Você Sempre Esteve Em Mim (parte 2)

73 Capítulo 73 - Página virada...


Notas iniciais
Música do Capítulo: Creed - My Own Prison

Chovia torrencialmente naquele dia e o frio que assolava toda Nova York parecia ser mais forte dentro de Quinn. Ela estava séria enquanto ouvia todas as recomendações da promotoria sobre seu testemunho. Rachel não estava ao seu lado, mas a alguns passos de distância, ouvindo palavras de incentivo de Leroy, Hiram e Shelby. Judy e Frannie reliam alguns papéis, cópias do processo, tentando não deixar que nenhuma informação passasse despercebida. A matriarca Fabray também seria ouvida anteriormente e parecia calma diante da seriedade da situação. Mas não era bem assim... Ela se mantinha firme para ser o apoio de sua filha, mas estava assustada com as proporções daquele julgamento. A promotoria abriu mão de ouvi-la, achando que não era mais necessário diante da quantidade de provas que havia reunido. Seria uma exposição desnecessária. Não havia jornalistas, fotógrafos ou curiosos. Um forte esquema montado pelo FBI e por Columbia garantia discrição e a integridade de Quinn e Rachel. Russel ainda era investigado pelo FBI e sua exposição poderia colocar a perder todo um trabalho minucioso que estava sendo desenvolvido para apurar os esquemas fraudulentos em que ele se meteu. E Columbia jamais mediria esforços para proteger sua aluna mais importante...

A loira continuava séria... Teve que se separar de Santana, Brittany, Kurt e Blaine. Mas Puck e Finn estavam ali, sentados a alguns poucos passos também. Ela não estranhou a presença do ex-quarterback. Afinal de contas, ela sabia que ele seria arrolado como testemunha. Ele estava ali para contar tudo o que aconteceu na sala do coral, no fatídico dia em que Jennifer atirou em sua cabeça. Aquele não era o momento para ter ciúmes ou se apegar a mágoas do passado. Finn estava ali para ajudar e ela apreciava esse ato... Desviou os olhos claros e admirou Rachel. A morena apertava as mãos com força e respirava diferente. Quinn conhecia quando ela estava nervosa. E não era para menos... Naquele julgamento, Rachel era a vítima. A única vítima. Russel seria julgado por tentativa de homicídio contra a morena e aquilo era pesado demais! A loira se levantou devagar e caminhou até a namorada, sentando-se na cadeira que sobrava ao lado dela:

Q: Você pode ir lá fora comigo? [perguntou com a voz suave]

Rachel a olhou confusa, mas assentiu com a cabeça levantando-se para acompanhá-la... Quinn caminhou com ela em silêncio até chegarem ao corredor. Sentaram nas cadeiras vazias que ali estavam... A loira estendeu a mão e segurou a da morena, sentindo o quão gelada e trêmula estava...

Q: É estupidez perguntar isso, mas como você está se sentindo?

R: Eu não sei explicar... [respondeu baixinho com medo de ser traída por sua voz falha]

Q: Rach... [olhou-a firme] Se você não estiver bem, não precisa ir lá.

R: Eu tenho que ir! Depois de... [parou um pouco] Depois de tudo o que passamos... Depois de quase ter perdido você... [a voz, enfim, falhou] Você quase morreu... [choramingou]

Toda a fortaleza que Rachel vinha sendo desmoronava ali... Por Quinn, a morena se transformou numa muralha e se manteve firme durante todo o tempo que transcorreu desde o dia em que Russel apareceu à sua frente, até aquele momento em que sua namorada segurava sua mão carinhosamente no corredor deserto do tribunal... Ela estava se dando conta do significado daquele dia. E não era nada fácil pensar em sentar diante do homem que tentou matá-la e que era o pai do amor de sua vida... Mas o mais difícil era recordar todo o sofrimento que Russel causou à namorada. Todos os medos, toda a limitação que Quinn sempre se impôs era resultado da mente controladora dele... A loira soltou sua mão e o frio que sentia parecia congelar sua alma... Sentiu a mão macia dela em seu queixo, depositando um beijo suave em seus lábios... E o calor voltava aos poucos...

Q: Eu não sou a vítima, meu amor... [disse calma] Você é a vítima! Eu não quero que você entre lá pensando que está fazendo isso por mim, porque não pode ser por mim! É por você! É porque ele tentou tirar você de mim... [foi a vez de sua voz falhar]

R: Mas ele é...

Q: Meu pai de verdade está nas minhas boas memórias que você me ajudou a recuperar... [disse calma] E eu vou guardá-las comigo, se isso me fizer bem... Mas o Russel que será julgado hoje não é mais o meu pai. Ele perdeu esse direito quando me expulsou da vida dele. Quando me forçou a não ficar com a Beth e quando tentou te machucar. Eu não o quero como pai e posso viver muito bem sem a figura paterna dele... Eu não preciso disso. Porque eu tenho você... [disse carinhosa] Eu tenho você e isso me basta...

Rachel não conseguiu se conter e começou a chorar forte. Quinn a puxou para um abraço e a morena se apertou com toda a força que lhe restava. A loira estava em pedaços por dentro, mas ela não permitiria que Rachel tentasse ser mais forte do que ela. Não era hora de segurar todo o peso do mundo. A morena só deveria segurar o peso já muito doloroso de estar ali... Rachel sentiu o beijo carinhoso de Quinn no topo de sua cabeça:

Q: Eu não posso te pedir para não entrar lá. Eu não posso te pedir para ficar aqui, nos bastidores, digamos assim... Nem se fosse possível, eu não poderia te pedir para ir pra casa ficar com Beth... Mas eu posso te dizer que você é mais importante do que qualquer coisa que vai acontecer aqui hoje... Eu não quero que você sofra mais...

Quinn sabia que Rachel não estava em condições de ficar cara-a-cara com Russel e se ela pudesse, mandaria a morena para casa para ficar na companhia de Beth, Lauren e Michael que, atenciosamente, ofereceram-se para cuidar da garotinha. Desde o momento em que Rachel pôs os pés naquele prédio tudo mudou. A coragem que a morena sentia no apartamento parece ter se perdido no meio do caminho e tudo o que ela parecia ali era a mais indefesa das criaturas... Quinn não permitiria que ela continuasse se sentindo assim...

R: Me desculpa... [choramingou] Eu deveria te apoiar, te dar força e não ficar assim... Eu não tenho medo por mim, meu medo é por você!

Q: Hey... [forçou-a a encará-la] Estamos aqui por você, Rachel! O tiro que levei e a cegueira foram o meio da história, mas não é o principal.

R: Como não é? [indignou-se] Eu quase te perdi, Quinn! Você quase morreu! É tudo sobre você!

Q: Mas não é por isso que o Russel está preso. Não é por isso que ele há de ser condenado. É por ter tentado te matar, Rachel! A minha situação roubou a atenção de todos, mas ninguém esqueceu que você é a vítima. É por você que estamos aqui!

R: Eu não sou a vítima! [exclamou] Posso ser a vítima formal, a do processo, mas não sou a vítima real! Ele não me tirou nada, embora eu tenha corrido o risco de perder você. Mas ele não conseguiu levar nada de mim! Já de você... Ele levou sua alegria tantas vezes... [a voz falhou] Eu sei que pedi para você procurar por boas lembranças e reforço tudo o que eu disse a você, mas eu não posso permitir que você pense que é tudo sobre mim... É você! Estamos aqui por você!

Q: NÃO! [falou mais alto, levantando-se] Eu não vou admitir que você pense assim! Não anule seu sofrimento por minha causa, Rachel! As coisas não são assim! Estamos aqui porque ele tentou te matar!

Rachel se levantou rapidamente e segurou o rosto da loira com as duas mãos:

R: Hey... Olha pra mim! [os olhos verdes já avermelhados obedeceram] Quantas vezes já falamos sobre dividir?

Q: Várias... [disse com a voz trêmula]

R: Pare de tentar assumir a linha de frente nas batalhas que temos que enfrentar juntas. Enfrentamos sua cegueira juntas. Enfrentamos tudo juntas. E juntas vamos passar por esse momento. Não importa quem é a maior vítima, ok?! Isso não importa mais... [tentava acalmá-la ao mesmo tempo em que tentava se acalmar] O que importa é que eu cuido de você e você cuida de mim. Juntas somos mais fortes...

Quinn a puxou para um abraço forte. Rachel se agarrou a ela com a mesma força...

R: Como você disse... Vamos virar essa página! Minhas dores são suas e as suas são minhas. Tudo é nosso...

A loira sentiu Rachel se afastar um pouco e segurar sua mão direita, levando-a aos lábios...

R: Precisamos sempre nos lembrar do significado dessa aliança... E das tatuagens que fizemos... Você é minha continuidade e eu sou a sua...

Quinn segurou as duas mãos de Rachel e levou ao próprio rosto. A morena sorriu suavemente, sabendo o que aquilo significava para a loira...

Q: Quando você me pega assim... Quando sinto suas mãos em mim... Eu não me sinto mais sozinha...

Sue Sylvester, Will Schuester, Mercedes, Sam, Artie, Mike, Tina, Brittany, Santana, Kurt e Blaine sentavam-se em sequência. A promotoria tomou cuidado para manter Rachel e Quinn em uma sala separada. Por mais que o comportamento de Russel diante delas pudesse ser decisivo para os jurados, seus pais pediram muito que evitassem qualquer exposição que trouxesse mais desgaste às garotas.

Judy e Frannie, acompanhadas de Shelby, Hiram e Leroy, logo sentaram em seus lugares. Puck e Finn ficaram em outra sala, aguardando serem chamados. Cada antessala tinha sistema de vídeo para que pudessem ver o que se passava no plenário. Nenhuma palavra ali dita fugiria deles...

Quinn segurava a mão de Rachel enquanto a morena mantinha a cabeça deitada em seu ombro, com os olhos fechados, apenas ouvindo o que se passava lá fora... O médico descrevendo os ferimentos de Rachel, resultado dos socos e da esganadura provocada na tentativa de Russel sufocá-la. Nesse momento, a morena se moveu e baixou a cabeça, segurando-a com as duas mãos. As imagens daquele dia voltaram a se fazer presentes e não era nada bom recordar as mãos de Russel presas ao seu pescoço... Quinn passou a acariciar suas costas, dizendo sem parar que a amava...

Russel estava sentado, inerte... Não esboçava nenhuma reação. Frannie mantinha os olhos sobre ele, desconhecendo o próprio pai... Leroy e Hiram sequer conseguiam olhar para ele...

Foi a vez de Finn falar e o rapaz estava muito nervoso. Descreveu toda a cena da sala do coral, causando grande burburinho entre os presentes ao chegar no momento em que Quinn apontou a arma para a própria cabeça. Rachel tinha certeza de que se estivesse do outro lado da parede já teria desmaiado... Mas ali, separada por alguns tijolos, ela vomitou e Quinn cuidou dela como se não tivesse que cuidar de si mesma...

Era muito difícil para Rachel ouvir a descrição de seus momentos mais difíceis. Ela ainda tinha pesadelos com o dia em que Quinn levou o tiro. Ela ainda ouvia o som daquela bala explodindo...

Q: Quer sair daqui? [perguntou preocupada]

R: Não... [murmurou]

Q: Você não precisa...

R: Eu preciso! [disse firme, encarando-a] Isso precisa acabar hoje!

Eloquentemente, o promotor narrava os passos premeditados de Russel para matar Rachel, tentando provar que ele só não conseguiu seu objetivo por circunstâncias alheias à sua vontade. A expressão do patriarca Fabray era de extrema confusão. Ele olhava para seu advogado e perguntava baixinho coisas que ninguém conseguia decifrar. Puck deu continuidade ao testemunho de Finn, fortalecendo a tese da acusação de que Russel pretendia matar Rachel sem qualquer remorso.

Diante da insistência da promotoria de que os atos de Russel foram friamente calculados e premeditados, a defesa tentou, mais uma vez, fazer valer o laudo psiquiátrico que concluía que Russel apresentava problemas de discernimento. O promotor havia conseguido inviabilizar os documentos com artifícios processuais e impediu que constasse como prova para anular o julgamento até aquele momento. Mas uma avaliação realizada no dia anterior contradizia o relatório apresentado pela defesa, que não era claro quanto à patologia que Russel supostamente possuía. Até que se provasse o contrário, ele tinha plena condição de ser julgado...

Antes de dar prosseguimento, foi dado um intervalo e, nesse momento, Russel avistou sua ex-esposa:

Russel: Judy! [chamou sorridente] Judy, querida! Sente-se aqui ao meu lado! Tem espaço de sobra nessa mesa!

Frannie assistiu à cena confusa, assim como todos os presentes ficaram surpresos. Ele só podia ser muito cínico para falar daquele jeito. Judy estremeceu... Ela olhou para aquele homem que um dia amou e, por um segundo, ele parecia estar de volta. Dois policiais se aproximaram de Russel e seu advogado e disseram algo que não dava para ouvir. Logo o Fabray se virou de cabeça baixa e levou as mãos ao rosto...

Rachel seria a última pessoa a ser ouvida enquanto fosse a vez da acusação. Antes dela, Quinn sentaria naquela temida cadeira... Hiram, Leroy e Shelby foram até a antessala em que elas estavam e se prepararam para assumir o lugar de Quinn para lhe fazer companhia, mas a morena recusou. Ela queria sentar no plenário e acompanhar de perto o testemunho da namorada. Ela não a deixaria sozinha naquele momento...

Q: Você tem certeza disso? [perguntou preocupada]

R: Absoluta! [disse firme]

Quinn se aproximou ainda mais e a beijou. Não importava quantas pessoas estavam presentes, ela sentia como se elas fossem as únicas pessoas no mundo...

Q: Eu te amo... [sussurrou sobre os lábios recém-beijados]

R: Eu mais...

Quinn saiu da sala acompanhada por dois policiais, enquanto Rachel seguiu com seus pais para as cadeiras dos fundos. Ela tremia e rezava para que ninguém olhasse para ela. Ninguém olhou. Estavam todos muito concentrados na porta por onde Quinn entraria. Era o testemunho mais esperado. Muito mais do que ouvir Rachel... Era Quinn a personagem mais emblemática daquela história, por mais que ela tentasse dizer que não...

O barulho da madeira pesada fez com que a atenção de todos se voltasse para a enorme porta. Quinn caminhou a passos firmes até a cadeira ao lado do juiz. Ela não conseguia focar seus olhos em nenhuma imagem que não fosse Rachel ao fundo da grande sala. Fez o devido juramento e evitou olhar para Russel a todo custo...

Promotor: Quinn... Você pode nos contar detalhadamente o que aconteceu na sala do coral do seu antigo colégio, em Lima, no dia em que você levou um tiro?

Russel: Tiro?!

A voz surpresa de Russel continha um tom forte de preocupação. Todos voltaram seus olhares para ele e se depararam com a feição pálida de um homem comum.

Russel: Do que ele está falando, Quinnie?

Promotor: Dr. Mapother, por favor, peça ao seu cliente para não interromper! [dirigiu-se ao advogado de defesa]

Russel: Do que ele está falando? [perguntou] Quinnie... Filhinha... Você está bem?

O homem loiro e alto levantou-se bruscamente e sentiu uma puxada em seus punhos. Olhou para baixo e viu que estava algemado. Seus olhos arregalaram e sua respiração ficou ofegante. Ele sentou rapidamente e a respiração foi ficando cada vez mais prejudicada. Uma equipe médica entrou em ação e, apesar de ter sido pedido um recesso, o juiz não concedeu até ter certeza de que era realmente necessário. Não foi... Logo Russel estava respirando normalmente e sentado em seu devido lugar. O promotor pediu à defesa que parasse de encenação, o que causou um protesto efusivo e acatado pelo juiz.

Rachel olhava para Quinn o tempo inteiro, sentindo seu coração ir se despedaçando com a visão da namorada tão sozinha ali diante de todos...

R: Ela não merece isso... [murmurou chorosa]

Leroy a puxou para mais perto, fazendo-a encostar a cabeça em seu ombro, beijando-lhe o topo da cabeça...

L: Vocês não merecem isso...

Retomado o julgamento, Quinn teve sua atenção novamente voltada ao promotor...

Promotor: Quinn, por favor, você poderia nos contar o que aconteceu naquele dia na sala do coral?

A escolha de novas palavras foi proposital, a fim de evitar que Russel tivesse outra crise inexplicável...

Q: Nós fomos surpreendidas com a chegada de Russel e Jennifer armados. [tentava manter a voz calma] Eles mantinham as armas apontadas para Rachel.

Promotor: E qual foi sua reação diante disso?

Q: Eu implorei para que a deixassem em paz, mas não fui atendida.

Quinn apertava as mãos, tentando não se deixar levar pelo nervosismo que queria devorá-la por dentro...

Promotor: Você tinha uma arma?

Q: Sim...

Promotor: De quem era essa arma?

Q: Russel...

Promotor: Então ele sempre teve armas?

Q: Sim...

Promotor: Por que você carregava aquela arma?

Q: Porque eu estava morrendo de medo dele e achei que poderia proteger Rachel... [a voz falhou um pouco]

Promotor: Você acha que funcionou?

Q: Sim... Ela não saiu ferida de lá...

Promotor: Você levou um tiro na cabeça naquele evento e passou um tempo sem enxergar. Você seria capaz de dizer aos jurados como tudo isso foi difícil para você?

Q: Claro! Quer dizer, eu...

“Them that's got shall get. Them that's not shall lose. So the bible said and it still is news…”

Uma voz grave reverberou pela sala enorme com pé direito alto... Todo o corpo de Quinn estremeceu. Era medo... Não foi diferente com Judy e Frannie...

“Mama may have, papa may have. But God bless the child that's got his own. That's got his own...”

Era Russel cantando... Ninguém entendia nada e o promotor já estava a ponto de explodir com o que ele considerava uma baita encenação. Mas os olhares se dividiam entre Russel e Quinn... O homem cantarolava com os olhos fechados, movendo os braços de um lado para o outro, como se ninasse um bebê imaginário... Judy tentou se levantar, mas foi impedida por Frannie. Shelby foi até a cadeira ao lado de Judy, tentando entender o que estava acontecendo. Rachel tentava decifrar o que Quinn sentia. Tudo estava gelado...

“Yes, the strong gets more. While the weak ones fade. Empty pockets don't ever make the grade. Mama may have, papa may have. But God bless the child that's got his own. That's got his own…”

A loira fechou os olhos e lembrou… “God Bless The Child” era a canção que Russel cantava para fazê-la dormir… Desde que ela era um bebê até seus 6 ou 7 anos... E foi essa a música que ela escolheu para fazer Beth dormir quando estava pela primeira vez na casa de Shelby. Inconscientemente ela havia escolhido essa música que morava nas profundezas de sua mente... Era mais uma ligação com Russel que ela não admitia ter...

Quinn levou as mãos à cabeça e se abaixou tonta. Russel continuava a cantar e as pessoas já não entendiam mais nada. Apenas Judy, Frannie e Quinn... Elas não ouviam, mas uma discussão se formava entre o promotor e o advogado de Russel, enquanto o juiz exigia ordem no tribunal.

Dias de verão na Flórida começaram a surgir na mente de Quinn. Eram suas férias encantadas, quando seu pai herói corria para o mar segurando em sua mão e na de Frannie, enquanto Judy se bronzeava na areia da praia lendo uma revista qualquer. Eram horas de divertimento. Ela amava ficar em pé sobre os ombros de Russel e pular para um mergulho... Dias de inverno se fizeram presentes e a família reunida em frente à lareira tomando chocolate quente e ouvindo histórias contadas através da voz grave e imponente de seu pai... Dias de outono e suas folhas caídas no jardim e ela ajudando Russel a retirá-las do caminho... Primaveras sempre esperadas, com flores sendo deixadas nas portas dos quartos de cada uma das princesas Fabray... A respiração de Quinn passou a ficar mais pesada quando as lembranças deixaram de ser felizes... A solidão de seu quarto e as milhares de vezes em que se viu falando sozinha diante de um Russel frio que não admitia ter uma criança tão “sabichona” em casa. De toda a atenção dele dedicada exclusivamente à Frannie... Da mudança de um pai presente para o mais ausente de todos... Ser popular o trouxe de volta... Ser popular o levou embora...

Quinn vomitou. Ela não sabia mais o que acontecia ao seu redor... Só ouvia a voz de Russel cantando sem parar e em sua mente agora só havia Rachel com o olho roxo, Rachel traumatizada com o fato de quase ter morrido. Em sua mente agora só havia a escuridão na qual foi obrigada a viver enquanto nada enxergava... Ela vomitou novamente...

Sentiu alguém segurar em seus cabelos e o cheiro inconfundível invadiu seu olfato. Era Rachel ali, voltando a tocá-la para que ela não se sentisse mais sozinha...

R: Vamos sair daqui, meu amor...

Q: Não... Ainda não acabou... [murmurou enjoada]

R: Acabou por hoje... [disse tentando passar toda a calma que podia]

Quinn levantou o olhar confusa e avistou Frannie e Judy se aproximando também, enquanto Russel era erguido da cadeira por dois policias... Ele a olhava de forma terna, com um sorriso assustador...

Russel: Pronto... Agora você pode dormir, minha princesa... É hora de sonhar...

A casa Faberry estava cheia! As duas famílias e todos os amigos estavam lá. Judy e Frannie, ainda nervosas, tentavam se acalmar diante daquele dia tão estranho... O julgamento foi interrompido e suspenso pelas consequências do comportamento de Russel. Independente de qualquer coisa foi comprovado que, naquele momento, sua mente não estava mais ali. Sendo assim, ele não poderia ser julgado mais naquele dia. Uma nova e mais minuciosa avaliação psiquiátrica seria feita e uma nova data seria marcada caso nada fosse constatado. Se foi uma estratégia da defesa, isso seria descoberto...

Beth estava triste porque não tinha autorização para ir ao quarto onde Quinn estava. Puck a mantinha no colo, tentando explicar, mas tudo o que ela dizia era que era um “insustiça” não vê-la...

O teto branco era a imagem que seus olhos miravam. A sensação de mal-estar já havia passado, mas o silêncio permanecia... Quinn não queria falar. Aquela música não saía de sua cabeça... Rachel estava deitada ao seu lado, olhando seu perfil, também em silêncio... Observava as trilhas das lágrimas silenciosas escorrendo pelo canto do olho da namorada e molhando aos poucos o travesseiro...

Q: E se foi tudo loucura? [perguntou de repente]

Rachel encostou a testa no ombro de Quinn e entrelaçou os dedos com a mão esquerda que a loira mantinha sobre a barriga:

R: Patológica ou não, foi loucura! [disse calma]

Quinn se moveu e deitou de frente para Rachel, puxando-a pela cintura para ficar o mais próxima possível:

Q: Eu te prometi que hoje viraríamos uma página... [olhou-a agoniada]

R: Uma página foi virada, meu amor... Não como você pensou que seria... Não como esperávamos que seria... Mas, sem dúvida, estamos em uma página diferente agora...

Q: Aquela música... [respirou fundo] Ele cantava para que eu dormisse... E eu a cantei para a Beth... [começou a chorar] Vão aparecendo coisas que tenho em comum com ele, mas eu não quero ter nada em comum... [chorava ainda mais] Se ele estiver mesmo louco e eu herdar a loucura dele... Eu não quero isso! Eu não quero! Eu não quero destruir e vida de ninguém...

R: Hey... [beijou-lhe a testa] Você é única, meu amor... E tem ligações profundas com Beth, comigo, com Frannie, com sua mãe... Você não é uma cópia do Russel...

Q: Eu tenho medo...

R: Todos temos medo, meu amor... De tantas coisas... [dizia carinhosa]

Q: Eu queria que isso tivesse acabado...

R: Acabou... Você não consegue ver ainda...

Em sua cela, Russel continuava cantarolando...

“Mama may have, papa may have. But god bless the child that's got his own. That's got his own. He just worry 'bout nothin'. Cause he's got his own…”

Russel: É hora de dormir, Quinnie. Papai está aqui para proteger você!

E os braços, agora sem algemas, uniam-se no embalo de um bebê que não estava ali...

Quinn acordou com o peso do corpo de Rachel sobre o dela, e o corpinho de Beth aconchegado em seu braço direito. Sorriu... Ela tinha seus amores com ela. E ali estava toda sua segurança... Puxou a filha para mais perto e o movimento fez Rachel despertar...

R: Tudo bem?

Q: Hum hum... [assentiu suavemente] Quanto tempo eu dormi?

R: Umas 5 horas... [murmurou sonolenta olhando para o relógio] Eu vou sair de cima de você...

Q: Não! [impediu] Fica assim... [pediu] Eu quero sempre sentir o seu corpo pesando sobre o meu...

Rachel sorriu, erguendo-se um pouco para beijá-la delicadamente nos lábios...

R: Você sempre sabe o que dizer...

Aquele dia havia começado com a esperança de que uma página viraria e tudo de ruim ficaria no passado. Mas era inocência demais elas acreditarem que tudo se resolveria em 24 horas. Ou menos... A vontade de ver Russel saindo daquele tribunal condenado estava presente em todos e vê-lo saindo cantarolando foi frustrante... E durante aquele dia, Rachel foi a “tábua de salvação” de Quinn. Como era em todos os dias... Por mais que tentasse dizer que a morena era a vítima, ninguém perdeu mais do que a loira. Quinn perdeu seu pai herói com o passar dos anos. Ela viu seu maior exemplo se transformar em um homem distante, autoritário, frio, preconceituoso, com rompantes inexplicáveis de atenção e carinho paternal, alternando novamente para a frieza de quem não admitia ser intelectualmente inferior a ela... Ela se viu expulsa de casa, sem condições de criar a filha que nasceria. Ela se viu sem Beth. E até ali, ela tinha certeza de que Russel não era louco. Não havia loucura antes. Não havia... Ela se viu quase perdendo Rachel... Ela não se viu mais... Cega, ela sentiu que toda sua força não vivia em seu próprio corpo, mas no corpo menor da morena que se revelou tão cedo como o amor de sua vida. E ali, naquele quarto, ela tinha Rachel e Beth ao seu alcance. As duas coisas mais preciosas de sua existência e que Russel havia tentado tirar... Ele merecia ter sido condenado. Ele merecia estar atrás das grades. Mas ele estava... Havia barras de ferro por todos os lados e tudo resumido em poucos metros quadrados... Mas não era essa a prisão principal. Ao que parecia, Russel estava preso em sua própria mente, como Quinn acabou sendo obrigada a viver até Rachel aparecer em sua vida. Nessa inversão de realidades, parecia que, de uma vez por todas, Quinn estava pronta para ser livre...

[CONTINUA...]

Notas finais
Esse foi um capítulo MUITO difícil de escrever. Decidi que mais do que termos jurídicos e passagens de tribunal, o mais importante era a construção psicológica de Quinn, Rachel e Russel. Espero ter feito um bom trabalho... Obrigada "Someone" pela indicação de música aos 45 minutos do 2º tempo! ;-) Espero pelos comentários de vocês para saber o que acharam! Obrigada por caminharem ao meu lado pelos caminhos "tortuosos" dessa história... ;-) Vocês são maravilhosos(as)! Lembrem-se que classifiquei VSEEM, EAST e MR como fics +18, e que pelas novas regras do site, elas não são listadas, a menos que vocês atualizem o controle parental. Então para ler, façam isso, ou procurem na busca pelos nomes das fics ou pelo meu perfil.