Vocação
1 Memória Reprimida
Notas iniciais
Saí de casa na manhã daquele dia com a sensação de que algo bom aconteceria, não sei como explicar, talvez fosse pelo nervosismo, talvez por ser a primeira turma que eu iria assumir de verdade. O que me incomodava era que estávamos no meio do ano e a turma, provavelmente, não pararia de conversar durante o primeiro dia de aula depois das férias de julho, mas isso era o de menos. Seria minha primeira classe! Sim, consegui superar todos os meus traumas e, depois de muito fazer terapia e tratamento, controlo perfeitamente minhas emoções, tanto que consegui mestrado em história. Claro que calmantes me ajudam a manter a saúde mental, afinal, os psiquiatras diziam que eu tinha grande potencial para virar psicopata, mas eu sempre achei aquela história muito estranha, porque nunca feri sequer um pássaro! Sempre pensei nisso, mas nunca dei muita importância. Minha mãe sempre me disse que começou a me levar ao psiquiatra por um motivo que ela nunca citou, o Dr. Robert sempre me disse que isso era uma memória reprimida e que eu nunca me lembraria dela por conta própria. Se meu cérebro acha melhor que eu reprima isso, quem sou eu pra ir atrás dessa memória?
Oh! Desculpe-me! Saí um pouco do assunto, certo? Bom, lá estava eu indo pra escola privada Crianças de Deus, pro meu primeiro dia como professora. Tinha minha aula inteira preparada. Naquele dia, assumiria o 2º J , segundo o que os professores me disseram, era a pior sala do colegial, mas eu tinha tudo sob controle, ou pelo menos achava que tinha. Falaria sobre a segunda guerra, os adolescentes adoram esse assunto, e estava no planejamento de aulas. Seria perfeito.
Cheguei na escola e fui muito bem recebida pelos funcionários e professores. As borboletas no meu estômago não paravam e quando o sinal bateu, a sensação de que adoraria aquele dia era intensa. Peguei a chave que marcava “2º J” no chaveiro e subi até o terceiro andar daquele imenso prédio. Você deve estar pensando : “3º andar?!” Pois sim, meu estimado leitor e leitora, aquela escola era imensa. Portava na realidade, sete andares sendo que cada um deles tinha oito salas de aula mais o almoxarifado destas.
Cheguei a porta e a abri, me dirigi à mesa e sentei enquanto os alunos se acomodavam em silêncio. Nesse momento estranhei um pouco, pois me disseram que era a pior sala de aula, mas eles estavam tão quietinhos. Esperei o relógio da sala marcar 7:10 e fechei a porta. Escrevi meu nome na lousa : “Allison Nobre”. Nunca gostei do meu nome, mas mudá-lo seria insultar meus pais.
-Sou Allison Nobre, a nova professora de história de vocês. Hoje vamos tratar de... –Um garoto levantou a mão. – Diga.
-Seu nome é ambíguo, pode ser tratado como feminino e masculino, isso não te incomoda?
-Nem um pouco. –Menti.
-Bom pra você.
-Sim, bom pra mim. Continuando, vamos entrar agora na segunda guerra mundial e.. . –Uma garota do fundo levantou a mão, eu cedi a palavra à ela.
-Sabe o que aconteceu com o professor Sílvio? –Deduzi que era o professor que eu sucedi.
-Não, não me falaram nada sobre ele.
-Bem, ele se suicidou, sabe por quê?
-Contas? Amantes?
-Nós.
-Nós?
-É o que dizem.
-Tenho certeza que não foi por isso.
-Você é uma pessoa boa e calma que não liga pro que os outros dizem. Além de não se preocupar com seu nome estranho, também não se preocupa com suas roupas, cabelo, gordura, voz estranha... Realmente admirável.
-Fora da sala. –Minha paciência havia se esgotado e senti meu rosto ficar quente. Aquela garota estava brincando com a pessoa errada. Se eu pudesse, naquele momento, voaria no pescoço dela e apertaria até sentir meus dedos atravessando e quebrando os ossos da coluna vertebral em conjunto com a fragilidade da laringe.
-Eu não vou sair. Deixe-me apreciar os danos que causei.
Foi naquele momento que eu lembrei. Eu não vou sair. Deixe-me apreciar os danos que causei. Não sei se foi o calor do momento, ou a voz meio infantil da garota que provocava meu cérebro; só sei que eu lembrei.
Eu tinha oito anos, minha vizinha sempre me perturbava, batia e inventava mentiras sobre mim, mas um dia eu perdi a paciência. Não sei o que aconteceu exatamente, mas ela caiu no meu golpe do telefone. Passei um trote para a casa dela fingindo ser a amiguinha dela e marcamos um encontro no quintal dela. Fui com o bastão de baseball do meu irmão e a acertei na cabeça antes que pudesse reagir ou me ver. A levei para o porão da minha casa, isso não foi difícil, afinal, meus pais trabalhavam o dia inteiro e meu irmão mais velho já trabalhava meio período, além do mais eu era forte. Meu erro foi ter deixado a cabeça ensanguentada fazer um caminho para minha ruína.
Chegando no porão eu amarrei a garota inconsciente com a mangueira que minha mãe usava para lavar o quintal e fiquei esperando que ela acordasse; lembro que por algum tempo pensei que talvez ela tivesse morrido, isso seria uma pena não é mesmo? Morrer de uma forma tão frágil, tão sem graça, sem sofrimento, sem emoção... Isso não teria a menor graça; e eu sei que nem ela gostaria que isso acontecesse, afinal ela gostava de chamar atenção e sua morte teria que ser dramática, colorida de vermelho e branco. Sim, ela teria que aparecer nas manchetes de jornal e seu nome teria que ser citado na televisão.
Mesmo pequena eu já entendia que quanto maior a desgraça, quanto maior o derramamento de sangue, mais as pessoas darão atenção. Eu também sabia o porquê disso ocorrer. Isso acontece porque as pessoas buscam a desgraça alheia. Ver um indivíduo sofrendo e se martirizando mais do que você, sim, essa sensação é a de alegria. Tenho certeza que você já sentiu isso, se nunca sentiu aproveite o momento e se delicie com a sensação que existem pessoas que estão sendo torturadas nesse momento em diversas partes do mundo, imagine que crianças na áfrica estão matando seus familiares para consumirem sua carne. Apenas imagine essas coisas diariamente e garanto que será muito mais feliz; apesar de que, talvez, você não tenha mais tanta sorte de continuar vivendo por mais alguns minutos. A vida é algo tão simples, tão cotidiano, tão misero e desprezível que as pessoas esquecem a verdadeira importância dela; assim como o pulmão, todos amam e idolatram o coração, mas se o pulmão falhar, se o ar não chegar até ele, se por algum motivo ele parar de funcionar você verá sua frágil vida se esvair de seu recipiente maldito, chamado corpo. Saí novamente do assunto não é? Deixe-me retomá-lo, pois você não tem muito tempo certo?
A minha primeira vítima havia acordado e eu não pude evitar de ficar feliz ao ver o olhar de medo e horror que ela fazia. Tentou fugir, mas foi em vão, então começou a gritar. Eu era inexperiente, ok? A ideia de tapar a boca dela nem passou pela minha cabeça. Isso não fez muita diferença, pois nós estávamos no porão. Subi até a cozinha e peguei a faca que minha mãe usava para cortar carne. Sempre admirei aquele objeto cortante e brilhante, extremamente elegante e eficiente. Voltei ao porão. Não podia deixar minha convidada esperando muito tempo, certo? Ah! Como aquela garota gritava! Era insuportável. Fui até ela e, com a ponta da faca, abri algumas fendas na parte frontal da coxa, que logo deram lugar a uma fonte do líquido vermelho mais brilhante e chamativo que existe na terra: Sangue fresco. Aquilo me levou a loucura, a insanidade finalmente tomou conta de mim. Hoje em dia isso não acontece mais, afinal sou uma profissional, você me entende certo?
Esquartejei a minha inimiga e quando terminei a sensação de missão cumprida, felicidade e satisfação... Ah! Foram tantas as sensações que me invadiram que não sei nem como explicar. Foi incrível! A única coisa que pude fazer foi admirar cada pedaço de carne e cada gota de sangue espalhados pelo chão daquele porão. Acho que se alguém olhasse de fora, veria uma mãe vangloriando seu filho ou um artista apreciando sua pintura depois de pronta.
Minha felicidade não durou muito. Logo minha mãe chegou e seguiu a trilha de sangue fresco. Ela entrou no porão e me encarou horrorizada, mas eu não podia evitar minha felicidade. Ela correu até mim e procurou por cortes em meu corpo, foi quando percebi: Minha roupa estava da cor que eu tanto amava. Depois de um tempo chorando e me analisando, finalmente ela pareceu entender. Eu havia matado e esquartejado a sangue frio a filha da vizinha.
-Allison! Vamos sair daqui! Vou chamar a polícia. – Ela me puxava.
-Não! Eu não vou sair. Deixe-me apreciar os danos que causei.
Sua paciência está acabando? Acalme-se. Não fique tão agitado, estou terminando de contar. Bem, acordei numa sala de hospital e não sabia exatamente o que me aconteceu, mas logo fui informada. Eu havia desmaiado na sala, mas isso valeu a pena. A partir daquele momento eu soube exatamente quem eu era e o que iria fazer em seguida.
Logo levei alta e voltei pra casa, consegui atestado de uma semana e tive que marcar uma ressonância pro próximo dia. Aquilo não me importava mais. A minha recompensa, o sinal que minha verdadeira vocação e instinto me chamavam novamente, veio em seguida. Depois de tomar um demorado banho quente e me sentar em frente à TV para ver as maravilhas ocorridas no dia, meu telefone tocou. Olhei no identificador de chamadas e não reconheci o número, atendi mesmo assim. Era a garota que me fez despertar, ela pediu desculpas e perguntou se poderia me pedir desculpas pessoalmente, mas longe da escola e fora do horário de aula. Aquilo soou perfeito para mim.
Já disse para relaxar! Estou quase acabando meus relatos por hoje. Queria a emoção da primeira vez, fui à loja de esportes Centauro e comprei um bastão de basebol em conjunto com uma luva e uma bola.
O dia chegou. Havíamos marcado o encontro no parque que ficava em frente à minha casa, às 16h00min. Olhei o relógio eram 15h30min. Liguei para a garota e pedi que ela me encontrasse no jardim de casa para podermos ir juntas para o parque conversar, ela assentiu. Quanta ingenuidade é possível em uma pessoa?
A campainha da minha casa tocou. Olhei o relógio: 15h58min. Abri a porta e a convidei a entrar. Ofereci suco e refrigerante, lembro-me que ela aceitou um dos dois. Deixei a garota sentada no sofá e fui à cozinha pegar o taco. Tão despreocupada, tão ingênua. Fazer aquilo foi quase um pecado, mas eu estaria limpando o mundo.
Não preciso nem dizer o que eu fiz, não é? Já no porão, amarrei-a com uma mangueira e coloquei a bola que havia comprado em sua boca. Foi difícil, mas não impossível. Dessa vez estava tudo preparado, o facão estava em cima da escrivaninha. Eu o peguei e sentei-me no chão de frente para a garota, esperando ela acordar.
Quando ela abriu os olhos, me encarou com surpresa. Tentou falar, mas a bola a impedia; na verdade, acho que tentou gritar. Isso me faz rir até hoje. Peguei o facão. A expressão que ela fez foi impagável.
-Se ficar quietinha te deixo aproveitar mais alguns segundos pra pensar em tudo de ruim que fez.
Ela se debatia e o horror estampado em seus olhos denunciava que seu fim estava próximo. Não resisti mais tempo, comecei a passar a ponta do facão pelo braço e os filetes de sangue que começaram a sair me trouxeram a alegria que a muito tempo buscava, que a muito não encontrava, a alegria de ter sangue fresco e quente a minha frente. A cor mais chamativa, o liquido mais brilhante, o cheiro mais delicioso... São tantos os adjetivos que posso contar, mas como eu sei que o seu tempo está acabando, assim como sua paciência, me prenderei a apenas esses.
A garota se debatia o que fez com que a faca perfurasse a pele mais do que devia naquele momento. Isso me irritou. Minha mente e alma clamavam para que eu me apressasse e eu obedeci. Não descreverei aqui aquele momento. Foi algo pessoal e que, mesmo se quisesse, não poderia contá-lo. Além do mais, seu tempo acabou.
Foi muito feio da sua parte não me ouvir até o final Dr. Robert, mas parte foi minha culpa. Devia ter feito cortes mais leves em você, sabia que não agüentaria ficar vivo tanto tempo com esse corte no estomago. Bem, você gostava de obras de arte. Pintarei um quadro com seu sangue e enviarei a sua esposa, o que acha? Ótima idéia, certo? Preciso me apressar enquanto seu sangue está fresco. Adeus.
A mulher lançou o machado à cabeça do homem deitado em um divã. Pegou o corpo e a tela que estava à direita, começando seu desenho. A polícia a procura e mesmo chegando perto, ela sempre escapa, pois é a vontade divina que a guia. Sua vida tem sentido. Ela tem uma razão para continuar. Ela faz algo que ama. Poucas pessoas encontram sua vocação, e ela tem sorte de tê-la encontrado.
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