CAP 12

Clara acorda desorientada e ao mesmo tempo espantada, a respiração agitada, arfando...o peito subindo e descendo, o ritmo cardíaco ultrapassando os níveis normais para qualquer ser humano, está literalmente a ponto de um colapso...a causa de toda aquela agitação?...O maravilhoso e inusitado sonho erótico que acaba de ter com ninguém menos que Marina Meirelles...suspira com medo de admiti-lo até para si mesma. Aquilo foi tão...tão...real...de fato o sentiu tão real...a prova... passa nervosamente saliva nos lábios e é como se o ar lhe faltasse...MINHA CALCINHA!...OH DEUS!...ESTÁ COMPLETAMENTE ÚMIDA!...- Na verdade...eu...eu gozei...repete uma e outra vez em sua cabeça, seu corpo ainda está sob os efeitos do pós orgasmo, esgotado...sem forças devido àquele potente gozo. Clara olha para o lado e fica contemplando a beleza da mulher causadora daquele sonho, ela dorme placidamente alheia a toda agitação da sua companheira de cama, perdida naquele mundo de sonhos nos braços de Morfeu. Clara respira profundo leva as mãos à testa de onde descem gotículas de suor produzidas por aquela fantasia erótica, sente-se ferver apesar do ar condicionado. Clara desvia mais uma vez o olhar para o corpo de Marina...tão linda!...Fica fascinada diante daquela imagem...os cabelos negros como a noite esparramados no travesseiro, o corpo coberto apenas por um fino pijama, essa noite em particular não está envolta pelas cobertas proporcionando-lhe uma visão privilegiada. Sua atenção se volta àquele sonho devasso e tão real!...Inevitavelmente olha pra boca da produtora e um estremecimento a percorre por inteira enquanto se pergunta...será que esses lábios carnudos têm o mesmo gosto delicioso que tinha no sonho, sua mente traiçoeira provoca-lhe com mais indagações...será que...que...essa língua...oh santo cristo...será que essa língua é tão hábil quanto àquela do sonho, será que a usa daquela forma, certamente não seria capaz de resistir ao prazer de experimentá-la. Mais uma vez aquelas imagens se reproduzem em sua cabeça como se fossem de um filme erótico, fecha os olhos e é como se estivesse ali de expectadora, tudo começa num cenário bizarro, ela...santo deus...ela seduziu Marina!...Clara estremece, pode recordar muito bem como aqueles lábios beijavam seu corpo sem deixar nenhuma parte sem atenção, nenhum recanto da sua boca também escapou à destreza daquela língua, sem dúvida ela a explorou com toda propriedade, logo sua mente a remete ao momento em que Marina foi descendo com beijos por seu corpo, primeiro dando chupões no pescoço justo naquele ponto de pulsação provocando-lhe tremores e arrepios, depois alcançou os seios chupando um e outro, mordiscando-os. Clara só com o efeito dessas lembranças sente os mamilos intumescerem, uma vez mais sua respiração se agita...e aquela boca deslizando por seu ventre, as mãos separando suas pernas...- Ahh meu deus!...Clara as pressiona sentindo seu sexo mais uma vez completamente encharcado ao recordar Marina a possuindo, aquela língua movendo-se com maestria em seu sexo, tomando seu clitóris e praticamente o devorando, causando-lhe o mais incrível orgasmo que alguém possa ter num sonho erótico. Todas essas imagens e sensações suscitam em seu corpo uma onda de calor tão intensa que precisa ir em busca de água pra refrescar-se, está ardendo com o corpo envolvido pelas chamas da paixão. Encontra-se tão alterada que não pode continuar naquela cama, assim sendo sai do quarto indo direto pra cozinha. Serve-se daquele líquido frio sentindo-o descer pela garganta e apagando pouco a pouco aquele fogo que a tomou de assalto, passa as mãos no pescoço e o percebe pulsando forte...- Santo deus de onde veio esse sonho, como foi que seu subconsciente produziu momentos tão lascivos entre ela e Marina. Clara senta-se, fecha os olhos e respira fundo com uma sensação de medo e ao mesmo tempo excitação, em toda a sua vida jamais pensou em transar com...não...não...nunca passou por sua cabeça ter tamanha intimidade com uma mulher, nunca imaginou que poderia sentir desejo por uma pessoa do mesmo sexo. Ela leva a mão ao colo, percebe a mesma vontade de ser devorada por Marina, aquilo foi realmente diferente, tão prazeroso quanto se estivesse com um homem, pra ser sincera o que sentiu naquele sonho nem sequer com Fernando chegou a sentir...longe disso, foi indubitavelmente incomparável. Aquela constatação a deixa pasma, fica ali ensimesmada com seus pensamentos. Um tempo depois Clara retorna ao quarto e inevitavelmente seus olhos pousam uma vez mais sobre aquele corpo sensual, analisando-o detalhadamente, essa visão aliada ao ar condicionado provoca-lhe um tremor e sua mente adverte que é melhor ir para o seu quarto, mas as pernas não obedecem...é como se a produtora tivesse um imã que a obrigasse a ficar ali perto dela. A morena cautelosamente retorna pra cama deitando-se de uma forma estratégica pra melhor admirar Marina, ela é realmente uma bela mulher...pensa consigo mesma e um sorriso se desenha em seus lábios...qual seria a reação dela se soubesse do sonho, subitamente o sorriso desaparece e é substituído por um semblante de medo, talvez não agradasse a produtora uma fantasia dessas e definitivamente não gostaria de perder a amizade da pessoa que tornou-se essencial na sua vida. Uma vez mais os olhos da morena passeiam por toda a extensão do corpo da mulher ao seu lado e é tomada por um desejo inexplicável que faz pulsar seu sexo, fica agitada e ao mesmo tempo assustada, pois uma coisa é ter um sonho erótico...outra bem distinta é querer transar...sim...transar com Marina Meirelles em pleno domínio de sua consciência.

Amanhece e Marina desperta, a luz preenche todo o ambiente, olha o relógio é hora de levantar-se, um silêncio incomum chama sua atenção, sai da cama e segue na direção do quarto de Diogo encontrando o berço vazio. Acha estranho o fato e retorna ao seu quarto onde depara-se com um bilhete sobre o criado-mudo que não havia visto antes...

“Bom dia mamãe... decidimos sair um pouco e deixá-la descansar...estamos na casa da Helena

Beijos!!! Clara e Diogo”.

Marina sorri feito boba ao ler aquela palavra...“beijos”...humm...fecha os olhos enquanto se pergunta como seria beijá-la, balança a cabeça espantando aqueles pensamentos...Clara nesse momento não precisa de alguém aproveitando-se da sua vulnerabilidade e sim de uma amiga. Vai ao banheiro tomar uma ducha e fazer sua higiene pessoal, organiza o quarto, veste uma roupa básica, termina suas atividades domésticas e sai na direção do Bistrô de Flávia, faz uns dias que não tem notícias dela.

RESIDÊNCIA DE HELENA...

– Que...como assim?... A incredulidade é notória no rosto assim como na voz de Helena...- Isso é verdade ou está de brincadeira?...Ela fica esperando a resposta que nunca chega...Clara mantém-se calada por uns instantes antes de continuar seu relato.

– Tal e como você ouviu...eu tive um sonho erótico com Marina...Clara sente como se o coração fosse sair pela boca com suas recordações...e...e...sabe...que...

– Que...?... Helena está curiosa.

– Acho que (volta a falar depois de um suspiro)...acho que gostei...diz Clara meio hesitante vendo a amiga abrir e fechar os lábios como que buscando as palavras.

– Você tem certeza do que está me dizendo?...Helena depois de um silêncio interminável e completamente surpresa com a declaração de Clara que por sua vez não é capaz de responder àquela pergunta.

– E que tal?...Helena continua o interrogatório com os olhos brilhantes e usando um tom provocativo.

– Que?...Clara não entende aonde a amiga quer chegar.

– Como ela é na cama?...Pergunta Helena cheia de picardia.

– Helena!...Diz Clara repreendendo-a.

– Qual o problema?...Só tenho curiosidade...dá de ombros enquanto fala tratando aquilo com toda a naturalidade...- Embora tenha sido apenas um sonho, tecnicamente você esteve na cama com Marina Meirelles, assim pode me dizer como ela é...diz utilizando aquela lógica incompreensível.

– Minha mãe do céu!...Como ousa a perguntar isso...o rosto de Clara está ruborizado.

– Ahhh o que você queria...sou curiosa...você vive com ela debaixo do mesmo teto, estão sempre juntas parecendo unha e carne, não dá pra saber onde termina uma e começa outra!...Agora vai me dizer que é completamente alheia à toda atenção e cuidados que ela tem com você, preocupando-se com tudo nos mínimos detalhes (as duas ficam se encarando)...- E acredito que saiba melhor do que ninguém que não é só amizade o que existe entre vocês...não depois desse sonho.

– Eu...eu...Clara não consegue rebater os argumentos de sua amiga e Helena continua...

– Ah por favor Clara!...Não somos crianças você tem consciência do quanto ela zela por você como se fosse seu maior tesouro e não me diga o contrário porque sabe muito bem que é assim!..É tanto cuidado...até parece que você é de cristal, está na cara...ela baba por você e sejamos sinceras que minha amiga aqui também tem uma queda por ela, porque é perceptível o olhar, a conexão, o querer estar sempre perto, sem falar que cada vez que está com problemas é a ela que recorre...Clara a Marina é o seu refúgio...seu porto seguro e embora não admita...lá no fundo você gosta muito dela (Helena diz convicta)...tanto quanto ela gosta de você, isso é evidente...o que sentem é recíproco, sem contar que você está totalmente rendida àquela pequena fera!...Helena aponta pra Diogo que está brincando no chão com seus carrinhos, Clara recorda que ela chama o garoto assim porque uma vez teve que levá-lo ao Centro e Helena ficou cuidando dele. Diogo transformou a sala dela num campo de guerra...tirando coisas daqui e dali, espalhando tudo, parecia realmente um pequeno furacão, a energia dele é tão grande quanto a da mãe. Clara abandona aquele pensamento e retorna às palavras de Helena, sabe que não pode refutar nada do que ela falou, sente o coração palpitar e um enorme medo a invade só com a ideia de que entre ela e Marina possa existir alguma coisa além de uma bonita amizade...e sim Helena tem razão Marina Meirelles é extremadamente cuidadosa no que se refere a ela, desde que se conheceram algo diferente e especial aconteceu...uma energia...uma ligação que nunca teve com ninguém...só com ela!...Fecha os olhos e surgem tantas lembranças de momentos vividos juntas, de como Marina sempre esteve ali pra ela...não importando as circunstâncias...a hora...nada...aquela mulher é imponente, simples, delicada, amorosa...admite pra si mesma...mas só pra si mesma...sim entre as duas existe uma atmosfera de intimidade que somente diz respeito a elas e a mais ninguém. Clara respira profundo e o véu que obscurece aquela verdade cai diante de si...é possível que ela Clara Fernandes esteja “apaixonada” por uma mulher...correção...não por qualquer mulher...por Marina Meirelles...

– Admita Clara...você está apaixonada por ela!...Sentencia Helena tirando Clara de suas elucubrações. A morena olha pra amiga com um olhar perdido pois sua cabeça ainda está assimilando toda aquela informação...e ao que parece Diogo concorda com Helena pois a voz firme do pequeno se faz ouvir por toda a cozinha...

– Mamãe!...

– Viu?...Até o garotinho aqui está de acordo comigo!...Diz Helena fazendo com que as duas caiam na gargalhada, por um lado ela sendo sincera e divertindo-se enquanto Clara por estar nervosa e insegura.

NO BISTRÔ...

– E então...mudou-se mesmo da área cinematográfica pra gastronomia?...Pergunta Marina brincando com a amiga Giselle.

– HA!...HA!...HA!...Engraçadinha!

– Desde que você voltou não saiu mais daqui.

– E como vou deixá-la só em meio a tudo isso.

– Sim...eu sei (tom resignado)...e como ela está?

– Do mesmo jeito (Giselle encolhe os ombros)...não fala nada...não sei nem o que se passa na cabeça dela, ainda proíbe terminantemente que se mencione o nome daquele infeliz.

– Jamais imaginei que Murilo pudesse fazer algo assim.

– Nem eu (Giselle ri sem graça)...nem nas minhas mais loucas fantasias pensei que isso pudesse acabar assim...e olhe que já tive muitas!

– E você sabe qual o paradeiro dele?...Pergunta Marina curiosa...conhecendo Giselle como bem conhece está certa que amiga sabe onde encontra-se Murilo.

– Sim...eu sei...até fui vê-lo.

– Que?...Mas...quando... como?...Se você não tem saído um instante sequer do lado da Flávia.

– Hummmm...tenho meus truques...disse dando de ombros não dando muita importância ao fato.

– E o que foi fazer lá...o que conversaram?

– Acho que já imagina...fui tirar satisfação (agora Giselle sorri triste)...acredita nisso...eu intercedendo pra resolver o casamento dela...e sabe o que aquele desgraçado falou?...

– O que?

– Teve o atrevimento de dizer que eu aproveitasse a oportunidade, porque ele havia me dado a Flávia numa bandeja de prata e que agora eu usasse meus famosos dotes de sedutora pra conquistá-la...acredita nisso?

– Sério?...Nããão...você está brincando, quem diria que Murilo agiria assim, sempre demonstrou ser um homem calmo e amoroso, que coisa mais sem pé nem cabeça.

– Desse jeito que eu estou contando, aquele inútil ousou dizer isso depois de tudo o que a Flávia...Giselle nem continua prefere calar-se.

– E você falou pra ela?

– Ainda não...realmente não sei como fazer isso, como vou dizer que o marido não se importa com o que acontece com ela.

– Você conhece muito bem a Flávia...adverte Marina, ela vai ficar magoada quando souber.

– Ahh...não quero que sofra mais...diz Giselle penalizada...você não imagina o que tenho passado...ser acordada no meio da noite com o pranto dela...me dói vê-la daquele jeito, algumas vezes me aperta enquanto chora é uma cena desoladora.

– Ainda assim não acha melhor que ela saiba a verdade, que termine com tudo isso de uma vez por todas?

– Não!...Não vou falar nada...diz resoluta.

– Você não poderá protegê-la sempre de tudo...ela precisa enfrentar os problemas.

– Não sei...tenho medo da reação dela.

– Mas você tem que contar...é necessário que ela feche esse ciclo para que possa seguir com sua vida.

– Marina...vamos pensar bem...pra que expor tudo isso e magoá-la mais...ele está entregue ao que mais ama...às competições...à velocidade...eu não...então escuta-se Flávia que adentra nesse momento...

– Porque não me disse?...A voz severa dela ressoa naquele lugar fazendo com que Marina e Giselle se virem rapidamente.

– Flávia!...Giselle diz assustada.

– Quero que me diga porque...Giselle saliva um pouco aflita...Flávia está bastante irritada.

– Do que você está falando?...Tenta se fazer de desentendida.

– GISELLE VIEIRA!...Não se faça de louca...não comigo!...Escutei muito bem o que as duas estavam conversando...então você sabe pra onde foi aquele maldito!...Eu peço!...Não...eu exijo que me diga onde ele está...vamos!...Estou esperando...já impaciente depois de transcorridos alguns minutos.

– Bom...eu...eu acho melhor nos falarmos mais tarde...pelo o que vejo aqui os ânimos estão muito acirrados e dessa discussão não quero fazer parte...Marina interfere já saindo.

– Não!...Você fica!...Afinal as duas vivem sempre de segredinhos!...Vamos senhorita Vieira!...Flávia somente fala assim quando está muito irritada com ela...Giselle engole em seco...estou esperando...onde está o crápula do meu marido?

– Está em São Paulo...responde num tom resignado.

– Preciso que você me leve até ele...diz firme.

– Flávia!...

– Flávia nada!...Chame seu piloto quero que me leve!...Marina só observa as duas, sabe que o mais certo a fazer é não se meter naquilo...depois de um tempo Giselle suspira reconhecendo sua derrota.

– Está bem...quando quiser ir...

– Agora!...E você vem com a gente!...Aponta pra Marina que não se atreve a dizer absolutamente nada pois aquele tom não admite réplica.

Flávia e Giselle encaram-se de maneira firme, nenhuma desvia o olhar e Marina as observa surpresa e até certo ponto divertindo-se com aquela situação, pois parecem dois cowboys do velho oeste em meio a um duelo de pistolas no qual Giselle acaba vencendo, mas algo inesperadamente acontece, Gi muda subitamente de atitude deixando Marina e Flávia em estado de perplexidade.

– Não!...Ela fala com uma firmeza quase palpável...não permitirei que você vá atrás daquele imprestável!...Agora é Giselle que está completamente brava!...Não vou chamar ninguém, se quiser ir atrás dele...vá, mas sozinha!....Depois de praticamente cuspir aquelas palavras Giselle faz menção de sair mas para e retorna até onde está Flávia que a olha aturdida, pois nesse tempo todo de amizade não importava nada e nem ninguém...Giselle sempre cedia aos seus pedidos.

– Giselle!...Diz Marina.

– Não!...Não vou me submeter a essa loucura...e olha que tenho apoiado cada uma que vocês já fizeram!...Seu dedo indicador vai de uma a outra...e digo ainda...se ele a deixou foi porque não a queria mais, não vou ajudá-la a rastejar atrás daquele desgraçado...se valorize!...Ele sempre foi um estorvo na sua vida e sei bem o que falo porque se há alguém que conhece profundamente esse seu casamento sou eu!...Agora Giselle resolve soltar tudo...

– Giselle....intervém Marina tentando evitar que aquela discussão vá longe demais...nunca viu a amiga assim.

– Não!...Cale-se!...Me deixe!...Estou farta!...Farta ouviu?...Giselle desabafa e começa a jogar algumas verdades pra Flávia...- Você sempre esteve correndo atrás dele!...Um cara que não acrescenta em nada, vive nessa eterna história de piloto frustrado...nunca sequer conseguiu renome ou estar entre os mais destacados, agora ficar culpando os outros pela sua incompetência isso ele faz muito bem e você toda vez ao lado dele tirando ele daqueles desatinos...e a idiota aqui sendo testemunha de todas aquelas loucuras. Quer saber?....Cansei!...Não me importa se quer ir procurar aquele covarde...vá!...Mas não conte comigo pra isso!...Não con...te!... Giselle dá às costas...precisa afastar-se daquela idiota...como ela consegue estar pensando em ir atrás de Murilo depois de tudo o que ele fez pra ela!...Como!...Marina e Flávia ficam se olhando atônitas... Flávia boquiaberta com aquela reação intempestiva de Giselle, em todos esses anos de amizade é primeira vez que grita com ela.

– Giselle!...Flávia!...Mais uma intervenção de Marina tentando conter os ânimos antes que aquela discussão extrapole os limites, mas é ignorada pelas duas.

– Você não tem o direito de me omitir essa informação!

– Tenho e vou fazê-lo!

– Que porra é essa Giselle!...Esbraveja Flávia fora de controle...você tem que me dizer...não há razão pra se meter nisso!...A vida é minha...miiiinha...então deixe que eu cuido dela!

– Sabe de uma coisa...você está certa, não tenho mesmo motivo pra ficar me desdobrando em cuidados com você!...Pra mim já deu!...Chega de estar sempre ao seu lado escutando suas malditas lamentações quando nem sequer é capaz de enxergar o que está diante dos seus olhos!...Estou até a tampa com tudo isso...por mim você e Murilo podem ir para o inferno!...Giselle está ofegante com toda a raiva que toma conta do seu corpo...Flávia apenas observa perplexa sua melhor amiga transtornada sair do Bistrô, incrédula olha pra Marina que lhe diz...

– Vai deixá-la sair assim?...Flávia leva alguns segundos pra reagir...

– Giselle!...Flávia grita caminhando a passos largos atrás dela e a encontra andando de um lado pra outro tentando acalmar-se, o desconforto por tudo o que aconteceu é visível...Flávia a segura pelo braço...

– Que!...Giselle fala de forma brusca e se solta.

– Por favor!...Pede Flávia...me entenda...não é porque eu queira simplesmente ir atrás dele, implorar pra que volte pra mim.

– Então porque pretende ir?

– Quero saber o porquê.

– Por acaso você está cega?...Agora a raiva de Giselle é imensurável...o cara abandonou você pra competir, quem diabos deixa a esposa pra participar de corridas de carro e ainda diz que isso é o que mais ama na vida...maldito seja!...Quem ele mais deveria amar era você...VOCÊ!...Se fosse minha mulher...jamais...jamais a deixaria por nada nesse mundo...jamais me permitiria separar-me de você nem que fosse por um instante...Flávia observa sua amiga proferir aquelas palavras com um brilho no olhar, através daqueles bonitos olhos negros pode ver também dor e algo mais.

– E você...o que fez por seu amor?...Flávia rebate...fica aí vendo a vida passar, abrindo mão da mulher que ama...sem lutar, sem dizer a ela o que sente...- Giselle compreenda...tenho que fazer isso, não quero acabar assim como você...com o coração anestesiado, por isso preciso ir...logo que termina de dizer aquilo Flávia percebe nos olhos de Giselle uma imensa tristeza e o seu semblante desprovido de expressão. Flávia compreende que se excedeu, se há algo de sagrado na vida da sua amiga é essa mulher desconhecida...mas o que disse está dito, não tem como retirar suas palavras.

– Você não entendeu nada mesmo...não enxerga um palmo diante do nariz!...Nesse tempo todo nunca se deu conta de que era você...que sempre foi você!... Agora Giselle está esgotada...cansada desse segredo...de guardar tanto sentimento só para si...ou como disse Flávia de não lutar por seu amor...enquanto a morena está totalmente surpresa...oh meu deus!...Num segundo todas as peças se encaixam, por um momento Murilo passa a um segundo plano...deixa de existir, ao mesmo tempo em que Flávia tenta assimilar aquela revelação olha fixamente pra Giselle e sem pensar lhe diz...

– Sou eu...sou eu a mulher misteriosa?...

– Sim...sempre foi...Giselle confirma nervosa ficando de costas, não quer que Flávia a veja assim...derrotada.

– Eu...eu...que idiota que eu fui...como não percebi isso antes...sussurra aproximando-se da mulher que a tem amado durante tanto tempo e a toca no ombro, Giselle se encolhe ao sentir aquele contato.

– Flávia!...murmura.

– Porque não me disse e não negue mais...embora de costas pra Flávia...Giselle demonstra apatia...baixa a cabeça balançando-a negativamente...

– Pra que?...Porque que iria falar dos meus sentimentos, seria como jogar palavras ao vento!...Você não me ama e nunca vai me amar!...O fato de saber o que eu sinto é irrelevante...não quer dizer nada!...NÃO ESPERO NADA DE VOCÊ!

– Gi...eu...eu...lastimo muito não poder corresponder a esse amor..agora Flávia tem os olhos úmidos com lágrimas não derramadas, seu coração está duplamente partido com essa verdade que saiu assim de súbito. Giselle por seu lado sorri triste escondendo a dor que aquelas palavras causaram-lhe...NÃO POSSO CORRESPONDER A ESSE AMOR!...- Não é pra menos...sorri triste, não se preocupe...como disse não esperava nada de você, entre nós as coisas continuarão iguais...sussurra...não espera nenhuma reação de Flávia entra no carro e vai embora. Quando perde o carro de vista a morena olha para o Bistrô...um olhar perdido, ainda não se recompôs daquela revelação, simplesmente sente-se num limbo e lembra-se que ali dentro está uma pessoa que pode lhe dar muitas respostas.

Marina está no terraço do restaurante degustando uma das suas sangrias prediletas, dali tem uma vista privilegiada da cidade...é incrível!...Fica esperando o desfecho daquela discussão, sabe que aquelas duas por mais que entrem em atrito sempre encontram o caminho do entendimento, sendo assim aguardará pacientemente até que as águas se acalmem e retornem ao seu curso.

– Porque nunca me disse que eu era a mulher misteriosa que Giselle amava?...Flávia solta de uma vez fazendo com que Marina quase se engasgue com um dos pedaços de fruta.

– Que...mas...co...como você sabe disso?

– Você sabia esse tempo todo e nunca me falou nada!

– Não podia.

– Porque não?

– Porque ela quis assim e você sabe como eu sou, não gosto de me envolver em problemas alheios, certamente não competia a mim divulgar, além do mais que diferença isso faria?...Você não a ama, pra que saber e isso afetar nossa amizade.

– Claro que eu deveria tomar conhecimento Marina...Giselle é minha amiga e confidente, não sabe as vezes em que estive com ela conversando sobre tudo...meu deus!...Com ela não existiam segredos, jamais ocultei o menor detalhe do meu casamento.

– Sim eu sei...estive sempre ao lado dela, sei de tudo o que ela fez, de todo o esforço pra esquecer você, de todo o empenho pra que você fosse feliz, embora essas ações a afastassem muito mais dela e selassem um pouco mais a impossibilidade de um relacionamento com você...sei de tudo isso.

– Ela tinha que ter me contado!

– E dizer o que...ahh Flávia estou apaixonada por você!...Ou Fávia eu a amo...convenhamos não é amiga!...

– Mas...

– Mas...nada!...Flávia essa mulher a ama com todas as suas forças, não sei como soube disso e nem quero saber, mas se estivesse no seu lugar deixaria de me preocupar com Murilo e começaria a dar mais atenção a quem tem sentimentos verdadeiros e sinceros por mim... Marina olha fixamente pra amiga...respira fundo deixando a taça sobre a mesa e reforça o conselho...pense nisso!... Dito aquilo sai não querendo envolver-se mais e nem tomar partido. Na verdade Murilo sempre pareceu-lhe um estúpido idiota que ganhou na loteria ao conquistar uma mulher como Flávia, agora que as coisas desandaram completamente entre eles, de certa forma as chances estão com Giselle. Enquanto Flávia observa aquela paisagem sem de fato ver nada se pergunta como sua vida deu essa reviravolta tão grande.

Marina chega em casa logo depois daquele episódio intenso, sente-se cansada e até certo ponto desanimada, sinceramente espera que as coisas entre aquelas duas se resolvam. No ambiente um silêncio sepulcral, é evidente que a casa encontra-se vazia, observa ao redor perguntando-se porque Clara e Diogo ainda não chegaram, olha o relógio, tira o celular do bolso e liga pra morena, nesse momento a porta principal se abre e os dois que tanto lhe faziam falta chegam...

– Mamãe! Mamãe! Mamãe!...grita Diogo estendendo os braços pra alcançar sua mãe.

– Meu garoto!...Marina recebe-o do colo de Clara...- Olá meu amor...beija a cabeça do menino, ele por sua vez dá um beijo molhado em sua mãe. Clara vê os dois naquele momento fraterno e sorri, é sempre prazeroso estar junto deles, de imediato seus olhos encontram os da produtora e ruboriza-se quando aquelas lembranças vêm à tona, seu corpo responde e Marina completamente inocente e alheia a tudo aquilo. Clara suspira...sente o coração agitar-se...que mulher sensual, esses olhos risonhos e brilhantes, esse sorriso leve e safado ao mesmo tempo...ahhh e esses malditos óculos pretos!...Ohhh Clara!...Diz a si mesma!...Cristo!... A morena mentalmente se repreende.

– Como foi o passeio?... A voz de Marina rompe o fio tênue daqueles pensamentos.

– Foi ótimo!...Responde num misto de nervosa e distraída.

– Que bom...a produtora percebe o rosto da amiga completamente vermelho...- Clara o que houve?...Você está bem?...Pergunta preocupada, estranhamente a pele da morena tinha começado a enrubescer-se.

– Sim...sim...estou bem...diz temerosa de que Marina perceba o que está por trás daquela aflição.

– Tem certeza?...Marina aproxima-se e a toca pra verificar se ela não tem febre.

– Sim!...Já disse que estou bem...responde meio brusca...ela não está em condições de sentir aquele toque então se afasta, Marina fica intrigada com a reação de Clara.

– Vou descansar um pouco!...Diz Clara rapidamente distanciando-se dali, indo direto para o quarto, encosta-se na porta respirando agitadamente...- Meu deus o que foi aquilo!...Com um olhar aquela mulher praticamente incendiou meu corpo!

Na sala Marina está com Diogo...

– Então garotão...você foi à farra com Clara e me deixou sozinha...nem sequer me convidaram pra acompanhá-los!...Ai meu deus que filho desnaturado o senhor me deu!...Diz fazendo graça e sorrindo, olha o corredor por onde Clara desapareceu e sente uma pontada de preocupação...será que aconteceu alguma coisa e ela não quer me contar.

– Você está com fome?...Vamos ver o que há pra comer...Marina vai com Diogo pra cozinha, deixa o pequeno no chão brincando e começa a procurar os ingredientes pra preparar uma massa...sua especialidade, sabe que Clara adora quando ela faz.

NO ESCRITÓRIO DE FERNANDO...

Em sua sala Fernando recebe uma visita...o patriarca do Clã Mendonça, fica sobressaltado isso quer dizer que alguém já deve ter ido fazer fofoca.

– Mário!...Fernando saúda estendendo a mão, gesto esse que não é correspondido.

– Vou ser direto...o que houve entre você e a Clara que não estão mais juntos?

– Quem falou isso?

– Minha mulher me contou...ela almoçou com Clara e ficou surpresa com essa história toda, de antemão fique sabendo que Camila está fora da empresa, não permito esse tipo de envolvimento entre meus subalternos!...Não é uma imagem que me agrade!

– Sim...(Fernando está nervoso e engole em seco).

– Quando vai consertar essa sua atitude desastrada?

– Bom...bom...estou trabalhando nisso...

– Olha Fernando...vou deixar uma coisa bem clara...você sabe a consideração que tenho por Clara e por isso terei que demitir você, isso não me agrada é o meu melhor empregado, mas francamente homem você foi muito burro!...Fernando ao escutar aquilo fica sem acreditar...ohh merda!...Vai perder seu emprego!

– O fato de Clara ter flagrado sua traição foi realmente terrível, afeta a imagem que tem essa Empresa!...Sabe muito bem que um dos pilares desse negócio é que somos uma grande família...acreditamos em valores familiares...investimos nisso, sendo assim não vou permitir que você macule esses princípios!...Sinto muito!...Nesse momento de expansão não posso me dar ao luxo de perder um funcionário como você, mas não tenho outra saída...merda!...Exclama verdadeiramente irritado.

– Mas o que deu em você homem!...Deixar-se ser flagrado pela esposa com a amante...caralho Fernando!...No que estava pensando?...Se beijando num lugar público com outra mulher, no manual do homem casado a regra número um é...a mulher de casa é sagrada, temos nossos deslizes mas elas jamais deverão saber o que fazemos por fora...- Você precisa ajeitar tudo e logo!...A Sandra está em cima de mim, como bem saberá está indignada, logo nem ouse aparecer lá em casa...Clara é como uma filha pra nós e não permito que a exponha a uma situação desagradável como essa, entretanto entendo...somos homens e reconheço que há certas...digamos...tentações, algumas vezes temos que provar certas coisas pra apreciar o menu de casa, isso não quer dizer que vá sair por aí exibindo-se com aquela mulher sem que haja consequência. Espero notícias em breve!.. Sem esperar mais nada Mário sai deixando Fernando frustrado com o desfecho daquele imbróglio...imediatamente pega o celular e digita um número...

– E então o que tem pra mim?...Está bem...olha para o relógio...que tal se nos vermos num café que tem aqui perto...bom...nos encontramos daqui a pouco.

Meia hora depois Fernando e o detetive se reúnem...

– Vamos me conte as novidades.

– Sua esposa vive naquela casa com uma mulher que é a proprietária...o detetive mostra uma foto de Marina e Clara juntas com um garoto sentadas em uma espécie de café ao ar livre, todos estão sorridentes lembrando até uma família...Fernando balança a cabeça afastando aqueles loucos pensamentos.

– Quem é ela?

– Ao que parece as duas são muito amigas...praticamente inseparáveis...Fernando assente pensativo...que raios...de onde saiu essa mulher.

– O que mais?

– Trabalha nos Estúdios Vieira...pelo que descobri ela ocupa um posto alto, acho que produz filmes e coisas assim, no CCAS ela está sempre presente e veja...(mostrando as fotos).

– Estão fazendo um documentário sobre o Centro...sim entendo...diz Fernando enquanto volta o olhar àquelas fotos.

– Qual é o nome dela?

– Escutei uma vez a chamarem de Marina.

– Bem...perfeito!...Fala meio reflexivo ao mesmo tempo que uma pontada de curiosidade surge em sua cabeça...- Mantenha-se vigilante!...Não as perca de vista e me comunique qualquer coisa que descobrir ok?.

– Claro que sim...afinal é o senhor quem paga!...(o homem dá de ombros)...pra mim só importa que esse idiota continue querendo investigar a mulher dele, se vai ganhar mais dinheiro às custas disso...melhor!...Pensa consigo mesmo.