Você
3 Capítulo 3
Você se sentia culpado. Culpado o suficiente para não conseguir dormir direito.
Certo que a culpa de fato era do pirralho irritante, afinal ele havia provocado tudo. Você tinha aprendido a aguentar os xingamentos e as agressões, mas você realmente gostava daqueles vasos. Eles eram de porcelana fina e pintados artesanalmente. Esse tipo de coisa delicada e elegante fazia com que você se lembrasse da sua mãe. Você tentava não pensar muito nela, mas toda vez que você perdia o controle, as lembranças o invadiam como a mais dolorosa e destruidora torrente.
Você respira fundo tentando se controlar. Você havia feito um acordo consigo mesmo de que não permitiria mais que a ira tomasse conta da sua vida, nunca mais. O fato de o pirralho irritante ter começado tudo não o isentava da culpa. Você podia tê-lo matado. Você tinha total consciência de que se ele tivesse te empurrado apenas um pouco mais na direção do precipício, era possível que você não tivesse conseguido voltar a si. Aquilo era perigoso. Você era perigoso.
Você suspira. Talvez isso tudo tenha servido ao menos para ele ver que não era uma boa ideia te provocar tanto. Você se sentia mal por ele, mas uma surra dessas ao menos certamente o ensinaria a manter distância, e você sabia que isso seria o melhor para ambos.
Mesmo sem ter dormido quase nada, você se levanta cedo como de costume, afinal os gritos irritados de Beni não podiam ser ignorados. Você demora um pouco mais no banho apenas para adiar o momento que iria encontra-lo dormindo no seu sofá. Você gastou até um bom tempo pensando no que seria adequado falar para ele, mas quando você chegou à sala, ele não estava mais lá. Sentindo um misto de alívio e responsabilidade, você toma seu café da manhã e tenta levar seu dia normalmente, a despeito das tantas perguntas de suas clientes sobre o que havia acontecido com seu rosto – afinal, mesmo que você fosse líder de um grupo de Rib, era muito raro você receber qualquer machucado. Noiz realmente era bom de briga, muito embora ele não tivesse uma técnica eficaz ou muita força física. Era a forma como ele se jogava contra o adversário sem reservas ou receios que contrariava qualquer lógica e certamente desorientava quem quer que estivesse lutando com ele. Claro que ele pagava um preço alto por isso: ele baixava muito a guarda. Se sua cara estava arrebentada com dois pequenos cortes e um hematoma, a dele com certeza devia estar bem pior.
Não que você se importasse com a cara dele. Não muito, pelo menos. Mas o fato era que enquanto você esteve cuidando dos ferimentos dele, você temeu ter quebrado o nariz ou arrebentado algum dos piercings dele. Felizmente não havia acontecido nada sério, além da pancada na cabeça que o deixou desorientado. Você não pode deixar de reparar que havia pequenas cicatrizes bem antigas, como um corte no lábio e uma falha em uma das sobrancelhas. Isso faz com que você se recorde da noite do strip pôquer e da quantidade de marcas que havia vislumbrado pelo corpo dele. Ele devia ter uma história no mínimo curiosa para explicar aquilo tudo.
Aquele pirralho era um cara realmente estranho. Não que isso te dissesse respeito. Ele não era seu amigo, e menos ainda você queria a amizade dele. Você apenas o aturava a pedido do Aoba, e você nem entendia como o Aoba conseguia se importar com um moleque grosseiro, mal-educado e infantil como aquele. Pelo menos, provavelmente ele passaria a lhe deixar em paz depois daquela surra – era o que qualquer pessoa sensata faria.
Mas Noiz não era uma pessoa sensata, e você teve certeza disso quando na mesma noite ele apareceu no Black Needle exibindo um olho roxo, um corte no queixo e outro na testa que te denunciaram imediatamente. Você estava bebendo uma cerveja com Aoba e explicando como você havia conseguido aqueles machucados quando ele se aproximou e Aoba o olhou com aquela cara de repreensão por você ter mentido dizendo que havia sido fruto de uma disputa de Rib. você já se preparou para algum xingamento ou provocação, mas para sua surpresa, tudo o que ele fez foi se curvar na sua direção e encostar os lábios nos seus.
Você sentiu as duas joias de aço geladas contra sua boca e obviamente ficou em estado de choque, afinal o bar podia não estar lotado, mas havia gente o suficiente para motivar aquele pirralho a ter o mínimo de vergonha na cara. Mas antes que você pudesse pensar em como reagir, ele já havia lhe dado as costas e estava caminhando em direção à porta. Você se levantou repleto de raiva, chegando a derrubar a cadeira e chamando a atenção de todo mundo. Você deu o primeiro passo em direção a ele para tomar satisfações, mas a voz incisiva de Aoba o deteve como uma ordem suprema.
–Não vá! Deixa ele, ele tem dessas coisas mesmo. –Aoba disse segurando seu pulso enquanto Mizuki, que havia visto a cena do balcão, se aproximava. –Além disso, parece que você já bateu o suficiente nele.
Você se senta contrariado, sentindo a raiva queimar em seu peito enquanto você olha ao redor tentando adivinhar quem podia ter visto aquela cena patética. A última coisa que você queria era um boato a seu respeito questionando a sua sexualidade.
–Mas você viu o que ele acabou de fazer! Esse desgraçado não bate bem da cabeça! –Você se justifica, ainda tentando conter a raiva que ameaçava sufoca-lo. –Eu sei que você pediu para eu pegar leve com ele, mas não tem condições!
–Poxa, eu achei que vocês estavam se dando bem... Bem até demais pelo jeito. –Mizuki comenta rindo.
–Como se eu pudesse me dar bem com um pirralho imbecil daqueles! Vocês mesmos viram! Ele é louco!
–Ele é mesmo um pouco estranho... –Aoba comentou. –Deve ser por ele ser estrangeiro, não sei. Ou pode ser coisa da juventude, porque ele fez a mesma coisa quando a gente se conheceu.
–A mesma coisa? –Você perguntou.
–Uhum, ele me beijou lá na Heibon do nada. Na ocasião eu nem sabia o nome dele.
–Sério que ele te beijou? –Mizuki perguntou em um misto de surpresa e euforia. –O Clear sabe disso?
–Ei, ele só fez algo tipo o que ele acabou de fazer com o Koujaku! Não foi nada demais! –Aoba fez uma cara emburrada. –Eu dei uma bronca nele, mas ele mesmo deixou bem claro que para ele não tinha significado nada, então eu deixei de lado. Você provavelmente devia fazer o mesmo, Koujaku.
Um som de desgosto se formou no fundo da sua garganta, e você não sabia se era pelo fato de estar se sentindo enciumado pelo fato do Noiz já ter beijado o Aoba, ou pelo fato de você não achar que no seu caso tivesse sido uma simples provocação, afinal vocês já tinham ido bem além de um simples beijo.
–Mas sim, por que vocês brigaram? –Aoba insistiu.
–Ele apareceu lá em casa para encher meu saco, começou a me socar e quebrou meus vasos de porcelana. –Você encurtou a história ao máximo. Aoba ainda não havia comprado aquilo, mas ao menos assim você podia ocultar os ‘detalhes’ vergonhosos.
–Sério? Poxa, vocês pareciam bem amistosos naquele dia que a gente jogou pôquer! –Mizuki comentou e você arregalou os olhos na direção de Mizuki, pedindo mudamente para que o ruivo não contasse detalhes.
–Ah! Vocês jogaram pôquer e nem me convidaram! –O mais novo se fez de ofendido, afinal ele adorava jogos de cartas em geral.
–Aquele você não podia jogar! –O ruivo respondeu prontamente e riu.
–Cala boca Mizuki... –Você grunhe baixinho, mas apenas consegue chamar a atenção de Aoba, o qual se interessa ainda mais pela história.
–Por que eu não poderia jogar, hum?
–Porque era strip pôquer e a gente não quer problemas com o Clear!
Você colocou a mão na cara a fim de esconder sua vergonha quando Aoba começou a rir.
–Sério? Vocês três jogando strip pôquer? E quem perdeu?
–Eu não faço ideia porque eu não lembro de nada além da dor de cabeça do dia seguinte. –Mizuki respondeu rindo. Ele tinha realmente um talento para rir da própria desgraça. –Quem perdeu, Koujaku?
–Ah, a gente parou de jogar quando você desmaiou no banheiro.
–Sério que você chegou nesse ponto, Mizuki?
–A gente encontrou ele abraçado com a privada! –Você exagerou e riu também.
–Eu não lembro, eu não fiz! –O ruivo se defendeu sem perder o bom humor. – Mas vocês estavam se dando bem naquele dia.
–Ele tem ficado mais suportável com o passar do tempo... –Você acabou concordando com seus amigos. –Mas às vezes ele volta a agir de forma irritante, e eu notei nele umas atitudes estranhas.
–Mas que tipo de atitudes? –Aoba pergunta e você trava. Você certamente não podia revelar que não gostava da atitude dele sobre o sexo casual.
–Sei lá, ele parece frio demais e diz coisas que eu não ia esperar de alguém da idade dele. Ele tem o quê? Vinte anos?
–Sim, ele fez vinte recentemente. Lembra daquela vez que você levou ele carregado daqui? Era aniversário dele e a gente fez ele beber para comemorar a maioridade. –Mizuki respondeu aparentemente um pouco envergonhado de sua atitude. –A gente não imaginava que ele nunca tinha bebido antes.
–Ah... Aquele era o aniversário dele... –Você comenta para si mesmo, tentando lembrar-se do evento. –Naquele dia estava só a gente e o Clear, não?
–Uhum... –Aoba apenas murmurou, entendendo onde sua linha de pensamento estava indo. –Naquele dia eu perguntei da família dele. Ele me disse que todos os parentes dele estão na Alemanha, e que ele não tinha uma boa relação com ele.
–E os amigos dele? –Você pergunta, lembrando daquele grupo dele... Como se chamavam mesmo? Rif Rabbit? Ruf Rabbit? Algo assim.
–Você não notou que ele não anda com mais ninguém além da gente? Desde que o Rhyme acabou de vez e o grupo dele se acabou, eu só o vejo sozinho. Ele vem aqui quase toda noite, se senta naquela mesa do final e fica mexendo no coil e nos allmates. –Mizuki comentou; sua expressão sempre alegre agora parecia tomada de pesar.
Vocês três fazem alguns segundos de silêncio, até que Aoba se manifesta olhando diretamente para você.
–É por isso que eu queria que vocês se dessem bem. Eu sei que ele é difícil e que muitas vezes ele pega pesado com você, mas acho que é porque vocês começaram com o pé esquerdo mesmo, desde que se conheceram. Com o Mizuki e com o Clear ele nunca implicou então ele pode ser um cara legal, você só precisa dar uma chance para ele.
Você fica em silêncio. Você gostaria de dizer para o Aoba que ia tentar mais uma vez se dar bem com ele, mas as coisas haviam chegado num ponto que pareciam não ter mais volta. Era difícil tentar ser amigo do cara com quem você quase transou numa noite e quase quebrou a cara dele na outra. Por isso você apenas suspirou e tentou trocar de assunto. Com sorte tudo voltaria ao normal e você e Noiz voltariam a se tratar com aquela costumeira e curiosa mistura de indiferença e inimizade que permitia a convivência quase pacífica entre os dois. Estaria tudo certo se não tivessem se passado mais três dias sem que o pirralho desse notícias e Mizuki te pedisse para dar uma passada na casa dele, afinal ele não atendia as chamadas no coil e você era o único que sabia onde ele morava – já que fora você quem o arrastara pelas ruas no dia do aniversário dele. Você tentou se livrar dizendo que poderia passar o endereço, mas tanto Mizuki quanto Aoba estavam ocupados demais, por isso que o tatuador estava pedindo para que você fosse.
Você suspirou. Não queria mesmo ir, mas ao contrário do que poderia parecer, não era por não se importar com Noiz. Era mais porque não queria encarar sua mais nova fonte de culpa – e você já tinha fontes de culpa mais do que suficientes na sua vida. Como se não bastasse você ainda ter bem claro na memória o estado deplorável que você tinha deixado a cara do mais novo, os comentários dos amigos em comum fizeram você finalmente de dar conta do quão escrota deveria ser a vida do pirralho. No fundo você sabia que estava sendo tolo e exagerado, mas não tardaram a aparecer hipóteses do garoto morto há três dias sem que quase ninguém sentisse falta dele. Se você esperasse mais dois dias certamente os vizinhos chamariam a polícia por causa do mal cheiro. Ele seria retirado de lá e receberia um funeral chinfrim com apenas Aoba, Clear, Mizuki e Tae-san. Você não apareceria lá porque isso o deixaria se sentindo mais culpado ainda. Graças a isso lá estava você: perguntando-se porque diabos estava tocando a campainha de uma pessoa que você realmente não queria ver.
E que provavelmente não queria ver você também, já que ele não atendeu mesmo após você tocar três vezes. Em se tratando de Noiz, normalmente você mandaria se foder mentalmente e desistiria, mas você sabia muito bem que se não falasse com ele e se certificasse que estava tudo bem, você teria problemas para dormir naquela noite. Podia ser um jeito um tanto egoísta de encarar a situação, mas o que importava era aquele maldito senso de responsabilidade que fez com que você insistisse; dessa vez deixando a campainha de lado e batendo na porta.
–Noiz... Abre aqui. –Nada. –Eu sei que você está aí, eu perguntei para o entregador de pizza se ele sabia onde morava um cara cheio de piercings e ele disse que tinha acabado de entregar uma pizza pra um que morava no 606. –Mentira sua, mas de fato você tinha passado por um entregador de pizza quando entrou no prédio. –Abre logo essa porta, ou pelo menos atende as ligações no coil. –Ainda sem resposta. –Eu sei que provavelmente você só encontrou um videogame novo e está se distraindo, mas o Aoba e o Mizuki estão preocupados com você.
A porta se abriu, e você pode enfim encarar a cara de poucos amigos – ou de amigo nenhum – que ele exibia. Ele estava apenas de bermuda, indicando que provavelmente não tinha planos de sair nessa noite. Ele apenas ficou de braços cruzados te olhando. – algo semelhante ao que você fez quando ele apareceu na sua porta, não? A lembrança da briga fez com que mais uma vez a culpa se espalhasse pelo seu peito enquanto você buscava no rosto dele as evidências da mesma. Um corte no queixo, um na sobrancelha e um na testa. Todos pareciam relativamente bem. Alias, ele parecia relativamente bem como um todo.
–Posso entrar?
–Para quê?
–Sei lá, acho que seria bom a gente conversar. –Você olha para os lados. Nem você sabia por que queria entrar. Provavelmente você apenas queria confirmar se ele não tinha uma corda pendurada no lustre da sala, ou duas garrafas de vodka e meio quilo de remédios para dormir na pia da cozinha.
–Sobre o quê?
–Bem, desde aquele dia, parece que você não apareceu mais no Black Needle, por isso Aoba e Mizuki... –Você ia começar a falar, mas ele deu as costas e começou a andar. Aparentemente te dando permissão para entrar.
Você abriu mais a porta e espiou para dentro, vendo como ele se jogou no sofá da sala. Você adentrou cuidadosamente o local, como se temesse encontrar alguma armadilha e fechou a porta atrás de si, surpreendendo-se com a quantidade de trancas eletrônicas ali contidas. Não tinha local para retirar e por os sapatos, e você supunha que isso se dava pelo fato dele ser ocidental. O recinto era muito escuro, iluminado apenas por monitores de computador, hologramas e luzinhas piscando dos allmates. E estava muito frio. Aparentemente ele não havia ligado o aquecedor, o que era um absurdo já que ele estava só de bermuda.
Você também se surpreendeu com o fato do recinto ser bem arrumado, contrariando a imagem do nerd típico que você tinha em mente. Mas isso provavelmente se dava pelo fato dele não ter nada lá além de toda aquela daquela parafernália eletrônica. Não havia um enfeite sequer no cômodo todo. Um quadro, um porta-retratos, uma estatueta, nada; paredes e prateleiras, todas nuas. A única mobília consistia no grande sofá e na mesa de centro sobre a qual estava uma caixa de pizza fechada. Ainda incerto você foi até ele e também se enquanto pensava no que falar para ele, mas antes que qualquer ideia brotasse em sua mente, ele disse:
–Eu não quero a sua pena.
–Eu não tenho pena de você.
–Você disse que achava que eu era muito solitário. Você, o Mizuki e o Aoba. Eu não quero a pena de nenhum de vocês.
–Como você sabe disso?
–Eu coloquei uma escuta no seu coil.
–Você o quê?!? –Ele ignorou sua indignação como se realmente achasse que não havia feito nada demais.
–Eu não preciso da pena de nenhum de vocês, acima de tudo eu não preciso que você fique fingindo que se preocupa comigo só para parecer legal diante deles.
Nesse momento você o amaldiçoou por ser um pirralho tão difícil de lidar. Você não sabia bem o que fazer. Afinal você ainda não consegue lidar com o fato que ele havia grampeado seu coil. Que tipo de pessoa doente faz algo assim e assume como se não fosse nada? Nesse momento você teve vontade de pegá-lo pelos ombros e sacudi-lo até que ele se transforme magicamente numa pessoa dotada de bom senso, mas como você sabe que isso não funcionaria, você se resigna a respirar bem fundo e olhar nos olhos dele.
Aquelas malditas íris verdes, sempre frias e impassíveis.
–Olha, é o seguinte... O Aoba e o Mizuki se preocupam com você, eles gostam de você, então o mínimo que você podia fazer era parar com essa frescura de se fingir de cara frio e independente que não precisa de ninguém e passar a valorizar os seus amigos, porque eles podem ficar de saco cheio se você continuar se portando que nem criança!
–Que fiquem. Eu não preciso deles mesmo.
Você bate com a sua mão no braço do sofá, forte e com raiva. A atitude daquele moleque o irrita de tantas maneiras que você não saberia dizer. Quem ele achava que era para menosprezar os seus amigos?
–Escuta aqui, seu pirralho...! –Você começa a falar enquanto se levanta, mas ele o interrompe ficando de pé também e dando um passo em sua direção. O rosto dele está a centímetros do seu quando ele começa a falar alto, coisa que você jamais havia presenciado antes já que ele sempre mantinha a fala monótona e contida.
–Escuta aqui você, seu velho, eu nunca pedi para eles fazerem nada por mim. Eu nunca pedi para ninguém me fazer companhia, porque eu estava sozinho ou porque minha família não gosta de mim. Eu nunca pedi nada para ninguém. Eu sei muito bem como essas coisas funcionam, eu sei que é tudo uma questão de você oferecer algo para receber algo em troca. Eu sou diferente de você, eu não tenho ilusões com relação a isso, e é por isso que eu não fico posando de bonzinho na frente do Aoba na esperança que um dia ele largue o Clear e vá dar para mim.
Você nem notou quando ou como, mas o seu punho foi de encontro à face dele em um baque violento, fazendo-o virar a cara. Você fez isso porque não podia aguentar ele fazendo aquele tipo de insinuação sobre Aoba. Porque Aoba era provavelmente a única coisa imaculada que havia sobrado na sua vida, ou assim você gostava de pensar. Mas ele pareceu não se importar, todavia. Ele pareceu foi gostar, na verdade, pois ele sorriu vitorioso para você. Ele havia vencido porque você tinha acabado de admitir que aquele era o seu ponto fraco.
–Você levou uma mulher pra sua casa ontem. –Noiz comenta casualmente enquanto passa a mão pelo local que você tinha acabado de socar e você se sente envergonhado. Ele havia escutado até aquilo pelo seu coil? –Eu ouvi cada gemido dela. Eu escutei ela dizendo que te amava enquanto você se limitava a elogiar os cabelos dela. –Ele riu nesse ponto, baixo e sarcástico. –Que lindos cabelos cor de céu ela tinha, hum? Aposto que você só a escolheu pelo cabelo azul, e a fodeu de costas para poder imaginar que era o Aoba. –Era verdade. Tinha sido exatamente daquele jeito. –Você deve ter ficado o tempo todo imaginando as expressões que ele faz e os gemidos que ele solta quando o Clear está comendo ele. –Você se sente sujo, você se sente pequeno. Era verdade, era tudo verdade. –Sabe, eu tenho nojo de gente do seu tipo. Gente que posa de certinho, de cara legal. Você gosta mesmo de bancar o bonzinho, o super-herói, mas no fundo você é o pior tipo de pessoa que existe. Você acha que pode salvar todo mundo, nas não consegue salvar nem a si mesmo. Não conseguiu salvar o Aoba quando ele estava definhando sem o Clear. Não conseguiu salvar o Mizuki quando ele estava em depressão e entrou pro Morphine! Você não consegue salvar ninguém, seu velho escroto, o que te faz achar que você pode fazer algo por mim, hein?
Você quer acertar mais um soco na cara dele, mas você não consegue. Você trava o maxilar em ódio e fecha fortemente os punhos, ao ponto de sentir as unhas adentrando as palmas das mãos. Você sente a ira crescendo, subindo por seu peito, mas por mais incrível que pareça, não é dele que você está com raiva. É de você mesmo, por você corresponder a tudo que ele disse que você era. Se Noiz tinha alguma culpa naquilo tudo, era apenas ter compreendido o que ninguém mais parecia compreender.
A culpa de Noiz era ter te visto de verdade. Ter visto o seu lado mais feio, aquele que você queria a todo custo esconder.
E isso você jamais poderia perdoar.
É por isso que a sua mão encontra o pescoço dele da forma mais ameaçadora possível enquanto você olha fundo nos olhos dele, mas ele não desvia, ele não revida. Tudo que ele faz é corresponder ao seu olhar, e nesse momento você sente medo.
Você sente medo de tudo que você não viu nos olhos dele.
Era como se aquelas íris verdes fossem vazias. Tão vazia quanto fosse a alma dele. Lá não havia raiva, não havia ira, não havia sonhos ou expectativas. Não havia dor ou medo.
Não havia nada dentro de Noiz senão um mistério infinito e você sentia que aquele mistério podia te destruir a qualquer momento.
E você no fundo queria ser destruído.
Você merecia ser destruído.
Você o beija.
Você envolve o corpo frio dele com seus braços e o puxa para o mais violento dos beijos. Você morde os lábios e os piercings dele enquanto sua mão se afundava nos curtos cabelos loiros, puxando-os com raiva e tristeza. Você não tinha mais ideia do que estava fazendo. A única coisa que lhe ficou clara era que você queria colocar algo dentro de Noiz. Queria colocar dentro dele a sua dor, sua revolta, sua ira, seus sonhos desfeitos. Queria inundá-lo com tudo de ruim que existia em você.
Com qualquer coisa.
Com um movimento simples e forte você o jogou contra o sofá. Ele caiu sentado e te olhou com um sorrisinho provocante. O típico sorriso dos vencedores, e por isso você o encarou com a típica revolta dos perdedores. Resignado, você se contentou em tirar a bermuda e a cueca dele em gestos ríspidos e desajeitados antes de debruçar-se sobre ele para mais um beijo violento. Você sente gosto de sangue, provavelmente havia aberto o corte do lábio inferior dele. Você tenta provar para si mesmo que aquele fato não o incomoda beijando-o com ainda mais força, mordendo-o com mais voracidade, sugando a respiração e o arfar dele contra a sua boca até não restar nada. Você aperta o copo dele; a cintura, as coxas, o peito. Você o toca todo com violência e raiva, com intenção de machuca-lo e marca-lo. Você quer que ele diga que não aguenta mais e implore para você parar.
Mas ele não implora para você parar. Ele apenas corresponde com empenho e ansiedade enquanto abre as pernas e envolve o seu troco com elas, se esfregando em você de forma desavergonhada. Ele te abraça forte e você sente como o corpo dele se esquenta graças aos seus toques.
–Você pode imaginar que eu sou o Aoba. –Ele sussurra contra a sua orelha e você grunhe de raiva e morde com força o ombro dele. –Você pode até falar o nome dele quando for gozar. –Aquilo te enche de nojo. Nojo de si próprio.
Você olha na cara dele e vê os lábios vermelhos de sangue e violência. Você os morde rapidamente apenas para deixar claro que não está brincado e então encara profundamente aqueles olhos verdes. Eles estão brilhando agora, mas você ainda odeia a forma como ele lhe olha e por isso você dá um forte tapa na cara dele. Mais uma vez, ele apenas vira a face e então volta a te encarar. Você tem certeza que ele vai revidar, mas tudo que ele faz é sorrir da maneira mais provocante que você já viu na vida e levar a mão direita ao próprio membro, masturbando-se de forma indecente, exibindo toda sua excitação sob forma de ereção.
Você sente vontade de cuspir na cara dele, de dizer que ele é nojento. Ele parece sentir toda sua revolta, mas ele claramente não se importa.
–Você pode despejar todo seu ódio sobre mim. –Ele fala baixo enquanto a mão livre desce em direção a sua entrada, insinuando uma penetração com o dedo médio. –Não tenha pena de mim. –Ele tenta ordenar, mas dessa vez a voz dele lhe soa como um pedido.
Aquilo te causa repulsa e desejo ao mesmo tempo, e você não sabe o que fazer. Você apenas observa como ele enfia o dedo em si mesmo, e nesse instante seu membro pulsa forte contra suas calças indicando o seu atual estado.
Porque você queria destruí-lo.
Você fecha os olhos e procura se acalmar. Você não pode se descontrolar. Você tinha feito aquela promessa a si mesmo, e você a renovava toda vez que o seu passado voltava para atormentá-lo. E aquele era um dos momentos em que seu passado se confundia com o presente. Você dá um passo para trás e cobre o rosto com a mão. Você quer ir embora, mas algo o puxa pelo cós das suas calças, impedindo-o de se afastar mais.
–Não vá. –Ele fala, e nesse momento você não tem mais certeza de nada, mas você podia jurar que a voz dele transbordava angústia. Você olha mais uma vez nos olhos verdes. Eles agora parecem ansiosos e desesperados, e aquilo faz com que você sinta uma pontada de dor no seu peito. Aquilo estava errado. Aquilo estava muito errado. Você não queria fazer nada daquilo, mas você sabia que não tinha mais volta. No fundo você sabia que nunca teve volta, e foi nesse momento que você realmente sentiu pena dele. Por mais que ele dissesse que não queria sua pena, era só o que você conseguia sentir enquanto o observava abrindo as suas calças. As mãos dele ainda estavam frias por conta da temperatura ambiente, por isso você se arrepiou quando sentiu o toque dos dedos dele contra seu membro.
Noiz abaixou sua roupa de baixo apenas o suficiente para por seu membro para fora. Ele abre a boca colocando a língua para fora, deixando bem claro o que pretendia fazer. Incapaz de resistir, você dá um passo para frente de modo que ele possa te alcançar com os lábios. Ele o recebe em sua boca e fecha os olhos como se estivesse realmente apreciando fazer isso com você. Você sente o piercing da língua dele percorrendo habilmente a sua extensão, você sente como ele suga com empenho. Ele era desagradavelmente habilidoso naquilo, e você se incomoda com isso. Você não pode deixar de pensar em que tipo de experiência ele teve e isso faz com que você mais uma vez sinta aquela pontada incômoda no seu peito. Você fecha os olhos e tenta imaginar que é Aoba fazendo aquilo, mas não consegue. Aoba não tinha aquele piercing e acima de tudo Aoba não podia ser tão desavergonhado e bom naquilo. Você não quer aquilo, você não quer tê-lo lhe acariciando com tanto empenho e lhe dando tanto deleite. Você quer odiá-lo, quer desprezá-lo.
–Seu puto... –Você murmura com raiva enquanto agarra os cabelos dele, puxando a cabeça dele na sua direção. Ele abre os olhos para te encarar e você espera ele parar o que fazia para te xingar, mas ele apenas te chupa com mais força e faz você gemer baixo.
Mais uma vez você sente raiva de si mesmo e novamente puxa os cabelos dele, dessa vez para longe. Você queria dizer que não iria adiante com aquilo, mas ele novamente o contém pelo cós das calças e pelo olhar de agonia. Pela primeira vez ele parece incerto, mas ainda assim te puxa enquanto aquelas orbes verdes destroem tudo que você julgava certo dentro de si mesmo.
Você cede ao pedido mudo e se senta no sofá. Ele vai para o seu colo e encosta o próprio membro no seu, masturbando-os juntos com pressa e força enquanto volta a te beijar da mesma forma selvagem de antes, muito embora você não consiga mais corresponder à altura. Sua vontade de machuca-lo apenas diminuía na medida em que o aperto em seu peito crescia. Sua excitação, todavia, se recusava a acompanhar seu desconforto emocional, por isso ele tem total liberdade para provoca-lo. Ele está totalmente duro e os piercings dele o incomodam um pouco, mas você realmente não se importa mais.
Sem qualquer cuidado ou preparo, ele ergue o próprio corpo e se posiciona sobre seu pênis, logo se sentando vagarosamente. É apertado demais e dói. Você nunca tinha sentindo dor penetrando alguém, então aquela sensação o incomoda muito. O corpo de Noiz claramente rejeitava a sua invasão, mas ele desrespeitava as próprias barreiras. O maldito não tinha sequer se lubrificado e você quase grita quando ele se empurra ainda mais contra você, acolhendo-o por inteiro dentro de si. Você arfa a aperta os olhos tentando aguentar a intensa pressão contra seu membro. Aquilo não era bom, definitivamente. Devia estar doendo ainda mais para ele, você pensa enquanto busca alguma confirmação com o seu olhar, mas tudo o que você encontra é a face dele corada e aparentemente indiferente, e aquilo o perturba muito.
Então ele se move e você geme baixo de dor.
Ele parece realmente não se importar e se apoia nos seus ombros com uma das mãos enquanto se masturba com a outra. Tudo é muito rápido e muito bruto, e antes que a entrada dele pudesse se acostumar com o seu volume ele já movia os quadris para cima e para baixo em uma velocidade absurda e desconfortável. O corpo dele ainda estava um tanto frio, mas em seu interior o calor intenso é aumentado pela fricção intensa, o que faz com que você comece a suar. É muito diferente do que você estava acostumado a fazer e por isso você agarra forte os quadris dele tentando contê-lo. Em resposta, ele se força ainda mais conta você. Doí bastante ter seu membro castigado daquela forma, mas por algum motivo estranho você no fundo não se importa. Provavelmente por conta do fato da costumeira indiferença que tanto lhe irritava finalmente ter saído da expressão dele. Agora ele te encara com o olhar nublado de desejo, e isso faz com que igual desejo passe a arder em seu baixo-ventre.
–Pode me comer com vontade, velhote. –Ele te provoca, e você obviamente cai na provocação dele.
É nesse momento que você passa a mover seus próprios quadris a fim de acompanha-lo, por mais que você estivesse com medo de machuca-lo. Dada as circunstâncias, era de se esperar que a cara de Noiz estivesse se retorcendo em dor, mas a verdade era que ele parecia finalmente estar sentindo prazer, apesar de que os únicos sons que saíam da boca dele eram aquele arfar contido. Você ainda não conseguiu aceitar muito bem a situação quando ele começa a se mover com ainda mais empenho, fazendo você ir fundo dentro dele. Os olhos dele agora se fechavam naquilo que parecia ser deleite e ele repetiu aquele movimento intenso, de novo e de novo. Ele parecia disposto a repeti-lo quantas vezes fosse necessário, mas você não estava mais suportando o ritmo insano dele. Aquilo estava te machucando e se continuasse você iria gozar antes do que gostaria. Com isso em mente você aperta os quadris dele com ainda mais força e chega a usar as unhas na tentativa de fazê-lo parar. Ele abre os olhos em espanto e olha para as suas mãos marcando sem dó a pele branca. Ele para de se masturbar e pega a sua mão direita, levando-a ao próprio membro. Você faz o que ele deseja, repleto de raiva.
Você nem sabe mais porque está com raiva dele, mas você quer que a cara dele se encha de dor e por isso você aperta o pênis dele com força. Ele morde os lábios enquanto te encara com os olhos perdidos e desejosos.
–Use as unhas... –Ele pede num sussurro tão sedutor que você nem se dá ao trabalho de pensar no quão estranho era aquele pedido e enfia as unhas na carne rija e pulsante. Noiz fecha os olhos com força, parecendo não suportar a sensação, mas quando você acha que ele vai implorar para que você pare, você sente algo quente pingando sobre seus dedos.
Ele está gotejando.
Muito.
Você se recusa a acreditar naquilo, mas a expressão dele se contorcendo em prazer confirma que ele está próximo do orgasmo. Ele geme baixinho e agoniado enquanto sua respiração se descompassa ainda mais. Ele parece desesperado, tanto que os movimentos dele contra seu falo se tornam mais intensos e velozes.
–Nem ouse gozar agora, velhote. –Ele diz rouco em meio ao arfar e você precisa se conter bravamente para não gozar de fato, pois a voz dele fez com que uma corrente elétrica de pura excitação percorresse todo seu corpo. Você olha naquelas íris verdes e tenta decifrar porque elas parecem tão desesperadas.
Você mais uma vez enfia as unhas no membro dele e aperta sem dó a glande com seu polegar. Ele solta um som esganiçado tentando conter o gemido e se senta com mais força sobre você, de modo que dessa vez é você que precisa se conter para não gemer. Como se já não bastasse o fato de ele ser tão apertado, o corpo dele agora se contraía todo contra você, preenchendo-o com urgência semelhante a que ele parecia sentir. Você tenta se segurar, mas os espasmos contínuos daquele corpo jovem estavam prestes a enlouquecê-lo. Quando nota que não conseguirá continuar por mais um minuto sequer, você para de masturba-lo e mais uma vez segura os quadris magros entre as duas mãos. Você o puxa ferozmente contra si enquanto se move na direção dele, penetrando-o o mais fundo possível. Ele solta um grito e te abraça com força, pressionando-se contra seu abdômen ainda enrolado pelas ataduras. Você aproveita a proximidade de seus corpos e o abraça mais forte ainda ao repetir o mesmo movimento. Ele finalmente geme, um som alto e rouco extremamente excitante. Você geme junto tentando se controlar, mas não consegue mais quando sente os lábios dele mais uma vez contra a sua boca, buscando sua língua em um arfar agoniado. Você despeja enfim toda sua semente dentro dele, e ao mesmo tempo seu nariz é invadido pelo inebriante cheiro de sexo dos fortes jatos que molham sua barriga com o líquido quente e perolado. Nesse instante, tudo que você escutou foram os gemidos contidos de ambos, baixos e roucos, sendo seguidos pelos sons da falta de ar e do cansaço enquanto seus corpos iam se movendo lentamente até pararem por completo.
Exausto, você se permite descansar a cabeça no ombro dele, e ele faz o mesmo no seu. Você repara que o corpo dele está tão quente e suado quando o seu e você pode sentir como o coração dele bate em ritmo acelerado contra o seu peito. Noiz permaneceu uns bons segundos naquela posição, abraçado a você, até provavelmente se dar conta do que fazia. Como se tomasse um susto por conta do seu estado, ele saiu de cima de você sem qualquer cerimônia ou pudor pelo sêmen que agora escorria por entre as coxas. Você gemeu baixo e aliviado pela sensação de abandonar aquele local quente a apertado demais. Claro que você não falaria isso para ele, mas aquela havia sido a transa mais bruta e desagradável da sua vida. Você havia odiado a experiência de tantas maneiras e por tantos motivos que você jamais seria capaz de lista-los, por mais que o final tivesse sido satisfatório.
Noiz, porém, apenas se jogou deitado no sofá e suspirou aparentemente muito satisfeito, ainda tentando normalizar a respiração. Você se pergunta se ele havia realmente gostado de algo assim e então você olha para a imensa quantidade de sêmen que ele havia despejado sobre seu abdômen. O maldito tinha sujado até o seu quimono de tanto que havia gozado. Então ele era um masoquista mesmo, não era?
Frustrado você se levanta e sobe a cueca e as calças, ainda sentindo uma fraqueza nas pernas em decorrência do recente e intenso orgasmo. Você se sentia absurdamente culpado por tudo que tinha acontecido, mas no fundo você sabia que não tinha que se sentir mal por ele. Você tinha que se sentir mal por si próprio, afinal você não queria ter feito nada daquilo. Você olha para Noiz mais uma vez e nota que ele está encarando a mancha úmida e esbranquiçada no seu quimono vermelho. Como se não se importasse muito, ele apenas diz:
–O banheiro fica na porta no fim do corredor. Tem toalhas limpas no armário debaixo da pia.
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