Você
13 Capítulo 13
Notas iniciais
Você pisca algumas vezes, parecendo finalmente voltar à realidade. É como se você tivesse acabado de acordar de um denso e confuso pesadelo, daqueles que te fazem gritar, suar e agonizar na cama. Mas você estava de pé, no meio da sua sala, encarando uma porta fechada. Noiz havia acabado de sair por ela. E ele estava chorando. Ele estava dizendo que você não era um monstro. Que você não havia matado a sua mãe. Ele te abraçou e tentou te consolar.
Mas você havia matado a sua mãe.
Mas você era um monstro, sim.
E ainda assim, Noiz queria lhe dizer o contrário. Claro que ouvir isso dele não aliviaria o peso que você carrega em sua consciência, nem o redimiria de seus pecados. Nada mudaria dentro de você com relação a isso.
Mas mudaria muita coisa com relação a ele.
Você sempre imaginou que, caso alguém descobrisse – alguém que se importasse com você ou que te considerasse um amigo, e não um hacker qualquer que você pagou para modificar seus registros – essa pessoa teria medo de você, ou nojo, ou ainda o denunciaria. Na melhor das hipóteses, ela simplesmente se afastaria de você.
Noiz veio até você.
Noiz o abraçou.
Noiz.
Noiz.
Noiz.
Você sai em disparada, abre a porta e grita o nome dele. Ele para ainda na calçada e se vira para você. Você encara os olhos sofridos e a face molhada. Você não deveria ter falado aquilo para ele. Ele não tinha culpa se não amava ou se não havia sido amado pela mãe dele. Havia sido cruel da sua parte, e você não se perdoaria por ter sido cruel com ele. E é por isso que você dá alguns passos incertos na direção dele, até chegar bem perto. Você abre a boca e tenta falar alguma coisa, tenta pedir perdão. Nenhuma palavra deixa a sua garganta. Você não consegue.
Mas ainda assim ele te abraça.
Ele te agarra com todas as forças e enfia a cara no seu peito, começando a chorar copiosamente. Você o abraça de volta, apertando as costas dele tão forte que você nem precisa perguntar para ter certeza de que ele estava sentindo o seu toque.
Ele estava te sentindo.
E ele estava ali com você.
Ele continuava ali com você.
Vocês não precisam falar nada depois disso, mas ainda assim você sussurra com os lábios pressionados contra os finos fios de cabelo loiro:
– Me desculpe...
Ele chora mais forte e te abraça mais forte. Você faz o mesmo, sentindo melhor ainda o calor do corpo dele enquanto o arrepio gelado percorre a sua espinha. É nesse momento que você se dá conta que está só de cueca.
Na calçada.
Numa manhã fria.
Em um sobressalto, você se separa dele e olha ao redor, suspirando aliviado com o fato de apesar de não ser mais tão cedo, a sua rua é naturalmente pouco movimentada. Noiz te encara confuso por um segundo, mas logo em seguida arregala os olhos compreendendo melhor a situação. Ele começa a rir, e você se limita a pegá-lo pelo pulso e puxá-lo de volta para a sua casa enquanto sente o rosto arder de tanta vergonha. Você ainda dá uma olhada para fora antes de fechar a porta, a fim de se certificar que nenhum vizinho havia visto aquela cena ridícula. Você tranca a fechadura suspirando aliviado enquanto Noiz continua rindo de você.
Normalmente você ficaria zangado com ele – e você estava morrendo de raiva dele há um minuto – mas diante dessa situação você se vê obrigado a rir junto dele. Quando você finalmente para de rir, você volta a encará-lo seriamente. Ao se dar conta do seu olhar, ele também cessa o riso e baixa a face, aparentemente reabsorvido pela seriedade da situação que originou tudo isso.
Você tosse um pouco a fim de limpar a garganta e conseguir forças para falar tudo o que precisa ser dito.
– O que você fez foi errado... – Você começa e ele encolhe os ombros. Você se pergunta se ele realmente precisaria ouvir um sermão sobre respeito, consideração e bom-senso. Pelas ações dele, claro que sim. Mas como ele havia pedido desculpas, e pela maneira como ele se portava agora, você sabe que ele tem consciência que não deveria ter feito aquilo. – Você não devia ter invadido a minha intimidade, mas... Eu também invadi a sua. De outra maneira, claro, mas eu não fui justo ao te perguntar aquelas coisas enquanto você estava bêbado.
– Hum... – Ele pondera sobre isso, parecendo um pouco aliviado ao notar que você já havia sido desleal com ele também. – Então nós estamos empatados?
– Não diria isso, mas... – Você responde num suspiro cansado. – Vamos apenas evitar esse tipo de coisa? Eu entendo que você estava curioso, e que realmente nossa relação não estava minimamente igualitária... Mas eu realmente me senti muito invadido com o que você fez, e desde... Desde que isso aconteceu comigo, há muitos anos atrás, eu preciso tomar um cuidado diário para não ficar furioso... Eu preciso conviver com a possibilidade de eu me descontrolar e eu terminar machucando alguém...
– Por isso que você sempre tentava resistir quando eu te provocava...
– Sim...
– Deve ter sido difícil...
– Bastante. – Você dá um pequeno sorriso nesse momento, lembrando de todo esforço que o pirralho fizera para te tirar do sério. Você se sente genuinamente vitorioso por ter resistido. – Ainda assim, por mais que eu estivesse com raiva de você e querendo me vingar, eu não queria ter falado aquelas coisas para você... Sobre você e a sua mãe...
– Não, tudo bem... Você falou só a verdade. – Ele sussurra em meio a um suspiro triste, e aquilo dói no seu peito.
– Não, não está tudo bem. Por mais que você tenha me falado algumas coisas, eu não sei como de fato era a relação de vocês. Eu apenas acho que se você não amasse os seus pais, a atitude deles não teria doído tanto em você. É por isso que eu acho que você amou sim a sua mãe, e por isso eu acho que você entende, de uma maneira bem diferente da minha, mas entende sim, o que é perder uma mãe. – Nesse ponto ele finalmente ergue o rosto e os olhos claros como perídoto brilham e tremem em uma emoção que você não entende tão bem, mas que você julga ser importante para Noiz. – Nós dois perdemos nossas mães, e nós dois nos sentimos monstros por causa disso. Nós fomos monstro por muito tempo... – Nesse momento ele apenas te abraça, mais uma vez escondendo a cabeça no seu peito. – Além disso, eu achei bom que você tenha sido honesto comigo. Você poderia ter fingindo que não sabia de nada, simplesmente se afastado de mim, ou sei lá. – Você para por um instante, concentrando-se para não permitir que qualquer soluço interrompesse a sua fala. Você o abraça forte mais uma vez e tenta descobrir porque você está tão sensível. A resposta brota automaticamente no seu peito, fazendo seus olhos arderem de emoção. – A verdade é que eu estou aliviado... Eu estou tão aliviado que você não tenha ido embora! Eu tinha medo que alguém descobrisse porque eu achava que todo mundo iria me desprezar e me abandonar, mas você... – Você não consegue continuar. Agora é você que está com o rosto enfiado nos ombros dele em uma tentativa de ocultar suas lágrimas.
– Eu estou aqui, velhote... E eu quero continuar aqui, se você deixar... Eu também não quero ficar sozinho... Nunca mais. – Ele diz de maneira entrecortada e carregada enquanto acaricia as suas costas, e você sente pelos movimentos do tórax dele que ele está chorando também.
–Eu também estou aqui, Noiz... – Você fala em meio a uma curiosa mistura de suavidade, angústia, alívio e anseio. Você finalmente ergue o rosto do ombro dele e tenta limpar as lágrimas com as mãos. Você deve estar no mínimo ridículo agora por conta do choro, mas você não se importa porque ele estava chorando junto de você, e isso muda tudo. Por isso você apenas beija o topo da cabeça loira e leva a mão direita ao queixo dele, levantando-o delicadamente. Você acha que aquele seria um momento adequado para se beijarem, e quando você vê aquelas duas íris verdes tão límpidas e cintilantes, você tem certeza que é o certo a fazer.
Mas o alarme do seu coil discorda, começando a tocar o som baixo e irritante que anunciava o seu compromisso.
– Ah, droga! Estou atrasado! – Você comenta consternado, olhando para o horário marcado no letreiro do seu coil enquanto o desativa. Você se afasta dele e vai até o quarto a passos apressados em busca de suas roupas.
– Hora marcada com a moça do cabelo azul, não é? – Ele comenta da sala em um esforço ridiculamente falho de parecer indiferente, e nesse ponto você vai para a porta apenas para exibir a sua expressão de incredulidade.
– Hackeou minha agenda também?
–Sim.
Nesse ponto você suspira, pensando que realmente teria problemas em impor limites nesse tipo de comportamento. Mas você estava atrasado demais para discutir a questão no momento, por isso você apenas volta a se vestir. Você até pondera se deveria desmarcar de novo, mas isso seria desrespeitoso e nada profissional com a moça que apenas queria um corte de cabelo. Talvez ela até quisesse algo mais, tendo em vista o que havia acontecido entre vocês, e provavelmente era isso o que incomodava Noiz. Você pessoalmente estava de consciência tranquila, pois antes de ficarem, você havia explicado para ela que você não estava procurando nada sério, de modo que ela não deveria por seus sentimentos naquele enlace casual. Isso não haveria de ser um problema. Não para você ou para Noiz, pelo menos.
– Como eu não a atendi daquela vez, eu remarquei para hoje. Eu realmente preciso ir.
– Claro. – Ele responde seco, ainda fingindo que não se importa. Você consideraria aquele tipo de atitude muito infantil... E é de fato, mas você releva por conta da idade e da falta de experiência do pirralho.
– Eu não tenho mais nada com ela. – Você precisa assegurá-lo disso por algum motivo que nem você compreende. Ele franze a testa e inclina levemente o rosto, olhando para você como se quisesse decifrá-lo.
– Mesmo que tivesse, você não me deve explicações, velhote. Não sou seu namorado.
Aquela frase o incomoda um pouco. É verdade. Vocês não têm nada oficial, e você se pergunta se o correto não seria pedi-lo em namoro. Talvez fosse, mas não agora, certamente. Vocês ainda têm muitas coisas a acertar antes de decidir dar um passo desses. Você quer ter certeza para não correr o risco de estragar tudo como você fizera com o único namoro da sua vida. Sim, seria melhor ir com calma e suavidade, e por isso, já vestido, você vai até ele e o mira nos olhos enquanto repousa a mão direita no ombro dele.
– Mas para mim é importante que você saiba. – Você insiste.
– Eu sei que você não sai mais do que duas vezes com a mesma mulher.
– Verdade. – Você responde surpreso e incomodado com a quantidade de informação que ele tem de você.
– Pergunto-me porque com homens a regra muda. – Ele comenta, aqueles verdes olhos afiados encarando profundamente os seus. Você queria corrigi-lo, tirar a palavra ‘homens’ da frase. Queria dizer que de alguma maneira ele era especial para você, mas a vergonha e a insegurança não permitem, e você apenas se cala. Ele parece notar o seu desconforto e para o seu alívio desvia o olhar. – Bem, melhor eu ir. A gente se vê. –Ele tenta se virar, mas a sua mão o mantém na mesma posição.
– Eu tenho vários atendimentos agendados para hoje, então vou ficar ocupado até o fim do dia, mas... Hum... Como você sabe o Mizuki faz o encontro dos Ribsterz da região toda segunda sexta do mês no Black Needle.
– Sim, eu sempre evito esse dia para não ter problemas. – Ele comenta baixinho, e a sua boca se abre por conta própria.
– Ah, é mesmo... Mas... Tipo, acho que já diminuiu bastante essa bronca dos Ribsterz com os Rhymers desde que...
–... O Rhyme acabou. – Ele completa a frase, e você fica um pouco aliviado por parecer que ele se ajustou até que bem a nova realidade. Você pessoalmente não saberia como seria caso o Rib acabasse de uma hora para a outra, e isso porque você não dependia do Rib para sentir determinadas coisas, como Noiz dependia do Rhyme.
– Pois é.
– E você quer que eu vá?
– Se você quiser. Acho que seria legal.
– É um encontro? – Ele pergunta, e você imediatamente se lembra da ocasião em que encontraram o Aoba e ele usou a mesma palavra. Normalmente você diria que não, ou riria. Um encontro com outro homem parecia algo tolo demais para ser concebido, mas... Mas pela forma como os olhos dele brilhavam ansiosos, e como as bochechas dele se encontravam levemente rubras, você se viu incapacitado de negar.
– Se você aceitar, será um encontro.
Ele apenas faz que sim com a cabeça, e nesse momento você tem certeza de que ele está feliz.
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