Você Sempre Esteve Em Mim (parte 2)
76 Capítulo 76 - Dilacerante...
Notas iniciais
Rachel não conseguia acreditar naquilo. Em um momento ela estava sentindo o carinho de Quinn e no outro a noite havia desandado. Agora sua namorada se contorcia de dor por ter prendido os dedos na porta que ela fechou com toda a força que tinha...
R: Quinn? Me desculpe! Por favor, me desculpe! [pedia agoniada]
Q: Hospital... [murmurou dolorida]
R: Hospital?
Q: Eu acho que quebrou...
Puck havia corrido à cozinha e voltou com várias pedras de gelo enroladas numa toalha. Como atleta, ele já havia sofrido muitas contusões, então sabia como aliviar vários tipos dores.
N: Coloca esse gelo, Q!
R: EU JÁ MANDEI VOCÊ CAIR FORA! [gritou]
Q: Pelo amor de Deus, Rach! [tentava respirar fundo] Esquece isso por um momento!
R: Eu vou te levar para o hospital!
Q: O Puck dirige!
R: Ele não vai conosco! [disse irritada]
Q: Rachel! Presta atenção!
Quinn respirou fundo. A dor era imensa e ela mal sabia como estava conseguindo falar ao invés de gritar. Como Cheerio ela já havia se machucado muitas vezes, mas nunca algo que causasse tanta dor. Claro que ela não estava comparando à dor do parto, nem dos tiros que levou. Cada coisa no seu devido lugar... A loira olhou para Rachel que, estranhamente, havia ficado quieta, à espera do que ela queria dizer:
Q: Eu preciso que... Preciso que ele dirija. Você bebeu...
R: Ele também bebeu! [contestou]
Q: Bem menos que você!
R: Mas ele não...
Q: Por favor...
A voz sofrida de Quinn fez Rachel despertar. A dor da namorada lhe doeu tanto ou mais do que doía na realidade física. Assentiu levemente com a cabeça sem olhar um segundo sequer para Noah. A morena ajudou a loira a se levantar, pegando rapidamente o que precisariam para sair. A bebida parecia que ia perdendo espaço na consciência de Rachel e ela começava a se dar conta de tudo o que estava acontecendo. Quando saíram do apartamento, deram de cara com Brittany entrando no elevador enquanto Santana implorava para que ela não fosse, mas a porta se fechou na cara da latina que, desolada, olhou para o lado a fim de saber quem se aproximava. Puck caminhava na frente das meninas como uma espécie de guarda-costas. Naquele momento, não dava para perceber a existência de qualquer problema entre ele e Rachel. Sem dizer nada, Santana avançou na direção deles, mas seu alvo era a morena baixinha:
S: É tudo culpa sua! [esbravejava] Tudo culpa da sua necessidade de ser a dona da verdade!
Quando viu a latina indo em sua direção, Rachel recuou instintivamente. Não que tivesse medo dela. Pelo contrário. Queria mesmo uma nova chance de batê-la mais até achar que era o suficiente. Mas a surpresa de vê-la ali a fez dar um passo para trás. Puck se moveu para segurar a latina, mas não foi mais rápido do que Quinn. A loira avançou sobre Santana tão logo percebeu que ela queria atingir Rachel. Mas não foi a melhor decisão. Esquecer que estava machucada não foi mesmo um exemplo de esperteza. Mas proteger a namorada sempre seria sua prioridade, então Quinn se tornou um muro indestrutível. Só que quando suas mãos entraram em contato com os ombros da latina, um grito de dor reverberou pelo corredor. Se havia alguma dúvida de que a mão da loira não estava bem, toda a certeza apareceu naquele momento...
Estavam no carro e Rachel não conseguia se conformar com o fato de ter sido impedida de bater em Santana de novo:
R: Ela te machucou mais! [reclamava]
Q: Não importa... [murmurava]
R: Eu vou acabar com ela!
Q: Você não vai fazer mais nada! [disse cortante] Você já fez de mais por hoje!
E o silêncio se formou no veículo... Rachel desviou o olhar e passou a encarar a janela. Talvez, ver o movimento do lado de fora lhe desse a distração que precisava para se acalmar... Uma lágrima solitária escapou pelo canto do olho direito. Ela não se deu ao trabalho de enxugar...
Puck não ousou falar mais nada. Ele as acompanhava pelas portas do hospital em silêncio, sabendo que seu único papel ali era de dar o suporte que precisavam, mesmo que sua presença estivesse pesando uma tonelada sobre Rachel. E como se o destino parecesse se divertir às custas delas, Rachel avistou Dra. Sarah se aproximar...
R: Pelo amor de Deus! Essa mulher não tem casa? [questionou alto]
Q: Fale baixo! [irritou-se]
Quinn não estava irritada com a namorada. Longe disso! Ela estava sentindo muita dor e o comportamento de Rachel não estava ajudando em nada...
R: Mas ela sempre está aqui! [respondeu irritada]
Q: É o trabalho dela!
Dra. Sarah: Quinn? [aproximou-se temerosa] O que houve?
Q: Eu machuquei a mão...
Dra. Sarah: Venha! Vamos ver isso!
A médica estendeu a mão para tocar o braço de Quinn, mas sentiu a mão de Rachel segurá-la firme. A loira olhou confusa para ela, sem entender qual seria a próxima ação. A morena deu um passo adiante fazendo com que a doutora desse um para trás, olhou-a firme nos olhos e disse cortante:
R: Você não vai encostar nela! Minha cota de vadias para lidar por hoje já se esgotou!
Dra. Sarah: O que disse? [perguntou assustada]
Q: Rachel! [repreendeu]
R: Saia daqui e chame um ortopedista, pois eu sei que você não é uma!
Dra. Sarah: Mas eu estou na emergência hoje! [tentou explicar]
R: Se não houver outro médico disponível, eu mesma vou cuidar dela. Minha namorada é um gênio e posso apostar que ela sabe sobre o seu trabalho muito mais do que você. É só ela me dizer o que fazer que eu faço. [dizia firme] Então saia já da minha frente e consiga alguém decente para cuidar dela ou vou cumprir minha promessa de entregar você à direção do hospital, porque hoje não vai me custar mais nada detonar com outra vagabunda!
Nem Quinn nem Noah conseguiram dizer alguma coisa. A loira estava sem condições de tomar uma atitude diante do comportamento da namorada. Estava surpresa e se segurando o máximo que podia para não cair no chão de dor. Ela sabia que Rachel era explosiva e que estava dominada pelos ciúmes naquela noite, mas definitivamente não estava esperando aquele comportamento no hospital...
Dra. Sarah saiu apressada em busca de algum outro médico que pudesse cuidar de Quinn. Menos de dez minutos depois, Dr. Emeth apareceu se apresentando como ortopedista. Guiou a loira a uma sala de procedimentos, acompanhado por uma enfermeira.
Q: Noah... Leve a Rachel para tomar glicose... [disse ao chegarem à porta]
R: Eu não preciso de glicose! [reclamou]
Quinn a olhou o mais calma que pôde:
Q: É um pedido meu... [disse suavemente] Por favor, atenda!
Era muito difícil para Rachel se separar dela. Olhou para as mãos de Quinn e percebeu a força com que ela apertava a toalha encharcada de água do gelo já derretido. Ela queria sentir a dor dela. Toda! Para que ela já não sentisse mais nada...
Q: Hey... [chamou-a calma]
Rachel a olhou agoniada:
Q: Vai ficar tudo bem...
E mais uma vez a morena tinha a prova de que Quinn era a pessoa mais perfeita que ela já havia conhecido...
Puck levou a mão ao ombro da morena que o assustou ao se desvencilhar bruscamente:
R: Não me toque! [disse ríspida]
N: Ok! [ergueu as mãos em rendição]
Os dois passaram a caminhar em silêncio pelo corredor até encontrarem uma enfermeira que os levou a uma outra sala de procedimentos e pediu para Rachel deitar na maca para que pudesse aplicar a agulha em seu braço:
R: Não preciso assinar nada? E aqueles formulários que a gente tem que preencher antes de conseguir atendimento e que provoca gritos de raiva porque é uma burocracia desumana diante da dor das pessoas que procuram o hospital?
A enfermeira deu um leve sorriso com a forma acelerada com que a morena falava:
Enfermeira: Dr. Adam mandou pular toda a burocracia e prestar todo o atendimento que vocês precisassem. [explicava]
R: Mas como ele sabe que estamos aqui?
A enfermeira não precisou explicar. Era óbvio que ele sabia. A rapidez do atendimento de Quinn... Claro que Dra. Sarah o contatou...
R: Esquece... [murmurou]
Perto dali, Quinn fazia todos os exames necessários. Olhava o próprio raio-x e ouvia a explicação do médico, mesmo já tendo entendido através da imagem:
Dr. Emeth: Os quatro, Quinn! [disse tranquilo] Todos os quatro dedos quebrados!
Q: Percebi... [murmurou]
A dor já estava muito menor graças à medicação...
Dr. Emeth: Ou essa porta é muito leve e bateu com muita força, ou apenas muito pesada...
Q: É apenas uma porta...
Em nenhum momento Quinn contou a verdadeira história. Resumiu apenas como prender os dedos na porta, como se mais ninguém tivesse participado daquela cena...
Q: Quanto tempo de recuperação?
Dr. Emeth: Vai depender... Vamos acompanhar. Umas quatro semanas, pelo menos. Menos do que isso é impossível!
A loira bufou... Estava cansada de ter limitações e quando pensava que estava se livrando delas, eis que mais uma apareceu...
Q: Ok...
Dr. Emeth: Aqui... [terminava de assinar a receita] Aqui estão os remédios que você precisará tomar e tudo o que precisará fazer. Aqui nesse envelope estão seus exames para mostrar ao ortopedista de sua preferência. Caso aceite posso ser seu médico durante esse período.
Q: Muito obrigada!
Dr. Emeth: Vamos imobilizar agora, ok?!
Um tempo depois, Dr. Emeth se despedia, não sem antes dizer que Dr. Adam mandava lembranças e lamentava não estar no hospital para acompanhá-la. A loira estava pensativa enquanto a enfermeira terminava de arrumar os instrumentos.
Q: Eu preciso encontrar minha namorada...
Enfermeira: Ela está na sala 12.
Q: Obrigada... [sorriu suavemente]
A loira desceu da maca devagar quando se deparou com Dra. Sarah entrando na sala. A médica fez sinal para que a enfermeira saísse e Quinn não se sentiu à vontade com o gesto.
Dra. Sarah: Meu plantão acabou. [pegava um papel e começou a escrever]
Q: O... Ok? [disse confusa, sem entender o que ela queria ali]
Dra. Sarah: Tome! [entregou o papel]
Quinn segurou sem saber do que se tratava até ver que era um número de telefone e um endereço:
Dra. Sarah: Um dia você vai se cansar de estar com uma garotinha insegura. Apesar de vocês terem a mesma idade, é óbvio que você é muito mais madura! [dizia um pouco nervosa] Não estou no meu plantão, por isso eu sou uma pessoa comum agora. [olhou-a firme] Estou interessada em você e nisso sua namorada tem razão.
Q: Eu...
Dra. Sarah: Só saiba disso! [interrompeu] Eu sei que você está em um relacionamento sério, mas eu sei que vai acabar porque você vai perceber que precisa de uma mulher de verdade. Você tem meu telefone e meu endereço. Basta vir...
Antes que a loira dissesse alguma coisa, a médica saiu rapidamente do lugar. Quinn estava sem ação. Era a primeira vez que uma mulher dava em cima dela daquela forma direta. Jennifer sempre agiu de uma forma psicótica, então não contava. Aquilo que havia acabado de acontecer era muito diferente. Era uma mulher mais madura sendo atirada dentro de um certo limite, expondo uma sinceridade que ela não esperava. E mais uma vez Rachel tinha razão.
Q: Qual o meu problema? [murmurou indignada]
Quinn se perguntava por que tinha tanta dificuldade em identificar a malícia de quem estava interessada nela. Rachel parecia ter um sexto sentido para isso, mas ela não... Havia brigado com a namorada por causa da médica outras vezes, sempre dizendo que ela só fazia o trabalho dela, mas agora era óbvio que Rachel sempre teve razão.
E ali estava Quinn surpresa pela atitude da mulher. E ainda parecia surreal que dessem em cima dela daquela forma. Ergueu o papel novamente e releu. Era mesmo um endereço e um telefone. Dobrou-o com o maior cuidado possível de se utilizar com uma única mão e caminhou em direção à porta para ir até Rachel. No caminho, jogou o papel no primeiro lixeiro que encontrou. Não... Ela não precisava de uma outra mulher. Ela já tinha quem precisava. Dra. Sarah não sabia de nada...
Quinn avistou Noah encostado à parede de frente para a porta aberta da sala 12:
Q: O que você está fazendo aqui?
N: Esperando a Rachel... Como está sua mão? [perguntou ansioso]
Q: Quatro dedos quebrados... [murmurou com um sorriso constrangido, dando de ombros] Por que você não está lá dentro?
N: Porque ela me colocou pra fora!
Q: Então senta, pelo menos! [apontou para a cadeira mais próxima]
N: Não posso... Se eu sentar saio do campo de visão dela. [explicou]
Q: E por que ela tem que ver você se não te quer por perto?
N: Para ter certeza de que não estou perto de você... [disse constrangido]
Quinn segurou uma risada...
Q: Pode sentar, Noah!
Quando virou para olhar para a morena, percebeu que ela virou o rosto, tentando disfarçar que havia visto toda a cena. Resolveu deixar que ela pensasse que não percebeu esse ato... Quinn olhou para a bolsa que continha a glicose e viu que estava quase acabando. Aproximou-se da maca e puxou uma cadeira para se sentar. Rachel não conseguiu encará-la:
Q: Como você está se sentindo?
A morena se xingou mentalmente... Quinn tinha que ser mais rápida!
R: Bem... [murmurou] Você quebrou os dedos? [perguntou triste]
Q: Os quatro! [sorriu suavemente]
Rachel fechou os olhos com força. Respirou fundo. Começou a chorar...
R: Eu quebrei seus quatro dedos! Eu sou uma estúpida! [chorava ainda mais] Oh meu Deus!
Q: Hey! [levantou-se] Pare com isso! Pare! [pediu firme]
Rachel continuava chorando, negando com a cabeça. Ela se sentia profundamente culpada por estar ali naquele hospital, por ter machucado Quinn. Se tivesse esquecido a vodka, se tivesse ficado em casa arrumando o quarto para Beth, talvez nada disso tivesse acontecido...
Q: Olha pra mim! [pediu calma] Por favor, olha pra mim!
A morena tentou estabilizar o choro e respirar de forma mais tranquila. Ela queria atender ao pedido da namorada. Precisava se esforçar para aquilo... Encarou os olhos claros com receio...
Q: Foi um acidente! Não foi sua culpa! Ok? [dizia calma] A culpa foi minha que não tomei cuidado e tentei segurar a porta. Você sequer sabia que eu estava tão perto!
R: Não sabia! [enfatizava]
Q: Então... Você não sabia mesmo! Não pode ser culpa sua!
R: Mas eu fechei com muita força! [voltava a chorar]
Q: E eu deveria ter deixado fechar por completo. Era só abri-la e entrar para conversar com você. O erro foi meu! [explicava calma]
Rachel não se convencia completamente, mas era válida a tentativa amorosa de Quinn de afastar dela toda a responsabilidade. Assentiu levemente com a cabeça, tentando fazer parecer que concordava com ela. A loira se abaixou um pouco e beijou-lhe a testa, pegando-a de surpresa...
Q: Vamos conversar no apartamento, ok?! [a morena assentiu] Eu te amo... [murmurou]
Quando Quinn ia se afastar, Rachel a segurou pela blusa, buscando encará-la.
R: Você transou com Finn e Sam quando namorou com eles? [perguntou agoniada]
Era óbvio que todas as coisas que Santana havia falado iam ficar rondando a mente dela. Quinn sabia disso! Não tinha como fugir daquilo... Com calma a loira sustentou o olhar...
Q: Você sabe que antes de você eu só transei com o Noah. Nunca transei com Finn ou Sam. Nunca chegamos tão longe. Nunca finalizamos nada! Eu não podia se eu já tinha você na minha cabeça... [confessou] Vamos conversar em casa. Mas, basicamente, já tenha em mente isso: Eu não transei com eles. Nem com Santana! E eu não deveria me preocupar em te dizer isso, porque é tudo bem óbvio! [dizia calma] Quanto ao pacto, ele é uma criação delas duas, dentro do relacionamento delas, que sempre me soou como uma brincadeira. Eu não sabia que era algo tão importante para a Britt, nunca dei importância e esqueci isso por muito tempo. Eu não estava te escondendo. Apenas nunca foi um assunto relevante a ser mencionado, principalmente porque eu não lembrava...
R: Mas a Britt disse que você aceitou... [choramingou]
Q: Isso não é verdade! E hoje você viu que Santana inventou algumas coisas. Essa foi uma delas...
R: E sobre o Noah? [perguntou incomodada] Isso é verdade!
Q: Podemos conversar em casa?
R: OK... [murmurou contrariada, desviando o olhar]
Q: Olha pra mim! [pediu]
R: Pra quê? [perguntou triste]
Q: Pra me decifrar! [disse séria] Pra me enxergar como só você consegue! Para entender que não tem motivos para desconfiar de mim!
R: Você me escondeu...
Q: Eu te amo! [interrompeu] Você! Não ele! Nenhuma outra pessoa! [olhava em seus olhos] Você é o meu amor. E você sabe disso!
Rachel assentiu silenciosamente, mas não disse que amava de volta...
A volta foi feita em completo silêncio. Assim que chegaram ao prédio, Noah estendeu a chave do carro para Quinn:
Q: Vá pra casa com ele. Amanhã você devolve...
N: Não precisa. Eu pego um táxi.
Q: Eu insisto!
Rachel se afastou indo em direção ao elevador, parando para esperar Quinn. Puck aceitou a oferta e foi embora com o carro dela. A loira foi até a namorada, que entrou no elevador antes que ela dissesse alguma coisa. A subida também foi silenciosa... A morena entrou primeiro no apartamento, seguida da loira que esperava ouvi-la dizer alguma coisa:
R: Eu quero a receita que o médico lhe deu. Vou ligar para a farmácia e pedir que entreguem os remédios.
Q: Não precisa. Os remédios que já temos em casa servem.
R: Tem certeza?
Q: Tenho!
R: Ok... [disse apática]
Já no quarto, Rachel não sabia muito bem o que fazer. Não confiava em si mesma para começar uma conversa. Preferia que Quinn começasse, mas ela também parecia não saber como proceder.
Q: Eu quero tomar banho. Você pode me ajudar?
R: Claro!
Rachel a ajudou a se despir e a proteger a mão para não molhar. Com naturalidade, despiu-se também e entrou com ela no box, tentando equilibrar a água numa temperatura confortável para as duas.
R: O que você precisa que eu faça? [perguntou com o olhar meio perdido]
Quinn não respondeu. Aproximou-se mais e segurou-lhe o rosto delicadamente, buscando o olhar fugitivo da morena. Percebeu que ela estava a ponto de chorar... Juntou seus lábios com imenso carinho e sentiu Rachel corresponder com necessidade. A morena a puxou pra mais perto e aprofundou o beijo como se quisesse deixar claro que aquela era a única forma com a qual ela conseguia se comunicar sem estragar tudo. A loira soltou de seus lábios e passou a beijá-la no pescoço, nos ombros, até abraçá-la por completo...
R: Eu tenho medo de estragar tudo... [confessou baixinho]
Q: Você não vai estragar nada! [garantiu tranquila]
R: Eu perco o controle... Eu não posso prometer que não vai acontecer de novo porque eu sei que vai! [disse constrangida] Eu vou explodir de novo, Quinn... E você vai cansar disso...
E Rachel falava como se soubesse o que Dra. Sarah havia dito... A loira se separou do abraço e a encarou:
Q: É melhor conversarmos amanhã...
Rachel concordou e continuou o resto do banho em silêncio. Ajudou Quinn em tudo o que foi necessário, inclusive a se enxugar e se vestir...
R: Está doendo?
Q: Um pouco...
R: Tem certeza?
Q: É suportável... [sorriu suavemente]
R: Estaríamos brigadas agora se sua mão não estivesse machucada. Eu estaria ignorando você depois de ter gritado muito. Você brigaria porque eu bebi, porque fui agressiva e me chamaria de irresponsável. Uma de nós estaria na sala e provavelmente seria você. Talvez eu tivesse te ofendido e...
Q: Você não sabe se seria assim...
R: Seria! [sentou-se na cama agoniada] Você não entende? Se não tivesse acontecido isso com a sua mão eu estaria coberta de razão! Ou pelo menos acharia que estava! Mas esse acidente faz meu coração ficar apertado e eu não consigo agir como se estivesse certa. Ou como se achasse... [respirou fundo] Todas as coisas entaladas na minha garganta parecem não querer sair mais nunca...
Q: Fale! [pediu]
R: Amanhã... Talvez... [disse desanimada]
Q: Não! Fale agora! [pediu] Você não vai conseguir dormir se não falar...
A loira sentou ao lado dela e esperou pacientemente que ela começasse a falar:
R: Eu me senti traída novamente. Mesmo depois de ter te explicado sobre essa sensação naquela vez em que brigamos por causa dele, você agiu de forma semelhante.
Q: Eu não fiz isso, Rach! [defendia-se]
R: Fez! O Puck ama você e você sabia disso. Ele veio aqui diversas vezes e durante esse tempo estava te desejando embaixo do meu nariz! [voltava a chorar] Eu me senti traída por você não me falar. Por dividir com ele essa verdade pelas minhas costas...
Q: Não é assim...
R: Eu te amo! Eu te desejo! E sei o que isso faz em mim. [olhou-a] É dilacerante, Quinn! [confessou] Amar você é dilacerante. Não é um sentimento comum. Não é um simples sentir. Me vira do avesso, me atordoa. Me enlouquece! [dizia intensamente] É o sentimento mais profundo em mim. Que me devora! Me domina! E eu sei que ele sente algo assim... Não é igual porque ninguém nunca vai te amar como eu, mas é algo assim, impossível de se desfazer, de acabar... Por isso eu tenho medo de te perder, tenho medo de outras pessoas se apaixonarem por você. Porque amar você é sem volta! Não se desfaz! [chorava mais]
Quinn se arrepiou com aquela declaração. Por mais que se conhecessem mais do que tudo, por mais íntimas que já chegaram a ser, elas sempre conseguiam chegar mais longe, ir mais fundo...
Q: Ele não me ama como você!
R: Eu estou dizendo, Quinn...
Q: Não é igual! [interrompeu] Não pode ser! Nunca foi e nunca será! Mas isso não importa! Não importa o que ele sente ou o que qualquer outra pessoa no mundo poderá um dia sentir por mim. Nós estamos num relacionamento para a vida toda e vamos passar por várias situações que exigirão o nosso bom senso, como agora! Se eu não tivesse me machucado, eu realmente teria brigado com você por ter bebido e por ter explodido. Teríamos, provavelmente, discutido muito, mas no fim estaríamos assim, desse mesmo jeito que estamos agora: conversando civilizadamente. Porque você foi atropelada e ficou em coma. Porque eu levei alguns tiros, fiquei em coma e cega. E porque saímos dessas situações. Porque aprendemos a enfrentar as coisas de uma forma mais madura. Porque sabemos que não podemos nos perder uma da outra. [dizia calma]
R: Mas eu estou chateada! Eu não confio mais no Noah e me magoou você não ter me contado...
Q: Eu confio nele, mas não posso te convencer a confiar. Vocês terão que conversar.
R: Eu não quero falar com ele!
Q: Rach... Ele é o pai da Beth. O convívio é inevitável. Vocês terão que se encontrar e...
R: Ele sempre terá esse elo com você! [interrompeu] Sempre! E eu sempre terei que aceitar e aguentar as coisas calada. [resmungou] É muito injusto que eu tenha que passar por isso sem ter uma escolha!
Quinn a olhou por alguns segundos. Não demorou muito para processar o que a namorada havia acabado de falar:
Q: Você tem uma escolha... Eu não posso te obrigar a conviver com isso. [disse triste]
R: O que você...
Q: Você tem sido maravilhosa comigo quando o assunto é Beth, mas eu não posso te obrigar a lidar com isso da forma que eu lido. Ela é sua irmã, afinal... É diferente do que é pra mim. [respirou fundo e desviou o olhar] Eu não sei como, mas podemos dar um jeito... A gente esquece o quarto para ela. Eu posso ir visitá-la onde ela estiver morando com Shelby.
R: O que você está falando?
Q: Sobre a sua escolha. Você não tem que...
R: Eu não estou falando da Beth! [explicou] Por Deus, Quinn! É claro que não é sobre a Beth! Eu a amo! E amo fazer parte da relação que você está construindo com ela! Ela é sua e por isso, com todo o amor do mundo, ela é minha também! [disse sincera]
Quinn soltou o ar que prendia. Ouvir aquilo a aliviava de uma forma que ela sequer tinha noção...
R: O meu problema é o Noah! É esse “passe-livre” que ele supostamente tem por ser o pai dela. Ele é pai dela, mas não é nada seu além do seu passado.
Q: E amigo...
R: Ok! Um amigo! Mas um amigo que ama você não como um amigo! Que, por isso, me incomoda! Que mesmo não vindo mais aqui, vai continuar sempre presente em nossas vidas.
Q: Mas eu não sei o que posso fazer para mudar isso.
R: Nada! Ele sempre será mesmo presente por causa da Beth! Mas o que pode mudar é sua forma de enxergar isso. Você não pode simplesmente achar que não é nada de mais, porque é! Você não aceitaria que o Finn fosse um amigo próximo se soubesse que ele me amava. E foi assim! Quantas vezes brigamos por isso? A mesma regra se aplica aqui! É um amigo que te quer.
Q: Mas ele não vai nos atrapalhar. Ele não vai fazer isso. Ele vai acabar me esquecendo, Rachel!
R: Ninguém consegue esquecer você, Quinn! Será que você não entende isso? Passei a noite inteira tendo que aceitar o Sam impressionado com o fato de estarmos namorando. Não era uma curiosidade qualquer, porque ele já sabia, mas era como se fosse fantástico demais porque envolve você! Ele também ficaria com você se você quisesse. Ele pode não te amar, mas ele não te esqueceu. E eu acho que até o Finn ainda guarda algum sentimento por você!
Q: Agora você está viajando!
R: Só quero dizer que o Puck sempre vai te querer. E isso sempre vai me incomodar.
Quinn não tinha argumentos para aquilo... Não naquela noite...
R: Estou com dor de cabeça... A glicose não devia ter me curado?
Q: Talvez a dor de cabeça não seja por causa da bebida... É melhor deitarmos...
A morena concordou. Já haviam falado demais! Era uma grande vantagem não estarem brigadas, ainda que o clima não estivesse perfeito. Deitaram-se. Rachel puxou a coberta para aquecê-las e se aconchegou ao corpo de Quinn, deitando a cabeça em seu ombro... Segurou a mão machucada da loira e a colocou sobre o abdômen de Quinn, com medo de machucá-la durante a noite...
R: Tinha que ser logo a mão direita? [resmungou]
Quinn deu um sorriso e virou um pouco o rosto para beijar-lhe os cabelos:
Q: Alguma coisa tinha que dar errado... [disse divertida]
Hiram servia mais uma xícara de chá na companhia de Leroy. Todos estavam dormindo quando a campainha tocou mais cedo. Ficaram surpresos ao se deparar com Brittany diante da porta, com uma pequena mala e os olhos vermelhos de tantas lágrimas. Deram abrigo à garota que não tinha outro lugar para ir. Depois de muito chorar e não dizer nada coerente, finalmente ela havia atingido um estágio de calma capaz de tornar possível explicar a história de uma forma mais compreensível. Enquanto isso Santana chorava em sua própria cama depois de ter ligado infinitas vezes para a namorada. Desesperou-se quando passou a cair apenas na caixa-postal. Ela sabia que havia feito uma imensa besteira. Agora ela tinha que descobrir como desfazer as consequências de tudo o que fez. Ela teria um grande trabalho pela frente...
[CONTINUA...]
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