei o parque, encontrando por fim uma rampa, onde haviam alguns skatistas e ao lado um grupo de pessoas que conversavam. Reconheci os cabelos alaranjados de longe, e um pouco sem graça por ver que ele estava em companhia, me aproximei.
-Sid! –Exclamou com o sorriso simpático de sempre. –Que demora, pensei que não ia chegar.
-Eu juro que vim no meu ritmo mais forte.
Falei sem graça dando uma risadinha, enquanto ele ria comigo e pagava o senhor que estava lhe vendendo um sorvete. Cutucou uma garota de cabelos loiros distraída com outro garoto ao seu lado, que se virando de uma só vez em nossa direção pareceu nos notar. Me analisou por um momento, o que me deixou desconfortável, mas antes que eu pudesse sentir qualquer apatia por ela, abriu um enorme sorriso simpático, tão doce quanto o de Chris, parecendo animada em me ver.
-Oi!
-Felly, essa é a Sidney de quem lhe falei! Sid, essa é a Felicity, nossa amiga punk rock modelo.
-Ei Sidney! Ouvi falar muito de você!
Me cumprimentou mais uma vez a loira, me fazendo corar de leve e me surpreender com o tanto que parecia simpática e bonita. Felicity, está aí uma garota que não posso negar ter sentido uma pontadinha de dor de cotovelo. Tinha longos e lisos cabelos loiros, que na ponta faziam cachos pesados, coloridos em algumas mechas em uma cor rosa pink forte, que realçava o tom quase branco do loiro que a meu ver era natural. Tinha um enorme sorriso perfeito e grandes olhos verdes, sobrancelhas delineadas onde no canto, podia-se ver um pequeno piercing brilhar. A menina era maravilhosa, sem falar do seu corpo, realmente típico de uma modelo. Era impressão minha ou todos naquele maldito lugar pareciam ter um padrão de beleza impecável? Ali estava o galã homossexual do ruivo Chris e agora a senhorita Felicity perfeição. Onde eu me encaixava naquele padrão?
-Ouviu falar de mim? –Dei uma risadinha insegura. –Bem, espero que coisas boas. Muito prazer.
-Não estranhe, Felly. Sid é meio tímida, mas só de inicio! –Afirmou Chris animado, enquanto passava o braço por volta dos meus ombros. –Tenho certeza que vão se dar bem.
-Sei que sim.
Felly concordou sorridente, enquanto parava os olhos em um rapaz que passava por nós. Colocou o braço em sua frente, o barrando. O garoto pareceu demorar para perceber, mas arregalou os olhos em surpresa assim que foi barrado pelos braços da garota. Olhou confuso para ela, e ainda mais para mim, que retribuía o olhar de confusão.
-Eu juro que te mato se falar que está indo encontrar com Megan.
-Quem é você? Minha mãe?
Perguntou o garoto franzindo o nariz em uma careta. Felly revirou os olhos soltando um grunhido.
-Você é tão babaca, James! Sabe sobre minha história com aquela garota.
-Se ela é uma vagabunda com você, não me importa, Felicity. A história comigo é outra.
-Oi James.
Chris se meteu na conversa, interrompendo a briga com um sorriso. O garoto pareceu só então percebe-lo. Ergueu a mão em cumprimento.
-E aí Christian.
-Olha, eu vou contar para a mamãe que está saindo com a vagabunda da cidade.
-Faça-me o favor, Felly. –O garoto chamado James cobriu o rosto em desdém. –Quantos anos tem? Dez?
Felicity revirou os olhos cruzando os braços e balançando a cabeça negativamente. Bom, eu tinha que dizer, ou era impressão minha ou aqueles dois eram irmãos... E eu apostava meu pâncreas na segunda opção.
-Sidney. –Felly sorriu da forma sarcástica que eu conhecia bem no rosto de uma pessoa. –Desculpe pela apresentação. Esse é meu adorável irmão James.
Bingo.
-Ei.
Sorri um pouco sem graça para o garoto de cabelos também loiros, que agora estreitava os olhos em minha direção parecendo só então reparar em minha presença. Abriu um sorriso para mim assim como havia feito para Christian, em um cumprimento.
-Oi, Sidney. Não costumamos ser assim, ok? Só quando ela está em TPM. –Um tapa na cabeça vindo de Felly. –Ai!
Tentei não dar risada com a cena enquanto assentia. Aquilo fazia tanto sentido. James olhou feio para Felly que lhe abriu um sorriso logo em seguida. Eles discutiam, mas no fundo pareciam ter uma piada interna, o que para mim pelo menos, pareceu que a relação dos irmãos era muito boa.
-Sidney tem um irmão mais velho. –Comentou Christian, me abrindo um sorriso. –E pelo que vi...
-Temos uma relação complicada.
Completei a frase de Christian evitando comentários desnecessários sobre Nicholas. Felly sorriu para mim, como se tivéssemos descoberto a característica que tínhamos em comum e como se isso fosse grandioso. Tentei não rir com a reação.
-Pelo menos não é gêmeo. É uma merda ter de dividir a vida toda com um desses.
-Você me ama que eu sei.
Sorriu James enquanto abraçava Felly que era tão alta quanto ele. Dei risada da cena. Gêmeos. Agora olhando de perto eu via como ambos eram realmente parecidos. Os olhos de James eram tão grandes e verdes quanto os de Felicity, porém seu estilo era completamente diferente do da garota. Usava uma camisa quadriculada e um jeans surrado, que parecia bem o estilo de skatista que algum garoto teria... Ou então surfista. Tinha os cabelos lisos que escorriam por seu rosto e eu conseguia ver um rabisco em seu antebraço, o que era provavelmente uma tatuagem. Sempre quis uma dessas. James se parecia, ou melhor, me lembrava muito um personagem de uma série de livros que eu costumava ler. Qual era mesmo o seu nome? Jason Grace, creio eu, personagem da sério Heróis do Olimpo de Rick Riordan. Sim, aquela série foi basicamente o início do meu amor por leitura.
-Por que ao invés de se encontrar com Megan, não anda com a gente?
-Até tu, Christian? –Perguntou James em um tom engraçado, fingindo-se tocado por uma “traição” do ruivo. Olhei com um sorriso a cena. –Pensei que pudesse contar com você, mano. Agora estou perdido aqui no meio do mundo feminino da minha mãe e da Felly.
-Tem o seu pai.
-Ele não conta.
-Eu ainda acho que somos companhia melhor. –Comentou Felly. –Aposto que vai gostar muito mais de conhecer gente nova. Olha só a Sidney!
-Não se sinta ofendida. –James se virou em minha direção, me pegando completamente corada pelo comentário de Felly. –Você é uma garota muito bonita, Sidney, mas eu prometi me encontrar com ela.
-Por mim tudo bem.
Ergui as mãos em rendição, fazendo-o dar risada. Felly revirou os olhos enquanto Christian abria um sorriso torto.
-Eu desisto de você.
-Pode desistir. Mas até o jantar. –Brincou James enquanto dava um beijo na bochecha da irmã e acenava para mim e Chris. –Até mais, vocês dois. Seja bem vinda, Sidney.
-Obrigada.
Agradeci com um sorrisinho enquanto o via sair. Meus olhos se voltaram para Chris e Felly, que soltava um suspiro enquanto agarrava um sorvete e me erguia outro, oferecendo. Agradeci e aceitei.
-O que aconteceu com a tal Megan?
Perguntei curiosa.
-É uma vadia qualquer, mas não quero falar sobre isso. –Felly deu de ombros. –Agora, Sid, vamos te apresentar alguns amigos.
(...)
-Então a Texana ainda não conhece ninguém.
A imitação de Christian me fazia gargalhar enquanto caminhávamos de volta a minha casa, acompanhados de Felicity que dava risadas tão altas quanto as minhas em relação a imitação de Christian sore Frank. Eu havia conhecido uma galera que eram amigos e até mesmo não amigos dos dois, uma galera peculiar e uma galera até que bacana... Um garoto havia até dado em cima de mim! E agora eu tinha que aturar as brincadeiras de Christian, que o imitava com um sorriso no rosto e tomava o seu quarto sorvete agora no fim do dia. Eu nem acreditava que havia passado a tarde inteira fora. Felly era uma fofa e eu realmente havia amado a garota... Coisa que não deixaria Callie feliz, com toda a certeza, mas talvez as duas até se dessem bem! Ia ser ótimo quando Callie viesse, eu lhe apresentaria todos os meus amigos, porque bem, agora eu já tinha os meus!
-Sidney, tenho que admitir... Você se saiu melhor com o pessoal daqui do que eu imaginava.
Felly riu enquanto Chris saltitava a nossa frente, o ruivo assentiu, dando-me um meio abraço, com o braço por cima do meu ombro.
-Melhor do que imaginávamos com certeza! O que achou de Frank?
-Não é meu tipo. –Fiz uma careta, dando risada com a animação dos dois. –Não sei...
Bem, Frank parecia um bom garoto, devo admitir, mas... Algo no topete e no jeito em como ele parecia ser ligado em um baseado me fazia questionar se éramos realmente bons um para o outro. A resposta que achei foi: Não. Felly havia me dito que ele era ex namorado de uma amiga e que ele era super romântico e tal.. Mas considerando minha vida nos últimos dias, romance era a última coisa pela qual eu procurava... Na verdade estava muito confusa se um dia voltaria a gostar de homem, devido ao meu último trauma. Talvez Felicity fosse minha próxima pretendente... Só que não.
-Bom, desde que não se envolva com Tony...
-Ou Patrick...
-Ou Lucas...
-Ou Elliot...
-Ou Chris...
-Ei !
Dei risada com a lista que meus amigos faziam dos caras que eu não deveria ficar. Revirei os olhos enquanto via Christian protestar a brincadeira feita pela a loira com os olhos arregalados e uma cara de indignação, balancei a cabeça negativamente, enquanto fingia ter nas mãos um papel e uma caneta.
-Anotado.
-Eles são os babacas do bairro, ficam com todo mundo.
-Sim, sim... –Concordou Felly. –Fique longe, é furada. Já tentei ficar com Um deles, mas... bem, não rola, eles esquecem da gente no segundo dia.
-Anotado.
Concordei. Hm... Será que um desses ia fazer mal? Era impressionante como Felicity e Christian pareciam conhecer todos do bairro. Era como se eles fossem as pessoas mais populares do mundo, mesmo sabendo que eles não eram aqueles populares, muito menos metitidinhos como os que normalmente encontramos. Eles só conheciam gente... muita gente... O que me fez pensar por um momento.
-Conhecem Nicholas?
-Quem?
Felly se virou em minha direção curiosa, junto de Chris. Ambos observaram-me por um momento.
-Nicholas. Cabelos castanhos, lisos, olhos azuis...
-Nicholas Lynn?
Assenti. Christian olhou curioso para Felly, que parecia ser a única a conhecer meu irmão, era curioso saber que a loira sabia mais sobre a vida alheia do que o ruivo. Abri um sorriso, olhando para meu amigo.
-Nicholas Lynn... Não conheço.
-Eu conheço. –Felly deu de ombros. –Um ano mais novo do que eu, não é? Estuda na West High School... Sim, sim... Acrescente esse na lista dos não pegáveis.
Abri a boca para falar, mas não saiu som. Nicholas estava na lista dos não pegáveis? Mas por que? Qual seria a fama do meu irmão, da qual eu não estava sabendo?... Ah, por conhece-lo bem eu meio que já imaginava.
-Por quê?
Chris perguntou, salvando-me de minha curiosidade. Felly deu de ombros.
-Não sei se ele é galinha, realmente, mas eu tinha uma amiga que era completamente apaixonada por ele. Tipo, aquelas paixões desde a sexta série... Sabe a Hannah, Chris?
-Gata.
-Exatamente. Ele não deu a mínima pra ela. E eu nunca o vi com garota alguma...
-Talvez seja gay.
Os olhos de Chris brilharam, mas Felly assentiu negativamente.
-Não... Tenho quase certeza que não. Mas ele é inalcançável. Pelo jeito se acha bom de mais para todo mundo.
Meu queixo caiu. Wow. Então quer dizer que Nicholas era o desejado inalcançável? Quem diria. O conhecendo bem, eu imaginava que ele fosse o garoto que ficaria com metade do bairro, pois vamos admitir... Nicholas é bonitinho. Ele era bom para todo mundo... Não pra mim... Ele havia me beijado. Senti um arrepio horrível tomar conta de mim e logo meu estômago ficou do tamanho de uma ervilha. Que tipo de pensamento era aquele? Que coisa horrível, Sidney! Ele é seu irmão e além do mais, é abominável. Nem deveria ter perguntado sobre ele.
-Por que perguntou, Sid?
A pergunta de um milhão de dólares saiu da boca da loira e sem uma resposta direta minha. Dei de ombros soltando um suspiro.
-Ele meio que é próximo meu...
-Próximo?
Ela ergueu uma sobrancelha, curiosa. Assenti sem dizer mais nada. Eu não queria dizer que ele era meu irmão, pois ia parecer que eu estava investigando a opinião alheia a sua relação... O que na verdade eu estava fazendo, mas não era por benefício dele... Na verdade eu o queria o mais longe possível de mim.
Mais alguns metros percorridos e logo estávamos na frente de minha casa. Me despedi do pessoal e tomando a respiração mais funda que consegui, entrei no inferno que ultimamente chamava de casa. O ar cheirava um frango que ao meu ver de ser faminto, me parecia delicioso... Mas onde havia comida, havia movimento e onde havia movimento havia família e onde havia a minha família, havia desgraça. Provavelmente Jessica faria uma quantidade de frango maior e quando todos se recolhessem eu poderia comer um pouco. Eu havia emagrecido desde que havia chegado, já que tentava ao máximo não deixar meu quarto, mas eu preferia assim. Melhor a dor da fome do que o sofrimento de abrir a boca para conversar algo com aqueles que apenas atormentavam minha vida. Eu queria saber voar, porque assim que me aproximei da entrada, passos altos soaram em minha direção e eu percebi que não estava sozinha.
-Filha! Como foi com os seus amigos?
-Foi bom, pai.
Respondi em tom um tanto simples, enquanto ele me abria um sorriso satisfeito. Assentiu ao meu comentário, como se fosse precioso.
-Fico feliz que esteja se adaptando! Chegou bem na hora do jantar. Pedi para Jessica fazer o seu prato favorito: Frango assado com batatas e queijo... Ainda é esse, não é?
Senti minha boca salivar quando papai tocou no assunto de batatas, frango e queijo, o que era meu prato favorito desde pequena, mas tentei ao máximo ignorar os roncados da minha barriga e a fome que pareceu triplicar. Não Sidney... Respirei fundo, o olhando séria.
-É... Mas não estou com fome, depois eu como.
-Mas você nunca janta com a gente, filha. –Papai franziu a testa. –E é o seu favorito.
-Eu passo.
-Ou-ou-ou. –A voz veio tão rápida que mal havia reparado sua presença, quando o braço me abraçou pelos ombros e com um sorriso estranhamente familiar, acenou para meu pai, me levando para longe. –Um momento pai, vou dar uma palavrinha com minha irmãzinha querida.
Em qualquer outra situação eu adoraria ter sido levada para longe, mas considerando que a pessoa que havia me afastado era aquela dos meus pesadelos, o momento me pareceu o pior possível. Eu estava com a mínima vontade de ter uma palavrinha com Nicholas. Na verdade eu tinha a mínima vontade de olhar em seu rosto. Eu havia evitado qualquer contato com ele desde o dia anterior, e agora ele estava dificultando aquilo. Me puxou para dentro da sala do piano, onde papai não poderia nos escutar.
-Qual é o seu problema?
Perguntei irritada, me soltando dos seus braços. Nicholas não pareceu tímido comigo, como estava de manhã. Ele estava irritado e não hesitava em me olhar fundo nos olhos, acho que alguém também havia acordado com o pé esquerdo.
-Qual é o meu problema? No momento: Você.
Revirei os olhos com sua resposta, então por que eu estava ali mesmo?
-Ok, vou resolve-los para você. Tchau.
-Não, não, não. –Me puxou mais uma vez, fazendo-me afasta-lo de novo. Odiava quando me puxavam! Não havia coisa mais irritante. –Você não vai chegar a lugar nenhum agindo como você está. Não é legal bancar a filha rebelde e eu francamente não me importo, desde que seja você quem esteja se fodendo, mas seus atos mimados estão começando a refletir na gente.
-Como é que é? –Meu queixo caiu e um olhar descrente foi tudo o que Nicholas recebeu em primeiro momento. Ele falava sério. –Eu não quero bancar a filha rebelde, meu bem! EU quero distância de vocês.
-Sei disso, e acredite, nós também. –Ai... –Mas você ficar de birra não vai te ajudar e nem vai ajudar a gente. Acorda. Moramos em uma mesma casa, se não percebeu. Aqui não é seu castelinho.
Meus olhos fuzilaram o garoto por um momento. Quem ele pensava que era para já chegar me atacando daquela forma? Prendi a respiração, o observando completamente séria. Eu queria arrancar seus olhos, e por pouco não faria.
-Se é tão infernal viver comigo, por que ainda tenta? Eu estou bem no seu canto.
-Por alguma razão estranha, minha mãe se preocupa com o que você pensa dela. –Revirou os olhos como se também não entendesse. –E papai nos fez ficar na porra do cozinha cozinhando a porra do seu frango desde que eu voltei. Confie em mim, Sidney, você vai comer e vai comer bem.
Tive que dar risada das ameaças ou seja lá o que era aquilo vindo do garoto. Balancei a cabeça negativamente, o observando em tom divertido, Nicholas continuava a me observar sério, porém com um pingo de hesitação em seu olhar.
-Está mandando em mim?
-Ah sim, eu estou.
-Quem você pensa que é?
-Se o pai não tem coragem de te dar umas palmadas, eu tenho.
-Que medo.
O bate boca poderia continuar pelo resto da noite, mas por alguma razão, ambos pararam de discutir. Os olhos se cruzaram mais uma vez, dessa vez estreitos e raivosos. Eu não me importava que ele estivesse irritado, ninguém mandava em mim e se alguém tinha esse direito, com certeza não era Nicholas. O silêncio não me incomodava se era o que ele pensava e logo eu estaria me virando e o deixando encarando a parede sozinho, mas algo me passou pela cabeça: Por que inferno eles continuavam tentando? Eu não acreditava na história da madrasta boa, eu sabia que para ela eu era apenas um parasita da porra do outro casamento... Mas por que tentar agradar tanto o meu pai? Eles já não estavam casados?
-Por que você é assim?
Foi minha vez de perguntar, e receber uma sobrancelha erguida da parte de Nicholas. Estreitou os olhos.
-Assim como?
-Por que é tão filhinho de papai? O perfeitinho? O intocável? Não tem moral própria não?
Nicholas deu risada e mais uma vez pude ver o mesmo sorriso que surgia no rosto do meu pai, quando o via sarcástico ou brincalhão. Deus! Por que com tantas coisas no mundo, Nicholas tinha que puxar o maldito sorriso irritante? Eles eram cópias, mas Nicholas era ainda mais detestável! Seu sorriso era ainda mais irritante e mais bonito! Eu tinha vontade de arrancar cada um dos seus dentes quando fazia aquilo.
-Pare de agir como se me conhecesse, Sidney. Você deve estar reparando aos poucos que não conhece, não pode ser tão retardada assim.
-Conheço o seu tipo, Nicholas, já posso tirar minhas conclusões.
-Não seus julgamentos, guarde-os para você. Não pense que eu lhe devo satisfações, porque eu não devo. Eu só gosto de ver o pai feliz, ao contrário de você que não move o dedo para agradar. Aliás, que só tenta complicar as coisas e acha legal.
-E você pensa que me conhece?
-Ah, Sidney... Eu te conheço.
-Isso me parece tanto “eu sei o que você fez no verão passado”.
-Pense o que quiser.
-Eu te odeio.
-Então é recíproco.
Mais uma vez nossos olhos se cruzaram e o silêncio tomou conta do espaço. Nicholas estava perto demais de mim ou era impressão? Quando ele havia se aproximado que eu não havia percebido? Será que eu havia me aproximado? Eu estava ali o tempo todo? Eu não conseguia pensar, pois tudo o que eu via eram os enormes olhos azuis, observando-me em desaprovação, e fazendo meu coração disparar em um segundo com apenas sua respiração. Engoli em seco. Os lábios, os mesmos que haviam me beijado há pouco, que me deram a sensação do melhor beijo que já havia experimentado e que havia me levado para o mundo em que o errado foi a coisa mais deliciosa que já havia feito. Eu tinha vontade de beija-lo de novo? Sim, muita, e aquela certeza acabava comigo. Eu não tinha ideia do que seria de mim ali, sob o mesmo teto daquele que me deixava na mais completa confusão e que conseguia me ter com apenas o olhar. Umedeci os lábios com a língua, enquanto seus olhos acompanhavam o movimento, demonstrando o mesmo brilho que havia nos meus: Desejo.
Hesitação de ambas as partes, ambos sabíamos que o que estávamos fazendo era completamente errado, e sentir o que sentíamos era mais ainda. Eu não tinha reação, eu não tinha pensamentos. O cheiro da comida me matava e eu sabia que ele ia vencer no fim das contas, eu ia jantar com meu pai e a mãe de Nicholas e eu ia olhar naqueles olhos e o querer de novo. Só que eu não admitia aquilo, o sentimento era abominável, e mesmo que me custasse morrer tentando, eu o manteria bem acorrentado, preso dentro de mim.
Notas finais
beijo
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