Você Mudou

12 Capítulo XI


Em trinta minutos eu poderia descrever os últimos trinta dias, isso por que basicamente foram envoltos em uma rotina chata digna de mim. As novidades são poucas, eu e Guilherme formamos uma amizade muito bonita, diferente de Alice, ele será um ótimo psicólogo, me entende, aconselha e da força. Sei que Alice também me ama e tenta me ajudar, mas a cada tentativa dela, em duas me meto em confusão.

Jessica parou de ouvir as musicas do Cris tão alto, acho que se sentiu despeitada ao saber que ele e eu já namoramos. Eu não ouvi mais sua voz, ele cumpriu sua promessa e não ligou, nem me procurou. Simplesmente me esqueceu, queria que tivesse sido fácil assim pra mim também. Me segurei inúmeras vezes para não procurar por noticias suas na internet, mas no fim eu me convencia da dor que isso me causaria então desistia.

Por que adeus é tão difícil de dizer? Talvez é por que sabemos que quando a palavra atravessar os lábios será para sempre, e no fundo...muito no fundo a esperança de uma volta é o que nos mantem distantes dela.

Hoje começa a ultima semana de aula antes do recesso de férias, e como preciso dessas férias. Alice, Guilherme e eu planejamos passar a primeira semana com nossas famílias e depois viajar para o litoral, Guilherme em busca de uma informação sobre seu passado qual ele não quis nos contar, Alice vai em busca de garotos e eu em busca de paz. Uma semana e estarei longe daqui.

—Vai ficar ai no meio do corredor parecendo uma estatua feia? –Guilherme passa o braço em volta do meu pescoço me tirando dos delírios.

—Já faço parte do inventario daqui: “a estatua sofredora”. –enfatizo com as mãos no ar. Ele ri ao se certificar que sou mesmo maluca.

—Já vou. –me despeço.

—Ate mais. Ah Malu...você sabe se Alice terminou o trabalho que combinamos? –pergunta temeroso.

Eu balanço a cabeça rindo de pena dele, pobre Gui como pode confiar algo importante para Alice?

Durante a aula recebo um torpedo inconveniente dela:

“Pizzaria hoje?”

Tentando não ser pega no flagra eu respondo rápido:

“ depois falamos disso >.< ”

Talvez com uma carinha brava na mensagem ela entenda que não posso falar.

Que nada! É de Alice que estou falando.

“Sim, sim, por favor... tem um garoto aqui da sala marcando com os amigos, quero causar um encontro acidental. :D ”

Eu reviro os olhos e nem me dou ao trabalho de responder.

...

—Vou chamar o Gui. –ela afirma enquanto nos sentamos para almoçar na lanchonete.

—Por mim tudo bem, melhor ter companhia para me trazer de volta, caso você e sua próxima vitima saiam de fininho.

—Chata! Oi Gui, vamos na pizzaria hoje? –ela acena freneticamente pra ele enquanto ele se aproxima da nossa mesa.

...

—Só você para me fazer sair de casa as oito da noite Alice, é muito cedo, aposto que não vai ter ninguém além de nós lá. –digo chateada.

—Até parece que você não conhece a Alice né Malu, passar vergonha na gente é o hobby preferido dela. –Guilherme diz torcendo a boca.

—Nossa vocês são igualmente chatos, por que não se casam? –diz fingindo estar magoada.

—A Malu não faz o meu tipo. –diz brincalhão.

—Eu não faço o tipo de ninguém, por isso to encalhada. –digo torcendo os lábios. –Então aonde vamos nos sentar? –pergunto ao entrarmos na pizzaria.

—Ali, naquele canto fica mais fácil lançar meu olhar 43 pro JP. –da uma piscadinha.

—Que isso? Inicial para “Já Peguei”? –faço piada.

—Engraçada você. Não, é Joao Pedro. –diz com um risinho corado.

—Pizza de banana. –anuncia o garçom com a primeira rodada de pizza do rodizio.

Como se ele tivesse dado uma deixa, nos auto falantes de todo o local uma musica começa a tocar...

“Te falei mas você não me ouviu
Quis viver na ilusão
O vazio que você deixou em mim
Maltratou meu coração...”

Não sei se pela musica dele, ou se pela pizza ruim, senti um enjoo tão forte que quase não alcanço o banheiro a tempo para por minha bile pra fora. Sentada no chão ao lado da privada me pergunto se é assim que as pessoas se sentem quando estão na sarjeta. Alguém bate a porta então me esforço para levantar e sair dali.

—O que foi? –Alice me olha assustada.

—Não sei, acho que pizza e musicas de ex-namorados não combinam.

—Quer ir pra casa? –ela se solidariza.

—Não Alice, estou bem foi só um mal estar. Não vou comer mais nada só por garantia. –a tranquilizo.

—Malu você ta pálida, não acha melhor a gente ir? –agora é Guilherme quem pergunta.

—Gente eu to bem, comam as pizzas, depois a gente vai.

Alice de tão preocupada nem deu atenção ao tal JP. Ah minha amiga querida, é só a saudade saindo do emocional e entrando no físico.

...

Não satisfeita em acabar o passeio pela metade, Alice veio dormir comigo, disse que além de cuidar de mim ainda poderíamos planejar nossa viagem.

—O que acha desse? –me pergunta ao provar o quinto biquíni.

—Também é lindo Alice, me diz qual a diferença? Quase não da pra notar de tão pequenos que são. –digo indiferente.

—Você que é desatenta à moda, olha só esse aqui. –me mostra outro. –É quase um short de tão grande, não gosto muito mas vou ter que usa-lo já que vou estar naqueles dias né? –diz tristonha.

—Eu também vou estar naqueles dias e mesmo que não estivesse nunca me sujeitaria a usar esse fiapo de pano. –digo torcendo a boca.

—Mas você não estava nos dias na semana passada? –me encara.

—Não, meu período é só a partir do dia dezessete esse mês. –respondo com naturalidade.

—Malu, você ficou maluca? –me olha como se eu tivesse mudado de cor.

—Por quê? –não entendo.

—Hoje é dia vinte e três. –engulo em seco ao me dar conta do problema em que posso estar metida.

Sem mover um só musculo facial permaneci totalmente absorta, fazendo contas, me recordando de datas e regressando a momentos que doíam lembrar, eu busquei qualquer coisa que me aliviasse do medo crescente e desenfreado que surgiu. Não consegui encontrar nada e ainda ganhei outro enjoo de tanto pavor.

—Vocês não se preveniram? –Alice vocifera.

—Não. –é o máximo que consigo dizer.

—Você não estava tomando nenhum remédio? –eu somente olho desanimada pra ela. Que pergunta ridícula, há dois anos eu não tinha um relacionamento por que diabos estaria tomando anticoncepcionais?

—Malu, você tem noção disso? Quero dizer... se você estiver... –ela não completa.

—Não. –nem sei por que disse isso, talvez por que seja a única palavra que sai sem esforço.

—Precisamos fazer um teste, agora mesmo. –ela se levanta da cama.

—Não. –repito outra vez, mas agora por que realmente não quero fazer isso, tenho medo do resultado.

—Malu esse tipo de coisa não se pode esperar, vem, vamos ligar para uma farmácia de plantão e comprar o teste.

Estou a vinte minutos trancada no banheiro encarando o teste, e como se ele tivesse vida eu suplico para que ele me ajude e dê o resultado que eu espero.

—Malu anda logo, já comi todas as unhas aqui.

—Só mais um minuto. –enfim crio coragem para abrir o teste, olho pra ele uma ultima vez antes de colocar o tubinho na urina.

—E ai? –ela me pergunta quando saio do banheiro.

—Não tive coragem de ver. –digo entregando o tubinho pra ela.

Ela olha para o tubinho e em câmera lenta volta o olhar para mim, sem que me dissesse uma palavra sequer, eu já sabia o resultado.

—O que vai fazer? –pergunta enquanto me abraça.

—Não sei. –me sinto tonta por causa da tremedeira instalada por todo meu corpo.

Não consegui dormir, não consegui pensar, nem comer ou respirar.

O que vou fazer? O que será da minha vida agora? Estou perdida. Perdida!

...

Me vejo fora do corpo, como uma mera expectadora assistindo sua vida patética virar ruina, e como um ser sem alma, transparente me direciono para a saída da sala de aula, dessa vez também não consegui abrir a caneta, por que simplesmente esqueci dela.

—Malu vamos, rápido. –Alice me surpreende no caminho.

—Pra onde? –me esforço a falar.

—Fazer um exame de sangue. –explica.

—Vai fazer exame pra que Malu? –Guilherme nos interrompe chegando perto de onde estávamos.

—Ela ta com infecção intestinal. –Alice mente.

—Tudo bem? –pergunta com carinho.

Eu não tenho forças para responder, então o abraço com força esperando que ele aceite isso como resposta. Mas não é assim.

—Malu o que esta acontecendo com você? –se exalta preocupado com meus olhos cheios de lagrimas.

—Ela só esta doente Gui. –Alice tenta outra vez.

—Estou gravida! –digo já chorando não aguentando mais sufocar a vontade de gritar.

Não consigo olhar em seus olhos, me sinto péssima e não quero despertar pena em ninguém.

—O que?! –ele paralisa.