Você Sempre Esteve Em Mim (parte 2)
97 Capítulo 97 - O mundo lá fora...
Notas iniciais
Brittany observava Santana dormir. A sedação que deram à latina a deixava completamente sonolenta. Era melhor... Assim ela não sentia nenhuma dor. Acariciava a mão da ex-namorada, perguntando-se o porquê de ter saído da vida dela. Como ela pôde pensar que poderia reconstruir a vida sem ela? Não... Ela não saberia fazer isso... Demorou um tempo até que ela percebesse algo estranho. Olhou ao redor e um alerta disparou em sua mente: onde estaria Rachel? A amiga não estava com elas no quarto, nem tinha avisado que sairia dali. Quando ela trocou um olhar com Jackson e viu o olhar atordoado do policial, entendeu que algo ruim havia acontecido...
Rachel corria pelas ruas tentando achar um táxi vazio. Sentia o peso da arma em sua bolsa. Estava disposta a usá-la. Ela sabia que estava! Havia recebido um telefonema de Puck avisando onde estava. A voz de Shelby gritando para ela não ir até ela provocou nela exatamente o contrário. Ela sabia que se ela não fosse, Quinn iria. E ela não permitiria que isso acontecesse...
Quinn dirigia pelas ruas de forma inconsequente. A arma do agente Cooper reluzia sobre o banco do passageiro. Ela precisava chegar logo. Ela precisava! Avançava os sinais vermelhos sem qualquer medo. Ela já não tinha medo de nada... Ao chegar em frente à casa onde moravam sua família e de Rachel percebeu que os carros não estavam na garagem. Aquilo tinha que significar algo bom. E significava...
Mais cedo, Judy, Frannie, Beth e os Berry saíram para passear. Shelby não quis ir. Precisava organizar algumas partituras para suas aulas em Juilliard. Estava sozinha em casa quando Puck chegou. O rapaz não falou nada. Apenas a empurrou com força derrubando-a no chão. O susto que ela levou foi grande, mas não maior do que quando o viu empunhar uma arma em direção a ela:
P: Faço isso por Beth...
Ele tremia como nunca tremeu na vida. Estava suado, com os olhos inchados de tanto chorar. Não parecia ter habilidade com aquela arma, mas a segurava com força...
Sh: Do que você está falando, Noah?
Shelby estava desesperada. Aquilo não fazia o menor sentido para ela. Noah não lhe parecia uma pessoa capaz de usar uma arma...
P: Me perdoe! [chorava] Mas tem que ser assim... Santana, você, Rachel e Quinn... Nessa ordem! Desse jeito! E só assim... Só assim Beth sairá ilesa...
Sh: Do que você está falando? [gritou chorando]
P: Eu tenho que matar vocês! Eu tenho que matar vocês para que ela viva!
Sh: De onde saiu isso?
Ele não respondeu. Pegou o telefone e ligou para Rachel. Ele a queria lá. Ele a queria onde poderia cumprir com a missão que lhe foi designada. E Shelby tentou impedi-la. Ela gritou para que ela não fosse. De nada adiantou...
E por aquilo... Por aquele telefonema de mais cedo a morena agora estava de pé diante de Puck. Ela tinha uma arma na mão e a segurava como Quinn a ensinou. Ela também tremia, mas sabia que não tinha outra saída.
P: Você não sabe atirar... [disse sério]
R: Não me provoque! Solte essa arma!
P: Solte você!
Puck destravou a arma e segurou firme no gatilho, apontando para a cabeça de Shelby:
P: Primeiro ela, depois você!
O estampido da bala logo foi substituído pelo grito de Rachel e o choro desesperado de Puck. Ele não acreditava que tinha feito aquilo e tão rápido. Rachel antes tinha uma arma. Ela não tinha mais. Era surreal. Era inacreditável. Puck havia atirado em Shelby na frente dela. Ela correu em direção à mãe soltando a arma no chão. Ela não tinha frieza suficiente para atirar. Para sequer pensar em atirar. Ela precisava socorrê-la. Ela precisava salvá-la:
R: Mãe! Mãe! Fala comigo!
Rachel gritava enquanto se jogava ao lado dela, segurando no rosto sujo de sangue. O tiro na testa fez o sangue descer pela face da mulher que era quase sua cópia mais velha. Rachel gritou desesperada:
R: Não! Pelo amor de Deus, fala comigo!
Ouviu novamente o barulho da arma sendo engatilhada. Mal teve tempo de olhar para trás...
P: Me perdoe!
Rachel sentiu sua nuca queimar. Um tiro certeiro... Como se Puck soubesse mesmo atirar... Como se ele tivesse a melhor mira entre todas... Ela não ouviu mais nada. Ela caiu sobre Shelby.
Puck soltou a arma. Ele soltou como se fosse uma bomba. Ele soltou... Ele gritou o mais alto que pôde. Ele sentia uma dor imensa... Um peso que sabia que jamais conseguiria carregar... Ele não sabia se viveria. Ele não sabia se morreria. Ele só sabia que cumpriria sua missão...
P: Santana, Shelby, Rachel... Santana, Shelby, Rachel... Santana, Shelby, Rachel…
Ele andava de um lado para o outro com as mãos na cabeça repetindo aqueles nomes como se fosse um mantra. Era a lista sendo riscada. Eram os nomes que ele tinha que eliminar. Faltava apenas um. Mais um e ele deixaria de agir como um monstro. Ele deixaria de agir como um monstro, mas ele nunca deixaria de ser um...
Ele ia explicar à Quinn. Quando a encontrasse ele explicaria. Ela tinha que entender. Tinha que compreender que ele não estava fazendo aquilo por ser mau. Ele tinha que salvar Beth. Tinha que salvar a filha deles. Era um preço alto a se pagar pela vida de quem mais valia para ele... Ele explicaria tudo!
Não... Ele não explicaria...
O primeiro tiro foi pelas costas. Certeiro. No meio da coluna. Ele se virou rapidamente para dar de cara com Quinn segurando uma linda pistola cromada. Foi a última coisa que viu. O segundo tiro foi dado no meio de sua cara, entre os olhos. O terceiro um pouco mais acima. O quarto no lado esquerdo do peito. O quinto na altura da boca. Ele já estava no chão. Morto... O sexto tiro já não surtiu qualquer efeito. Foi a mais pura demonstração do ódio que Quinn carregava no coração. Foi a coroação de sua vingança... Bem no meio da testa...
Seu coração quase parou ao se aproximar de Rachel e Shelby. Havia uma imensa poça de sangue ao redor delas. Não era mais possível saber qual era de quem... Ela se ajoelhou tremendo e puxou Rachel para si. A morena não respirava. Ela já não respirava mais...
Q: Eu cheguei tarde...
A frase saiu em meio à perda de ar. Não havia mais vida em Quinn. Não havia mais nada... Ela levou a mão ao pescoço de Rachel e tentou sentir pulsação. Nada... Não havia mais nada... Os olhos castanhos estavam abertos. Quinn os via pela última vez. Não havia brilho. Não havia mais nada...
Ela gritou. O grito mais alto de toda a sua vida. O grito que lhe rasgou a garganta, a alma, a existência. Ela gritou como jamais pensou que soubesse gritar...
Q: Não faz isso comigo! Não faz isso comigo! Pelo amor de Deus! Rachel... Volta pra mim! Fala comigo! Não me deixa! Não me deixa!
Desesperada como nunca, Quinn tentava lutar contra o imutável. Rachel não podia responder. Não podia atendê-la. Como ela tinha ido parar ali? Por que ela foi pra lá? Respostas que ela nunca teria. Nada mais importava...
Puxou a namorada para um beijo. Não foi um beijo. Não havia vida do outro lado. Não havia vida naqueles lábios... O choro destruidor lhe arrancou a voz. O desespero lhe arrancou a vontade de continuar a viver... Ela se levantou rápido e pegou a arma que havia largado. Ela precisava de apenas um segundo. Levou a arma à cabeça e segurou o gatilho. Assustou-se antes de atirar:
Russel: Não sei por que você insiste tanto em se autodestruir...
Sentiu o corpo inteiro estremecer. Diante de si estava a pessoa que ela mais odiava. Estava o responsável por toda a tragédia que assolou sua vida...
Ele estava elegante. Vestia um terno azul marinho risca-de-giz com abotoaduras de ouro. O cabelo impecável como antigamente. Sapatos pretos de couro lustroso... E uma arma na mão esquerda com o cano encostado à lateral da cabeça:
Russel: Eu não nasci para viver preso. Eu não mereço viver numa gaiola...
Os olhos verdes de Quinn estavam vermelhos. Tão vermelhos que pareciam inundados com sangue:
Q: Como chegou aqui? Por que tudo isso? Por quê?
Russel: Somos iguais, Quinn... Destruímos tudo o que amamos porque não sabemos amar...
Q: Eu não sou igual a você! [gritou] Você é um monstro!
Russel: Olhe ao redor... Três pessoas mortas por sua causa... Você causou isso... Somos iguais!
Quinn apontou a arma pra ele e atirou. Errou. Atirou mais uma vez. Errou novamente. Russel estava parado. Não movia um músculo sequer. Mas ela não tinha mais mira. Ela não conseguia mais acertá-lo...
Ele sorriu... Um sorriso impossível de se decifrar. Ele continuava com a arma apontada para a própria cabeça...
Russel: Você não vai morrer... Você vai viver. Vai viver com esse peso, com essa culpa... O paizinho da sua filha bastarda quase cumpriu com o que mandei. Ele falhou com a latina... E você era apenas uma pista falsa... Eu não queria que ele te matasse. Até porque eu sabia que você o mataria antes... Porque você é igual a mim. Você não se deixaria matar nunca!
Quinn voltou a apontar a arma contra a própria cabeça e apertou o gatilho. Nada aconteceu. Já não havia bala. Já não havia mais nada... Ela queria acabar com aquela agonia. Como ela faria isso? Ela olhou ao redor desesperada. Viu a arma do Puck no chão. Ela a pegou e tentou atirar em si novamente. Nada... Sem balas.
Russel: Eu já disse que você não vai morrer... Você vai viver. Vai viver enclausurada na sua mente... Vai viver sozinha no seu mundinho medíocre... Você vai viver, Quinnie... Vai viver com a lembrança eterna desse dia devastador... Adeus!
Q: NÃOOOOOOOOOOO!
Ela avançou na direção dele, mas estancou com o estampido. O elegante terno azul-marinho se encharcou de vermelho. As listras brancas ficaram rubras e Russel caiu no chão, com os olhos verdes paralisados. Os olhos verdes que ela sempre ouviu serem iguais aos dela. Os olhos verdes daquele que deveria ter sido seu protetor... Ele tombou com um sorriso nos lábios. Um sorriso que ela jamais entenderia, mas era um sorriso de libertação...
Havia um silêncio mórbido. Um silêncio frio. Cheiro forte de pólvora e carne queimada. Cheiro de sangue. A sala era o cenário de uma carnificina. Uma carnificina que havia acontecido por culpa dela. Ela olhou ao redor: 4 corpos... Ela olhou para si. Sua roupa encharcada de sangue. De Rachel. De Shelby... Ela fechou os olhos. Ela ouviu o silêncio. Ela se moveu sem saber como. Ao abrir os olhos novamente estava diante de Rachel. Levou a mão aos olhos sem vida da namorada e os fechou. Deitou ao lado dela e a puxou para seu colo, deitando a cabeça dela sobre seu peito como sempre faziam. Sentiu suas costas ensoparem do sangue que se espalhava. Fechou os olhos...
“Can I lay by your side? Next to you, you
And make sure you're alright
I'll take care of you
And I don't want to be here if I can't be with you tonight…”
A voz rouca de Quinn cantava trêmula, quase sem ar... Ela cantava para Rachel pela última vez... Ela cantava para o corpo que ia esfriando em seus braços. Ela cantava para o amor que sempre seria seu, ainda que não estivesse mais com ela. Ela sempre estaria com ela...
Apertou Rachel em seus braços. Ela a apertou forte e cheirou seus cabelos. Já não tinha o mesmo cheiro. Ela não sentia seu perfume. Ela perderia suas lembranças? Ela perderia suas memórias? Ela a perderia mesmo?
Santana estava em pé ao lado da cama. Não conseguia acreditar que Quinn estava no hospital. Estava apagada. Não havia qualquer sinal de que ela estava realmente consciente, a não ser os aparelhos que monitoravam seus sinais vitais. Ela estava viva sim, mas não parecia estar ali...
B: Judy e Frannie chegaram...
A latina olhou para a ex-namorada com um olhar compreensivo. Estava destruída só por imaginar o que deveria estar passando pela mente adormecida da amiga...
S: Ok... [respondeu calma] Já vou...
Quando Santana se moveu para sair, sentiu a mão de Brittany segurar a sua. Alguma coisa havia mudado entre elas. Alguma coisa boa tinha acontecido diante de tudo... Ao chegar ao corredor viu que os Berry também haviam chegado.
J: Como ela está, Santana? [perguntou preocupada]
S: Eu não sei explicar. Ela está completamente apagada e ninguém sabe dizer o que realmente aconteceu.
Frannie tinha os olhos cheios de lágrimas. Santana não tinha respostas, mas ela precisava encontrar alguma. Olhou para o lado e sentiu o carinho de Rachel em seu braço direito:
R: Os médicos ainda não sabem o que houve... Eu só sei que foi assustador!
[FLASHBACK ON]
Um grito ensurdecedor rasgou a madrugada. Quinn sentou na cama segurando no lençol com força enquanto gritava a plenos pulmões com os olhos apertados. O grito mais agudo que ela era capaz de dar. Tão agudo que estourou o copo de água que repousava em seu criado-mudo. Rachel acordou assustada e segurou a namorada pelos ombros:
R: Quinn! Quinn! Acorda! É um pesadelo, meu amor! Acorda!
O grito continuava até que Quinn sentiu as mãos de Rachel em seu rosto. A morena a segurou como sempre fazia, como sempre a acalmava...
R: Sou eu... Sou eu, meu amor...
A loira não abriu os olhos, mas se calou. Rachel sentiu as mãos de Quinn segurarem com força seus pulsos. Com tanta força que as unhas curtas da namorada pareciam garras a lhe machucar. O nariz de Quinn começou a sangrar e o coração de Rachel parecia que ia sair pela boca.
Ela não acordou desde então...
[FLASHBACK OFF]
Sh: Rachel, quando vocês saíram lá de casa parecia estar tudo bem. Aconteceu alguma coisa antes de vocês irem dormir? Vocês brigaram ou algo assim?
R: Não, mãe. Ela saiu de lá chateada com o Puck, mas nada além disso. Conversamos sobre Beth antes de dormir. Ela estava muito decepcionada com ele. Dizia que não ia nunca magoá-la. Depois dormiu... Houve três noites em que ela teve pesadelos e acordou gritando, mas dessa vez foi diferente. Ela não acordava. Ela só gritava e me segurava com força. Ela não acordou mais...
O choro de Rachel era suave enquanto explicava. Ela já havia chorado muito. Ela tentou acordar Quinn de todas as formas. Foi difícil levá-la ao hospital, mas teve a ajuda de Santana e de Kurt. Não quis esperar uma ambulância e a levou de carro. Ela respirava. Ela tinha pulsação. Então por que não acordava?
Kurt avisou à Brittany. Santana avisou a todo resto. Rachel não tinha cabeça para avisar a ninguém. Ela ficou o tempo todo ao lado de Quinn, saindo apenas para ceder lugar à Santana por alguns minutos. Os médicos não sabiam explicar o que houve. Ainda... Não havia respostas. Ainda...
Rachel caminhou até o quarto e ficou diante de Quinn novamente. Ela não entendia o que estava acontecendo. Ela não entendia... Estava tudo bem. Elas tinha ido à casa dos pais e apesar da discussão com Puck tudo parecia bem. Dormiam tranquilamente quando Quinn acordou aos gritos. Aquilo não era mesmo novidade. Ela já havia tido pesadelos nos dias anteriores. Por que aquele era diferente? Por que daquele ela não acordava? Quinn dormia. Quinn estava inerte diante dela...
Em sua própria mente Quinn ainda cantava. Em sua própria mente Quinn ainda a segurava com força... Em sua própria mente Quinn ainda estava deitada no chão sobre o sangue de Rachel e Shelby...
A morena puxou a cadeira e sentou ao lado dela segurando sua mão:
R: Volta pra mim, meu amor! Acorda...
Quinn só ouvia a própria voz cantando:
“Can you hear my call?
This hurt that I've been through
I'm missing you, missing you like crazy…”
Rachel acariciava sua mão pedindo baixinho para ela acordar. Pedindo com todo amor em seu coração para ela voltar…
Quinn estava sozinha em seu próprio mundo. Quinn estava completamente solitária em sua mente... Assim como Russel havia dito que seria...
[CONTINUA...]
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