Você Sempre Esteve Em Mim (parte 2)
58 Capítulo 58 - Isso não é um recomeço
Notas iniciais
A espera, dessa vez, parecia menos tensa. Apenas parecia... Rachel evitava conversar com qualquer pessoa, sabendo que não conseguiria manter firme a segurança que se forçou a sentir. Tinha sido um longo período com Quinn sem visão, mas com a esperança de que tudo mudaria. Ali, naquele hospital, as esperanças poderiam se confirmar, ou simplesmente poderiam se desfazer, comprovando que a escuridão seria permanente...
Enquanto Brittany distraía Beth, Judy e Shelby conversavam como velhas amigas. Os acontecimentos envolvendo suas filhas permitiram o surgimento de uma amizade sincera. Ambas tinham suas feridas a cicatrizar...
J: Quinnie se tornou adulta muito cedo...
Sh: Você se refere à Beth?
J: Não exatamente... Eu me refiro a tudo... A tentar se virar sozinha, ao silêncio em casa... Eu e o pai dela fingimos, por muito tempo, que ela não era um gênio. Para a sociedade, éramos os pais maravilhosos que compravam livros para a filha inteligente. Mas Russel não os entregava a ela. Ela os lia escondido. Ou Frannie lhe dava os livros dela. Vivemos de aparência por muito tempo e foi Quinnie quem mais sofreu com isso...
Sh: Se vamos competir para saber quem foi a pior mãe, acho que eu ganharei... [sorriu triste]
J: Mas sua filha foi uma criança feliz... [disse sincera] Ela foi criada num lar cheio de amor. Minha filha foi criada num lar frio... É triste reconhecer, mas é verdade... Ela só descobriu o que é ser feliz quando Rachel entrou em sua vida... Eu lembro... Quando elas ainda eram só amigas. Estranhei ao vê-la sair correndo porque ela “tinha que ir à casa de Rachel.” Porque “Rachel isso, Rachel aquilo...” Ela ainda não conversava sobre as coisas, mas eu sabia que elas eram próximas. E era estranho, porque eu também sabia, mesmo sem saber detalhes, que elas brigavam muito na escola. Achei que era minha filha amadurecendo mais, até que descobri que era minha filha se apaixonando...
Sh: Difícil imaginar que elas se apaixonariam, não é?!
J: Para nós? Sim! [sorriu suavemente] Quinn vem de uma família com uma tradição conservadora de gerações. Você pode ir lá na mansão um dia e ver que a própria arquitetura e decoração da casa demonstram a frieza com a qual ela cresceu. E mesmo assim ela sempre foi a mais sensível de todos nós. A que gostava de arte, de ler, de boa música... O quarto dela, suas gavetas e seu armário eram seu mundo. Eu vi muitas vezes os livros escondidos entre as roupas, os desenhos que ela fazia guardados embaixo do colchão. E eu ignorei esse lado dela. Ela poderia ter dividido tanta coisa comigo, mas eu deixei que ela pensasse que o que eu via era o que estava ao alcance de todos: a linda líder de torcida filha do notável Russel Fabray... Resumi-la a apenas isso faz com que eu pense que cortei suas asas por muito tempo... [enxugava algumas lágrimas que caíam] Frannie me pediu tantas vezes para prestar mais atenção em Quinn... Dizia que ela precisava muito mais de mim... Mas eu não dei ouvidos. Parecia mais certo chegar à igreja todo domingo contando sobre a competição onde Quinn havia sido o maior destaque, ou sobre o namoro promissor com o quarterback da escola. Sempre enfatizando que ela era a presidente do clube do celibato, claro! [fez uma careta] Eu fui uma mãe tão fraca, que não vi que minha filha era infeliz...
Sh: Não se prenda a isso, Judy... Hoje vocês têm uma relação maravilhosa e...
J: Por causa dela! [interrompeu] Porque ela é um ser humano muito melhor do que eu! Infinitamente melhor do que o pai dela! [enfatizou] Ela me perdoou por tê-la abandonado. Ela me perdoou por ter sido omissa a vida toda. Essa generosidade natural dela a faz tão especial! [choramingou]
Shelby segurou a mão de Judy e a apertou com força:
Sh: Hey... Eu sei como você se sente... [tentava acalmá-la] Veja a Rachel... [seus olhares desviaram para ela, que não percebeu] Eu sequer estive por perto enquanto ela crescia. Eu sequer tenho lembranças de como ela era quando criança. Leroy e Hiram me mandavam fotos, mas eu não me aproximei. Ela era uma criança linda e, pelo que eles me contavam nas cartas, era super talentosa. Hoje eu sei que não era exagero da parte deles... [sorriu suavemente enquanto olhava para os dois distraídos, acariciando as costas de Rachel] Ela me aceitou em sua vida sem me questionar. Sem me julgar ou qualquer coisa do tipo. E eu não sei se essa generosidade é natural dela ou se foi ensinada pelos pais maravilhosos que ela tem... E nem me importa saber... Estou feliz só em poder tê-la em minha vida de bom grado. Beth me ensinou um tipo de amor que eu não conhecia. Que pertencia à Rachel, mas estava guardado em mim... [emocionou-se] Agora eu tenho duas filhas que amo mais do que tudo...
J: Acho que melhoramos como mães... [sorriu]
Sh: Tenho certeza disso...
Santana permanecia em silêncio, com o olhar preso em Rachel. Sua cabeça viajava e logo se lembrava da época do colégio. Era tão inacreditável que elas duas agora faziam parte uma da vida da outra de forma tão próxima e intensa! Ali, naquele corredor, ela tinha certeza de que a dor de Rachel se tornava sua. Ela era sua amiga de verdade agora... Levantou-se discretamente e se aproximou dela:
S: Vamos dar uma volta, Berry?
Rachel a olhou confusa. Ela não pretendia sair dali nem tão cedo, mas percebeu que a latina precisava... Demorou alguns segundos até que sua mente e seu corpo agissem em sincronia...
L: Nós te ligamos se tivermos alguma novidade...
Mesmo contrariada, a morena assentiu e se levantou. Em silêncio, seguiu os passos de Santana corredor afora... Sem dizer nada a latina retirou um papel dobrado do bolso e a entregou. Rachel pôde perceber que era a lista das cinco coisas de Quinn, só que com a letra da loira. Estava diferente, claro! Afinal, ela não enxergava o que escrevia. Um pouco torto e dava para perceber que tinha sido escrito bem devagar, com calma e um certo cuidado...
S: Eu sei que você já teve acesso à lista que eu escrevi. Mas essa é a original... Ela queria que fosse feita por ela, mas eu xinguei tanto a letra que acabei deixando-a insegura... [confessava]
Rachel lia de novo e um sorriso singelo aparecia em seus lábios... Realmente Quinn havia dito “fazer amor” e não aquela frase que tinha selo de qualidade Santana Lopez...
S: Ela estava com medo dessa cirurgia... [continuou]
Ouvir que Santana sabia que Quinn estava com medo fez Rachel se preocupar. Elas tinham conversado sobre isso? Quinn escondeu algo dela?
S: Mas ela tinha mais medo de nunca mais ver você...
R: O que você...
S: Não há outra razão para ela estar lá dentro agora... [interrompeu] Ver você de novo é tudo o que ela quer...
R: Por que você está me dizendo isso? Você quer que eu me sinta culpada se algo de ruim acontecer?
S: Nada de ruim vai acontecer! [disse firme] Nada!
R: Mas por que você está me dizendo isso?
Santana respirou fundo...
S: Porque eu preciso falar, ok?! [disse frustrada] Eu não sei falar direito sobre o quanto ela é importante pra mim e já não faz mais sentido eu te ameaçar se a machucar... Não sei dizer o quanto a amo e o quanto me dói esperar por notícias. Eu não sei falar o quanto me doía guiá-la pelos corredores de Columbia, sabendo o quanto era injusto que ela não pudesse andar sozinha. Pelo menos por enquanto... Eu não sei falar o quanto eu me sinto condicionada a proteger vocês duas... Então... Então eu tenho que falar sobre ela. Sobre vocês... Sei lá...
Era óbvia a dificuldade de Santana em se expressar normalmente. Em ser sentimental... Mas ela estava explodindo. Sua melhor amiga estava fazendo uma cirurgia complicada depois de tantos momentos difíceis... Ela precisava falar... Sentiu os braços de Rachel ao redor de si e um abraço apertado se formou...
R: Você tem um coração, Santana! [sorriu]
S: É... Eu tenho... Mas que merda! [apertou-se no abraço]
Rachel a liberou rapidamente e seu semblante demonstrava que ela estava pensando em algo...
S: Berry?
R: Você pode me acompanhar a um lugar? Eu tenho certeza de que é aqui perto...
S: Que lugar?
R: Vem!
Quase duas horas depois, elas voltaram aos seus lugares de espera. Não havia qualquer novidade sobre a cirurgia. Assim que Rachel se sentou, Santana falou em alto e bom som...
S: Rachel fez uma nova tatuagem!
“O QUÊ?!” [todos exclamaram surpresos]
R: Santana! [repreendeu]
S: Todos iam saber mesmo! [deu de ombros] A Quinn me contou o choque que foi quando descobriram a outra. Vamos poupar todo mundo de novas surpresas... [falou como se tivesse razão]
Rachel bufou e Leroy logo tomou a dianteira nos interrogatórios:
L: Que tatuagem? Onde? Por quê?
R: É uma surpresa para a Quinn. No ombro. E é uma surpresa para a Quinn... [respondeu tentando permanecer calma]
H: É chamativa, filha?
Sh: No ombro?
Br: Eu posso ver, Rachel?
B: Ver o quê, “Êichel”?
E a tatuagem de Rachel tinha virado o assunto do momento...
K: Você é um gênio, Santana Lopez! [sussurrou em seu ouvido]
S: Viu como ninguém mais parece angustiado nessa espera sem fim?
Tinha sido mesmo uma jogada de mestre da latina...
L: Não é nada grande, é filha? [perguntou preocupado]
R: Não, pai! É discreta... [respondia constrangida]
S: Tinha nem como ser grande nesse ombro de nanica...
O olhar furioso de Rachel despertou uma piscadela cúmplice da latina. Só então a morena entendeu suas verdadeiras intenções...
Judy estava sorrindo. Ninguém se deu conta, mas ela sorria. Ver que Rachel havia feito uma tatuagem para Quinn a animava. Então a morena tinha certeza de que a loira a veria...
Na sala de cirurgia, Quinn era sedada. Tinha respondido a todos os estímulos e todos os seus sentidos estavam em perfeita ordem. Sua capacidade motora, sua capacidade intelectual... Era chegada a hora de finalizar e tudo deveria voltar ao normal...
O som das portas duplas se abrindo chamou a atenção de todos, mas foi o coração de Rachel o que disparou mais rapidamente. Os médicos responsáveis pela cirurgia e dois residentes apareceram, já sem as batas azuis, vestindo seus jalecos brancos... Rachel pensou que se tiveram tempo e calma para trocar de roupa era porque as coisas deviam ter dado certo. Correto?
Dr. Adam: Rachel, Senhora Fabray... [chamou-as, fazendo com que se aproximassem rapidamente] Devo dizer com toda a certeza que não precisaremos ter medo de sermos perseguidos até a última esquina inferno por uma latina sanguinária chamada Santana Lopez...
Imediatamente a latina arregalou os olhos sem entender o porquê daquela frase. Depois ela saberia que aquilo fazia parte de uma ameaça feita por Rachel, caso a cirurgia desse errado...
Judy olhou assustada pra Rachel, sem acreditar que a nora tinha sido capaz de ameaçar os médicos daquela forma. Mas a morena não demonstrava qualquer arrependimento por aquilo... Ela estava nervosa demais para se preocupar com qualquer outra coisa... Se ela estava entendendo bem, o médico estava dizendo, de uma forma bem humorada, que a cirurgia tinha dado certo. Era isso mesmo?
R: O que... O que isso quer dizer? [perguntou tremendo]
Dr. Adam: Isso quer dizer que a cirurgia foi um sucesso! [sorriu orgulhoso]
O barulho ensurdecedor das vibrações fez o hospital parecer o ginásio ou o campo do Mckinley em dia de jogo... Mas Rachel continuava parada. Estava congelada...
Dr. Adam: Rachel... Você entendeu? [perguntou atencioso] Conseguimos recuperar a visão da Quinn e ela está bem...
Um filme passava na cabeça da morena. Ela já não estava mais acostumada a receber boas notícias assim, sem uma boa dose de drama ao redor. Mas já não bastava todo o drama sofrido nos últimos tempos? Bom... Ela sabia que não iria se incomodar em ser os olhos de Quinn pelo resto da vida, mas ela se incomodaria com a tristeza da namorada em não mais enxergar. Não era o que Quinn representava cega que a amedrontava, mas o que a escuridão representava para a loira. E naquele momento, o que ela sentia, era que a namorada poderia ter sua vida de volta. Que ela poderia voltar ao que era antes... Que ela poderia vê-la feliz novamente. Como já era esperado, Rachel explodiu em um choro forte e soluçante. Era o alívio pelo qual havia esperado tanto. Quinn era tudo para ela e por ela seria capaz de tudo... Era a hora de tudo começar a dar certo para as duas...
Sentiu braços envolvê-la, mas sequer se deu conta de quem a abraçava. Seu ombro doía por conta da tatuagem, mas sequer percebeu a dor... Todo seu corpo entrava em uma espécie de colapso e ela tremia sem parar. Sem pensar, separou-se do abraço em que se encontrava e se jogou nos braços do médico. Ela queria agradecer, ela queria! Mas não conseguia... Ele entendeu...
R: Eu quero vê-la! [separou-se rapidamente] Eu quero que ela me veja!
Dr. Adam: Calma! [sorriu suavemente] Ela está na UTI.
R: UTI? [preocupou-se]
Dr. Adam: Sim, Rachel... Ela passou por uma cirurgia cerebral.
R: Mas ela não estava acordada? [tentava entender]
Dr. Adam: Mas precisamos sedá-la ao final da cirurgia. Procedimento normal, Rachel. Durante toda a cirurgia nós utilizamos anestesia, mas o efeito, como você sabe, vai passando. Precisamos sedá-la para que ela adormecesse e não sentisse as dores terríveis que surgem quando o efeito da anestesia passa em cirurgias desse tipo. Saiba que ela sentirá bastante dor de cabeça até estar completamente recuperada.
R: Mas o que falta? [perguntou agoniada] O que falta para que ela fique completamente recuperada?
Dr. Adam: Cicatrização. [respondeu tranquilo] Então... Peço um pouco mais de paciência. Vamos monitorá-la por 48 horas em sedação. Depois desse período, ela acordará.
R: Eu terei que esperar dois dias para ter certeza de que ela está bem? [protestou]
L: Filha se acalme!
Dr. Adam: Ela está bem, Rachel! Isso eu posso te garantir.
R: E a visão? Como eu posso ter certeza?
Dr. Adam: Estimulamos todos os sentidos. Estão todos funcionando. Vai ser normal que ela ainda veja algumas coisas de forma turva, ou não tenha ainda completo domínio das cores. Isso pode acontecer. Ou ela pode acordar sem qualquer dificuldade em enxergar as coisas perfeitamente. Vai depender de como o cérebro dela vai responder à cicatrização.
R: Mas vai ficar tudo como era antes?
Dr. Adam: Sim... Vai! [garantiu]
R: Oh meu Deus! [levou as mãos à boca, tentando conter a felicidade que se apossava dela]
Dr. Adam: Senhorita Corcoran... [estendeu a mão para Shelby] Aqui está... Foi muito útil! [entregou-lhe a fotografia de Rachel com Beth, utilizada na cirurgia para testar a visão de Quinn]
Rachel olhou confusa para Shelby, sem saber o que aquilo significava. Logo, ela teve sua explicação:
Sh: Achei que essa seria a primeira imagem que Quinn gostaria de ver... [sorriu encabulada]
O abraço de Rachel em sua mãe talvez tenha sido o mais forte e mais sincero de todos já trocados entre elas. Ela estava incrivelmente agradecida. Aquele gesto era tão delicado e tão generoso da parte de Shelby, que Rachel não sabia como agradecer:
R: Obrigada, mãe! [foi só o que conseguiu expressar]
E pela primeira vez Shelby ouvia aquela doce palavra saindo da boca de Rachel para ela: “mãe”...
Foi difícil, mas Rachel atendeu ao pedido dos médicos em não insistir para entrar na UTI. Eles queriam que nas primeiras 48 horas Quinn ficasse na mais absoluta paz, sendo monitorada o tempo inteiro pelos aparelhos, sem qualquer interferência externa além da própria equipe médica.
E foram as 48 horas mais longas da vida de Rachel...
Ela não saiu do hospital. Claro! Ela teve vários momentos de conversa com Judy, seus pais, Kurt, Brittany, Beth... Pediu à Shelby levasse a garotinha para casa e a vestisse novamente de azul...
Houve um momento em que Judy e Frannie foram à capela da igreja para agradecer a Deus. Rachel as acompanhou. Naquele momento suas diferenças religiosas não tinham importância, não faziam o menor sentido. A morena ajoelhou-se e juntou as mãos. Em seu silêncio particular agradecia por Quinn estar bem. Agradecia por tê-la em sua vida e pedia que nada mais acontecesse que pudesse significar o risco de perdê-la. Em suas preces Rachel fortalecia sua oração de cada dia, seu desejo inesgotável de ter Quinn com ela para sempre...
Mais tarde, Judy sentou-se ao lado de Rachel, segurando sua mão:
J: Obrigada por cuidar dela!
A morena a olhou de forma terna e sorriu suavemente:
R: Na verdade, acho que ela cuida mais de mim do que eu dela...
J: Vocês se cuidam!
R: É...
J: Obrigada por fazer minha Quinnie amar... Por mostrar a ela que ser feliz não é tão difícil... [começava a chorar] Por enxergar por ela durante todo esse tempo...
R: Judy... [respirou] Você está me agradecendo por amar sua filha? Amar a Quinn é o meu maior privilégio. [sorriu] Eu que devo agradecer a ela por estar comigo. Por me aturar... [sorriu divertida] Chega de agradecimentos, eu acho... É tudo tão natural e impossível de não sentir, que não é preciso agradecer...
O quarto para onde Quinn iria ao sair da UTI estava repleto de fotos. Rachel as havia pendurado, colado nas paredes. Convenceu aos médicos de que aquilo era completamente necessário. A loira recebeu dezenas de buquês de flores. Desde Columbia ao Mckinley... Todos foram levados ao apartamento, mas a morena fez questão de fotografar todos e posicionar as fotos em lugares estratégicos, em meio a tantas fotos de momentos que Quinn não tinha visto... Seus pais tinham sido uns amores ao revelar as fotografias, ao arrumar o apartamento... Rachel tinha um exército eficiente com quem contar...
Quando enfim a loira foi levada ao quarto, a morena não se conteve. Revê-la era como vê-la pela primeira vez. Ela estava morrendo de saudade! E a primeira coisa que fez foi beijá-la delicadamente nos lábios.
R: Bem-vinda, amor... [sussurrou sobre os lábios recém-beijados]
Quinn ainda dormia... Parecia tão tranquila... Todos estavam ansiosos para o momento em que ela acordaria, mas Frannie conversou com cada um, explicando o quanto era importante que ela acordasse sem muita agitação. Todos concordaram que o ideal era deixar que ela despertasse em um ambiente calmo. Quando Rachel se deu conta, estava sozinha no quarto com a loira... Seria um momento delas. Apenas delas! Foi em um momento que envolvia as duas que Quinn perdeu a visão e assim seria quando ela voltasse a ver. A sala de cirurgia estava sendo excluída dessa equação...
Rachel arrumou o lençol, cobrindo Quinn com mais cuidado. Suas mãos deslizavam delicadamente pela loira, enquanto o tecido se ajeitava. Sentou-se à beira da cama e acariciou a testa da namorada com a ponta dos dedos...
R: Você pode acordar quando quiser, meu amor... O quarto já está pronto pra você. Sem muita luz, sem nada para te incomodar... E eu estou aqui te esperando... Pronta pra você! Sempre estarei... Eu te marquei de novo em minha pele... [sussurrou orgulhosa]
Os minutos se passavam e Quinn não acordava. Rachel começava a se sentir impaciente e desconfortável naquela posição. Acabou descendo da cama. Observou de novo tudo o que havia arrumado. Passou a mão pelo vestido e se certificou de que ele estava ok, se sua manga escondia bem o curativo da tatuagem. Perdeu alguns vários minutos regulando as persianas, mesmo que elas já estivessem corretas há muito tempo... Lembrou-se do papel que Santana lhe entregou e o pegou na bolsa. Sorriu ao ler novamente. Passou os dedos sobre a caligrafia torta de Quinn e foi como se a sentisse novamente. “Fazer amor”... Ela queria tanto... Ela queria sentir a loira a dominando novamente, ela queria a doçura, o calor...
Saber que Quinn estava bem, que nada de ruim havia acontecido a deixava tão feliz! Ela não cabia mais dentro de si. Ela chorou... Chorou de felicidade! Não pela visão de Quinn. Não! Ela chorou pela vida! Ela a queria viva, independente de qualquer coisa. E ela estava... Estava viva para ela... Dormindo como um anjo... Dormindo? Era o que ela pensava.
Já havia alguns segundos que ela era observada. E apenas alguns segundos depois ela se deu conta disso. O olhar de Quinn direcionado a ela, cheio de saudade, repleto de carinho e lágrimas...
Q: Azul... Você está de azul... [sorriu fracamente]
A voz rouca e cansada saiu murmurada, mas ela ouviu perfeitamente... E ela pôde ver de novo o brilho no olhar do amor de sua vida... Aquele brilho que só existia quando Quinn olhava para ela... Parecia um milagre. Quinn era seu milagre! De repente, nada mais importava. E nada mais importava mesmo! Rachel avançou em direção à loira parando bruscamente antes de se atirar sobre ela. Não seria prudente fazer isso... Abaixou-se suavemente, com seus olhares presos, abrindo um sorriso gigantesco...
Q: Eu... Senti tanta falta desse sorriso... [murmurou emocionada]
Rachel não se conteve. Juntou suas testas e se deixou desabar em um choro suave... Naquele segundo, elas precisavam de toque, não de visão... Segurou o rosto de Quinn suavemente e a beijou. Naquele beijo havia tantas promessas, tantas declarações... Tanto amor!
R: Bem-vinda, meu amor... [sussurrou carinhosa] Bem-vinda à luz, bem-vinda às cores... Bem-vinda a mim de novo...
Q: Me beija... [sussurrou]
Rachel obedeceu... Dedicou-se a manter o beijo delicado, afinal, Quinn havia acabado de acordar e ainda estava um pouco fraca. O mover dos lábios da morena sobre os dela era como um sopro de vida renovador. Enxergar era uma vitória. Enxergar Rachel era uma vitória maior ainda. Enxergar Rachel dava todo o sentido ao ato de enxergar. Sua visão não tinha qualquer valor se dedicada a qualquer outra imagem. Era Rachel quem justificava tudo para ela. Era Rachel seu motivo maior...
Q: Eu estou... bem? [perguntou devagar, temerosa]
R: Sim, meu amor! [sorriu carinhosa] Você está perfeita!
Q: Sequela? [perguntou preocupada]
R: Nenhuma...
Quinn lembrava-se de algumas coisas da cirurgia, mas não tinha certeza de que se lembrava corretamente ou na ordem exata. Perguntar se estava tudo bem era absolutamente normal. E Rachel não estava muito preocupada em chamar os médicos ou qualquer pessoa para ver Quinn. Para que Frannie convencesse a todos a deixá-las sozinhas, os médicos precisaram garantir que Quinn estava bem e que elas poderiam ter um momento só delas quando ela acordasse.
A loira fechou os olhos rapidamente e não conseguiu evitar o choro. Sua cabeça doía, mas não era esse o motivo... Ela chorou como não tinha chorado em momento algum durante sua cegueira. Todos os seus medos iam embora, toda sua angústia... Ela estava bem! Ela estava bem de novo... Rachel entendeu aquele momento e a beijou na testa, sentindo as mãos de Quinn se moverem para abraçá-la. A força empregada pela loira preocupou a morena um pouco. Ela não sabia se Quinn estava forçando demais, podendo se machucar. Mas ela não poderia escapar daquele abraço. Era tão sentido e necessário! Era necessário...
Q: Você é tudo pra mim... [disse entre lágrimas] Obrigada por estar comigo! Desculpe fazer você passar por tudo isso! [continuava chorando]
Rachel se separou do abraço e a olhou firme. Entendia o que ela queria dizer, mas não era preciso que dissesse:
R: Sem agradecimentos ou desculpas... Sem muitas palavras também! Você precisa descansar... [acariciou seu rosto] Eu te amo e sempre estarei com você, em qualquer circunstância!
Q: Mas...
R: Mas nada! [cortou] Nunca pense que precisa me agradecer ou se desculpar pelas coisas que são naturais do nosso amor...
Quinn fechou os olhos novamente e respirou fundo. É... Ela não podia pegar pesado ainda. Precisava descansar mais...
Q: Eu não quero dormir... [murmurou cansada]
R: Mas tem que dormir... [disse carinhosa]
Q: Eu quero ficar te olhando... [abriu os olhos cansados]
Rachel não quis mais saber de qualquer protocolo. Retirou os sapatos e subiu na cama para deitar com ela. Apoiou a cabeça com a mão, apoiando o cotovelo na cama, ao lado do travesseiro. Sua perna logo passou por cima do corpo de Quinn. Estavam sendo íntimas de novo... A loira virou o rosto e a observou calmamente...
Q: Você é a imagem mais linda... A mais perfeita imagem que meus olhos já puderam ver... [sussurrou cansada]
R: Dorme, meu amor... [sorriu] Dorme aqui comigo... [aconchegou-se a ela]
Q: Recomeço... [murmurou]
R: Hum?
Q: Esse é o nosso recomeço... [disse fracamente]
R: Não, meu amor... Isso não é um recomeço... [corrigiu carinhosa, enquanto beijava-lhe o queixo delicadamente, sentindo que Quinn voltava a adormecer] Estamos continuando...
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