Você
1 Tantos nomes...
Notas iniciais
Quando olho para este instrumento de tortura — espelho — vejo tudo menos a mim. Enxergo teu sorriso tão caloroso, o olhar delicado e a palidez acentuada no rosado de sua pele. Por entre o vidro a pureza permanece, esquecendo cada mentira, cada gota de sangue derramada por você. Todas as cicatrizes evidentes na luz cristalina do amanhecer me lembram de você. Meus segredos estarão a salvos contigo? Eu gostaria de saber. Sou um túmulo, que ira levar sua dor para o outro mundo, com uma lamúria indiscutivelmente tão profunda quanto o mais obscuro dos abismos.
Esquecer é apagar o que me tornou o que sou hoje. Essa dor que permanece mesmo após a ferida ter sido cicatrizada é a mais clara memória de tudo que eu sentia por você, um misto de coisas indescritíveis. Palavras me engasgavam e continuam em minha boca — como veneno —algo que eu jamais poderia lançar a você.
Essa obsessão cresceu como uma árvore, cujos frutos apodrecidos danificaram meu coração. Suas raízes demasiado encravadas nos tecidos mais sensíveis em mim, impedindo que sua remoção seja indolor. Como um parasita esse amor se aproveita de mim, alimentando-se de cada lágrima e miséria que poderia existir em meu ser. Apenas o vazio sobra, por fim me vejo dependente desta paixão insalubre para conseguir sentir algo.
Esta mente nunca mais será a mesma. Esta pele nunca mais será perfeita. Este coração jamais ira bater tão alegremente. Este sorriso nunca mais ira aparecer. Nunca mais ouvirei sua voz dócil e calorosa.
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