Vocare

6 CAPITULO 5 – Uma visita de Mycroft


Sherlock acordou com algo lhe cutucando no quadril. Sem se mexer demais, olhou para baixo e viu uma ponta de metal brilhante de um guarda-chuva preto firmemente enrolado.

— Vocês dois deveriam estar no meu escritório às 9. Realmente, Sherlock, você adora complicar as coisas, não é? Bom dia, Dra. Hooper. Acho que você vai encontrar uma mensagem de texto minha no seu celular. — Mycroft não parecia estar com raiva. Parecia estar adorando a situação.

Sherlock sentiu algo se enterrando entre seu braço direito e o lado de sua caixa torácica. Molly. Por isso o tom divertido de Mycroft. Ele estava prestes a mandar seu irmão para ir para o inferno, em termos inequívocos, mas então sentiu um minúsculo suspiro de Molly contra suas costelas. Ele gesticulou com a cabeça com um movimento do seu queixo em direção à porta que dizia: "Por favor, seja um cavalheiro, meu irmão, e dê o fora".

Mycroft sorriu.

— Vou fazer um chá, portanto. — Ele removeu o guarda-chuva, virou-se e fechou a porta do quarto. Sherlock esfregou o quadril. Obviamente, uma das armas especiais de Mycroft feita pela James Smith & Sons. Ele teria uma contusão ali, com certeza

Sherlock olhou para o cabelo desgrenhado de Molly. Sua mão baixou para acariciá-lo, e seu outro braço apertou ao redor dela. Como ele se sentia sobre a noite passada? Isso precisaria ser analisado intensamente. Fios de espanto, tristeza, culpa, até mesmo medo flutuavam em sua mente. Costurados com ternura, carinho e proteção. A moldura que segurava todos estes fios era uma estranha e profunda calma, como ele raramente sentia. O mais próximo disso que ele se lembrou, era quando ele tocava Sarabande em D minor de Bach no meio da noite, quando tudo estava quieto e tranquilo. Interessante. Sim, todas essas coisas exigiam uma séria reflexão, mas Mycroft ainda estava no seu apartamento, e, ainda por cima, fazendo chá. Eles não seriam capazes de evitá-lo ou esperá-lo sair. Maldito Mycroft.

— Molly? — Não houve resposta. — Molly? — Ela se enterrou mais fundo.

— Ele não vai embora. Eu também não vou embora. Você vai ter que subir para respirar em algum momento. — Ele acariciou o cabelo macio novamente, se apoiando sobre um cotovelo para olhar para ela.

Ele ficou aliviado ao ouvir um riso abafado.

— Está tudo bem. É só você, eu, e o governo britânico. Desculpe por este último. Eu não achei que dormiríamos tanto tempo. – Sherlock achou isso também muito interessante.

Ela lentamente virou-se para que ele pudesse ver seu rosto. Estava vermelho de vergonha. Seus olhos estavam nublados com... O quê?

— Sim, eu sei que temos que conversar. — disse Sherlock. E se deu conta, ferozmente, que não queria que os olhos dela ficassem nublados. Não queria que ela pensasse seja lá o que fosse... Que ela parecia estar pensando.

Ele se inclinou e roçou os lábios muito suavemente com nos dela.

— Sinto muito sobre meu irmão, mas eu não sinto muito sobre ontem à noite. — Mesmo quando disse isso, ele percebeu que era a verdade. — Você está bem?

Seu rubor se aprofundou, mas as nuvens diminuíram.

— Definitivamente bem. — ela sorriu.

— Tudo bem então. Vamos enfrentar Mycroft, seu guarda-chuva e seu chá. — Ele se inclinou sobre a borda da cama e começou a pescar suas roupas abandonadas. – Você acha que ele vai se importar se eu aparecer de novo só de lençol?

— De novo?

— Longa história.

Ela se espreguiçou na cama, para então se levantar, e começar a se vestir. Tentou esconder o vermelho nas bochechas, diante da nudez dele, e de si mesma. Respirou fundo, mas não vacilou.

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— Ah, bom. — disse Mycroft quando eles apareceram na cozinha. Ele puxou uma cadeira para Molly. — Srta. Hooper. Acho que o chá está pronto. — Seus olhos encontraram o de Sherlock por cima da cabeça de Molly enquanto ela se sentava. Seus lábios tremeram . Ele estava definitivamente adorando aquilo, pensou Sherlock.

Mycroft tinha pegado as melhores canecas. Ele serviu cerimoniosamente , oferendo leite e açúcar. Sherlock decidiu deixar seu irmão ter controle da situação para deixá-lo feliz. Todos misturaram seus chás e tomaram um gole.

— Você assinou o atestado de óbito, Srta. Hooper . O que você acha que aconteceu ? — Mycroft foi bem direto.

— Você pode me chamar de Molly, Mycroft . Foi o seu pessoal que fez os testes de DNA e mandou cremar o corpo. O que você acha que aconteceu?

Empate, pensou Sherlock.

— Mycroft , este apartamento está seguro?

— Sim, claro que está. Mandei minha equipe dar uma nova varredura antes de eu... Acordá-los.

Molly corou novamente. Sherlock percebeu, e não deixou de lhe dar uma ligeira piscada. Ela olhou para sua xícara de chá, sorrindo.

— Oh, pelo amor de Deus. — disse Mycroft .

Ambos olharam para ele. Ele pareceu segurar o que estava na ponta de sua língua. Sherlock decidiu que se Mycroft poderia se comportar, ele também poderia.

— Então... — Sherlock disse em um tom que parecia que estava numa reunião de negócios. -... Morto, morte confirmada, identidade confirmada, cremação confirmada. Certo?

— Sim. — disse Molly e Mycroft simultaneamente.

— Então, há duas únicas possibilidades. — disse Sherlock . – Primeira: ele está morto e alguém está se passando por ele. Segunda: ele não está morto e os dados foram corrompidos em algum momento no processo. Vamos considerar a porta número um primeiro. É possível que o homem no vídeo e o homem que visitou Molly no necrotério não fosse ele?

— Até onde podemos ver nas imagens no vídeo, é claro que sim. Manipulação digital é extremamente fácil. — disse Mycroft.

— É ... — Molly hesitou. — Parecia como ele. Soou como ele.

— Irmãos? Gêmeos? Ou cirurgia plástica?

— Tudo é possível, é claro. — disse Mycroft.

— E se a verdade está por trás da porta número dois? — Sherlock soou desagradável . E se Moriarty não estivesse morto?

Mycroft e Molly se entreolharam . Molly falou primeiro.

— O homem que foi levado ao necrotério estava morto. Agentes recolheram as amostras de DNA enquanto eu estava lá . Em seguida, eles levaram o corpo. Eu não posso dizer com certeza que o corpo no necrotério era o homem no telhado. O corpo parecia com o de Jim Moriarty que eu conhecia.

— Meus agentes estavam no telhado em minutos. Meus agentes levaram o corpo para o necrotério. Meus agentes tomaram as amostras de DNA. Meus agentes estavam encarregados da cremação.

— Então, nesse cenário, poderia ter havido uma troca no telhado antes de seus agentes chegarem. Ou alguns de seus agentes poderiam ter sido corrompidos. Ameaçados ou comprados. Sabemos que Moriarty tinha dinheiro, influência, inteligência, e uma rede de... Operários.

A boca de Mycroft diminuiu em uma linha, e ele e Sherlock trocaram olhares. Mycroft piscou primeiro.

— Não. — disse ele em seguida. — Mas teoricamente possível ambas as possibilidades.

— Então, onde isso nos deixa? — Disse Sherlock.

— Isso nos deixa com proteção e vigilância maior sobre todos vocês, Srta. Hooper inclusive, enquanto tentamos chegar ao fundo disto. Vou enviar-lhe toda a informação que temos sobre histórico e família de Moriarty, Sherlock. Você pode investigar essa possibilidade de ser um irmão. Eu vou começar a testar todos os elos da cadeia relacionados ao corpo.

— Ele é perverso. — disse Molly. — Ele quer destruir a todos nós.

Sherlock a olhou com atenção. Algo passou sobre seu rosto. Medo. Delírio? Ela olhou fixamente para ele, depois para Mycroft.

— Eu estava com ele no necrotério. Quem quer que ele seja... O que ele for...

Ela hesitou. Os olhos de Sherlock se estreitaram. Havia algo que ela não estava dizendo a ele.

— É quase como se ele não se importasse se ele é Moriarty ou não. — disse ela. — O homem que veio me ameaçar no necrotério é perverso. Seja qual for outro plano que ele tenha não se esqueçam disso. Ele quer destruir todos nós. Não apenas matar. Destruir. — Ela ainda estava olhando fixamente para Mycroft.

— Entendido. — disse ele. — Bom dia, Sherlock. Molly. — Então ele se foi.

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— Molly. — disse Sherlock.

— Hmm... — ela disse, não encontrando seus olhos.

— O que é que você não está me dizendo?

— Sobre o que? Moriarty ou a noite passada?

Ah, eles ainda precisavam falar sobre a noite passada, não é? Precisavam? É claro que precisavam. Tudo era tão complicado.

— Moriarty primeiro.

— Eu já lhe disse tudo o que eu pude. A coisa que eu não posso te contar... — ela estava olhando para as próprias mãos. — Por favor, acredite em mim, Sherlock, eu não acho que iria fazer nenhuma diferença. Não em relação ao que vai acontecer. É o melhor que posso fazer de qualquer maneira.

— Ele não te machucou, não é? — Molly balançou a cabeça negando.

Muito, muito estranho. Mas ele realmente confiava nela.

— É claro que eu confio em você. — disse ele. — Com a minha vida. Com... a noite passada. Molly, foi terrível para você? Eu não queria que fosse, mas te disse que não tenho muita experiência recente.

Ele tinha bastante experiência com homens e mulheres durante seus dias de viciado, mas não com alguém com quem ele se importasse. Ontem à noite tinha sido muito importante para ele. Ele não podia dizer a ela que a amava, porque ele amava John. Ela já sabia disso. Era realmente verdade que ele não a amava? Ou que amava John?

Ele sentiu a calma o invadir, apenas olhando para ela do outro lado da mesa. Tudo era tão novo para ele. Cuidar, se importar, ou mesmo amar. Uma certeza ele tinha, estava confuso. Muito confuso. E com medo. Um medo terrível de ferir as pessoas com que ele se importava.

— Molly, eu não quero te machucar. Eu te machuquei? Ainda te machuco?

Ela não respondeu diretamente. Ela se levantou, deu a volta na mesa e se aproximou dele. Ele se inclinou na cadeira e a olhou em seu rosto.

— Estar com você foi maravilhoso, Sherlock. Você não me machucou. Você não está me machucando agora. — Ela tocou seu rosto com uma mão. Seus olhos estavam calmos e sem preocupações. — Podemos voltar para cama agora?

Ele cobriu aquela mão minúscula em seu rosto com a sua própria. Seus olhos pareciam ver tudo, entender tudo.

— Sim. — ele disse, sorrindo. — Sim.

TO BE CONTINUED...

Notas finais
N/A/: As coisas parecem devagar, mas já estão acelerando. No próximo capitulo, o dia começa bem para Sherlock e Molly, mas termina mal. Talvez tenha mais uma cena “adulta”, antes do fim. Agradecimentos a Nathy e Grá. NOTAS: James Smith & Sons ¬ - a mais famosa fabricante de guarda-chuvas do mundo. Foi fundada em 1830 e ainda continua como uma empresa familiar. Sarabande em D minor – música para violino John Sebastian Bach.