Você
6 Capítulo 6
Você se acorda assustado com a suave luminosidade que atravessa pelas frestas das persianas de bambu. Você não tem ideia de onde está e muito embora a decoração tradicional japonesa rica em tons vermelhos lhe dê uma boa noção de onde poderia ser, você se recusa a acreditar naquela possibilidade. Não havia chance alguma de você estar no quarto do velho, por isso você tenta se lembrar do que havia acontecido na noite anterior. Além de infrutífero, o esforço aumenta o seu mal-estar e você tem certeza que seu estômago está mal. Muito embora você não saiba descrever bem o que sente, sabe apenas que aquilo piora quando uma voz fina e alta adentra seus ouvidos.
–Acordou, bela adormecida? Já passa do meio-dia, seu folgado. Se eu soubesse que ia demorar tanto eu não teria aceitado o Koujaku ter me deixado aqui tomando conta de você. Eu lá tenho cara de babá? Ainda mais de marmanjo desse tamanho...
Seus olhos se arregalam um pouco enquanto você encara o pássaro vermelho que está lhe dando uma bronca. Ele está voando diante do seu rosto e continua lhe falando sem parar com aquela voz irritante, mas você não consegue distinguir muito bem as palavras. Você se levanta e o chão parece instável por um segundo, mas você se apoia na parede e logo depois volta ao normal. Você mais uma vez tenta se lembrar do que aconteceu, de como você tinha vindo parar na casa do Koujaku, mas os vagos flashes que aparecem na sua mente não ajudam muito. Você se lembra de ter bebido, deixado a garrafa vazia no chão, levado um soco no estômago, e então você magicamente acordou nos lençóis do velhote. Você está sem as camisas e com o cinto aberto, mas calça e bermuda ainda intactas. Certo, você e Koujaku não fizeram sexo, o que é bom, já que caso tivessem feito você ficaria muito frustrado por não se lembrar – muito embora você sempre pudesse contar com o recurso de gravação do Usagimodoki. Oh, sim! O Usagimodoki poderia te contar tudo que havia acontecido. Você olha ao redor e vê os pequenos cubos no criado-mudo ao lado da cama em modo stand-by e suspira aliviado enquanto o pássaro vermelho continua com seu sermão.
–Onde está o velhote? –Você o interrompe em dado momento.
–O Koujaku foi trabalhar, diferente de uns certos pirralhos vadios que só servem para dar aporrinhação para os outros. Ele lavou as suas camisas, estão na secadora, e disse que você pode comer o que tiver na geladeira. Ele deve estar prestes a voltar para o almoço. Ah, e vê se toma um banho, seu fedido! Koujaku deixou toalha e escova de dentes no banheiro.
Você faz que sim com a cabeça enquanto se pergunta o que o mais velho teria na cabeça quando escolheu uma personalidade daquelas para o próprio allmate. Você recolhe seus Usagimodoki antes de seguir até a porta que Beni lhe indicava. Antes de mais nada você se olha no espelho e encara a sua imagem de decadência, com a cara amassada e inchada de sono, além de um olho roxo e diversos hematomas pelo torso. Havia um curativo logo abaixo do seu olho esquerdo, sinal de que Koujaku tinha mais uma vez cuidado dos seus ferimentos.
Aproveitando-se daquela privacidade, você liga o pequeno coelho e pede para que ele lhe mostre através da tela de holograma as cenas mais relevantes do que havia acontecido. Se ver o cabelereiro recolhendo-o na rua já havia sido uma surpresa, vê-lo acariciando seus cabelos enquanto você dormia foi um verdadeiro choque. Você se pega com a mão no mesmo local que a mão do mais velho o havia tocado na tentativa de reviver aquele momento, mas obviamente nem lembranças ou sensações se deram através daquele ato. Você faz o allmate repetir aquela cena mais algumas vezes. Aquilo fora tão significativo que você quase não se importa com o fato de ter contado para ele coisas que jamais havia dito para ninguém, pois no fundo você sabia que ele era discreto e correto o suficiente para guardar o seu segredo.
E porque você realmente não se importava que ele soubesse.
Porque você se sentia mais próximo a ele agora que ele sabia.
Porque você queria muito se sentir próximo dele.
Você solta um sorriso amargo diante daquele pensamento. Você era realmente uma pessoa ridícula, você conclui diante da felicidade causada por um ato tão mínimo. Você sabia muito bem que o moreno era uma pessoa gentil com praticamente todo mundo, e que por isso você não deveria se sentir especial por ele ter cuidado de você ou ter encostado as mãos em você. Você está conformado com o fato de que você não representa nada de especial para o mais velho. Pelo menos, você achava que estava até escutar:
“A gente pode tentar fazer sexo outra vez.”
Se a cena dele fazendo carinho nos seus cabelos você repetiu umas três vezes, essa fala você teve que repetir no mínimo trinta vezes antes de acreditar que era real, e não fruto de alguma distorção na gravação ou problema mental causado pelas pancadas que você havia levado na cabeça ao longo da vida.
Koujaku estava disposto a fazer sexo com você mais uma vez, e talvez dessa vez você pudesse fazer as coisas melhores. Talvez se você fizesse tudo certo, poderia ganhar mais uma vez. Talvez ele fizesse sexo com você muitas outras vezes. Talvez vocês virassem amantes, quem sabe até namorados como Aoba e Clear. Aí Koujaku entrelaçaria os dedos nos seus enquanto vocês andavam de mãos dadas, e você poderia dormir com ele fazendo carinhos nos seus cabelos, mesmo que você não sentisse, e então os seus lençóis ficariam com o cheiro dele, e então você finalmente saberia o que era amor.
Mais uma vez frustrado diante dos próprios pensamentos, você faz o que precisa ser feito: escova os dentes, toma banho e vai atrás do resto da sua roupa para poder ir embora o mais rápido possível, pois aquele lugar todo tinha o cheiro do moreno e aquilo certamente estava fazendo mal para a sua sanidade. Mas quando deixa a suíte, você nota uma silhueta na cozinha conversando com Beni.
Você trava.
Você não entende bem o motivo, mas você sente uma vergonha profunda paralisando o seu ser. Você revê em sua mente as gravações do velho soando preocupado e consternado com a sua situação, quase como se ele se importasse com você. Aquilo aquece seu peito, mas causa agonia também. Você não sabe o que dizer para ele, mesmo sabendo que precisa agradecer pelo fato dele ter cuidado tão bem de você, mesmo quando você estava vomitando na privada dele – apesar de Usagimodoki ter ficado o tempo todo no criado-mudo, você pode ouvir os barulhos vindos do banheiro da suíte nessa parte, e isso obviamente só aumenta a sua vergonha.
Antes que você pudesse pensar sobre como deveria reagir ante aquela situação, o mais velho te avista e vem na sua direção com as suas camisas e gravata nas mãos. Você continua travado naquele lugar, sentindo uma espécie de pânico gelado se manifestar em suas entranhas enquanto ele estende as peças de roupa para você. Com muito custo você as alcança e sente o forte perfume de amaciante – o mesmo que você sentiu nos lençóis dele. Você tenta não se focar naquilo e veste apressadamente as mangas compridas na esperança de sair de lá o mais rápido possível, mas o nervosismo faz com que você se atrapalhe todo na hora de fechar os botões da segunda camisa. Ele parece perceber isso, pois você logo avista os longos e habilidosos dedos repletos de cicatrizes sobre os seus; calmamente passando os botões pelas respectivas casas. Você sente como se algo denso estivesse fechando a sua garganta. Você tenta engolir aquilo, mas não consegue, por isso você apenas se conforma com o fato de que provavelmente vai morrer sufocado em breve.
–Ainda bem que eu consegui tirar as manchas de sangue dessa branca. –Ele comenta casualmente e você, ainda engasgado, apenas faz que sim com a cabeça. –Quando eu te achei você já estava sem aquele gorro estranho, não sei se você estava com ele e o perdeu.
–Tanto faz. –Você consegue falar após muito esforço, sua voz saindo bem mais baixa que de costume enquanto seus olhos se desviam dos dele. Você se sente estranho e ansioso, e nesse momento a única coisa que você realmente quer é sair da frente de Koujaku, mas ele continua a falar.
–Hum... Eu fiz almoço, então... Se você quiser... O arroz está quase pronto.
–Não, obrigado. –Você responde seco, constrangido demais para olhar para ele.
–Tem certeza? Você não comeu nada... E eu fiz bastante comida, então... –Você sente a voz dele falhando um pouco, então você olha de relance para ele e nota que ele parece quase tão constrangido quanto você. É impressão sua ou as bochechas dele estão mesmo vermelhas? Sim, estão e você riria dele se não se sentisse tão mal, errado e desconfortável com a situação. – Bem, é só para não estragar.
–Hum... pode ser...
Ele parece se dar por satisfeito com a sua resposta e volta para a cozinha, destampando a panela de modo que você sente o delicioso e forte aroma da comida à medida em que seus passos incertos o levam até a mesa. Você se pergunta se deveria oferecer ajuda, mas além de não conhecer bem esse tipo de etiqueta (você sabia comer com doze tipos diferentes de talheres e o tipo de taça que cada bebida deveria ser servida, mas não sabia como se portar na casa de outra pessoa), você não entendia nada de cozinha. Você se conforma em sentar e esperar a refeição ficar pronta enquanto o cheiro dos temperos aguça sua fome e espanta o desconforto que você estava sentindo no estômago. Você não se recorda de ter comido nada no dia anterior e Usagimodoki é sua testemunha, por isso você está faminto.
Não demora muito até que ele ponha diante de você uma grande tigela com sopa e outra com um arroz cheio de coisas coloridas e aparentemente apetitosas enquanto comenta sobre o fato de misso-alguma-coisa ser bom para ressaca. Você encara os hashis que ele oferece com um pouco de pânico. Você estava há quase quatro anos em Midorijima, mas aqueles pauzinhos ainda eram um problema, afinal eles não são utilizados para se comer pizza, nem espaguete. Você tenta encaixá-los na sua mão da melhor maneira possível enquanto observa o mais velho trazer a própria comida e se sentar diante de você, fazendo uma reverência antes de começar a comer – enquanto você havia pulado essa parte e já se digladiava com os dois palitos a fim de levar comida para a boca.
–Eu tenho colher, se você quiser.
–Não precisa. –Você responde após finalmente se lembrar do ‘mecanismo de funcionamento’ dos malditos pauzinhos, abocanhando uma pequena porção de arroz. –O que é isso? –Você pergunta apontando com os hashis para a colorida tigela, e ele te olha como se você fosse a criatura mais estranha sobre a face da Terra. Você se pergunta se fez algo errado, mas o fato era que você estava realmente curioso.
–É yakimeshi. Está tão ruim que não deu para reconhecer?
–Não, é que eu nunca tinha comido... É bom.
–Você nunca comeu yakimeshi? –A estranheza se intensificou no olhar dele, e você instintivamente encolheu os ombros, um tanto envergonhado.
–Acabei de dizer isso. –Você responde irritado, desviando o olhar para a sua tigela de sopa, bebendo um pouco dela, estranhando o sabor.
–Certo, desculpe. Às vezes esqueço que você não é daqui. É só arroz com legumes, ovos e carne de porco. Dá para fazer de outros jeitos, mas eu gosto assim.
–Hum... –Você murmura e pondera se seria inadequado fazer a mesma pergunta sobre a sopa da qual você tinha acabado de beber. Melhor ficar quieto, você conclui, deixando que um pesado silêncio tomasse conta da refeição.
–Bem... Sobre ontem... –Ele tosse levemente e bebe mais da sopa antes de prosseguir. –Você se lembra do que aconteceu?
–Quase nada. –Você responde ainda incerto se deveria comentar que tinha gravações de tudo, mas se detém por achar curioso o quão aliviado ele pareceu com a sua resposta.
–Bem, o pessoal do Beni-Shiguri ligou para mim dizendo que estavam batendo em você, e como você estava muito mal eu achei melhor trazê-lo para cá em vez de te deixar na sua casa.
Você apenas faz que sim com a cabeça, seus olhos fixos na sopa enquanto você se lembra das filmagens. Maldito velhote, ele não tinha motivo algum para ser tão gentil com você. Se ele tivesse te deixado lá, tudo seria muito mais fácil, pois sua cabeça não estaria essa confusão atual.
–Hum...
–Bem... E como você está se sentindo?
–Normal.
–Nada de ressaca? Dor de cabeça, nem nada?
–Não.
–Que bom... –Ele comenta, mas no fundo você pensa que não é bom não, pois você queria saber como era ficar de ressaca. Você tinha certeza que uma boa ressaca impediria a vontade que você sentia de beber para quem sabe se livrar daquelas sensações ruins que o perseguiam. Uma boa ressaca provavelmente o classificaria mais próximo ao padrão de normalidade de um ser humano, e você queria muito, muito mesmo ser um ser humano normal. –Você provavelmente não se recorda, mas a gente conversou um pouco antes de você dormir... –Você se engasga nesse momento e precisa tossir um pouco. Você não acredita que ele vai mesmo trazer esse assunto à tona. Você não quer falar disso. Não com ele. Não com ninguém na verdade, mas especialmente não com ele. E você não entende o seu desconforto, pois há alguns minutos você estava quase feliz com o fato de ter dito aquilo para ele. –E você disse que não sente dor. –Sim, ele realmente trouxe o assunto à tona e você fica sem saber como reagir. Você poderia tentar desconversar, poderia negar, poderia dizer que tinha falado aquilo só para zoar com o velho ou ainda poderia simplesmente se levantar e ir embora.
Mas então você se lembrou do alívio que sentiu quando soube que havia enfim se aberto para outra pessoa, e que essa outra pessoa havia se compadecido genuinamente daquela situação, afinal você não tinha nada para oferecer a Koujaku em troca daquela bondade, e ainda assim ele tocou os seus cabelos e fez carinho na sua fronte, e você se sente ainda mais travado ao se lembrar daqueles detalhes. Então você apenas encolhe ainda mais os ombros e continua olhando para sua comida como se esta fosse a mais complexa obra de arte do mundo.
–Eu não sei se eu entendi muito bem o que você quis falar, mas... –Ele novamente limpa a garganta e toma a sopa. Você olha de relance para a face dele e nota que ele parece tão desconfortável quanto você com aquela conversa. –Eu queria tentar te entender melhor. Eu sei que a gente nunca se deu exatamente bem, mas, tipo, se você quiser falar com alguém sobre isso, sei lá...
Ele está tentando ser amigável com você de novo. E por mais que no fundo você goste dele sendo amigável com você, dele agindo como se si importasse com você... Alguns hábitos são difíceis de contornar e você se lembra do que sentiu quando escutou Aoba e Mizuki pedindo para ele ser legal com você porque você era um pobre coitado solitário. Diante dessa lembrança a comida se tornou amarga. A água se tornou amarga. Sua vida se tornou amarga. Porque você era uma pessoa amarga.
–Eu já disse que não quero a sua pena.
Ele respira fundo parecendo cansado, e isso faz com que uma espécie estranha de medo se aposse de você. Você não quer que ele se canse de você. Muita gente já havia se cansado de você: os seus pais, as suas babás, os seus tutores e qualquer um de que você tentasse se aproximar. Você achava que já sabia lidar com isso e que nenhuma nova rejeição poderia abalá-lo, mas aquele sentimento mostrou que você estava errado e pela primeira vez seus olhos buscam as íris vermelhas em pânico e desespero. Ele parece notar isso, de modo que a expressão dele se suaviza um pouco antes de ele continuar a falar.
–Qual é o problema de receber a compaixão dos outros?
Você trava diante daquela pergunta, pois você não sabe respondê-la. Porque ninguém havia te oferecido compaixão antes. As pessoas olhavam para você e viam apenas o seu status, o seu dinheiro. Ninguém parava para pensar que talvez por trás de toda aquela aparente sorte morasse tanta dor e solidão. Ninguém parava para pensar que talvez você tivesse problemas e fosse uma pessoa infeliz. Ninguém fazia ideia de tudo pelo que você precisou passar e por isso ninguém se dignava a sentir pena de você. Em resposta você apenas meteu na cabeça que não precisava da compaixão de ninguém para seguir adiante, mas você nunca se perguntou por que seria ruim recebê-la.
Você nunca esperou recebê-la.
E quando você finalmente recebeu, você não conseguiu lidar com ela.
Mas agora você se pegava desejando-a, apenas porque ela atraia as pessoas para perto de você, e você estava tão desesperado por contato com o mundo que questões como orgulho se tornavam irrelevantes. Foi apenas nesse momento que você notou que estava disposto a aceitar a pena das pessoas, desde que isso lhe desse condições de continuar andando com Aoba, Mizuki e Clear. Desde que isso lhe desse condições de receber os cuidados e os carinhos de Koujaku.
Desde que isso lhe desse condições de, quem sabe, receber ainda mais coisas do Koujaku.
Você inspira profundamente, notando que algo definitivamente havia mudado dentro de você, muito embora você não soubesse dizer ao certo se era bom ou ruim. Ele provavelmente nota o seu desconforto e se levanta da mesa, recolhendo as tigelas já vazias enquanto tenta mudar de assunto.
–Você quer mais?
–Não, estou satisfeito.
O silêncio novamente. Aquele maldito, denso e desconfortável silêncio que indicava que provavelmente era a hora de você ir embora. Que era a hora de você deixar claro para Koujaku que não valia a pena insistir em um diálogo com você, que você não era um ser humano capaz de se socializar e que não era sequer digno da pena dele.
–Eu...
–Eu...
Vocês tentam falar ao mesmo tempo, e o silêncio retorna até o mais velho dizer:
–Pode falar.
–Não, você primeiro.
–Não, não era nada importante, pode dizer. –Ele insiste, e você mais uma vez trava porque não faz mais ideia do que ia falar. A face dele estava corada e isso te distrai a tal ponto que parecia que nada mais no mundo poderia importar. Você sente uma espécie de pânico se acumular, aquela mesma que parecia com bichos revoltos no seu estômago. Você se sente patético e incapaz, e ainda assim ele te olha daquela forma constrangida e inquisitiva que praticamente te obriga a dizer algo.
–Obrigado... –A sua voz sai tão baixa que você logo sabe que vai precisar se repetir. –Obrigado por ter me ajudado.
–Não foi nada... –Ele responde sem jeito, e você nota que o rubor na face dele ficou um tom mais forte. Você se pergunta se não estaria da mesma forma, afinal você está se sentindo muito constrangido. Você se pergunta se a pessoa sente quando está ruborizada, e logo se Koujaku fazia ideia de que a cara dele estava combinando com o quimono.
Silêncio. Mais uma vez aquele silêncio que causava pânico em suas entranhas, e você se via desesperado atrás de um assunto que pudesse adiar a sua partida daquela casa, pois você sentia que precisava muito da presença do homem mais velho. Em meio a sua agonia você lembra que na gravação ele dizia que vocês poderiam fazer sexo de novo, e você se pergunta se estaria tudo bem tocar nesse assunto agora.
–Você disse que...
–Você disse que...
Mais uma vez suas falas sincronizadas se interrompem e então você se adianta, aliviado de não precisar utilizar o único tópico que lhe viera à mente:
–Sua vez agora.
–Certo... –Ele suspira antes de prosseguir. Ele parece tenso e continua corado e você começa a achar aquele fato pateticamente adorável. –Você disse ontem que você... Desde criança, que você não sente as coisas...
–Uhum... –Você confirma após alguns segundos, a fim de ajuda-lo a prosseguir.
–Mas qual exatamente a extensão deste... Problema? Você não sente mesmo nada de dor?
–Hum... Eu não sei exatamente como seja a dor, mas se ela for como eu sentia no Rhyme, é algo que eu nunca experimentei mesmo. Não naturalmente ao menos.
–É por isso que você tem tantas cicatrizes?
–Sim, como eu não sentia dor eu não tinha o instinto de autopreservação, então vivia me acidentando ou me envolvendo em brigas. Quando eu era criança, eu simplesmente não sabia que estava machucando as outras crianças, mas meus pais não entendiam.
–Eles brigavam com você?
Você trava mais uma vez diante dessa pergunta. Por mais que seja reconfortante se abrir com alguém, alguns tópicos ainda são difíceis demais. Por isso você apenas se esquiva.
–Mais ou menos isso.
–É por isso que hoje em dia vocês não se dão bem?
–Pode-se dizer que sim.
–Entendo... Então... –Ele parece enfim se dar conta da sua resistência com o assunto família e tenta mudar o foco da conversa. –Era por isso então que você gostava tanto daquele... Jogo?
–Sim. O Rhyme me passava sensações que eu não conseguia em lugar nenhum. Que eu não consigo mais.
–Entendo... E o resto do das sensações?
–Frio e calor eu consigo sentir com a minha língua. O resto; se for forte o suficiente, eu sinto alguma pressão.
–Então... Então você não sente isso?
Você não entende a princípio do que ele está falando, mas então você segue a direção que as duas íris vermelhas miravam constrangidas e você percebe enfim que a mão direita dele se encontra sobre a sua mão esquerda. Ele estava segurando a sua mão, e você não sabia há quanto tempo. Você provavelmente não notaria se ele não chamasse a sua atenção para o fato, e isso era doloroso. Doía não poder sentir o calor daquele ato. Doía não poder sentir o leve roçar que os dedos deles faziam contra a sua pele. Você apenas abaixou a cabeça, novamente envergonhado demais para olhar nos olhos dele.
–Se você apertar, eu posso sentir.
E então ele aperta a sua mão. Ele aperta a sua mão forte o suficiente para que a pressão vencesse a limitação de seus nervos, e você no fundo do coração o agradece por aquele ato. Era algo tão simples, mas que para você fazia toda a diferença.
Porque é nesse momento que você nota que todo esse tempo você apenas queria ser salvo. Você não sabia ao certo do quê, mas você sabia que precisava ser salvo. E do nada aquele velho patético parecia ser o cavaleiro em uma armadura prateada vindo lhe resgatar da masmorra de insensibilidade, solidão e sofrimento. E por mais ridícula que fosse aquela imagem mental, o que realmente importava era que de repente aqueles bichos no seu estômago (as borboletas, os pardais, os coelhos ou o que fossem) não incomodavam mais tanto assim.
Afinal, você podia senti-los.
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