Você, meu porto seguro
3 A Lagoa Azul
Notas iniciais
Já era por volta de dez horas da manhã quando acordei. Olhei em volta do quarto e Patrick não estava. Levantei, coloquei um vestido florido, prendi o cabelo em um rabo de cavalo e saí a sua procura. Ele estava na piscina, aproveitando o sol junto com outros hóspedes. Saiu de lá assim que me viu. Deu-me um beijo casto e perguntou se eu havia dormido bem.
– Dormi com fome, já que você não me acordou quando chegou.
– Desculpe, Lou. Estava cansado e imaginei que também estivesse. — Ele disse, desculpando-se.
– Pelo menos me esperou para tomar o café da manhã? — Perguntei. Patrick coçou a cabeça fazendo respingar algumas gotas de água em mim, e disse já ter feito o desjejum.
– Desculpe Lou, eu estava faminto, mas espero você acabar pra podermos ir ao centro da cidade.
Bufei de raiva, contudo, não falei mais nada. Fui até o local onde era servido o café, e uma senhorinha de aproximadamente uns sessenta anos de cabelos totalmente brancos me informou que o horário já havia acabado. Voltei até Patrick e disse a ele o mesmo que me foi informado.
– Cara que chato!
– Chato? Patrick eu vim pra cá pra tentar salvar essa relação que até então eu conheço como casamento, mas parece que você não se importa muito com isso, não é?
– Lou você sabe que eu tenho fobia a mar, e você também não gosta de Rally. Só juntamos o útil ao agradável.
– Eu não me importaria de fazer Rally com você, e você não precisaria entrar em alto mar se não quisesse, mas a questão não é essa, a questão é curtirmos essa viagem do jeito que tem que ser, juntos!
– Tem razão, desculpe. — Ele disse. Naquela altura alguns dos hóspedes já olhavam a nossa pequena discussão. Patrick me abraçou e em seguida entrou para trocar de roupa. Eu o acompanhei e esperei que ele terminasse.
Quando saímos fomos direto a única padaria da ilha. Pedi um misto quente e suco de laranja, apenas para aguentar até a hora do almoço. Patrick estava meio sem jeito, então ficou calado quase todo o tempo, exceto quando perguntei como havia sido o passeio da noite anterior.
– Nossa foi demais! As trilhas são ótimas. Tivemos que ir em duplas e a garota que estava comigo era muito engraçada. Ficou fazendo graça até quando atolamos. — E enquanto eu comia, Patrick tagarelava sobre ele e a tal garota que o acompanhou que eu sequer lembrava o nome. Não estava necessariamente com ciúmes, porém, era uma sensação desconfortável ver seu marido falando de outra o tempo todo. Tive que comer mais rápido para poder dar fim àquele assunto.
Quando estávamos saindo, Will estava entrando. Eu realmente não esperava encontrá-lo ali, mas ele pareceu contente em me ver, contudo, mal reparou na presença de Patrick.
– Louisa! — Exclamou ele sorridente.- Bom dia.
– Bom dia Will. — Respondi com um aceno de mão. — Lembra do Patrick?
– Ah, claro, bom dia Patrick. — Will estendeu uma mão em cumprimento para Patrick que retribuiu sério. — Quando for visitar a cidade, não deixem de ir ao Centro Histórico, foi lá que essa maravilha de país nasceu. É um passeio muito legal.
– Obrigado. — Patrick disse, colocando a mão na minha cintura e me puxando para fora. Will nos acompanhou com o olhar e se despediu de mim com o mesmo entusiasmo de antes.
Mesmo quando já estávamos no centro da cidade Patrick continuava calado.
– Vai me dizer o que você tem, ou tenho que descobrir sozinha?
– Não gostei do jeito como aquele cara te olhou.
– O Will?
– Esse mesmo, e que intimidades são essas com ele, Lou?
– As mesmas que você teria se tivesse prestado atenção no dia em que jantamos no restaurante dele. — Só então Patrick lembrou quem ele era. — Além do mais, ele me fez companhia ontem no passeio aos corais.
– Ah, é o cara do vinho! — Patrick parecia nem se lembrar mais que um minuto antes estava de bico para Will.
Conhecemos a Passarela do Álcool, uma pista que, quando há festa fica abarrotada de barraquinhas de comidas e bebidas típicas, além de camarotes para o público pagante. Normalmente os meses de maiores movimentos são os meses de Carnaval e São João, onde há os famosos Trios Elétricos. Mas há também a Broadway, as casas que funcionam como lojas de artesanato. Em cada uma delas há um tipo de arte diferente. Em umas são vendidos chaveiros, em outras bolsas e redes, e em outras pimentas e grãos como Castanhas, Amendoim e todos os tipos de farinhas.
Fiz Patrick visitar pelo menos metade das lojas junto comigo e acabei comprando diversas coisas em cada uma delas. Ele estava exausto de tanto andar e pediu para voltarmos a pousada.
Quando chegamos descansamos por pelo menos uma hora e depois fomos almoçar. Escolhemos um de comida caseira, um dos poucos abertos naquele horário. Perguntei a Patrick o que iríamos fazer na parte da tarde, e ele respondeu que realmente precisava dar uma olhada nos negócios, mas que eu poderia fazer o que quisesse que a noite ele me encontraria. Frustrada por não conseguir sair da rotina nem mesmo em um lugar como aquele, eu apenas concordei com a cabeça enquanto terminava minha refeição.
Já na pousada, Patrick pegou o celular e o notebook, deitou em uma das redes e simplesmente fechou-se para o mundo como sempre fazia. Decidi que aproveitaria aquele dia de sol na praia, afinal não estava ali para vê-lo trabalhar, e sim para curtir as férias que tanto demorei a programar.
Coloquei o biquíni e uma saída de praia, me despedi de Patrick que mal notou onde eu iria, e fui em direção a Rua do Mucugê. Os restaurantes começavam a abrir naquela hora, e estava ainda bem vazio na hora que passei. A rua era bem comprida e seu final dava na praia, também chamada de Mucugê.
A maré estava baixa, e a praia não possuía ondas, então eu ia caminhando pela beirada, deixando que meus pés fossem molhados pela água de temperatura ambiente. Um pouco mais a frente vi que alguém acenava na minha direção. Forcei os olhos para ver quem era e notei que era Will. Ele saiu da água vindo em minha direção com um sorriso estampado nos lábios.
– Nos encontramos outra vez! — Ele disse sorridente.
– Pois é. Se tivéssemos marcado, não conseguiríamos nos encontrar. — Will afirmou com a cabeça e perguntou onde eu estava indo. — Na verdade eu não sei. Não conheço as praias, então pensei em ir andando.
– Está com disposição para andar? Posso lhe mostrar a Lagoa Azul. — Ele perguntou. Hesitei em aceitar, contudo, eu demoraria pelo menos o dobro de tempo indo sozinha, então acabei aceitando. Will saiu completamente da água e pediu que eu esperasse um minuto enquanto ele iria pegar a camisa.
Fomos andando pela areia e conversando sobre nossas vidas. Will contou que sempre que se sentia sozinho ele procurava ir a praia, pois o mar lhe passava tranquilidade e o fazia esquecer da saudade que sentia da família.
Realmente devia ser uma boa terapia, pois eu já não estava mais frustrada com o fato de Patrick não estar ali comigo. Enquanto andávamos, Will ia me falando sobre as praias. Depois da Mucugê vinha a Praia do Parracho, que era muito frequentada por turistas. Em seguida vinha a Praia da Pitinga, rica em beleza, e que com a maré baixa dava para andar por suas pedras. Adiante, depois de um longo percurso, finalmente chegamos na Lagoa Azul, uma praia com ondas fortes que em nada se parecia com as outras. Devido a ser tão distante das outras, a Lagoa Azul era também mais deserta que as outras, e havia apenas um bar caso alguém quisesse comer ou beber alguma coisa.
Apesar de deserta e distante, aquela praia em nada se comparava com as outras. Havia falésias por todos os lados, formando espécies de pequenas cavernas, e dentro de uma delas havia uma lagoa onde as pessoas sujavam suas peles com argila.
– E ai, tem coragem de se sujar de argila? — Will perguntou em tom desafiador.
– E pra que eu iria querer me sujar?
– Ora Lou, você não acha que eu tenho essa pele de pêssego a toa, não é? — Devo ter feito cara de paisagem, porque eu realmente não havia entendido. — Lou argila faz bem a pele. Relaxa, era só uma brincadeira, mas eu realmente vou me sujar.
Will não esperou que eu respondesse se ia ou não. Ele apenas tirou a blusa e a bermuda, ficando apenas com a sunga. Não tive coragem de entrar naquele lugar, parecia que algum bicho ia surgir do nada e me atacar, mas Will foi mais esperto. Enquanto eu estava distraída apreciando a beleza daquele lugar, ele chegou por trás de mim com as mãos cheias de argila e me sujou o quanto pôde.
– Ahá! Agora você também parece um monstrinho! — Brincou. Tentei correr atrás dele na esperança de me vingar, mas era inútil, já que ele era muito mais rápido.
Precisei tirar a saída de praia que estava imunda, ficando apenas de biquíni e tive que ir até a água da praia que era também mais gelada que as outras para poder tirar toda aquela sujeira. Will apareceu logo em seguida, correndo para um mergulho que fez espirrar água por todo lado.
– Vem, aproveita a água. — Ele pediu.
– Não, as ondas são muito fortes, eu posso acabar me afogando.
– Acho que está é com medo de se divertir. Está se culpando por estar aqui enquanto o seu marido está em algum lugar chato.
– como pode saber que é um lugar chato? — Will veio nadando na minha direção, e parou próximo o suficiente para que olhasse nos meus olhos.
– Pelo simples fato de você não estar com ele.
– O que está querendo dizer?
– Nada demais, apenas que sua companhia é boa, e deixa qualquer ambiente agradável. — Will voltou a nadar através das ondas, enquanto eu lavava a saída de praia.
Na volta a Praia do Mucugê nós não tocamos mais no assunto. Will tagarelava sobre os lugares que queria conhecer, mas que por falta de tempo ainda não tinha tido a oportunidade. Ele me acompanhou até o ponto em que ficava o seu restaurante e dali por diante, eu voltei sozinha para a pousada.
Fale com o autor