Você Me Ama?

1 Primeira parte


Notas iniciais
Esta fic foi dividida em duas partes para melhor compreensão do leitor.
Caso gostem da fic, posteriormente posso pensar em uma continuação.

Boa leitura!

Você me ama?

Primeira Parte

Hoje tudo faz lembrar você. O orvalho, as flores, as pessoas, os cheiros, o céu, as nuvens... Como se tudo fosse uma pequena parte de você. Sinto que o mundo não quer me deixar esquecer de você. Por que será? Mas, se eu pensar bem, a resposta não importa; o importante é saber se você também se lembra de mim. Não importa o que vai te fazer lembrar-se da minha existência, contanto que você se lembre.

Será isto o que chamam de amor? Sinceramente eu não sei. Tenho medo de saber a resposta; de estar amando, de estar preso a um sentimento proibido. O que as pessoas iriam pensar se soubessem que eu te amo? O que você pensaria? Diria que me ama também? Porém, como eu disse antes, nunca vou saber o que você me responderia. Sou covarde de mais para expor os meus sentimentos.

Acho que devo me contentar simplesmente em estar ao seu lado todos os dias, sendo visto apenas como mais um amigo. Nada irá mudar, mesmo que tudo tenha mudado dentro de mim. Pensar assim machuca mais do que se pode imaginar. Traz um sentimento de vazio tão profundo que é impossível descrever. Deixava-me sem ar.

Estou quase chegando ao ponto de ônibus que sempre pegamos juntos para ir à escola. E estou quase correndo na direção contrária. Não que eu não queira vê-lo, pois quero muito; tenho medo da minha reação ao ver ele, seu sorriso... Acho que eu não seria capaz de me segurar e tudo o que eu não quero é estragar a nossa amizade, que é tudo o que posso ter de você. Sou deprimente, não? Sei que sou.

Antes que eu pudesse perceber, já havia chegado ao ponto. E lá estava ele, sentado displicentemente no banco, os olhos negros vagavam pela rua sem nada ver; até pousarem em mim, pelo menos. Quando me viu, ele abriu aquele sorriso amigo e cativante que somente ele tinha. Meu coração batia tão apressado que pensei que pudesse parar a qualquer instante; mas não parou. Meu rosto estava tão quente... Aposto que eu deveria estar mais vermelho que um tomate. Por favor, não repare nisso! Pensei desesperadamente. Mas ele sempre reparava. Seus olhos não deixavam escapar nada.

Sentei-me ao seu lado no banco, virando o rosto para o outro lado e tentando me concentrar em qualquer coisa que não fosse Arthur.

- O que foi Will? Você está tão vermelho quanto uma maçã! – Exclamou preocupado, escorregando para mais perto de mim.

- Estou bem! Não precisa se preocupar! – Guinchei, praticamente. A proximidade dele fez meu coração bater ainda mais forte. Tão forte, que tinha quase certeza que Arthur também podia ouvir.

- Se você diz... – Murmurou, se afastando de novo.

Suspirei aliviado quando ele se afastou. Aparentemente, ele não havia percebido nada de muito estranho comigo. Ajeitei-me no banco e arrisquei dar uma espiada na direção dele. Minha respiração parou quando vi que ele estava olhando diretamente para mim com uma expressão desconfiada. O encarei de volta meio assustado, devo admitir.

- O que foi? Por que ta me olhando com essa cara? – Indaguei me encolhendo um pouco no meu lado do banco.

- Sou eu quem deveria te perguntar isso. Você está muito estranho hoje. – Comentou apertando os olhos e apoiando o queixo em uma das mãos. – O que aconteceu?

- Não é nada, eu já disse. – Murmurei, desviando os olhos.

- Se não é nada, como você alega, então pode me contar sem problemas. Não?

- Também não é assim tão fácil de dizer... Ou explicar... – Sussurrei escorregando para mais longe dele.

- O que é? Eu posso te ajudar se você me contar. – Afirmou, se aproximando à medida que eu me afastava.

O banco acabara e eu não tinha mais para onde correr – ou escorregar, como era o caso. Meu rosto começara a esquentar outra vez. Essa situação estava ficando muito desconfortável. Por que, Deus, ele tinha que ser sempre tão persistente? Tudo bem que esta é uma característica dele que eu adoro, mas no momento eu preferia que ele não fosse assim.

Arthur se inclinou na minha direção, seu rosto ficou a centímetros do meu. Ele exibia um sorriso brincalhão, provavelmente querendo me fazer relaxar e sorrir também; mal sabia que estava era me deixando ainda mais nervoso e envergonhado. Nesse instante, antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, nosso ônibus dobrou a esquina. Saltei para fora do banco e Arthur quase caiu com o susto que levou pelo meu movimento brusco.

- Anda logo, ou você vai ter que esperar o próximo ônibus passar! – Gritei, me atirando por entre as portas que mal começavam a se abrir.

Assim que entrei, sentei-me no primeiro assento que encontrei cujo do lado já estava ocupado. Ele passou por mim e sentou no fundo do ônibus. Assim eu teria quarenta e cinco minutos para pensar numa boa desculpa para dar a Arthur antes de chegarmos à escola. Para ser franco, quarenta e cinco minutos não era tempo o bastante nem para me acalmar!

Como eu queria que não fosse por Arthur que eu estivesse apaixonado, pois era sempre para ele que eu corria quando eu precisava de ajuda ou de algum conselho. Droga, por que tudo tinha que ficar tão complicado de repente?

Chega de lástimas! Eu preciso me concentrar no que eu iria dizer ao meu amigo assim que o ônibus parasse. Mas nada, absolutamente nenhuma idéia passava pela minha cabeça. Olhei para trás para ver o que ele estava fazendo. Arthur estava me fuzilando com os olhos, devia estar irritado por eu estar me esquivando dele e por ter-lo feito se sentar sozinho no fundo do ônibus. Por alguma razão, ele detestava estar sozinho no ônibus ou na rua, mesmo que ele não estivesse sozinho de fato. Bom, isso também poderia ser só impressão minha.

Já se passaram quinze minutos e eu não faço idéia do que falar. Inclinei-me para frente e comecei a bater a testa no encosto do banco da frente. A mulher que estava sentada ao meu lado começou a me encarar. Provavelmente ela estava achando que eu era algum tipo de louco. Talvez eu realmente fosse. Não, louco não. Eu sou é idiota!

Apoiei a cabeça no encosto do meu próprio assento e fechei os olhos, tentando me acalmar um pouco. Eu não precisava dizer nada ao Artie. Por que eu deveria dizer alguma coisa? Ok, eu sempre conto tudo para ele, afinal, somos amigos desde o primário. Mas isso não significa que ele precise saber cada mínimo detalhe da minha vida ou de todos os problemas que eu tenho. É isso, eu não tinha que me preocupar com isso nem inventar nada, tudo iria ficar bem se eu simplesmente me negasse a contar. Ele não poderia me obrigar a dizer nada. Ele não me obrigaria a dizer “amo você”...

Se estou tão convicto disso, então por que diabos estou me sentindo tão deprimido? Agora sei o porquê de tantas pessoas se perguntarem se vale a pena sofrer pelo amor. Estar apaixonado é tão doloroso quanto reconfortante. Talvez mais doloroso do que reconfortante, porque estar apaixonado não significa que você será correspondido. A vida é ou não é uma bela de uma droga?

- Will? Está acordado? – A voz de Arthur indagou próxima ao meu ouvido. Praticamente pulei no assento quando senti sua respiração fazer cócegas em minha orelha. – Já chegamos.

- Ah... Certo... – Murmurei envergonhado; logo em seguida dei um soco no braço dele. – Eu não estava dormindo, idiota.

- Não era o que estava parecendo. – Falou, fazendo uma pequena pausa em seguida. — Agora você está parecendo mais com o William que eu conheço! – Afirmou rindo e me devolvendo o soco.

Logo em seguida, ele agarrou a manga do meu casaco e me arrastou para fora do ônibus. Não pude evitar ficar corado de novo, mas pelo menos desta vez ele não percebeu. O dia amanhecera frio, porém agora estava realmente congelante; eu podia ver minha respiração se condensando diante do meu rosto. Meu corpo tremia da ponta dos pés até a raiz dos meus cabelos. O som dos meus dentes batendo era pior do que o som de uma britadeira!

Arthur parou de andar, porém eu nem podia ver o que ele estava fazendo. O vento frio que batia diretamente no meu rosto mal me deixava abrir os olhos. Senti quando ele apertou a minha mão e colocou a outra mão livre em meu rosto.

- Seu rosto está tão gelado... Por que não trouxe um cachecol para cobrir o rosto?

- Eu... Esqueci de pegar um... – Murmurei, olhando para o chão.

- Isso é bem a sua cara, sempre esquecendo as coisas. – Disse, tirando o próprio cachecol e colocando no meu pescoço. – Acho bom esse seu cabelo vermelho ser tão quente quanto parece, porque eu não vou emprestar meu gorro também! – Garantiu me mostrando a língua como se fosse uma criança de cinco anos de idade.

- Idiota... – Murmurei, enrolando o cachecol no pescoço e usando parte dele para cobrir meu rosto até o nariz. Ele sorriu para mim.

Ele não soltou a minha mão, e de mãos dadas ele me arrastou por todo o resto do caminho até a escola. Ele sempre fazia isso. Por que você sempre faz isso, Arthur? Antes eu não me importava, mas agora que todos os meus sentimentos mudaram em relação a você, esse simples gesto passou a ser mais importante do que você imagina.

Senti que, conforme nos aproximávamos da rua da escola, Arthur apertava cada vez mais a minha mão. Eu já estava para reclamar com ele, pois começara a me machucar, quando ele soltou minha mãe de forma brusca e colocou as próprias dentro dos bolsos da jaqueta. Achei aquela uma atitude estranha da parte dele. Será que... Ele poderia ter percebido alguma coisa em relação aos meus sentimentos?!

Essa simples suposição me deixou em um estado de pânico ainda maior do que o da manhã. Levei minhas mãos ao rosto e apertei com força com o cachecol eu cobria minha face. Não sei se eu seria capaz de suportar o afastamento dele. Para dizer a verdade, ele não é apenas um amigo de infância; ele é o único amigo de verdade que eu considero. Por isso um rompimento em nossa amizade está totalmente fora de questão.

Minha garganta ficou seca. Eu precisava saber o que causara aquela mudança repentina no comportamento dele; saber que não tinha nada a ver comigo. Estiquei o braço, para tocar em seu ombro e fazê-lo parar... Mas não tive tempo para dizer absolutamente nada.

- Artie! Will! Caras, onde vocês estavam? Atrasaram-se um pouco hoje. – Gritou um rapaz de cabelos loiros com mechas azuis. Ele vinha correndo em nossa direção com os braços abertos. – Estou cheio de novidades! Vocês nem imaginam o que eu fiz no final de semana!

Leon praticamente se jogou em cima de nós, se dependurando em nossos ombros e começando a falar sem parar como a matraca que ele era. Tenho a impressão de que os assuntos dele nunca têm fim. Uma vez cheguei até mesmo a dormir em uma de nossas conversas, e mesmo depois que eu praticamente desmaiei na frente dele, Leon continuou falando. Pelo menos, é o que o Arthur diz.

Nem me lembro como foi que nossa amizade começou. Só me lembro dele se sentar na carteira defronte a minha, me cumprimentar e começar a falar sobre qualquer coisa a respeito de um jogo de futebol. Na primeira vez em que conversamos, tive a impressão de que ele nem sequer parava para respirar. E quando pensei que finalmente iria me livrar dele por alguns minutos, na hora do almoço, ele me seguiu até a cantina e sentou-se comigo e com Arthur. Vêm sendo assim desde então, dia após dia.

Mas, apesar desta tagarelice incomoda, Leon era um bom amigo e sempre podíamos contar com ele para nos ajudar em qualquer coisa. Em outras palavras, pode-se dizer que ele é irritante, porém indispensável!

Pelo o que eu prestei atenção do que ele falava, aparentemente ele havia ido a um concerto de rock com os tios (que também são apaixonados pelo gênero), na cidade vizinha. Como ele estava bem mais empolgado que de costume deduzi que havia sido muito divertido e que ele gastara todo o dinheiro que tinha, e que não tinha, em CDs e camisetas.

- Trouxe alguma camiseta para mim? – Indagou Arthur, fazendo uma voz manhosa de criança.

- É claro que trouxe! Está na bolsa, um CD e uma camiseta do Iron Maiden, como você queria. – Respondeu o outro, rindo-se. — Também trouxe um presente para você, Will. Uma camiseta do Red Hot!

- Ah! Obrigado.

- Não há de que.

Nesta altura, já havíamos chegado ao corredor das salas do 1º ano. Arthur estudava em uma sala diferente da nossa, por isso nos separamos ali. Só voltaríamos a nos ver daqui a três horas. Leon me agarrou pelo cotovelo e me arrastou para dentro da nossa sala, desatando a falar no show e nas coisas que comprara lá, novamente. Aqueles dois estavam pegando o péssimo costume de sair me arrastando por aí e eu não estou gostando nem um pouco disso.

- Ah, cara, já ia me esquecendo. Também te comprei aquele CD do Kings of Leon que você queria de aniversário. – Dizendo isso, tirou o CD, juntamente com a camiseta, de dentro da mochila e estendeu para mim.

Quando vi o álbum Only by the Night, praticamente voei para cima dele. Eu realmente amo as músicas desta banda, principalmente este álbum. Fiquei encarando o CD em minhas mãos e creio que a visão que as outras tinham de mim naquele momento era o de uma criança perdida em uma loja de doces. Era assim mesmo que eu estava me sentindo.

- Leon, eu te amo! Falando serio, não acredito que comprou esse CD pra mim!

- Digamos que essa é uma compensação por eu encher tanto a sua paciência todos os dias. – Brincou ele; quando viu minha cara avermelhada e envergonhada, pois era isso mesmo que eu pensava dele às vezes, ele riu ainda mais. – Não esquenta Will, eu sei que consigo ser insuportável quando eu quero!

- Bem... Não vou discordar. Você consegue mesmo ser muito chato! – Falei, brincando com ele.

- Ei! Não faz nem cinco minutos que você disse que me amava e já esta me chamando de chato?

- Claro, eu sou volátil.

Ele caiu na gargalhada e eu o acompanhei. Leon era mesmo chato na maior parte do tempo, mas já fazia tanto tempo que ele está andando comigo, que nem imagino como seria passar um dia sem a companhia dele. Como eu disse antes: chato, porém indispensável.

Ele me deu um tapa na cabeça, que eu retribui com toda a gentileza. Inacreditavelmente, Leon conseguiu me tirar do meu estado depressivo em tão pouco tempo. Possivelmente é porque ele nos afoga em informação em apenas dez minutos de conversa, nos impossibilitando de pensar em qualquer outra coisa. Ainda bem que ele é assim, esse aspecto consegue ser muito útil em situações como a minha.

As aulas seguintes foram bem calmas. Estávamos perto do inicio das férias, então os professores não estavam dando conteúdos novos, apenas revisando os que já haviam sido passados. E, é claro, nos explicando como seria o esquema de tarefas durante as férias. Por que eles tinham que passar essas lições para as férias? São as férias do meio do ano! É óbvio que ninguém vai fazer essas coisas. Nem mesmo eu, que sou um aluno consideravelmente aplicado, fazia essas lições.

Antes que eu percebesse o sinal para o almoço já havia tocado e Leon me puxava, outra vez, pela manga da camisa. Pelo presente de aniversário adiantado que ele me dera, eu me segurei para não dar um safanão nele. Queria saber por que esses dois decidiram sair me arrastando por aí, no mesmo dia. Isso era muito chato.

Espera... Espera, espera, espera! Para onde o Leon está me levando? Diz que não é para a lanchonete! Tudo que eu não quero agora é ter que falar com o Arthur, não consegui pensar em nada para falar com ele. Por Deus, nem sei mais como devo me comportar! Principalmente se ele se aproximar de mim como fez de manhã... Acho que eu poderia até mesmo desmaiar se ele fizer algo desse gênero.

Mas, por outro lado, não creio que ele vá fazer algo assim aqui na escola. Quer dizer, brincadeiras internas entre amigos de infância podem parecer outra coisa diante dos olhos de desconhecidos. Bem, era isso o que ele estava fazendo, apenas brincando. Não era? Pelo bem da minha sanidade mental, rezo para que seja apenas isso.

Leon e eu terminamos de comprar o nosso lanche e agora nos dirigíamos para a mesa de sempre, no canto do refeitório, perto das janelas. Arthur já estava lá, esperando por nós. Bom, ou quase isso. Ele parecia estar mais concentrado na paisagem lá fora do que em qualquer outra coisa. Também olhei para as janelas, compridas, que cobriam a maior parte das paredes naquele lado do refeitório. O tempo parecia ter piorado, a neve caía em abundância agora; mal dava para ver direito a cidade do lado de fora.

Quando percebeu que nos aproximávamos, Arthur ergue os olhos na nossa direção e me encarou diretamente. Seus olhos negros pareciam ter escurecido mais ainda e um sorriso delicado cintilava no canto de seus lábios. Meu coração começou a bater mais forte apenas com esses gestos tão simples. Meu rosto parecia estar pegando fogo, de tão quente que estava; não apenas meu rosto, mas todo o meu corpo parecia estar queimando. Por um mero instante, o sorriso dele pareceu se alargar e sua expressão se tornou levemente maliciosa, como se ele soubesse exatamente o que eu estava sentindo naquele momento.

Isso me fez pensar se tudo o que ele fez até o momento fora de propósito. Se ele estava apenas querendo me provocar. Será que ele já sabia o que eu sentia por ele? Se ele sabia e mesmo assim estava fazendo essas coisas comigo, sem se importar com os meus sentimentos e com o meu coração, isso significa que eu também não sou importante para ele; que a minha dor e o meu sofrimento não importavam, desde que ele pudesse se divertir um pouco...

Senti meu peito ficar apertado, como se meu coração estivesse se partindo ao meio. O ar fugiu dos meus pulmões. Mas eu não iria correr, não iria fugir dele. Por mais que isso fosse me machucar, por mais profundos que os ferimentos pudessem se tornar, eu iria permanecer ali e minha cabeça estaria erguida. Só espero que o meu coração possa ser forte o bastante para suportar isso.

- Vocês demoraram. – Comentou, apoiando o queixo nas mãos. Leon sorriu e rapidamente se sentou; porém eu permaneci de pé, paralisado com a conclusão a qual eu acabara de chegar. – Não vai se sentar, Will? – Indagou com a voz suave, indicando o lugar à sua frente.

Não disse nada, nem sequer o encarei. Simplesmente me sentei, esperando que minha franja fosse comprida o bastante para esconder os meus olhos e... Minha dor. Minha garanta estava fechada, e a simples idéia de tentar comer o pedaço de pizza que eu pegara para o almoço, fazia meu estomago se embrulhar. Contudo, pior do que isso foi sentir os olhos de Arthur o tempo todo pairando sobre mim. Ele não disse nada nem tentou me perguntar se eu estava bem. Leon também devia ter percebido que havia algo de estranho, porque ele permaneceu em silêncio durante todo o almoço. Isso era algo absurdamente raro.

Minha respiração se acelerava e desacelerava constantemente. Por várias vezes, durante aquela tortuosa hora, eu me vi a beira do choro. Jamais pensei que esse... Vamos chamar de desapontamento, pudesse ser tão avassalador. Mas isso é justo. É minha própria culpa estar passando por todo esse sofrimento agora. Eu estava sendo punido pelo pecado de amar outro homem. Não sei por que, mas esse pensamento me fez sorrir. Não um sorriso de felicidade nem de tristeza. Era apenas um sorriso vazio, sem cor ou sentimentos; morto. Era assim que eu me sentia por dentro.

Meus pensamentos foram cortados pelo som estridente do sinal.

- Caramba, hoje o almoço parecia que nunca ia acabar. Não é mesmo? – Perguntou Leon, meio nervoso, ajeitando as mechas loiras azuladas do cabelo. Parecia-me que ele estava tentando dissipar aquele clima pesado que qualquer um que passasse por perto da nossa mesa poderia sentir.

- Sim. — Respondi mecanicamente, sem realmente prestar atenção no que eu dizia.

- Ah... Bem, até a saída Artie! – Ele se despediu, me puxando pelo braço de volta para a sala. Inacreditavelmente, eu não estava mais me importando com isso. Nada mais importava.

Ele me guiou de volta para a classe e me colocou sentado no meu lugar. Leon se virou na cadeira, cruzou os braços sobre a minha mesa e apoiou o queixo neles. Ele me encarava com uma expressão preocupada, o que me fez imaginar que tipo de cara eu deveria estar fazendo agora. Mas quando o professor entrou na sala ele teve que se virar para frente, meio a contra gosto.

O professor falava e explicava a matéria, porém, eu não conseguia apreender nada do que ele dizia. Eu só queria que o dia acabasse; queria ir para casa e ficar jogado na minha cama, sem pensar em nada nem em ninguém. Ficar sozinho era tudo o que eu queria. Com certeza não era a escolha mais sábia, tampouco a mais segura, mas eu não queria ter que agüentar a companhia de mais ninguém.

Arthur sabia, eu sei que ele sabia. E me rejeitara.

Isso era tudo o que passava pela minha cabeça. Era doloroso. Mas eu iria superar, eu só precisava de um pouco de tempo. E, principalmente, de um tempo longe do loiro que roubara meu coração...

Fim da primeira parte.