Você Sempre Esteve Em Mim (parte 2)
94 Capítulo 94 - Mais escuro que a noite...
Notas iniciais
Quinn acordava aos gritos. Já era a terceira noite naquela semana que a loira acordava daquela maneira. Rachel tentava acalmá-la, mas a cada vez parecia mais difícil... Abraçou a namorada com força, sussurrando em seu ouvido frases de carinho... “Está tudo bem, meu amor...”
Os pesadelos eram desconexos e Quinn não sabia contá-los à Rachel. A morena insistia, mas nada fazia muito sentido. Em seus sonhos ela via luzes e escuridão. Ouvia barulhos irreconhecíveis, até que naquela noite ela ouviu explosões. Eram sons de tiros e ela já tinha ouvido antes...
Q: Eu ouvi tiros novamente...
A respiração de Quinn ainda estava ofegante. Rachel segurava um copo d’água enquanto passava a mão livre nas costas da loira, tentando fazê-la relaxar para respirar melhor... Os olhos verdes procuraram os castanhos e havia um medo absoluto naquele olhar. Rachel estremeceu ao sentir a mesma sensação dos dias que antecederam os tiros que quase mataram a namorada:
R: Mas está tudo bem, meu amor...
Q: Você acha que foi só um pesadelo, né?!
R: Se tem uma coisa que eu aprendi, foi a não subestimar seus pesadelos. [disse sincera] Só quero que você entenda que estamos em nosso quarto, em nossa cama e que nada aconteceu.
Q: Mas alguma coisa vai acontecer. Eu sinto isso, Rachel! [disse agoniada]
R: O que você está sentindo tem a ver com Russel? Ele está preso, Quinn. Não é como antes...
Q: Mas meu avô não está preso. E só Deus sabe onde ele está.
R: Talvez você esteja projetando nele essa sensação ruim que você não consegue explicar.
Quinn se levantou agoniada e passou a andar de um lado para o outro.
Q: Tem um policial te seguindo o tempo inteiro! [confessou]
R: Um o quê? [surpreendeu-se]
Q: Eu fui à polícia e pedi proteção 24 horas para você. Essa sensação ruim não é apenas uma sensação. Tanto que a polícia não acha que eu esteja imaginando coisas e colocou alguém para cuidar da sua segurança. Alguém que saiba atirar melhor do que eu.
Rachel respirou fundo. Ela não podia acreditar que Quinn tinha armado mais um plano de proteção sem consultá-la.
R: Então tem uma pessoa me seguindo o tempo inteiro? Desde quando? [tentou manter a calma]
Q: Faz alguns dias...
R: E você não pensou em conversar comigo sobre isso antes de tomar essa decisão?
Q: Eu não queria te deixar preocupada.
A morena se levantou e levou as mãos aos quadris. Ela procurava uma forma de não se estressar com Quinn que, mais uma vez, tentava resolver tudo por conta própria:
R: Me diga qual a sua teoria? Por que eu corro perigo? Por que a polícia concordou com você?
Q: A minha teoria é que alguém que não está preso facilita as coisas para Russel aqui fora. E que a pessoa mais interessada nisso seria meu avô.
R: Ele é um idoso, Quinn! Ele pode ser canalha e outras coisas ruins, mas eu o vi e não acho que ele tenha condicionamento físico de sair me seguindo para todo lugar aonde vou...
Q: Eu consegui a lista de visitantes da cadeia e meu avô visita o Russel toda semana. Então deve ser mentira que ele não fala com ninguém e que só fala meu nome... Eu também consegui acessar as ligações feitas por Russel e a maioria não é para seu advogado e sim para um número pré-pago daqui de NY. Eu consegui descobrir algumas contas bancárias do Russel que estavam fora do radar da polícia. Contas registradas de forma ilegal. Uma dessas contas fez um saque de dez mil dólares no dia em que meu avô te procurou. Isso e outras coisas me fazem acreditar que eles estão juntos nessa.
R: Mas seu avô veio pedir que você fosse falar com Russel. Ele disse que não conseguia falar com ele. Por que seu avô usaria dinheiro de uma conta do Russel para me entregar naquele dia? Ele não é rico?
Q: Com certeza era uma isca para me levar até ele...
Rachel estava atônita. Eram muitas informações que ela não esperava saber...
R: Como você descobriu isso tudo?
Q: Bom... Um acordo com a polícia. Eles me deram acesso livre a um dos computadores do FBI e eu logo lancei alguns algoritmos que me fizeram encontrar as respostas que eles queriam.
R: Algoritmos? [perguntou confusa]
Q: É só uma sequência de regras e procedimentos lógicos perfeitamente definidos que levam à solução de um problema em um número finito de etapas. Eu só tentei algumas vezes e logo encontrei os rastros deixados por Russel desde que ele foi preso novamente.
Rachel não entendeu nada do que Quinn havia explicado. Ela se deu conta de que às vezes esquecia que a namorada era um gênio. E foi essa genialidade que fez a polícia dar total carta branca para a loira tentar invadir todo e qualquer sistema bancário e de comunicação que ela achasse necessário para encontrar as respostas que eles queriam. Naquela busca, ela encontrou mais de 20 milhões de dólares que Russel mantinha escondido, fruto de desvios e fraudes fiscais...
R: Quando? Quando você descobriu isso tudo e desde quando você se interessa por informática?
Q: Descobri há alguns dias. E não é que me interesse por informática. [deu de ombros] Eu só não tenho dificuldade de lidar com isso... O Departamento de Tecnologia de Columbia é muito bom e eu gosto de passar tempo lá...
Quinn sentiu as mãos de Rachel em seu rosto. A morena a encarava como se quisesse que ela voltasse à realidade delas. Só então se deu conta que Rachel não sabia de nada daquilo...
R: Tudo isso que você está me contando é muito novo para mim! É como se eu não soubesse nada de quando você não está comigo...
A loira percebeu certo incômodo na voz da morena. Olhou-a preocupada:
Q: Isso é um problema?
R: Não... Só é estranho... É a primeira vez que eu não compreendo o que você fala. É a primeira vez que eu sinto que não estou conectada a você... E isso me assusta um pouco...
Quinn a abraçou. Forte! O mais forte que pôde!
Q: Você é a minha conexão mais forte de todas!
R: Eu sei, meu amor... [aconchegou-se no abraço] Eu só... Eu só...
Não sabia explicar. Não conseguia entender como Quinn saiu da agonia de acordar de um pesadelo para estar ali, mergulhada numa linguagem complexa de sua genialidade. Mas sabia que toda e qualquer frustração em não ter sido informada sobre aquelas decisões da namorada já não existia mais. Ela entendia. Entendia a necessidade de Quinn em resolver tudo. Entendia. Ela havia dado à polícia dados importantes para prejudicar ainda mais Russel. Se tinha algo nessa vida que Quinn detestava era o quão criminoso seu pai havia se mostrado ser...
Rachel a beijou com todo o amor do mundo. Como ela precisava...
Estavam em uma sorveteria com Beth que não parava de falar sobre sua festinha de aniversário que estava chegando. Quinn percebeu Rachel distraída, olhando para todos os lugares de forma discreta:
Q: Não adianta, Rach... Eu não vou te dizer quem é seu segurança.
R: Eu acho importante eu saber! [respondeu quase irritada]
Q: Não! Basta você saber que ele está atento.
R: Então você sabe quem é?
Q: Claro que eu sei quem são! Há um para cada turno. Você acha que eu deixaria alguém se responsabilizar por sua segurança sem procurar saber cada detalhe da vida deles? Eu fucei cada parte. Sei quando eles vão ao dentista. Sei quando eles tomam um café. Sei onde eles fazem compras e o que eles colocam no carrinho. Eu tenho acesso total a todos os passos deles, todos os dias. Sei cada centavo que entra e sai de suas contas. Eu preciso ter absoluta certeza de que não são corruptos.
R: A polícia deixa você controlar dois policiais? [questionou surpresa]
Q: Foi uma das minhas exigências. Sem isso eles não teriam nada de mim... [respondeu calma]
R: E você pode vê-lo agora? [perguntou curiosa, na tentativa de Quinn vacilar e olhar, para que ela descobrisse]
Q: Talvez... [piscou-lhe]
B: Isso é conversa de adulto, né? [perguntou entediada]
Q: É sim, Beth... [sorriu de novo]
B: Eu “sabe” quando é conversa de adulto, porque é conversa chata! [deu de ombros]
R: Quinn...
Q: Não é adequado que você saiba. [olhou-a novamente] Um simples olhar seu pode entregá-los.
R: Mas e se alguém se aproximar de mim e disser que está me protegendo e não for verdade, como eu vou saber em quem confiar?
Quinn a olhou firme:
Q: Você só confia em mim e em quem eu disser para confiar, ok?! Se eu não disser nome nenhum, serei apenas eu! Entendeu?
Rachel assentiu sem pestanejar. Ela confiava em Quinn cegamente. Ela sempre confiaria...
Beth dormia em seus braços quando chegaram à casa dos pais para devolvê-la. Shelby as recebeu e logo levou a garotinha para o quarto. Noah estava lá e não parecia muito feliz. Elas se aproximaram dele:
N: Eu posso conversar com você, Quinn?
Q: Pode falar!
N: Eu queria que fosse em particular.
Rachel se sentiu mal. Um fogo lhe consumiu em segundos, mas ela se segurou. Ela não fazia ideia do que ele poderia querer falar com Quinn que precisasse ser longe dela, mas declarações de amor eram tudo o que passava em sua cabeça. Ciúme era tudo o que ela poderia sentir...
Q: Eu gostaria que você falasse diante da Rachel...
A morena se surpreendeu. Com certeza ela se surpreendeu. Ela esperava que Quinn tentasse ser neutra e não recusasse o pedido de Puck, mas diante de todas as expectativas, ela a surpreendeu.
N: Me desculpe, Rachel. Mas eu vou me sentir mais à vontade se falar a sós com ela.
Q: Seja o que for, eu vou contar a ela de qualquer jeito. Então... É melhor que você fale para nós duas...
Beijos na boca. As duas nuas. Sexo quente. Rachel enumerava em sua mente tudo o que queria fazer com Quinn quando chegasse em casa. Ela queria recompensar a loira por não permitir que Noah a excluísse...
N: Ok... [indicou o sofá para que sentassem] Eu estava conversando com a Shelby. [levou as mãos à nuca, demonstrando nervosismo] Eu recebi uma proposta de emprego muito boa em Los Angeles e decidi voltar pra lá.
Q: Mas você já tinha um emprego muito bom lá. Decidiu largar tudo e vir para cá porque assim você ficaria mais perto da Beth e poderia acompanhar o crescimento dela. Se você voltar pra lá vai ficar longe dela novamente.
Ele se levantou incomodado. Quinn o amedrontava. Decepcioná-la o amedrontava mais do que muitas coisas...
N: Shelby não precisa de mim para criá-la! [disse de repente]
Q: O que isso significa?
Rachel percebeu o incômodo dele. O nervosismo. Ele mal conseguia parar quieto. A morena então resolveu dar voz ao que achava que ele sentia:
R: Ele está tentando dizer que não está pronto para ser o pai que a Beth precisa...
Quinn a olhou confusa e depois olhou para ele que parecia concordar com o que morena havia falado.
Q: Isso é sério?
N: Há muitas coisas que eu posso fazer ainda. Sou muito jovem! Sempre que ela me chama de papai eu sinto que ela espera algo grandioso de mim. Que eu resolva tudo e eu não me sinto capaz disso!
Q: Isso é ridículo! [irritou-se] Você insistiu que a Shelby permitisse que ela te deixasse perto. Você permitiu que a Beth se apegasse a você e só agora você se dá conta de que não está pronto? Você queria criá-la comigo! [levantou a voz] Se eu tivesse aceitado você estaria me largando hoje?
N: Tenta entender, Quinn! É uma oportunidade muito boa para mim!
Q: Foda-se a sua oportunidade! [quase gritou]
Rachel levou a mão ao ombro da loira:
R: Calma... [disse suavemente] Você não pode impedi-lo!
Q: Como não posso? [indignou-se]
Hiram, Leroy, Judy e Frannie estavam loucos para ir à sala, mas Shelby os impediu. Ela sabia a conversa que estava acontecendo e não se ressentia. Nunca esperou nada do Puck. Absolutamente nada! Mas quando ele explicou que ia embora e os motivos, ela só pôde sentir muito por Beth. Porém, não conseguia parar de ver o lado bom em ele ir embora: a imaturidade que ela não queria perto de sua filha ia embora também...
Na sala, Rachel tentava acalmar Quinn diante da raiva que a loira passava a sentir de Noah:
R: É a vida dele e ele faz o que quiser.
Q: Mas a Beth...
R: Ela vai se acostumar... E nós estamos aqui.
Q: Você é um covarde! [esbravejou] Um covarde de merda!
R: Calma, Quinn!
Q: Calma, não! Um palhaço! É isso o que você é! [levantou-se] Um palhaço que deixou que ela te chamasse de pai!
N: Ela estará melhor sem mim! [disse irritado]
Q: Com certeza! Agora você falou uma verdade! Ela estará muito melhor sem você já que você é esse covarde de merda!
Rachel desistiu de tentar acalmá-la. Sentiu que a namorada precisava soltar tudo o que pensava:
Q: Shelby foi benevolente ao nos permitir fazer parte da vida de Beth. É uma dádiva poder vê-la crescer e ser parte desse crescimento. Como você pode desperdiçar isso? Como você pode querer ficar longe dessa bênção? [perguntava indignada]
N: Eu espero que um dia você entenda!
Q: Vamos embora! [olhou para Rachel] Vamos embora agora! Eu não quero mais olhar pra cara dele!
N: Tenta me entender, Quinn! Você já tem tudo! Eu não tenho nada!
Q: Você tem uma filha que te ama. Uma criança! E teremos que explicar a ela porque o babaca do pai dela foi embora. Porque ele não liga. Porque ele sumiu. Você vai embora e vai deixar para a gente essa herança. A merda da herança do seu abandono! Você é um babaca tão grande! Um filho da puta que poderia ter ficado longe desde sempre! Ela poderia nem te conhecer hoje e a vida estaria tranquila sem você.
N: Mas se não fosse por mim, você sequer teria uma foto dela. A Shelby jamais teria te dado uma segunda chance. Se não fosse por essa proximidade que eu fiz questão de ter, hoje ela nem saberia quem você é. [disse cheio de raiva]
Q: Eu teria conquistado meu espaço. Podia demorar o tempo que fosse, mas eu recuperaria a confiança da Shelby e estaria aqui, sendo alguém na vida da Beth. Não me venha cantar de galo achando que fez um grande favor pra mim quando você está destruindo tudo o que construiu. Você é a figura paterna dela. Acha que ela vai aceitar outra?
N: Ela não precisa de mim...
Rachel estava decepcionada com Noah, ao mesmo tempo em que estava orgulhosa de Quinn por tentar defender Beth, por não baixar a cabeça diante do que ouviu... Quinn estava sendo mãe, mesmo sem perceber...
Q: Vamos! [puxou a morena pela mão] Vá embora logo, Puck! [disse firme] Não se preocupe que a gente arruma a bagunça que você vai deixar...
A loira saiu praticamente voando dali, levando Rachel consigo. Noah se sentou no sofá novamente e levou as mãos à cabeça, começando a chorar. Há muito tempo Quinn não o chamava de Puck. Há muito tempo ele não a sentia tão distante de si. Shelby apareceu de novo na sala e o viu chorando:
S: Você chora por Beth ou pela Quinn? [perguntou fria]
N: Eu amo a Beth! Não pense que eu não a amo. Eu só... [começava a soluçar] Eu só me acho novo demais para dedicar minha vida a ela. Eu preciso cuidar de mim e construir minhas coisas. Eu preciso não ser tão importante para ela...
S: Eu nunca te pedi nada! Nem nunca esperei nada demais de você. Tudo o que você deu a ela ou fez por ela, foi porque quis. [dizia calma] Pode ir atrás do que você acha importante para você. Eu sei cuidar da minha filha sozinha. E sei que a Quinn jamais tomará uma decisão como essa sua. Mas saiba de uma coisa: se você for mesmo embora, nem pense em voltar. Eu não quero que você bagunce a cabecinha da minha garotinha. Você não pode ser pai apenas quando lhe convém...
E Shelby tinha a mesma garra de Quinn para defender sua cria...
A loira parecia um pouco mais calma. No caminho até em casa Rachel deixou que ela ficasse no silêncio que parecia precisar. Quando entraram no apartamento, Quinn finalmente falou alguma coisa:
Q: Eu jamais faria isso! Eu jamais me afastaria da Beth novamente. Eu não entendo como ele é capaz disso! Eu preciso tanto estar perto dela que é impossível aceitar que ele precise estar longe...
Rachel não sabia o que dizer. Apenas escutava o que Quinn falava:
Q: Eu jamais vou desapontar Shelby dessa forma. Eu jamais vou desapontar Beth dessa maneira. Eu sempre estarei perto dela. Porque eu a amo tanto que não posso aceitar que aquele babaca quebre seu coração assim... [começava a chorar] Ela vai perguntar por ele tantas vezes! Tantas vezes! Até cansar... Ela vai se sentir abandonada. Ela vai se sentir...
Rachel a abraçou:
R: E nós vamos dar a ela nosso amor, para que ela não sinta que é menos amada. E, um dia, ela vai parar de perguntar por ele...
Quinn a apertou ainda mais a seu corpo...
Já havia passado da meia-noite quando Quinn acordou gritando novamente. Rachel seguiu o mesmo ritual de todas as vezes e tentou acalmá-la:
Q: Escuro. Eu não via nada. Era só escuridão e barulho. Era só... [tentava contar ofegante] Era só... Barulho e escuridão...
R: Foi um pesadelo. [abraçava-a] Um pesadelo, meu amor...
Demorou um pouco para Quinn se acalmar e voltar a deitar. Rachel acariciava os cabelos da loira que adormecia deitada em seu peito...
O celular de Quinn começou a tocar, despertando-a bruscamente. Rachel se assustou com a reação da loira que se levantou correndo até o aparelho:
R: A essa hora deve ser engano, Quinn.
Um número desconhecido piscava no visor do celular:
Q: Alô?
Rachel viu a loira ficar mais pálida do que já era e levar a mão esquerda aos cabelos. Seu coração falhou algumas batidas e se aproximou dela para descobrir o que houve. Quinn passou a murmurar palavras desconexas. Ela tentou juntá-las e logo o pavor lhe dominou:
“Tiros”
“Santana”
“Hospital”
De repente, tudo ficou mais escuro do que a própria noite...
[CONTINUA...]
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