Você Sempre Esteve Em Mim

2 Capítulo 2 - Lágrimas e consciência...


Notas iniciais
Música do Capítulo: Coldplay - Trouble

Era um domingo chuvoso e Rachel se via rodeada por caixas vazias. Olhava por todos os cantos de seu quarto e custava a acreditar que estava empacotando sua vida rumo a NY. Quando um sorriso nostálgico se apossou de seus lábios, ouviu seu celular tocar. Ao olhar o visor, o sorriso aumentou consideravelmente: era Quinn.

R: Ainda me surpreendo quando vejo seu nome na tela do meu celular – disse sorrindo

Q: Já deveria estar acostumada. Essa não é, nem de longe, a primeira vez que te ligo – respondeu a loira revirando os olhos, mesmo que Rachel não pudesse ver.

R: Arrumando suas coisas?

Q: Na verdade, já arrumei. Estava mesmo pensando se você não queria dar uma volta, mas acredito que com essa chuva, você prefira ficar em casa.

R: Pensa que sou de açúcar, Fabray? — Falou a morena rindo.

Q: hahahahahaha Não! Só que as pessoas comuns preferem ficar em casa, embaixo das cobertas.

R: Você sabe que não sou comum. E prefiro estar com você.

Aquela resposta pareceu um pouco deslocada. Após dizer aquilo, Rachel se perguntava o porquê de ter dito, e colocava a mão na testa, esperando encontrar uma forma de reverter. Tão sem palavras quanto ela, Quinn tomou a dianteira e quebrou a tensão inexplicável que aquela simples frase causou.

Q: Então posso passar para te pegar?

R: Cla... Claro (gaguejou). Estarei esperando lá embaixo.

Q: Ok. Estarei aí em 20 minutos.

Rachel correu para se trocar, pulando por cima das coisas jogadas pelo quarto. A arrumação poderia esperar. Desde que se deu conta de que Quinn ia para Yale e que não estaria tão perto dela, a morena sentia uma necessidade enorme de passar o máximo de tempo possível com sua amiga e, mesmo que o mundo estivesse despencando do lado de fora de sua janela, afogar-se sempre seria uma ótima opção, se fosse na companhia de Quinn Fabray.

Rachel ainda não acreditava que Quinn estava em sua vida e que fazia questão de tê-la por perto. Apesar de tudo, sempre teve a impressão de que o lugar de Quinn era num pedestal e era muito surreal ver o quão humana sua ex-inimiga poderia ser.

Quinn chegou em 17 minutos e Rachel já estava de pé, em frente à casa, protegida pela varanda. Antes que Quinn se adiantasse, Rachel correu até o carro, tentando, em vão, desviar da chuva. Ensopada, provocou em Quinn uma recriminação. Não por ter molhado o carro todo, mas por correr o risco de ficar doente.

Q: Quando você vai deixar de ser tão teimosa, Berry?

R: Você sabe que não gosto que me chame de Berry. Isso me lembra de quando você me odiava.

Q: Eu não sei se aquilo podia ser chamado de ódio.

R: Enquanto não conhecermos outro nome, continuarei chamando de ódio.

Q: Argh! Teimosa!

R: Então, aonde vamos?

Q: Não pensei em nenhum lugar específico. Em alguns dias estaremos longe daqui e queria apenas andar de carro, ver a cidade, guardar na memória aquilo que possa valer a pena.

R: Tudo bem! Só vai com cuidado, porque com essa chuva forte, não quero morrer antes de brilhar na Broadway.

Q: hahahahhahha Não se preocupe, futura diva! Você sempre estará em segurança nas minhas mãos.

Sem saber o porquê, Rachel ficou corada. Quinn não percebeu aquele detalhe. Estava preocupada, sofrendo por antecipação a separação que em breve viria. Não havia recebido nenhuma resposta da Universidade de Columbia, e já não sabia se deveria manter as esperanças em receber alguma. Talvez Yale fosse mesmo seu destino definitivo. De qualquer forma, por precaução, comprou um bilhete que fazia o trajeto NY — New Haven, e vice-versa, para que ela e Rachel pudessem se encontrar quando já estivessem em suas respectivas universidades.

Quinn parou o carro em frente ao parque central de Lima. Não havia ninguém na rua. Provavelmente, todos estavam em suas casas, embaixo das cobertas, curtindo o dia frio como as pessoas comuns fazem. Mas Rachel Berry não é comum. Quinn Fabray também não.

Q: Queria te dar uma coisa.

R: Presente?

Q: Mais ou menos.

R: Ok.

Q: Não quero perder o contato com você. E espero que você também não queira. Por isso, comprei este bilhete de trem. Com ele você poderá ir algumas vezes me visitar. Eu também tenho um, o que permitirá que eu vá até você. Sei que nossas rotinas serão diferentes, mas quero acreditar que não vamos perder isso que conquistamos.

R: Oh Quinn! Muito obrigada! Que ideia genial!

Rachel lhe dava um sorriso gigante, realmente sincero. Naquele momento ela não imaginava presente melhor. Nada poderia ser melhor do que aquilo que permitiria que elas mantivessem contato.

R: Sabe... Ainda é estranho estar assim, tão perto de você.

Q: Como assim? — A loira ficou surpresa, principalmente ao perceber que Rachel tremia – Você está tremendo?

R: É o frio.

Q: Espera. Toma meu casaco.

R: Mas aí você vai sentir frio.

Q: Não me incomoda.

Rachel aceitou o casaco e se viu entorpecida pelo perfume de Quinn. Não entendia o porquê, só sabia que era reconfortante. Seus pensamentos foram interrompidos pela loira:

Q: Você não respondeu minha pergunta. Como assim é estranho estar perto de mim?

R: Você sabe, Quinn! Você estava no topo da cadeia alimentar da escola. Eu, por mais que não merecesse, estava no nível “loser”.

Q: Para, Rach! Quantas vezes eu vou precisar me desculpar pelas besteiras que fiz no passado? Já tivemos essa conversa outras vezes, e você parecia ter entendido.

R: Desculpa, só comentei!

Q: Comentou DE NOVO! — Quinn perdia a paciência

R: Calma, Quinn. Desculpa!

Q: Não! Desculpe-me você. Eu não deveria ter gritado. É só que... toda vez que você revive o nosso passado, eu sinto como se você nunca fosse confiar em mim totalmente.

R: Mas eu confio.

Q: Não parece.

R: Desculpe! Por favor me perdoe! Perdemos preciosos minutos discutindo isso.

Q: Certo. Vamos falar sobre outras coisas. Temos apenas uma semana aqui e não quero desperdiçar brigando.

As duas conversaram sobre milhares de coisas, durante três horas. Não viram o tempo passar, até que começou a anoitecer e o frio ficou mais intenso. Ao deixar Rachel em casa, Quinn esqueceu de pegar seu casaco de volta. Ao perceber isso, Rachel já estava no quarto, olhando suas caixas e pensando em como aquele casaco lhe serviu bem, mesmo sendo um pouco maior. Pensava numa forma de convencer a loira a lhe dar de presente. Assim, ela levaria algo dela consigo para NY. Relembrando o tempo que passou com a loira no carro, sorriu quando a lembrança de tê-la ouvido chamá-la de “Rach” veio à sua cabeça. Era essa intimidade natural que ela havia desejado e agora que tinha, não conseguia acreditar.

Alguns quarteirões mais adiante, Quinn deitava em sua cama e, sem conseguir evitar, começava a chorar baixinho. E se perguntava o porquê disso. O porquê de não conseguir encarar de forma mais tranquila a futura distância de Rachel. Iria ficar longe de Santana, de Brit e dos outros amigos. Por que só a distância de Rachel lhe doía? E por que doía tanto?

O choro baixo e tranquilo se transformou em soluços. Quinn já não tinha controle sobre suas lágrimas e apertava o travesseiro com força, tentando fazer parar. Ela sabia que algo estava acontecendo e não queria acreditar. Não entendia como, nem quando. Mas de repente, quando respirar já estava quase impossível, levantou-se e foi ao banheiro. Sustentando-se com a duas mãos sobre a pia, encarou-se no espelho e viu o quão vermelho estava seu rosto. Os soluços foram diminuindo conforme permanecia se encarando sem piscar. Então já era tarde... Não havia como fugir, nem negar. Todo aquele sentimento intenso, que vinha não sabia de onde, mas que deixava sua cabeça em órbita só poderia ter um nome: amor. E só poderia ser por uma pessoa: Rachel. Então, como se o mundo tivesse ficado mais claro, Quinn balbuciou:

Q: Eu estou apaixonada pela Rachel...

Tremendo, Quinn se afastou da pia e baixou a cabeça para não mais se olhar no espelho. Apertou os olhos com força e tentou respirar. Entrou no chuveiro vestida e ligou a água. Fria, congelante... E chorou... Chorou o quanto pôde. Não sabia o quanto essa compreensão da realidade iria lhe afetar. Mas naquele momento nada poderia ser feito. Apenas chorar...