Você quer brincar na neve?
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Sherlock havia acabado de acordar, e quando olhou pela janela o chão lá fora estava branquinho.
Saiu correndo pelo quarto, pegando suas roupas de frio e foi logo tomar café.
– Calma, calma, filho. A neve não vai derreter assim tão rápido. – ele tentava enfiar o ovo e a torrada, tudo ao mesmo tempo na boca, enquanto bebia seu leite.
– Irmãozinho, assim você vai morrer sufocado.
– Humf humf humf humf – ele falou com a boca cheia. Depois repetiu. – A Molly vai me ensinar a patinar, preciso ir rápido, ela já está me esperando. Tchau. – e saiu correndo pra porta.
– Cuidado para não se machucar, filho! – mas ele já estava lá fora e não ouviu nada.
–-
– Molly, Molly, saia, vamos brincar! — ele estava na frente da janela dela, e gritava pra a menina se apressar.
– Vamos! – ouviu uma voz atrás dele. Se virou e encontrou a menina sorrindo pra ele, com um par de patins em cada mão. – Pegue, esse é o seu.
Sherlock olhou meio incerto para os patins, mas não podia desistir agora. – Tudo bem, vamos tentar. E seguiram até o parque, onde sabiam que o lago estaria congelado.
–-
– Ahn... Molly? Tem certeza de que isso é... Seguro?
A menina estava concentrada colocando os patins, quando levantou bruscamente.
– Seguro? Sherlock, você está bem? – ela colocava a mão na testa dele e em suas bochechas, tentando ver se o menino não estava com febre. – Desde quando você se importa se algo é “seguro”?
– É que... Bem, eu...
– Você está com medo? – ela sorria. – Sherlock, você está com medo?
– Não! Medo, eu? Não, claro que não! – estufou o peito, tentando passar confiança.
– Ótimo, então ponha seus patins e vamos! – e lá foi ela para o lago e começou a rodopiar no gelo.
Ele colocou os patins o mais lentamente que pode.
– Será que você pode me ajudar aqui? – ele estava sentado, sem conseguir levantar sem cair.
– Tudo bem. – E o puxou direto para o gelo.
– O que você está fazendo? – ele estava todo duro e apavorado.
– Tentando te ajudar. – e o soltou.
– Não, volte aqui! – e caiu.
Ela o ajudou a levantar de novo, e dessa vez foi puxando-o devagar, deslizando.
Aquilo era apavorante. E se o gelo rachasse? E se ele não conseguisse ficar de pé sozinho? E se ele ficasse caindo toda hora? Molly ia rir da cara dele para sempre.
– Molly, será que... – mas ela patinava alegremente ao redor dele, enquanto ele estava parado no meio da pista, sozinho. – Molly?
– Vai, Sherlock, você consegue, já conseguiu ficar parado sozinho, agora é só mexer os pés, como se fosse andar. Mas ele estava travado no lugar.
“Você consegue. Vai, se mexe!”
E numa tentativa patética de sair do lugar, Sherlock impulsionava seu corpo pra frente, sem mexer os pés.
– O que você está fazendo? – ela gargalhava tanto que até caiu.
– Eu estou patinando. – mas isso só fez com que ela gargalhasse ainda mais. – Tá bom, tá bom, não precisa humilhar também. Agora me ajude aqui. – e assim que se acalmou, ela se levantou e o ajudou de novo.
– Me de suas mãos de novo. Eu não vou te puxar, você vai mexer os pés no ritmo do meu, ok? – e conforme ela andava, ele a imitava, até que ela soltou uma mão.
– Molly...
– Relaxa, vou ao seu lado agora. – e devagar eles foram deslizando, e aos poucos ele foi pegando o jeito.
– Tudo bem, já entendi. Podemos brincar na neve agora?
Vendo que Sherlock já estava no limite com a patinação, ela concordou.
– E do que você quer... – mas ela teve sua resposta em forma de bola de neve e por horas ficaram guerreando, ocasionalmente com alguma outra criança, mas na maior parte do tempo só os dois, criando obstáculos, inventando regras e pregando peças um no outro.
– Você não cansa nunca? – Molly se largou no chão, ao lado do boneco de neve, completamente exausta, mas explodindo de felicidade, enquanto Sherlock fazia mais bolas de neve.
– Ah, vamos, levante daí.
– Não.
Vendo que não iria conseguir convencê-la, Sherlock se deitou ao seu lado e ficaram encarando o céu, enquanto pequenos flocos de neve voltavam a cair.
Então Sherlock teve uma sensação estranha subindo pelo seu braço. Quando percebeu, Molly havia entrelaçado seus dedos, e sem motivo algum.
E assim ficaram. Em silêncio, com o coração batendo acelerado. E o cansaço não tinha nada a ver com isso.
Fale com o autor