Você Sempre Esteve Em Mim

3 Capítulo 3 - Sete dias: Medo...


Notas iniciais
Música do Capítulo: Snow Patrol - Chasing Cars

A segunda-feira chegou. Quinn não acordou. Simplesmente porque não foi dormir. Passou a madrugada inteira pensando sobre o que descobriu, tentando encontrar uma falha em sua consciência. Uma falha que explicasse que ela estava errada e que não estava apaixonada por Rachel. Tudo em vão. Quanto mais se esforçava, mais concluía que estava completamente e irremediavelmente apaixonada por sua amiga, e que aquele sentimento não era novo.

Flashes do passado começaram a voltar à sua mente: os desenhos pornográficos e ofensivos que fazia de Rachel, sempre continham corações. Quando olhava de forma crítica para as saias da baixinha, seu olhar sempre se estendia às pernas dela (que, por sinal, achava que eram lindas). Lembrou de todas as vezes em que se pegou pensando que Rachel ficava uma gracinha de suéter (mesmo que fossem, os suéteres, alvo de muitas de suas ofensas), assim como ficava mais linda com a franja para o lado. Pensou em como se sentia quando ouvia Rachel cantar e teve a certeza de que nunca ouviu nada mais perfeito. Levou a mão direita à boca para conter qualquer som que pudesse exprimir. Voltou a chorar.

Um medo, até então desconhecido, apoderou-se de Quinn, gelando sua espinha. Ela havia sido criada em uma das famílias mais conservadoras de Lima e esse tipo de sentimento jamais seria aceito por seus pais. Quinn já havia extrapolado as rédeas impostas por seu pai ao se envolver com Puck e engravidar de Beth. Achava que a vida já havia esgotado a cota de provações para ela. Mas não! Ali estava, novamente, chorando sem saber como parar. Para ela, não fazia o menor sentido se apaixonar por Rachel. Não depois de tudo o que viveram, das brigas, da rivalidade. Mas quem disse que o amor veio depois disso? E surgiu quando? Quinn não sabia. Só sabia que essa realidade era sufocante.

Desceu da cama, ajoelhou-se no chão, juntou as mãos e começou a rezar. Soluçando, pedia a Deus que lhe fizesse deixar de sentir isso. Não queria amar Rachel. Não era preconceito, era pavor! Um medo atroz de não saber lidar com isso e precisar sair da vida de Rachel como se nela nunca tivesse entrado. Quinn apertava as mãos com força, acreditando que, talvez, essa força tornasse sua oração mais forte, mais intensa. Procurava o ar para respirar, mas não encontrava. Rachel rondava sua cabeça.

Já eram 8:00 da manhã e Quinn não tinha conseguido dormir sequer 5 minutos. Estava deitada em sua cama, abraçada ao travesseiro, de barriga para cima, olhando para o teto, quando seu telefone tocou. Era uma mensagem. Era Rachel. Suas mãos tremeram ao pegar o aparelho e ela começou a hiperventilar. Sabia que seria uma mensagem comum, corriqueira, mas agora as coisas eram diferentes (pelo menos para ela) e já não sabia como se portar diante de Rachel.

“Calma, Quinn, é só uma mensagem!” — Pensou para si mesma.

Tomou coragem e começou a ler:

R: Bom dia! :) Tem um casaco de uma certa loira entre as minhas coisas. Só queria avisar que, agora, ele me pertence. Se quiser de volta, vai ter que lutar por ele. ;)

Quinn sorriu. Pela primeira vez, desde a noite anterior, Quinn sorriu. Só então se deu conta de que havia esquecido seu casaco. E não fazia ideia de como lutar para recuperá-lo. Tinha uma luta mais importante a vencer e que parecia quase impossível de alcançar vitória. Perguntou-se se deveria responder, mas não sabia como. Seu celular voltou a tocar.

R: Temos apenas mais 7 dias aqui. Apenas 7 dias juntas. Penso em aproveitá-los e quero aproveitá-los com você... ACORDA, PREGUIÇOSA! :) Me liga quando acordar. Um beijo! Rach.

Quinn tremeu ao ler. Pensou que Rachel não fazia ideia de como suas palavras, agora, soavam diferente para a loira. Uma simples entonação, numa brincadeira, já fazia o coração de Quinn disparar. Se tinha dúvidas, cada vez mais esse amor descoberto passava a se tornar mais oficial para ela.

Conhecia Rachel e sabia que se não respondesse a mensagem, ia receber outras milhares, ou veria a morena em sua porta. Para evitar qualquer contato imediato, já que não sabia o que faria quando a visse, resolveu responder:

Q: Bom dia! :) No momento não tenho forças para lutar por meu casaco. Acho que estou gripada. Ficarei na cama, descansando. Por isso, por enquanto, faça bom proveito dele, até que eu saiba como recuperá-lo... ;) Tenha um bom dia, Rach!

Quinn achava que assim, Rachel poderia ficar satisfeita e lhe dar um tempo razoável para se recompor. A resposta à mensagem nunca veio. Quinn não sabia se Rachel não viu, mas sabia que não poderia ligar para ela. Sua voz estava destruída depois de uma noite e uma madrugada inteira chorando. Não entendia como não havia desidratado. 20 minutos depois de ter enviado a mensagem, ouve sua campainha tocar. Não consegue ouvir do que se trata e permanece deitada. Passos são ouvidos pelas escadas e param em frente à sua porta. Ouve duas batidas e a porta se abrindo.

R: Você não vai precisar lutar por seu casaco. Eu o trouxe até você – disse uma Rachel sorridente.

Quinn levantou-se imediatamente ao ouvir a voz de Rachel e, de tão rápido, sentiu-se tonta. Sentou-se. Rachel percebeu e se aproximou da loira.

R: Quinn? Você está bem?

Sua mão segurou o rosto de Quinn e, naquele momento, aquele quarto pareceu uma usina de energia. Uma eletricidade avassaladora percorreu os corpos de ambas as garotas. Rachel não sabia o que aquilo significava, mas Quinn já tinha plena noção.

Quinn afastou a mão de Rachel abruptamente, assustando a garota. Imediatamente, percebendo o que fez, Quinn tratou de se desculpar.

Q: Desculpa! Eu só não quero que você se contagie com a minha gripe.

R: Tudo bem! Mas você nem sabe se é gripe. Seus olhos estão inchados. Parece gripe, mas você não sabe – disse Rachel afastando-se um pouco para dar mais espaço à loira.

Q: Mais um motivo para não me aproximar de você. Se não sei o que é, não quero te afetar.

R: Não faça drama, Q! A dramática aqui sou eu — Ambas riram.

R: Queria te contar uma coisa...

Q: Conte!

R: Finn esteve lá em casa ontem, depois que você me deixou lá. Ele disse que quer tentar fazer nosso namoro dar certo.

Quinn sentiu seu estômago embrulhar. Um frio cortante tomou conta de seu interior. Uma raiva que nunca antes havia sentido se apoderou de si.

Q: Não me diga que você cometeu a idiotice de acreditar que vocês ainda têm chance de dar certo!

R: Calma! Por que você está falando assim?

Q: Porque estou cansada! Cansada de ver você se deixar levar por aquele sorrisinho torto que o Finn dá para te convencer de qualquer coisa. Cansada de ver você se anular por ele!

R: Do que você está falando?

Q: De tudo, Rachel. De tudo o que você já fez por ele e de tudo o que você pensou em abrir mão por causa dele. Você sempre teve sonhos gigantes e, por ele, você pensou em abandoná-los. Você quase casou com ele. Você ainda nem viveu nada do que o destino preparou para você, e você já quis casar com ele durante a escola. Isso nunca fez sentido! Rachel Berry sempre foi superior a isso. A um namorinho de escola. UM NAMORO IDIOTA DE ESCOLA!

R: Calma, Quinn! Fale mais baixo, porque eu não sou surda! E por que você está falando nisso agora? Eu pensei em casar, mas não casei. Pensei em desistir, mas não desisti. Seja lá o que tenha me passado pela cabeça, não é o mesmo que passa agora. Estou indo para NY e você foi parte fundamental na minha conquista, mas isso não te dá o direito de brigar comigo.

Q: Eu não estou brigando.

R: Está sim! Você está estranha. Diferente de ontem. Eu vim conversar e você não para de me agredir. Acho melhor eu ir embora.

Q: NÃO! Não! Não! Você não pode sair daqui chateada.

R: Então não me chateie! Você sabe que não foi um namoro idiota. Você sabe da importância do Finn para mim.

Talvez fosse essa a sensação de coração partido. O que Quinn agora sentia ao ouvir as palavras de Rachel. Permaneceu calada, esperando que a morena continuasse.

R: Ele me procurou sim, mas eu não achei que poderemos tentar fazer dar certo agora. Tenho apenas 7 dias aqui e não é suficiente para consertar nada. Não quero passar esses dias concentrada em tentativas. Você precisa me dar um pouco mais de crédito, Quinn. Parar de achar que sou uma adolescente imbecil que age por impulso. Posso ter me encantado com o amor da forma errada. Posso ter agido ou pensado em agir das formas erradas algumas vezes, mas você não pode achar que sempre será assim. Principalmente você, que espera que eu não me baseie nos seus atos passados para ter medo dos seus atos futuros. Estou aqui de coração aberto, conversando com você porque você é minha amiga. Eu precisava ver você. Não só porque fiquei preocupada, mas porque eu preciso estar perto – Rachel começava a chorar – Eu não consigo imaginar como vai ser minha vida daqui a 7 dias, sem você ao meu alcance. Você está na minha vida há tanto tempo, para o bem ou para o mal, você sempre esteve perto. Mesmo fazendo eu me sentir péssima, mesmo me fazendo sofrer, você era uma constante em minha vida. Uma presença certa. E agora eu tenho você apenas para o bem e conheço uma Quinn que só vivia em meu imaginário. Estou tentando fazer com que tudo pareça natural, que eu estou apenas feliz por estar a caminho de NY, mas eu estou apavorada! — Rachel começava a soluçar em meio ao choro e palavras — Estou com medo do que me espera lá. Estou com medo do mundo novo que me espera. Eu realmente estou com medo! Mas não é medo de falhar. Não é medo de ser engolida pela cidade grande. Não é um medo de me sentir só. É medo de me sentir sem você e de ser engolida pela falta que você me fará... Eu, realmente, não sei como sobreviverei num mundo do qual você não faça parte. Você tem sido minha bússola. Tenho me guiado por você durante esses anos. Tudo o que fiz foi ao seu redor. Seja para chamar sua atenção ou para me esquivar de seus ataques. Só você, apesar de tudo, me deu espaço para que eu pudesse ser quem sou. Seus ataques e seu apoio posterior me serviram, igualmente, para me elevar. E saber que tudo o que eu fazia era percebido por você, me dava coragem suficiente para continuar. Por isso, a sensação de não ver você diariamente me asfixia. E eu preciso que você me ajude a não cair. Preciso que você não me ataque, porque já estou fragilizada. Já sinto sua falta antes mesmo de ter ido... Já me sinto vazia antes mesmo... antes mesmo de tudo mudar...

Rachel olhou para Quinn, que estava quieta, chorando. Aquelas palavras mexeram com a loira muito mais do que Rachel podia sonhar.

Q: Desculpe, Rach... Por favor, me perdoe!

Rachel se levantou, aproximou-se de Quinn, que levantou a cabeça para olhá-la. Um beijo demorado na testa da loira e um breve sussurro:

R: Eu sempre vou perdoar você... Sempre!

E Rachel deixou o quarto... Quinn continuou sentada, parada, olhando para a porta por onde Rachel havia saído. Avistou o casaco deixado aos pés de sua cama. Aquele casaco já não parecia mais seu. Ela já não parecia mais ela. Tudo estava diferente agora. Quinn sabia que tudo seria diferente. Só não sabia se estava preparada...


Notas finais
Tentarei postar o próximo capítulo ainda hoje. As coisas vão avançando... ;)