Você

2 Capítulo 2


Notas iniciais
Eu gostaria de agradecer muito a Perséfone Tenou por ter se disponibilizado para betar essa fanfic. Eu sei que você tem um bando de responsabilidades para lidar, mas ainda assim você encontra tempo para me ajudar, então obrigada mesmo. Mesmo.

Você está furioso e boa parte dessa fúria se externa na forma violenta como você toca o seu próprio membro. Não é suficiente, você não consegue sentir quase nada. Você se aperta demais, move sua mão rápido demais. Você enfia suas unhas contra a glande e puxa os próprios piercings, quase se machucando. Você geme, mas não de prazer e sim de frustração.

Você pragueja contra o nome de Koujaku enquanto tenta se concentrar no que faz. Você se lembra do beijo dele, e isso faz com que uma sensação estranha – um calor gelado e quase doloroso – se espalhasse do seu baixo ventre até as coxas. O maldito beijava bem, e como a sua boca era uma das poucas partes do seu corpo com sensibilidade normal aquele beijo conseguiu realmente lhe excitar como poucas coisas conseguiam. A lembrança da língua dele sugando a sua, buscando cada detalhe da sua boca, resvalando por seus piercings... Maldição, você sentiu novamente aquela sensação preenchendo-o de angustia em um quase-êxtase – quase, pois não importava o quão excitante fosse, você ainda não conseguia gozar.

Nesse ponto você desejou não ter chegado ao ponto de tocá-lo intimamente, pois dessa maneira poderia ao menos chama-lo de ‘velho broxa’, o que lhe traria alguma espécie distorcida de conforto. Mas não, você tinha bem viva na memória a lembrança do membro dele, duro e pulsante contra as suas mãos. Você tinha certeza de que estava quente também, apesar de não conseguir sentir temperaturas. Nesse instante você se perguntou como teria sido se tivesse tomado a iniciativa de recebê-lo em sua boca. Mais uma vez, as sensações estranhas o tomam e você enfia seus dedos em si mesmo. Dois de uma vez, sem qualquer cuidado. Você está desesperado a procura da própria próstata e estimula-se ali com força. Seu membro reage, mas ainda assim o prazer derradeiro recusava-se a vir. Era complicado para você fazer aquilo sozinho.

Você amaldiçoa mais uma vez aquele velho desgraçado. Por que ele tinha que parecer se importar? Ele podia ter simplesmente ter lhe prensado na mesa daquele bar, enfiado o pau em você, feito você gozar e pronto, estaria tudo acabando. Vocês iam cada um para a própria casa, tomariam seus banhos e jamais tocariam novamente naquele assunto até que aparecesse a oportunidade de repetir a dose. Ao menos era isso que você tinha idealizado – sim, era difícil admitir isso, mas você tinha idealizado transar com Koujaku mais vezes do que você seria capaz de admitir.

Mas não, ele tinha que se encher de pudores e frescuras disfarçadas em uma ética duvidosa.

No cume de sua frustração, você desiste encarando derrotado a ereção que se perdia aos poucos em sua mão. Já fazia quase dois meses que você não conseguia ter um orgasmo – e aquilo era uma necessidade fisiológica, não? Foi nesse instante que uma gota cristalina caiu sobre seu colo e você se deu conta que estava chorando. Você enxuga as lágrimas com mais raiva ainda e cogita a ideia de sair e se oferecer para o primeiro que quisesse enfiar algo no seu rabo e lhe fazer sentir qualquer coisa, mas já está amanhecendo. Isso para não mencionar que as suas últimas experiências nesse sentido não tinham sido nada animadoras. Geralmente os desconhecidos apenas faziam o que tinham que fazer e quando terminavam lhe deixavam ainda na mão. E você estava frustrado de ter que lidar com a sua mão. Mas ruim mesmo era quando eles achavam que por estarem fodendo você tinham o direito de falar merdas ou até de lhe bater. Não que você se importasse em ser chamado de puto ou sentisse dor quando eles arranham suas costas e puxavam seu cabelo, mas... Era difícil explicar: você se sentia usado, e essa sensação piorava quando você não conseguia chegar ao orgasmo.

Você tenta se lembra de quanto tivera uma experiência sexual realmente boa, e a resposta foi uma prostituta que lhe fez sexo oral. Ela era muito habilidosa e dedicada, tanto que você pagou até mais do que ela havia cobrado. Uma pena que ela não quis mais lhe atender, provavelmente temendo que você pedisse para que ela fizesse coisas mais estranhas do que morder o seu pênis – sim, você tinha aprendido que esse pedido assustava as pessoas normais. Outra vez teve um cara do seu grupo de Rhyme que provavelmente era apaixonado por você. Ele lhe masturbou, lhe comeu, lhe chupou. Você gostou bastante, mas ele pareceu não curtir tanto a sua demora e as suas reações ‘fracas’ aos estímulos, por isso ele desistiu de você depois de umas três transas.

Ainda pensando nisso, ocorre que talvez você devesse ter tentado se oferecer para o Mizuki, e não para o velhote. Mas provavelmente ele não toparia. E mesmo se topasse, você tinha a impressão de que ele seria carinhoso demais. Ou talvez isso fosse apenas uma desculpa para o fato de você encarar Mizuki da maneira menos sexual possível, por mais que você o considerasse muito bonito. A verdade era que você não sentia a menor vontade de ser fodido pelo ruivo simplesmente porque ele havia lhe tratado bem desde que se conheceram, e isso havia mexido com você. Você sentia que tinha com ele quase uma amizade – o mesmo que você sentia com Aoba e até com o Clear – e você valorizava isso, mesmo que ninguém acreditasse. Você tinha medo de dar em cima de uma pessoa nessa situação e destruir aquele frágil relacionamento construído com as pessoas que conseguiam lhe suportar e que aparentemente não queriam apenas lhe usar.

Koujaku, por outro lado, sempre fora um imbecil com você. Não que você o culpasse, afinal você era um imbecil com ele também. No início ele lhe irritava genuinamente – ainda irrita – e vocês chegaram até a se agredir fisicamente algumas vezes. Verbalmente, então? Incontáveis vezes. Mas com o passar do tempo de convivência forçada graças aos demais membros de sua nova vida social, você teve que se adaptar. Você era bom em se adaptar, por isso não teve dificuldades em transformar Koujaku em uma fonte de diversão – uma diversão importante desde que o Rhyme entrara em decadência, praticamente destruindo o seu vínculo mais importante com o mundo. No fundo Koujaku era uma pessoa muito engraçada, e por isso você gostava de provoca-lo de todas as maneiras possíveis – e sim, ‘sexualmente’ já fazia parte do rol de provocações, mas nunca tão explícito como ocorrera nessa noite. A coisa só ficou fora de controle quando você notou que estava alimentando pensamentos pouco pudicos com relação ao moreno de uma maneira quase obsessiva.

Não que você estivesse a fim do Koujaku – você sinceramente acreditava que apaixonar-se por um cara daqueles seria o sintoma de algum tipo seríssimo de doença mental a qual você prescreveria eutanásia como único ‘tratamento’ eficaz. Era apenas que você enxergava nele possibilidades que pareciam se confirmar a cada pequena fofoca que você escutava das ‘namoradas’ dele. Se antes os gritinhos histéricos e comentários indiscretos delas o enervavam, com o passar do tempo eles se tornaram intrigantes. Era unanimidade dizerem que o velho era muito bom de cama. A experiência dele era inegável diante do número de relatos aos quais você teve acesso – e foi nesse momento que você notou o quanto o Rhyme lhe fazia falta, afinal você estava agora pesquisando informações sobre a vida sexual de um cabelereiro. Mas mais do que experiência, ele certamente detinha aquele orgulho besta típico dos homens que acham uma afronta à própria masculinidade se a parceira não alcança o orgasmo. Era algo patético (afinal, mesmo sendo mais novo, você melhor do que ninguém sabia que sexo não funcionava bem assim), mas muito tentador para alguém com as suas peculiaridades. Oh, sim, Koujaku definitivamente era do tipo de homem que não descansaria até fazer a parceira gozar, e por isso você não teve dificuldades em fantasiar que ele seria capaz de lhe comer adequadamente: com força e por tempo suficiente para você conseguir alcançar o clímax.

E se a aparente heterossexualidade dele parecesse um empecilho a qualquer espectador, para você ela parecia o mais frágil telhado de vidro. Você era atento – e obcecado – o suficiente para notar detalhes que talvez ele próprio ignorasse, como a forma como ele olhava para Aoba, ou a cara de sofrimento que ele fazia sempre que o rapaz de cabelos azuis segurava a mão do namorado. Aparentemente, você era mais sensível que os demais a esses tipos de sinais porque você mesmo já havia passado por isso.

Sim, Aoba tinha mesmo alguma espécie de poder que atraia os sentimentos de todos a seu redor e por isso fora inevitável se apaixonar por ele. Mas você foi esperto o suficiente para se livrar desse sentimento quando percebeu que jamais seria correspondido – algo que você verificou antes mesmo do retorno do cara-com-máscara-de-gás. Koujaku, todavia, era uma mula. E pelo jeito ele vinha sendo uma mula há muito tempo. E uma mula triste, desde que o melhor amigo de infância havia assumido o namoro com Clear.

Não que você se importasse com o estado emocional do moreno ao ver seu amor platônico nos braços de outro cara apenas porque ele nunca tivera colhões para fazer algo a respeito. Não mesmo. Você viu naquela situação apenas uma oportunidade. E você sabia melhor do que ninguém ser um filho da puta oportunista. Mas você nunca imaginou que os patéticos ideais cavalheirescos do velhote se manifestariam com você.

“Você deveria fazer isso com alguém que você goste.”

Você quis rir, mas tudo que conseguiu foi soltar algum som estranho pelo nariz. Havia sido a coisa mais patética e ridícula que você já havia escutado na vida. O que aquele cara tinha na cabeça, afinal? Que tipo de ideia ele tinha a seu respeito? Será que ele o via como uma criança cuja inocência devia ser protegida ou algo assim? Certo que ele não fazia noção nem de um terço das merdas pelas quais você passara na vida, mas mesmo assim, ninguém poderia ser tão idealista diante de alguém que estava oferecendo o próprio rabo – com palavras cruas e frias mesmo, pois era assim que você lidava com o sexo.

Não, tinha que haver outro motivo para ele recusar sua oferta, afinal era inconcebível ele estar genuinamente preocupado com seus sentimentos. Talvez fosse a masculinidade aflorada gritando para que ele não permitisse que a curiosidade matasse a heterossexualidade – tarde demais pelo jeito. Talvez ele tivesse a utopia romântica de que se um dia fosse transar com um homem, teria que ser com Aoba – tarde demais também, já que Aoba já um pênis extra para chamar de seu. Ou talvez ele fosse de fato aquele cara romântico que aparentava ser com as clientes e quisesse delicadeza, pétalas de rosas, um jantar a luz de velas com champanhe, uma banheira com sais de banho e um ‘eu lhe amo’ para acompanhar. Você riu diante daquela imagem mental. Riu ainda mais sabendo que seria capaz de proporcionar isso para ele. Definitivamente, o Rhyme estava lhe fazendo muita falta, afinal aquela era a prova de que você havia sucumbido ao tédio supremo – e você tinha, de fato. Na pior das hipóteses, você teria muitos motivos para rir, e foi essa perspectiva de diversão que o tocar a campainha dele tão logo anoiteceu.

Você estava de roupa social e com a expressão mais séria do mundo na face – a qual você manteve mesmo diante da cara que ele fez quando abriu a porta e viu que era você. A cara dele era impagável e pela primeira vez você teve dificuldades em manter sua expressão indiferente diante dele. Você desejou ‘boa noite’ e estendeu para ele o elegantíssimo buquê com doze rosas vermelhas.

–Que merda você está fazendo aqui? –Ele perguntou incrédulo e obviamente não pegou o buquê.

–Vim dizer que a lua está linda hoje, mas o brilho dela não se compara ao dos seus olhos. –Porque você era cara de pau o suficiente para usar uma das frases dele e ainda assim não cair na gargalhada.

Ele corou, provavelmente notando enfim o quão ridículas eram suas próprias falas. Diante do rubor na face dele você foi obrigado a sorrir vitorioso, o que o irritou e fez com que ele fechasse a porta na sua cara sem dizer nada. Sem se abalar, você tocou mais uma vez a campainha, mas tudo que ele fez foi gritar de lá de dentro.

–Vai embora, seu doente!

–Eu quero lhe entregar uma coisa.

–Eu não tenho tempo para perder com suas brincadeiras.

–Eu sei, mas agora é sério. Quero só lhe entregar uma coisa mesmo.

–Não quero essas flores ou qualquer merda do tipo.

–Não são só as flores.

–Vai embora!

–Então eu vou deixar aqui na porta, tá?

–Seja o que for, vai apodrecer aí.

–É algo que eu escrevi sobre ontem, então se você não pegar alguém mais poderá ler.

Ao soltar seu trunfo, você ouviu um suspiro irritado do outro lado antes de o trinco fazer um barulho a porta ser aberta. O homem mais velho parecia genuinamente aborrecido e cruzou os braços esperando. Você ofereceu mais uma vez o buquê.

–Tem um cartão. –Você explicou.

Ele ainda não pegou o buquê, mas dirigiu a mão ao pequeno envelope que repousava em meio às flores e o abriu para ler, e você mal podia conter a ansiedade que o tomava para saber a reação dele. Ele leu (duas vezes provavelmente, dado o tamanho diminuto do texto ali contido) e então olhou para você com a mais pura descrença no olhar.

“O Koujaku é vermelho

O Aoba é azul

Mas ele já tem dono

Então coma o meu cu”

Quando você escrevera aquela esplêndida obra literária, você imaginou que o desfecho mais provável seria ele ficar furioso, xingá-lo e escorraçá-lo de lá na base da pancada – você não se importaria uma vez que o seu corpo dormente estava mesmo há tempos pedindo por uma boa briga. A outra possibilidade, embora mais remota, era ele ficaria furioso com você, mas acabar cedendo a sua pressão e indo para cama com você – você adoraria, ao ponto que você sorriu quando ele começou a falar, indicando eu não partiria para a agressão.

–Pirralho, você tem problemas.

–Tenho mesmo: um velho broxa. –Oh sim! Você conseguiu usar aquela expressão, e como era de se esperar, você se sentiu realmente melhor tão logo ela abandonou o seu sorriso vitorioso. Agora era só esperar ele dizer ‘eu não sou broxa’ para você poder desafiá-lo a comprovar.

Mas ele não disse nada.

Ele apenas lhe olhou como se tivesse algo de muito errado em você – e tinha de fato – e por isso ele sentisse pena de você. Aquele olhar lhe irritou muito. Quem ele achava que era para ter pena de você? Tá certo que você estava fazendo uma cena ridícula, mas não era como se ele fosse menos patético do que você. Você ao menos estava se divertindo com a situação – pelo menos você achava que estava se divertindo muito. E pretendia se divertir muito mais, por isso você meteu o pé no batente da porta quando ele tentou fechá-la.

–O que você quer de mim, afinal? –Ele perguntou por entre os dentes, forçando a porta com o tronco para que você não pudesse passar.

–Pensei que tinha ficado claro no bilhete. –Você comentou calmamente. Seu poema fora liricamente explícito, não?

–Eu não quero fazer nada com você!

–Não foi o que o seu pau duro me disse ontem.

–Eu estava bêbado!

–Não estava. Você bêbado fica pior que o Mizuki. –Verdade, Koujaku bêbado era uma coisa tão insuportável que você jamais o convidaria para transar.

–Você mesmo disse que a gente estava bêbado e que podia fingir que nada tinha acontecido. –Oh, sim, você tinha mesmo dito algo assim, não? –Então nada aconteceu! Vá embora!

–A gente poderia, se você tivesse feito algo para eu fingir que não aconteceu. –Bom ponto, você pensou consigo mesmo enquanto contemplava o quão insistente conseguia ser.

E diante do seu raciocínio ele suspirou aparentando estar cansado e se afastou da porta, abrindo-a novamente. Mas ele cruzou os braços e continuou no caminho, indicando que pelo jeito você ainda não seria convidado para entrar e tirar as roupas. Ele revirou as íris vermelhas, provavelmente pensando no que falar. Suspirou mais uma vez e começou:

–Escuta aqui pirralho, eu não sei qual é o seu problema comigo afinal. Tá, aconteceu algo estranho entre nós e eu saquei muito bem que você estava querendo fazer sexo e que eu estava lá na sua frente, mas não vai rolar porque eu não sou gay, então é melhor você procurar outra pessoa. –Você obviamente riu da cara dele no momento em que o ‘eu não sou gay’ foi proferido. Será que ele acreditava mesmo nas próprias palavras? Você estava prestes a citar o nome Aoba, mas ele continuou. –E mais, eu sei você não gosta de mim e eu também não gosto de você, então a gente não tem porque insistir nisso.

De novo aquele papo de ‘gostar’? Aquilo lhe irritava, sinceramente. Ele poderia pensar numa desculpa melhor que aquela, não? Você se sentiu quase ofendido nesse ponto. Koujaku não era heterossexual, e ele fodia quase tudo que se mexesse e se oferecesse para ele. Por que ele não queria foder você especificamente?

–Velho, se você não entendeu, eu não quero que você diga que me ama, ou qualquer merda do tipo. Eu só quero que você termine o que começou ontem. –Sim, de certa forma ele tinha começado. Ele pegou no seu pênis. Ele caiu nas suas provocações, então que assumisse as consequências e o fizesse gozar. E foi nesse momento que você notou que devia estar mesmo desesperado ao ponto de sentir medo que se continuasse dessa forma você terminaria implorando para ele lhe foder.

–Tá, se é algo tão simples assim, escolhe outro cara! Já disse que comigo não vai rolar!

–Por quê? Não consegue lidar se não for você tomando a iniciativa? Eu deixo você me cortejar. Se quiser até solto uns gritinhos histéricos.

–Eu não vou fazer nada com você, me deixa em paz!

–Que seja. –Você dá um passo à frente, quase colando no tronco dele enquanto sua mão se agarrava de forma agressiva à intimidade dele. Você havia realmente se cansado de argumentar e por isso direcionou sua boca à dele na tentativa de convencê-lo de uma maneira que as palavras não haviam conseguido. Mas ele enfiou o braço entre o seu corpo e o dele e o empurrou antes que você pudesse chegar perto o suficiente para beijá-lo.

Você tenta se lançar contra ele de novo, mas ele era maior e mais forte fisicamente do que você, por isso sua insistência em alcança-lo não surtiu efeito. Você o olhou irritado, ele continuava com o olhar sério. Você recua um pouco, vendo que ele realmente não ia ceder. Sua cara se retorce em desgosto e raiva e você quer dar um soco na cara dele.

E você dá de fato um soco na cara dele, mas ele consegue desviar. Ele diz alguma coisa a respeito de não querer brigar com você, mas você não se importa e direciona mais uma vez seu punho até ele. Você detesta o fato dele ter reflexos são velozes para um velho – você sabe que ele não é tão velho, mas você gosta de pensar assim. Ele tenta continuando falar com você. A cara dele está aflita. Você tem vontade de dizer que aquele pretenso pacifismo não combina com ele, mas isso tomaria muito tempo, então você tenta acertar um chute nas costelas dele, e finalmente consegue. Ele faz um som irritado e finalmente joga um punho na sua direção também. Você sorri e aumenta a velocidade dos seus golpes, mas isso faz com que sua defesa se abra e ele acerte um soco bem no seu nariz – o qual você obviamente apenas ignora enquanto continua a lançar socos e chutes na direção dele.

–Para com isso, pirralho! –Ele grita em dado momento quando, ao recuar de um de seus golpes ele esbarra numa mesinha e faz com que um vaso de porcelana se espatife no chão. –Você vai quebrar a minha casa, miserável!

–Vamos lá pra fora. –Você responde seriamente enquanto puxa a barra do quimono dele.

–Eu não quero brigar com você!

Você grunhe impaciente. Ele ia continuar mesmo com aquela postura ridícula de bom moço? Com você não colava, afinal vocês já tinham ido para a porrada muitas vezes antes. E no alto de sua irritação, você lança um chute certeiro – não em Koujaku, mas no vaso que estava na outra mesinha. Oh, sim, você tinha conseguido irritá-lo pelo jeito, e por isso você leva um cruzado muito bem dado na lateral da face. Você se vê obrigado a recuar – não por dor ou instinto de autopreservação, mas por conta da tontura que o acometeu. Agora você tinha certeza que ele estava lutando sério, e você sorri satisfeito por isso.

Das vezes que vocês haviam brigado antes, sempre chegava alguém (geralmente Aoba ou Mizuki) e os separava que a coisa ficasse realmente feia. Mas dessa vez não havia ninguém, e por isso os seus golpes e os dele ficavam a cada pancada mais secos e potentes. Depois de alguns minutos vocês dois estavam arfando, cansados. Mas ainda assim, ambos eram arrogantes demais para jogar a toalha. Você não fazia ideia do quanto havia apanhado de fato, mas podia ter uma ideia pelo estado da cara de Koujaku: você certamente estava pior do que ele, afinal ele tinha mais técnica e força física do que você. Então, se você tinha cortado o supercílio dele, provavelmente a sua própria cara já devia estar um amontoado de sangue e hematomas.

Não que você se importasse, afinal, mesmo que você não sentisse dor, você sentia o impacto dos golpes dele, e isso era reconfortante de alguma maneira. Fazia com que você se sentisse mais humano, algo semelhante o que você sentia quando jogava Rhyme. Por isso que você sentia um tipo muito estranho de satisfação a cada golpe que ele lhe acertava, incluindo aquela joelhada no seu estômago e a pancada que ele deu com a sua cabeça contra a parede. Era tão reconfortante que você ficou puto consigo mesmo quando notou que sua vista estava escurecendo e seus músculos perdendo as forças. Você tentava se manter de pé, mas seu corpo insistia em ir ao chão enquanto o mundo girava bem lentamente.

Merda... Você desejava ter continuado.

Ainda em sua batalha interna, seus olhos se abriram lentamente enquanto seus ouvidos eram invadidos pela voz dele, agora soando preocupada. Sua visão está embaçada, mas pelo pouco que você vê, a cara dele parece aflita também.

–Ei! Pirralho! Oi! Noiz! Acorda! Acorda Noiz. –Ele o chamava insistentemente, e você se deu conta que sua cabeça repousava no colo dele enquanto ele parecia dar alguns tapinhas no seu rosto. Você não tinha certeza, estava difícil raciocinar. Por que você tinha desmaiado mesmo? –Não, não fecha os olhos! Fica acordado! Merda! Acorda desgraçado!

Ah, sim, vocês estavam brigando, não? Ah, ele deve querer mais. Você abre novamente os olhos e tenta erguer seu tronco, mas a tontura não permite mesmo com o amparo dele.

–Você está bem? –Que merda de pergunta imbecil era aquela? Você tinha acabado de perder um briga, como você estaria bem? –Quer ir ao hospital? –Ele insistia naquelas perguntas idiotas enquanto lhe levantava.

–Não. Me deixa. –Você disse irritado, novamente tentando se separar dele. Mas ele ainda lhe mantinha seguro, fazendo questão de lhe apoiar no ombro dele enquanto lhe levava até o sofá da sala. Maldito, porque ele tinha que vir com aquele papinho de quem se importava com você de novo?

–Fica quieto aí, eu vou pegar o kit de primeiros socorros. Não durma, fique consciente. –Ele disse isso e você fechou os olhos por aquilo que você julgava ser menos de um segundo, mas quando se deu conta ele já estava com ele mais uma vez diante de você, batendo no seu rosto de leve. –Ei! Acorda Noiz!

–Eu tô com sono... –Você resmunga impaciente, ainda sem se dar conta do que exatamente estava acontecendo.

–Se você não conseguir ficar acordado eu vou ter que lhe levar no hospital. –Ele ‘ameaça’, e você abre bem os olhos, ainda que preguiçosamente. –Você está com dor de cabeça ou enjoo? –Ele pergunta enquanto lhe entrega uma bolsa térmica, a qual você julga estar gelada dada a situação.

–Não. –Você responde seco enquanto tenta se lembrar de onde havia sido o baque para você fazer a compressa. Ele nota a sua falta de reação e empurra a sua mão até a sua testa. Ah, sim, tinha sido a sua testa que ele enfiou com tudo contra a parede enquanto o agarrava pelos cabelos, certo?

–Então converse comigo. –Ele diz enquanto pega gaze e soro fisiológico de dentro do kit.

–Por que eu faria isso?

–Para eu saber que você não teve traumatismo craniano.

–Eu não tive traumatismo craniano.

–Seu nível de consciência parece baixo. Você está se sentindo confuso?

–Não. –Sim, estava, mas provavelmente era porque aquele bastardo estava lhe tratando bem. Ele bem que podia ter lhe chutado para a rua e lhe deixado dormir na calçada. –Eu estou bem, já vou pra casa. –Você diz assim que ele afasta as mãos do seu rosto e tenta se levantar, mas teria caído se não fosse ele lhe segurar e lhe colocar sentado mais uma vez. Merda, você tinha realmente apanhado feio dessa vez. Você estava irritado e com sono, e queria apenas ir para a sua casa.

–Nem pensar. O Aoba vai me matar se você morrer, imbecil. –Ele comentou enquanto começava a limpar seu rosto com o soro. Ah, sim, claro que ele não estava preocupado com você. Ele estava preocupado com o que o Aoba iria pensar dele. Agora sim tudo fazia sentido, e o sentido o irritava mais. –Você é mesmo duro na queda, hum? Não está doendo? –Você não respondeu. Você apenas o olhou com raiva. Muita raiva. E você nem entendia porque estava com tanta raiva.

Ele provavelmente notou isso e parou de lhe perguntar as coisas, concentrando-se em tratar dos seus ferimentos. A expressão dele parecia angustiada, pois ele detinha o mesmo cenho franzido que ele fazia quando Aoba segurava a mão de Clear. Nessa hora você se permitiu observar um pouco mais atentamente o que você havia feito no rosto dele e pensou em quantas mulheres iam desejar sua morte por isso. Não que você se importasse. Você não se importava com nada que dissesse respeito àquele velho.

Não mesmo.

Então porque você se sentia tão triste?

Notas finais
Sejam sinceros, quem acha que o Noiz deve investir em seu dom de poeta? Enfim, a partir daqui a comédia diminui e começam a brotar alguns feels. Lemon no próximo capítulo, sim ou com certeza?