Você

16 Capítulo 16


Notas iniciais
É o último...

Você se acorda em meio a um terrível dilema.

Koujaku está dormindo em seus braços, a cabeça repousando ternamente em seu ombro direito enquanto ele te abraça. A sua mão esquerda está envolta por uma mecha de cabelo comprido, e mesmo que você não consiga sentir a maciez daqueles fios, você adora a sensação. Ele está dormindo pesado, e você consegue ouvir perfeitamente a respiração dele. Se você se esforçar, você pode até sentir o coração dele batendo através do seu peito, e isso é muito poético.

Estaria tudo perfeito, se não fosse pela absurda vontade de mijar unida a uma desconfortável ereção matinal.

Se por um lado você achava que aquele lindo momento de aconchego fazia valer a pena qualquer desconforto físico, por outro, a possibilidade de Koujaku acordar em uma cama molhada era real demais para você ficar lá parado aproveitando aquele abraço.

Com todo cuidado do mundo para não acordá-lo, você tira seu braço debaixo de Koujaku. Ele resmunga alguma coisa e se vira, e em vez de acordar, o velho ronca um pouco. Você precisa se controlar para não rir enquanto se dirige apressadamente ao banheiro. Você levanta a tampa da privada e encara seu membro duro. Sabendo muito bem que provavelmente não conseguirá mirar adequadamente em seu estado atual, vai com mais pressa ainda para o box e finalmente alivia sua bexiga enquanto abre o chuveiro.

Através do balancim, você observa a coloração alaranjada no céu. Ainda é muito cedo, mas você duvida que consiga voltar a dormir, afinal seus horários sempre foram uma bagunça, e você geralmente dormia à tarde, uma vez que de madrugada era o melhor momento para desenvolver suas atividades laborais – invadir redes e roubar informações. Conformado, você toma um longo banho esperando seu membro finalmente se acalmar e volta ao quarto, observando na penumbra como o velhote fica bonito largado pelado sobre uma pilha de roupas suas – você aproveita e pega duas peças quaisquer para se vestir e pondera se deveria se deitar e esperar ele acordar, mas você se conhece bem o suficiente para saber que não conseguiria parar quieto e acabaria acordando o velhote.

Como tudo indica que ele ainda irá dormir bastante, você o cobre com um edredom (você supõe que ele esteja com frio, já que ele se encolheu após ter saído do seu abraço) e pega Usagimodoki de cima do criado mudo – ele estava configurado para sempre filmar pessoas quando não estivesse sendo notado, por isso ele havia ido para lá, e sim, você teria para sempre gravado na memória e em vídeo o dia que Koujaku deu para você – e vai para cozinha.

Você pensa em esquentar aquele pedaço de pizza que havia sobrado na geladeira, mas logo você se lembra que Koujaku acordaria e precisaria comer algo, e que ele provavelmente ele não ia querer o seu pedaço de pizza velho e duro. Obviamente não tem mais nada para comer na geladeira ou nos armários, e você se desespera em direção a porta. Você avisa o seu allmate que, caso o velhote acorde, deve dizer que você voltará logo, e vai apressado em direção à loja de conveniência mais próxima.

Chegando lá, como você não conhece quase nada daquilo, pega praticamente tudo que pareça comestível e gostoso, e aproveita para levar três tubos de lubrificante, só para se certificar. Você volta para casa e Koujaku continua dormindo. Ótimo, você vai preparar um café da manhã para ele enquanto Uzagimodoki o ajuda a identificar o que servir – teoricamente você deveria ter comprado arroz, ovos e peixe, mas como você jamais saberia preparar nada daquilo, e como a loja não vendia frutas, Koujaku terá que se contentar com pães, biscoitos, bolos, cereais matinais e salgadinhos, além de um tal de ‘bentô’ que você não sabia o que era, mas que era colorido parecia muito bom. O plano de levar o café da manhã na cama também é abortado porque você não tem uma bandeja, então você arruma tudo o melhor que pode sobre a mesa e volta para o quarto.

Koujaku ainda dorme sonoramente, e sem muita opção, você senta ao lado dele na cama e fica observando a face serena marcada pela tatuagem. Você não resiste e a toca. Você não consegue sentir a textura e se pergunta se há alguma diferença deixada pela ação violenta da tinta sob a derme.

Você acha aquela tatuagem bonita, mesmo sabendo da dor que ela gerou para Koujaku. Você queria achá-la feia, mas não consegue. Você até se culpa por isso, mas o fato é que você não consegue achar nada feio em Koujaku. Tudo nele é belo e apaixonante, mesmo as coisas que te irritam. Você não queria estar tão perdidamente apaixonado, tanto porque você acha perigoso ele não te corresponder, quanto pelo fato de você não ter qualquer prática nesse negócio de relacionamentos. Você pensa que realmente teria sido mais fácil se tudo entre vocês fosse apenas sexo casual, mas você sabe que se fosse assim, você não estaria sentindo nem um décimo da felicidade que sente agora.

Porque você nunca esteve tão feliz na sua vida.

E porque, estranhamente, você sabe que ele pode te fazer ainda mais feliz.

Tão feliz quanto agora, que notou que ele sorria para você enquanto esfregava preguiçosamente os olhos.

– Bom dia... – A voz sonolenta sai baixa logo após um demorado bocejo, enquanto ele pisca insistentemente a fim de conseguir enxergar a despeito da falta de luminosidade.

Você pensa em se desculpar por tê-lo acordado, mas quando o braço dele envolve a sua cintura e o puxa para a cama, abraçando-o em seguida, você esquece imediatamente do que ia falar. Você apenas se aconchega melhor, encostando suas costas no peito dele e suspira.

– Você é mesmo bom de cama, heim velhote? – Você comenta docemente, achando engraçado descobrir que Koujaku poderia ser tão preguiçoso. – Dormiu por umas doze horas seguidas. – Você está exagerando, obviamente, mas ele não precisa saber disso.

– ...me deixa em paz... – Ele resmunga baixo contra o seu pescoço, sonolento demais para se importar. – Hoje é meu dia de folga...

– Não, sério. Você é um animal na cama. Um coala, provavelmente.

– Idiota...

– Imagino que eu te cansei mesmo essa noite, não?

– Impressão sua... – A voz dele sai mais enrolada ainda.

– Pode ser por causa da sua idade também. – Você insiste em provoca-lo, e dessa vez ele suspira dando-se por vencido.

– Você é muito chato, sabia? – Ele finalmente soa mais desperto, e você sorri satisfeito enquanto sai do enlace dele e se levanta.

– Sabe, eu preparei café da manhã para você. – Você comenta ansioso. Tá certo que você não preparou nada, mas a intenção é o que conta, não?

– É pizza? – Ele passa a mão pelo rosto antes de erguer o tronco.

– Não, é tudo que eu consegui achar na loja de conveniência.

– Parece maravilhoso. – Ele finalmente sorri e te beija.

É um simples roçar de lábios, mas é algo que você nunca teve na vida. E é o suficiente para te deixar exultante, afinal, você realmente se sente parte de um casal. Aparentemente alheio a todo o significado em seu selinho despropositado, Koujaku se levanta, mas tão logo ele dá o primeiro passo, ele para assustado e arregala os olhos.

– Algo errado? – Você pergunta.

Ele parece pensar um pouco a respeito, mas logo disfarça.

– Não.

– Tem certeza? – Você insiste.

– Tenho. Onde estão as minhas ro... Ah, aqui... – Ele tenta parecer convicto enquanto cata seu quimono do chão, mas o fato é que Koujaku é um péssimo mentiroso, e seu nervosismo denuncia claramente que ele está envergonhado demais para falar. – Se bem que... Eu acho que quero tomar um banho antes, tem problema?

– Sua bunda está doendo.

Não foi uma pergunta.

Você afirmou, e ele confirmou no momento em que virou a cara. Provavelmente ele achou que você tiraria sarro da cara dele, mas o que você fez foi franzir o cenho angustiado.

– Tá doendo muito?

Ele fecha a cara e a esconde com o dorso da mão. A luminosidade não te permite ver, mas você tem certeza de que ele está corado.

E parece irritado.

Você não o culpa. Talvez você não devesse ter insistido naquilo. Talvez fosse melhor ter deixado as coisas como estavam. Você logo pensa em Koujaku dizendo que nunca mais ia querer fazer aquilo, e que por consequência nunca mais iria querer deitar com você, e que...

– Ei... Tá tudo bem, pirralho... – Ele sussurra envergonhado enquanto passa a mão pela sua cabeça. – Não fica fazendo essa cara, eu não sou de porcelana. – Ele complementa aparentemente zangado, mas em seguida sorri para você.

Aquele sorriso faz seu coração falhar.

Aquele é o sorriso mais lindo que você já viu na vida, e você queria dizer que ele é a pessoa mais bonita do mundo, que ele é o cara mais maravilhoso do mundo. Você quer dizer que o ama, que quer casar com ele, e que se fosse possível, você teria os filhos dele. Você abre a boca, você olha fundo nos olhos dele, você sente a ansiedade presa no fundo da sua garganta.

Você precisa dizer para ele que...

...Você não vai dizer nada, pois o coil dele está tocando.

Ele olha para o aparelho (estava no pulso dele, pois obviamente ele não se lembrou de tirá-lo antes de cair no sono), e em seguida e para você. O nome de Aoba se destacava na pequena tela holográfica e Koujaku parecia não saber bem o que fazer. Ele está em pânico, e você não pensa duas vezes: atende a chamada de vídeo e acena se colocando ao lado do mais velho.

Aoba arregala os olhos. Koujaku arregala os olhos. Os dois ficam estáticos por um momento, ambos olhando para você. A situação tragicômica só cessa quando Aoba finalmente se recupera do susto e comenta, ainda parecendo bem surpreso:

– Então era verdade... Quem diria. Pensei que fosse brincadeira do Kou quando ele apareceu aqui na loja me disse que vocês estavam ficando!

Você olha para Koujaku, mas ele ainda parece chocado demais para falar qualquer coisa. Esse fato te irrita, mas você disfarça com um sorriso cínico.

– Pois é. – Você comenta sem ânimo, fingindo que não é nada demais.

Nesse momento ele dá um olhar significativo para Koujaku, e sorri animado.

– Bem, então não quero atrapalhar os pombinhos, depois a gente conversa! Vou querer detalhe, viu Koujaku? Tchau Noiz!

Você apenas acena a cabeça e desliga o coil. Pronto, tudo resolvido.

Você até daria um sorriso vitorioso, se não fosse pela indignação estampada na cara do mais velho. Ele põe a mão no seu ombro e o sacode:

– Por que você fez isso?

– Tinha algum problema?

– Claro que tinha!

– Por quê?

– Porque não era assim que eu queria que ele soubesse!

– A velhice afetou seus ouvidos? Ele disse que já sabia, que o Kou tinha dito para ele.

– Mesmo assim, eu queria ter conversado com ele!

– O que mudaria? Você tentaria minimizar as coisas, ou inventaria alguma desculpa, dizendo que estava comigo por culpa ou por tédio? Que tinha só me dado um pega, mas que ia deixar isso para lá?

Ele se cala, você se cala, e ambos ficam olhando para o chão. Você não deveria ter feito isso, você sabe. Aquilo era assunto dele com o Aoba, não com você. Se o Aoba tivesse ligado para você, aí sim você poderia ter contado tudo, até os detalhes mais quentes (coisa que você jamais faria, por achar sacanagem). Mas Aoba não havia ligado para você, e sim para o melhor amigo dele.

A verdade era que você estava chateado por Koujaku não querer te ‘assumir’, por mais que não houvesse nada a ser ‘assumido’, afinal vocês não estavam namorando nem nada. Vocês estavam ‘tentando’, estavam apenas ‘vendo se dá certo’. Isso não é um namoro ou um relacionamento sério. É apenas uma possibilidade, e Koujaku não é obrigado a sair por aí falando de suas possibilidades aos amigos.

– Descul...

– Descul...

Vocês falam ao mesmo tempo, e se detém ao mesmo tempo. Vocês se olham, mas ele logo desvia.

Você suspira, ele ajeita o cabelo. Você força uma tosse a fim de mudar de vez o foco da conversa, e ainda assim a sua voz sai baixinha e incerta:

– Bem, eu... Ah... O seu banho... Hum... Toalhas... – Você se lembra, tratando de buscar por uma em seu armário, fazendo uma bagunça semelhante a que você havia feito na noite anterior escolhendo sua roupa. – Aqui, toalhas. Limpas. Você prefere banheira? Melhor. Eu vou encher a banheira para você...

– Você não vai tomar banho comigo?

– Se você quiser... – Você responde sem jeito, ignorando o fato de já ter tomado banho mais cedo.

– Eu quero. – Ele diz um pouco mais determinado, e isso faz com que um pequeno sorriso brote em seus lábios. Você vai até o banheiro e põe a banheira para encher. Usagimodoki se adianta e regula automaticamente a temperatura do banho para você. Enquanto isso Koujaku dá uma rápida passada na ducha. Você tira as roupas e entra no box com ele. No mesmo instante você se lembra daquele banho que tomaram juntos na casa dele, e seu coração se aquece ao recordar de como ele lavou o seu cabelo, e você quer retribuir. Você põe um pouco de shampoo nas mãos e leva até os longos fios negros. Ele se vira para você em um pequeno sobressalto, e você se pergunta se havia feito algo errado. Mas então ele sorri de forma doce, e você relaxa, massageando os cabelos dele com tanta leveza quando lhe é possível. Ele fecha os olhos e passa os braços por sua cintura, unindo os seus corpos. Você supõe que ele não fez aquilo com alguma intenção erótica, mas o seu corpo se arrepia mesmo assim. Você se contém bravamente e continua a lavar a cabeça dele naquela posição estranha até considerar que é o suficiente. Ele enxagua os fios em seguida e logo passa um pouco de condicionador. Você apenas verifica que a banheira já estava cheia – Usagimodoki que controlava o fluxo da água e diz para ele:

– Ó. – Você diz só isso, indicando com a cabeça.

Ele termina de enxaguar os fios e segue até ela, soltando um suspiro de satisfação ao imergir na água quente. Você sorri e rapidamente termina o seu segundo banho daquela manhã, mas tão logo sai do box e começa e se enxugar, o velho pergunta:

– Não vai entrar?

Você para e encara a banheira se perguntando se o espaço disponível seria suficiente para dois marmanjos do tamanho de vocês. Claramente não, mas ‘dane-se’, você decide deixando a toalha de lado e se aventurando contra a porcelana branca quase nunca usada – afinal, devido sua condição, você nunca entendeu o prazer mundano em um banho de banheira. Totalmente sem jeito, você tenta se encaixar por entre as pernas do mais velho, pisando nele algumas vezes, quase caindo em outras. Obviamente, a água transbordou, mas você finalmente conseguiu se sentar de frente para ele, ambos com joelhos dobrados e para fora da água, e você pensa em comprar uma banheira maior. Uma grande o suficiente para vocês fazerem sexo dentro. Se bem que você consegue muito bem se imaginar fazendo sexo nessa banheira mesmo, nesse exato momento. Se você se virar de costas para ele, e apoiar um pé na borda. No início você teve alguns problemas com a ideia do moreno te comendo de costas, mas agora você sabe que não seria um problema, afinal, ele poderia sussurrar o seu nome, os lábios úmidos contra o seu pescoço molhado...

– Sobre aquilo do Aoba... – Ele interrompe seus pensamentos impuros, e você pisca algumas vezes a fim de voltar a realidade.

– Ah, sim, eu sei que não devia ter feito aquilo, era assunto só seu e dele, juro que não faço mais. – Você se adianta, e ele franze o cenho.

– Sim, mas não era bem isso que eu queria dizer... – Ele parece se enrolar um pouco, mas você apenas faz que sim com a cabeça, indicando para que ele prossiga. – Eu não quero que você pense que... Sei lá... Que eu não quero que ele saiba, tanto por ele ser ele, ou por você ser você...

– O quê? – Você não entendeu nada.

– Não quero que você ache que eu não queria atender porque eu era afim dele, ou porque... Eu não queira que ele saiba que eu estou com você, entende?

– Bem... – Você engole em seco antes de prosseguir. – Em tese, você não está comigo, então você não precisaria dizer nada para ninguém.

– Isso é verdade, mas... – Ele está falando devagar. Tão devagar que você está com vontade de dar um tapa nas costas dele para ver se ele cospe as palavras de uma vez. – A gente pode passar a estar junto, em tese e de fato...

Você pisca algumas vezes, querendo ter certeza de que estava acordado, de que aquilo não era um sonho.

E sim, aquilo era a realidade, você sabia pelo lindo tom de carmim que tomava a face do mais velho, realista demais para ser fruto da imaginação.

– Você está me pedindo em namoro?

– Por que você faz tudo parecer tão esquisito?! – Ele pergunta um tom mais alto, aparentemente indignado enquanto cobre a face com as duas mãos.

– Não, sério. – Você tenta parecer calmo. Por dentro você está gritando histericamente, mas por fora você está com a mesma cara que usa nas partidas de pôquer. – Eu entendi direito? É isso mesmo? Você quer namorar comigo?

– É... Eu acho... – Ele balbucia finalmente descobrindo o rosto, mas ainda mantendo a face virada para não te encara. – Se você quiser... Se você não quiser...

– Eu quero! – Você solta repentinamente, quase não acreditando naquilo.

– Mesmo? – Ele também parece incrédulo diante da situação.

– Sim, se for isso o que você quer, de fato. – Você dá uma última chance, afinal, ainda parece surreal demais. Koujaku te pedindo em namoro? Não, não poderia ser, ele deve ter se enganado, só pode.

– É o que eu quero. – Ele diz convicto dessa vez, te olhando fundo nos olhos. Aquelas íris vermelhas te passam toda a seriedade que você precisava para aceitar tal fato, e você finalmente sente que o seu coração vai fugir do peito de tanta felicidade.

– Então nós somos agora... Namorados?

– Acho que somos. – Ele sorri ainda um pouco tímido, e você o imita, notando a mão dele sobre o seu joelho.

Você tem um namorado. Você nunca imaginou que teria um namorado. Mas lá estava ele, na sua frente, com as pernas enroscadas nas suas, dividindo uma banheira pequena. Sim, você definitivamente tentaria fazer sexo com ele naquela banheira, afinal agora ele era seu namorado, e ele provavelmente viria muitas mais vezes te visitar. Talvez ele até aceitasse se mudar para a sua casa, ou você para a dele. Aoba e Clear moravam juntos, afinal.

– Eu só não sei como vou falar isso para o Beni... – Ele comenta consternado.

– Falar o quê?

– Ah... Isso de nós dois... – Ele diz um pouco envergonhado e você não acredita que aquela era a preocupação dele.

– Você está com vergonha de dizer para o seu allmate que está namorando comigo?

– Não é isso, é só que... Você sabe como ele é!

Você suspira, não acreditando naquilo. Você não sabia o que era pior naquela situação: o fato de Koujaku temer levar uma bronca de Beni, ou o fato do velhote realmente não entender nada sobre allmates.

– Você tá ciente que no momento que você configurou o Beni, você vinculou o aprimoramento da personalidade dele à sua, não?

– Hum... sim? – Ele responde incerto.

– E que por isso ele teve acesso a seus padrões mentais, certo?

– Hum, teve?

– Teve, e que por isso ele reconhece todas as suas respostas físicas e psicológicas.

– E isso quer dizer...?

– Que mesmo que você o ponha em stand by para que ele não veja nada, ele continua recebendo todos os seus estímulos, desde o seu orgasmo até a dor que você está sentindo na sua bunda. – Nesse momento Koujaku cora e põe mão na frente da boca enquanto arregala os olhos. Você precisa usar todo seu autocontrole para manter sua expressão inalterada. Por dentro você está gargalhando, por fora você continua sério. – Então não se preocupe, você não vai precisar dizer para o Beni que curte dar a bunda.

– Noiz! – Ele quase grita indignado.

– Mas você gostou de dar, não gostou? – Você sabia que ele havia gostado, só queria provoca-lo mesmo.

– Eu já disse que não gosto desse eu jeito de falar!

– Mas gostou ou não?

Ele cala, desvia o olhar, cora. Você segura o riso e mantém o semblante sério.

– Eu não sei...

– Eu precisei dar umas seis vezes até ter certeza que gostava mesmo de levar.

Ele te olha indignado e fica ainda mais vermelho.

– Grosso!

– Você achou? – Você finalmente sorri enquanto pega sugestivamente no próprio membro.

Ele põe a mão na cara. Você sabe que ele está se controlando para não brigar com você agora, então você segura o joelho esquerdo dele e fica sério novamente. Você o olha firmemente nos olhos, tão profundamente quanto lhe é possível. Você nota as íris dele tremerem um pouco, e você morde de leve seu lábio inferior antes de dizer:

– Eu comprei lubrificante.

Você leva um pisão.

Você sentiu relativamente bem, e foi na cabeça. Você sorri, afinal, você adorava mesmo tirar Koujaku do sério, sobretudo deixando-o tão envergonhado. Você está feliz, tão feliz que precisa abraça-lo. Você prostra seu tronco afrente, mas isso deixa ambos em uma posição mais desconfortável do que antes, então você se vê obrigado a levantar e se virar de costas para ele, encaixando-se no colo dele de forma semelhante a que você tinha esquematizado em sua cabeça para a ocasião que fossem tentar fazer sexo naquela banheira.

Obviamente tal pensamento, aliado ao corpo nu dele logo abaixo ao seu faz com que a ideia anterior se torne ainda mais pertinente. Fora o fato que você não havia gozado na noite anterior. Oh sim, você acha que merece ser comido ali, agora mesmo. A melhor celebração que poderia haver para o seu recém firmado namoro.

– Ei velhote... Acha que ainda dá conta de me comer? – Você pergunta maliciosamente quanto se esfrega contra o colo dele, esperando receber uma resposta bem quente contra a sua orelha.

Mas Koujaku suspira aborrecido.

– Nem agora que a gente tá namorando, você não vai parar com isso?

– O quê? – Você olha para trás sem entender. Realmente não era aquela reação que você estava esperando.

– Ficar me chamando de ‘velhote’.

– Posso te chamar de ‘tiozão’, porque eu acho ‘daddy’ muito bizarro... ‘Papai’ também é tenso...

– Para com isso! – Certo, agora ele está realmente irritado, e você não sabe ao certo o motivo, mas sabe que é melhor parar. Você volta para o seu canto da banheira, e de frente para ele faz bico.

– Não sabia que você era tão sensível com a sua idade.

– Eu não sou sensível! E eu não sou tão mais velho que você.

– É sim, mas não se preocupe, sua ereção ainda não sofreu com isso.

Nesse momento a expressão aborrecida se perde, mas ele permanece sério.

– E quando sofrer?

– O quê? – Você não entendeu.

– E quando eu for velho demais para te satisfazer na cama? E se eu broxar, ou ficar impotente?

Seus olhos se arregalam por conta própria. Do que ele estava falando afinal?

Será possível que Koujaku está... Inseguro?

– Ei, eu estava só brincando disso de você ser velho, você não precisa levar tão a sé...

– É sério, Noiz. O que você vai fazer? Vai procurar um cara mais novo que dê conta do recado?

– Eu... Espera, você acha que eu quero ficar com você só pelo sexo, é isso?

– Foi só por isso que você quis ficar comigo, não? Você disse que só queria que eu te comesse.

– Foi no início, agora tudo mudou.

– O que mudou, exatamente?

– Mudou que agora eu te amo, ora. – Você diz subitamente, sem nem se dar conta. E é claro que você se arrepende tão logo nota a cara de espanto e terror que ele fez. Você baixa o olhar e suspira a fim de manter a calma e a compostura. É difícil, e por mais que você tivesse ensaiado aquele momento diversas vezes na sua mente, a realidade parecia muito mais pesada, de modo que o seu coração batia aceleradamente, cumprindo o papel de espalhar aquelas absurdas quantidades de adrenalina por todo o seu corpo. Não era para você ter dito aquilo. Não naquele momento ao menos. – Eu sei que é muito cedo, e que vocês japoneses nem costumam falar isso, mas... Ah, merda. – Você não consegue continuar. Sua mente está um caos e você esqueceu todas as coisas bonitas e sentimentais que deveria falar. – Desculpa. Esquece que eu falei isso. Eu... Eu terminei o banho já. – Você se levanta a fim de fugir, mas ele segura a sua mão e não permite.

Ele está mais vermelho do que nunca.

Ele abre a boca diversas vezes, ele desvia o olhar para todos os lados. Ele definitivamente não sabe o que dizer. Ele está nitidamente chocado. Você fez merda, de novo. Você sempre faz merda. Você sente raiva de si mesmo. Você...

– Eu... – Ele interrompe os seus pensamentos, gaguejando pateticamente enquanto olha para o azulejo rachado ao lado da banheira. Você nem sabia que tinha um azulejo rachado lá.

– Você não precisa dizer nada, velhote. – O ‘velhote’ saiu por acidente, mas ele aparentemente não se importou. Ele estava chocado demais para se importar

– Sim, eu preciso...

– Por quê? É só deixar pra lá. – Você resmunga angustiado. Tenta se soltar, mas os dedos dele estão firmes em seu pulso.

– Porque eu acho que você merece que eu responda... – Mais uma vez ele trava. – Eu...

Ele quer responder? Mesmo? Ora, se é assim você ansiosamente volta a se sentar na banheira. Você espera um pouco, mas ele não diz nada, parece engasgado. Mais uma vez você tem vontade de bater nas costas dele para ver se ele cospe as palavras, mas sabe que não funcionaria.

– ...você... – Você tenta incentivá-lo, ver se ele finalmente completa a frase, mas é inútil.

Ele continua lá, parado, vermelho, patético.

Você suspira frustrado e revira os olhos. Não é tão difícil dizer aquilo. É tão fácil que você falou até sem querer! Se ele realmente quer te dizer que te ama, que diga logo.

Aliais...

Você não sabe se ele realmente vai dizer o que você acha que ele vai dizer. Ele pode muito completar com um “acho que gosto de você”, como ele já havia feito antes. Ou pior, poderia estar armando um “acho que devemos ir com calma”. Seu peito dói no exato momento que essas possibilidades piscam no seu cérebro e você novamente sente a súbita necessidade de fugir dali, pois por algum motivo aquilo é muito mais plausível do que ter o Koujaku dizendo que te ama.

–-Deixa pra lá! –Você diz rapidamente enquanto se levanta.

Você entra em pânico e se levanta mais uma vez. Você precisa sair dali antes que Koujaku destrua de vez os seus sentimentos. Que presunçoso da sua parte achar que o mais velho diria um “eu também”! Que idiotice a sua! Sim, você precisa sair logo.

– Ei! Aonde você vai? – Ele pergunta, mas você ignora. Você precisa ainda manter pelo menos uma parte seu orgulho intacta, e é por isso que você majestosamente escorrega no piso molhado, cai sentado e bate a cabeça na borda da banheira.

Tudo fica escuro, e bem ao longe você escuta uma voz te chamando. “Noiz... Noiz...” Você abre os olhos preguiçosamente a fim de procurar a origem da voz, mas está tudo nublado ao seu redor. Onde você está mesmo? Você passa a mão pela sua cabeça, ela está doendo bastante, o que é muito raro.

– Noiz! Olha para mim! – Em meio ao nevoeiro, você identifica a face dele. É o Koujaku, e ele parece preocupado. Você sorri, afinal o Koujaku está preocupado com você, e por isso você se aninha no peito dele, satisfeito. – Noiz! Fica acordado! Fala comigo!

– Ca... – Você mais resmunga do que fala. Você nem tem certeza do que queria falar. Você só sabe que quer ficar ali, com Koujaku, para sempre.

Quando você olha ao redor, você não está mais aninhado no peito do moreno. Você está na sua cama. Você não se lembra de como veio parar aqui, mas você vê que Koujaku está te vestindo calças. Você ergue o tronco sem entender.

– O que você está fazendo?

– Vou te levar ao hospital.

– Por quê?!

– Você caiu e bateu a cabeça.

– Mas eu tô bem agora.

– Mas é melhor a gente ir de qualquer jeito.

– Não precisa. – Você diz enfaticamente, mas ele ignora.

– Precisa sim. Você caiu feio, pode ter tido um traumatismo. – Ele está preocupado que você possa ter tido um traumatismo. Isso é muito familiar, tipo um déjà vu. Por algum motivo você sente raiva.

– Eu não tive um traumatismo craniano. – Você diz firmemente, finalmente se recuperando totalmente do estado de confusão inicial.

– Vamos fazer uma tomografia, só para ter certeza. – Ele fala calmante, terminando de abotoar suas calças e agora pegando uma camiseta. – Levanta os braços. – Ele pede, mas você não obedece.

– Não precisa. – Você repete, mais grave, mais sério. Ele suspira e pega seu braço a fim de continuar te vestindo. Você não aceita que ele mova um músculo seu.

– Porra, colabora, Noiz!

– Eu não vou. – Você tenta falar calmamente, mas nota que a sua respiração está alterada, quase ofegante.

– Vai sim! –Ele insiste.

– EU NÃO VOU A HOSPITAL NENHUM, MERDA! – Você grita, e ele finalmente para de tentar te vestir.

Ele parece um pouco chocado, e até você está. Você não queria ter gritado dessa forma com ele, mas você precisava deixar bem claro que não iria a lugar algum. Ele deixa a sua camisa de lado e se senta rente a você na cama. Ele pega no seu queixo e passa o polegar pela sua bochecha.

– Por que você está chorando?

Você arregala os olhos e passa rapidamente a mão pelo rosto. Droga, você está mesmo chorando. Você odeia chorar na frente do Koujaku.

– Eu não gosto de hospitais... – Você diz baixinho, desviando o olhar.

– Você tem medo?

– Eu não tenho medo! – Você diz em um misto de amuamento, irritação, raiva e desespero. Você não tem medo. Você apenas odeia hospitais com todas as suas forças.

– Então, o que acontece?

– Eu... – Você soluça sem notar. Você não sabe bem como explicar. – Quando eu era criança, e meus pais ainda queriam saber o que havia de errado comigo. Médicos, exames... – Você diz tão vagamente quanto pode, tentando não focar muito nas suas lembranças, afinal você não quer ter que reviver mentalmente tudo pelo que já passou. – Era muito ruim, e nunca serviu para nada. – Você fala convicto, e ele parece aceitar isso, te abraçando. – Eu odeio aquele lugar... Aquela gente... – Você fecha os olhos, aliviado por ele ter simplesmente aceito a sua resposta e se aninha melhor no peito dele. Você acha incrível como aqueles músculos fortes tem um poder de te deixar relaxado. E você sente muito levemente as mãos dele passando pelas suas costas e suspira satisfeito, acalmando-se.

– Mesmo que você não goste... Eu acho realmente importante que você vá. – Você ergue o tronco e olha para ele indignado. Ele não havia entendido que você não queria ir? – Você perdeu a consciência duas vezes e não estava falando nada com sentido. Pode não ter sido nada demais, mas pode ter sido algo sério. – Você está prestes a se levantar da cama com raiva, mas ele te puxa de novo para os braços dele. – Se você não for, eu não vou sossegar achando que você pode ter alguma coisa, eu vou ficar muito preocupado, então, por favor... Eu estou te pedindo.

Aquilo foi golpe sujo.

Aquilo foi uma puta sacanagem.

Você está com raiva. Muita raiva dele e, sobretudo de si mesmo por ter cedido, afinal, cá está você, em frente a um enorme hospital, e a simples visão dele faz com que você comece a suar, e você precisa desativar as notificações do Usagimodoki porque ele começa a apitar sobre a sua pressão arterial caindo e os seus batimentos cardíacos acelerando. É nessa hora que o mais velho se dá conta do quão sério é o seu problema com hospitais, e ele parece mais preocupado.

– Ei... Eu estou aqui com você... – Ele diz apertando a sua mão totalmente ensopada de suor e e sorrido docemente para você. Merda, como você ama aquele sorriso. – Eu não vou sair um segundo sequer do seu lado, viu? E eu não vou deixar ninguém fazer nada de ruim com você. – Ele sussurra mais perto do seu rosto, e você faz que sim com a cabeça.

E juntos vocês adentram o prédio, e a despeito do seu mal estar você acha que valeu a pena porque quando a moça da recepção pergunta o grau de parentesco dele com você, e ele responde prontamente que vocês são ‘namorados’. Você sorri, mesmo que nervoso, e assina seu nome em uma ficha.

Quando chamam seu nome (com uma pronúncia totalmente errada, afinal você teve que usar o seu nome real), Koujaku entra no consultório com você, ainda de mãos dadas e tudo. Na verdade, ele fala mais do que você próprio com o médico, relatando o acontecido e contando da sua condição de não sentir dor. Você odeia a cara de descrença que o médico faz, mas finge que nada o incomoda. O médico foca uma lanterna nas suas pupilas, faz você ficar de pé numa perna só e manda você conferir números de trás para frente. Você acha que ele está zoando com a sua cara, mas faz apenas porque Koujaku estava te olhando daquele jeito que você sabia que era melhor não contrariar, ou levaria uma bronca. O médico diz que parece tudo bem, e pede apenas um exame para ter certeza, já que você chegou a desmaiar. Você odeia exames, mas vai apenas porque Koujaku continua lá do seu lado, e já que é assim, tudo ficará bem.

Ao menos é o que você acha até chegar ao local que farão o exame e ler ‘ressonância magnética’ na plaquinha em cima da porta. Você a conhece muito bem aquela maldita e barulhenta máquina branca, e você já teve experiências muito ruins com ela. E você sabe muito bem que Koujaku não vai poder ficar lá do seu lado, então você entra em pânico e sente tonto, e sente que vai desmaiar mais uma vez, e você está suando ainda mais, e o seu coração bate mais rápido, então você começa a olhar nervosamente ao redor em busca de rotas de fuga. Tem uma saída de emergência no final do corredor, a direita.

– Obrigado. – Ele diz simplesmente, e o seu plano de fuga some imediatamente. Você olha para ele sem entender nada, e ele mais uma vez sorri para você. – Por ter vindo. Eu sei que é desconfortável para você, mas é muito importante para mim. Eu preciso ter certeza de que você está bem.

Você faz que sim com a cabeça, um pouco confuso, um pouco feliz. Koujaku realmente se importa com você.

Aquilo basta.

Aquilo é mais do que suficiente.

Você não precisa que ele diga que te ama ou qualquer coisa do tipo.

Você só precisa que ele te trate bem, que ele se preocupe com você, e que ele faça que você se sinta amando.

Realmente, isso basta. E você está muito feliz com isso. Feliz ao ponto de sentir os olhos tremerem e marejarem. Você choraria, se não fosse um enfermeiro chamar mais uma vez o seu nome daquela forma horrenda e incompreensível. Você sorri, enxuga qualquer resquício de lágrima, encosta de leve seus lábios no do seu namorado (você está adorando usar essa nomenclatura) e se levanta, andando vagarosamente até a sala de exame.

Você está com medo, sim. Por mais que você não quisesse admitir, você sempre teve muito medo de médicos, e especialmente daquela máquina, porque você sempre se sentia menor, mais frágil e mais sozinho dentro dela. Mas agora é diferente, porque você sabe que Koujaku estará te esperando do lado de fora, e porque você só está lá porque ele realmente se preocupa com você e quer que você esteja bem. Você acha aquilo um bom motivo, e se apegando a tal pensamento você junta coragem para encarar aquele exame.

– Ei Noiz! – Ele te chama antes de você entrar, e você se vira. – Eu te amo. – Ele diz sorrindo e corado, e agora sim você chora.

Aquela foi a ressonância magnética mais feliz da sua vida.

Notas finais
Notas: Acabei. Acabei. Nem acredito, mas acabei. Não era o que eu queria, eu não estou satisfeita. Era para eu ter feito as coisas de forma diferente, mas não estou com saúde para isso, então me desculpem, por favor. Desculpem também pela demora. Eu tive muitos compromissos da vida real, e alguns problemas de saúde, especialmente com minhas mãos (novidade...). Mas se você me acompanhou e chegou até aqui, eu só posso te agradecer. Espero que vocês tenham gostado, a despeito de não ter acontecido quase nada de realmente relevante nesse capítulo, eles disseram que se amam, e eu imagino que isso seria meio complicado para o Koujaku, todo travado do jeito que é. Ah, para que ninguém se preocupe, o exame do Noiz deu tudo certo, nosso loirinho lindo está bem e só precisará repousar um pouco. Koujaku cuidará muito bem dele. Enfim, despeço-me por aqui, e obrigada a todos que embarcaram nesse navio comigo, especialmente aos que me apoiaram com comentários e cobranças
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!