Vocare

9 CAPÍTULO 8 – Objeto de Barganha


Sherlock flutuava. Ao seu redor havia apenas escuridão, mas sentia seu corpo brilhar, e qualquer tristeza e aflição não existia mais. Sentindo um calor quente no seu rosto, e sentir a extrema felicidade o invadir. Nada fazia diferença para ele naquele momento. Poderia viver ali para sempre.

Mas como tudo o que parece ser para sempre, sempre acaba, Sherlock sentiu uma dor lancinante em seu rosto. Foi rápida e localizada, para então voltar a doer de novo. E de novo uma terceira vez, tão forte que a escuridão sumiu.

Sherlock abriu os olhos com um grito. Ao levantar a cabeça, o mal estar foi inclemente. Sua boca se abriu, e a única coisa que restava em seu estomago se esvaiu: bile.

– Respirar ajuda. – Sherlock ouviu Moriarty dizer.

Sherlock tentou se sentar e começou a respirar profundamente. Realmente o canalha estava certo. Ajudava a acalmar seu estomago embrulhado. Olhou ao redor, e percebeu que estava em um cômodo vazio, sem janelas, apenas com Moriarty em pé o encarando.

– Onde está Molly? – Sherlock perguntou.

– Perto. – respondeu. Viu que Sherlock tentava se levantar. – Melhor ficar no chão, ou você vai desabar. E eu prefiro você consciente neste momento.

– Por quê? O que fez comigo? Como conseguiu me apagar duas vezes sem arma nenhuma aparente?

– Só uma coisinha que eu consigo fazer com as mãos. É bom, não é? Ficar em um tipo de limbo, agradável e aconchegante... Por isso que é difícil acordar. Você não é diferente.

– Qual seu jogo, Moriarty? Vamos ficar o dia todo conversando?

– Não, não, claro que não. Como te disse antes, preciso de você. Você é a minha barganha. E se tudo der certo, você estará de volta a sua vida insuportável em pouco tempo, sem qualquer lembrança desta situação. Viu? Não sou o monstro que acha que eu sou. Eu tenho um objetivo...

– Molly.

– Exato. E conseguindo o que eu quero, tudo acaba.

– Você não vai conseguir o que quer. Não vou deixar você encostar um dedo em...

– Posso saber como? Você vai me socar com seus punhos humanos e depois esmurrar a porta?

Sherlock se silenciou. Não estava em posição para fazer ameaças.

– Já sei. Vou lhe contar uma história. Se no final desta história, você ainda querer... não sei, me bater... eu deixo.

Moriarty estalou os dedos. E três homens entraram. Dois deles com cadeiras fofas e um, com uma AK-47. As cadeiras foram colocadas próximas onde Henkel e Sherlock estavam. Henkel sentou-se em uma, enquanto pedia para Sherlock se sentar na outra. Os três homens saíram, trancando a porta.

– Não irá demorar. Prometo.

Sherlock, desconfiado, sentou-se.

– Você tem um anjo da guarda, Sherlock. Um Ofanin. Alguém que sempre conviveu com você, ou esteve por perto sua vida toda. Até hoje. Um anjo. Um anjo padrão. Criado por Deus, com asas e divindade. Não uma criança gordinha, de cachinhos e arco e flecha. Um Ofanin se parece com uma pessoa normal. Há outros anjos, como o que eu fui um dia. Um Querubin, um guerreiro, com armadura dourada e uma espada com nome. Eu tinha acesso a Haled e aos Sete Céus. E era, apesar de tudo, bem feliz. Conheci a sua Ofanin em Roma, durante o reinado de Carlos Magno. E eu amava Sraosha mais que tudo nesse mundo. E então, ela me traiu.

Sherlock respirou fundo. Sraosha era Molly para ele.

– Eu não quero mais este estúpido mundo em que Yahweh e Gabriel comandam. Não vou lhe explicar sobre o meu papel no levante. Mas Sraosha sabia dos meus planos, e contou tudo para Harut, sua superior. Harut fez tudo chegar ao ouvido de Gabriel, e fui banido. Eu caí. Desde então, minha vingança é fazer com que Sraosha aceite o que ela mais odeia: ficar ao meu lado. Por isso, destruí todos os humanos que ela teve. E foram vários, inclusive um príncipe Viking, que a ofereceu casamento. Eu a pedi que não interferisse no meu plano, que a parte dela estava guardada, mas ela não pode resistir. Ela tinha que trazer você para esta situação. Se envolver com você. Mudar seu destino. Ela é boa, não é? Aquele negócio que ela faz ao girar os quadris... Não sei onde ela aprendeu aquilo!

Sherlock o olhou com desprezo. Henkel apenas sorriu.

– Ela podia ter ficado no trabalho dela, apenas te monitorando. Tudo ficaria como havia sido planejado desde o início. O nome pra isso é destino. Nem todo mundo possui um destino. Sabia disso? 90% da população não tem. Só para você ter uma ideia: a população europeia está em torno de 740 milhões de pessoas. A porcentagem de Ofanins na Europa é de 0,05%. Você não se acha o máximo por isso? Você é um desses 0,05%. O que faz de você um gênio. Isso significa que você tem uma vida brilhante, capaz de mudar o mundo. Você tem um destino estelar. Ou tinha, até Sraosha abrir as pernas para você. – pausou e sorriu. – Gostou da historinha?

Sherlock cerrou os dentes. Ele não gostava nenhum pouco daquilo. Muito menos daquela história absurda. Moriarty enlouqueceu. Anjo? Por favor! Aquele pensamento o fez rir. Sherlock começou a gargalhar.

– Sabia que você ia adorar.

– Anjo? – e continuou rindo. – Anjos da guarda em 0,05% da Europa? Oh, Jim. Pensei que depois de tantos anos você teria um pouco mais de respeito por mim. Você ainda bate nesta tecla de conto de fadas? E anjos?

Henkel bufa.

– HENKEL! Meu nome é Henkel! Eu não sou nenhum Jim. Este corpo estava a disposição, e sabia que Sraosha seria afetada por ele. E o humano dela: você. Percebeu agora porque Sraosha não contou nada a você? Mesmo se ela pudesse?

– Acabe logo com este teatro.

Henkel suspirou alto e deu de ombros.

– Okay. Você não acredita agora, mas irá acreditar quando te colocar na frente dela. Quando eu quebrar cada osso do seu corpo. Quando você ver o terror nos olhos enormes dela. Quando eu arrancar as penas das asas dela. Você vai assistir a tudo. Vai assistir ela se tornar minha rainha para salvar sua maldita pele humana.

Henkel se levantou e estalou os dedos. Dois homens armados entraram. Atrás deles, outros dois caminharam na direção de Sherlock, o algemaram e fecharam sua boca com uma enorme fita adesiva.

– Vamos. Vou levá-lo para ver sua “Molly”. – e se virou. Sherlock, sem opção, e sendo empurrado pelos capangas de Moriarty, o seguiu. Naquele momento, estava perdido. Havia entrado naquele jogo achando que tinha o controle, mas Moriarty estava a um passo na frente dele.

Prestava atenção no caminho que fazia andando atrás de Moriarty. Era um longo corredor, cheio de portas pelo caminho. Havia uma grande porta no final do corredor, e Sherlock achou que caminhava para ela, quando na verdade Moriarty entrou na ultima porta à direita deles.

Ele hesitou, mas os capangas o empurraram para dentro. Ali, outra sala vazia, mas continha uma vidraça enorme com vista para outra sala gigantesca. Foi quando ele a viu.

Molly.

Ela estava nua sentada no chão, com a cabeça apoiada nos joelhos. Seus longos cabelos castanhos espalhados como uma cortina. E naquele momento, ela levantou a cabeça e olhou para a janela.

– Ela não pode vê-lo. Mas ela sabe que eu estou aqui. Sabe como? Ela pode sentir a minha divindade. – Henkel disse baixinho, o deixando lá, ladeado pelos seus capangas, olhando pela vidraça com os olhos aflitos.

**vocare**

Molly ouviu a porta se abrir. Não haveria porque tentar atacar Henkel naquele momento. Seu avatar era fraco fisicamente, e Henkel era um Caído. Superior a ela em todos os quesitos.

Ele entrou e sorriu.

– Vim realizar seu pedido: vim te encarar.

– Sherlock está aqui?

– Claro que sim. E você sabe por quê.

– Deixe-o ir. Isso é entre você e eu.

– Sabe, seu humano e eu conversamos. Contei toda a verdade. Sobre quem você é, o que você foi pra mim, e o que você fez. Como você mudou o destino dele. Como ele trocou um futuro brilhante para poder trepar com você. Ele ainda não acredita. Acha que eu sou Jim, que Jim ficou louco, ou algo parecido. Mas uma coisa ele sabe. Sabe que você mentiu pra ele. Ou melhor, escondeu. Você não pode mentir, certo? E foi delicioso ver aquela máscara arrogante cair do rosto dele. Você precisava ter visto. Naqueles preciosos segundos, Sraosha, seu humano hesitou. Vê-lo em dúvida foi único. Quase senti pena.

– Henkel... – ela se levantou.

– O que? Vai implorar? Vai encher seus olhos de lágrimas para me fazer recuar? Não, querida. Eu já caí no seu joguinho. Nos seus enormes olhos castanhos. — Ele se aproximou, e pegou um dos seios dela nas mãos. Com o polegar e o indicador apertou com força um mamilo a fazendo gritar. – Eu já confiei em você um dia. Você já teve esse poder sobre mim. O poder de me manipular.

Molly se afastou dele. Henkel sorriu deliciado com o pavor dela.

– Isso! É isso o que eu quero! Isso o que eu quero ver nos seus olhos, Sraosha. Quero ver a dor. O pânico. O terror. E quero mais. Quero ver você quebrar. Vou ver você quebrar o vendo gritar. Que tal eu furar aqueles olhos azuis que você ama tanto? Eu tenho tantos planos para ele, Sraosha...

– Pare Henkel. Não faça isso. Nós podemos resolver isso!

– Resolver? Não quero resolver nada. Quero apenas que você aceite estar do meu lado. Ser a minha rainha. Irei liderar o levante de Lúcifer com você ao meu lado!

– NÃO!

Henkel gargalhou.

– Você é fraca Sraosha. Ainda se apega a Palavra e a este estúpido amor humano. Você é uma hipócrita. Até quando você acha que vai conseguir levar esta situação adiante? Você acha que ninguém descobriria? Que Harut, ou todos aqueles bajuladores não descobririam? Acha que você sairia impune se o patético Gabriel descobrisse?

– Pode me ameaçar o quanto quiser Henkel.

– Não estou ameaçando. Se quisesse, já teria te denunciado. Meu plano pra você é outro. E eu sou um estrategista, Sraosha. Eu jogo para vencer.

– Poupe seu fôlego. Você não vai conseguir nada.

– Não até colocar Sherlock a sua frente. Prefere mesmo sacrifica-lo apenas para manter seus fracos princípios?

Molly o encarava, ainda apavorada. Henkel conseguia ler e ver seu desequilíbrio. Ele estava certo. Era uma questão de tempo até ele conseguir. Ela não sacrificaria Sherlock. Nunca.

– Sabe o mais divertido? Ele está aqui. Atrás daquele vidro. Assistindo.

O olhar de Molly voou para o espelho. Ela não podia ver, mas seu olhar cruzou com o de Sherlock.

– Não... – ela murmurou, e caiu de joelhos. – Henkel, não...

– Tudo poderia ter sido diferente. Eu te dei a chance de escolher. E você escolheu. Escolheu tê-lo aqui. Só estou jogando com as cartas que você meu deu.

Henkel estalou os dedos. Molly, segundos depois, viu três homens entrando pela porta. Um deles era Sherlock. Estava algemado e amordaçado. Um dos homens o parou, e o fez ajoelhar. Ali, prendeu suas algemas numa corrente afixada ao chão, antes de saírem.

– Pronto! – Henkel ficou ali entre os dois. Sherlock ainda mantinha os olhos em Molly, e ela, nele. – O jogo pode começar!

TO BE CONTINUED...

Notas finais
N/A: Angst para dar e vender, mas o negócio só tá esquentando. Thanks Grá pela betagem! Love you!