Você é a razão dele ter partido.
1 "Apenas, não..."
Notas iniciais
Nevava em Chicago outra vez. Lá fora as ruas estavam completamente vazias e não se tratava da localização de Mickey naquela manhã — o lado sul era o mais perigoso da cidade. Era o gueto. Mas não era isso que mantinham as pessoas em casa em pleno ano novo, mas sim a nevasca que ameaçara cair e era manchete em todos os canais.
O sol subia no horizonte enquanto a temperatura caía bruscamente. Mickey apertou ainda mais os braços dentro dos dois casacos pesados que usava, de pé em frente à casa dos Gallaghers, pensando numa desculpa convincente pra ver Ian uma última vez antes que sua licença do exército acabasse e Ian precisasse voltar.
Fazia quase 1 ano e meio desde o alistamento de Ian e de alguma forma, Mickey nunca conseguiu seguir em frente. Svetlana, sua esposa, até tentara acender a chama do casamento por diversas vezes, todas frustradas. Em seu coração e mente, só havia uma pessoa. Quando Mandy, há 1 semana, chegou empolgada do seu emprego miserável numa casa de waffles, Mickey soube na hora: Ian estava de volta à Chicago. Mas só agora, 6 dias depois, teve a coragem de vencer seus instintos covardes e orgulhosos pra dizer ao menos um último adeus, encerrar de vez aquela maldita obsessão e tocar a vida em frente.
Uma rajada de vento bagunçou seus cabelos e lhe impulsionou a subir os degraus daquela casa de uma vez, se não pra falar com Ian, pelo menos pra se proteger daquele maldito frio.
Parado na soleira da porta, ergueu o punho para bater, mas então percebeu que a porta estava destrancada. Franziu o cenho, desconfiado. Quem em sã consciência não trancaria a porta com todo esse frio lá fora?! Só então se deu conta que a casa estava silenciosa demais. Era muito cedo, óbvio, mas ali morava uma família tão louca quanto a sua. Aquele lugar estava quieto demais.
Engoliu em seco e entrou de uma vez. Espiou logo além da entrada, tendo uma visão parcial da sala, ninguém à vista. Trancou a porta atrás de si, relaxando um pouco mais no calor que fazia ali dentro. Tirou os casacos e os pôs no sofá antes de subir as escadas.
Lá em cima, haviam 5 cômodos, quase todos estavam destrancados, de modo que foi fácil para Mickey achar o quarto de Ian. Fim do corredor, com uma fita de “não ultrapasse, cena criminal” em torno da porta. Ian estava bem à sua frente, dormindo. Seu braço pendia pra fora da cama, seu corpo agora era mais atlético, e mesmo com o cabelo quase inteiramente raspado, ainda se notava seus fios ruivos, brilhando discretamente sob a luz solar que incidia pela janela.
Ver Ian tão perto e ao seu alcance fez implodir dentro de Mickey o maior de seus medos: estar amando outro homem. Era demais pra ele estar ali, aquilo era uma loucura até mesmo pra um Milkovich. Sem pensar em mais nada ele virou-se em direção as escadas e tropeçou no skate — provavelmente de Carl — e bateu o cotovelo na porta do banheiro pra se equilibrar.
— Mick? — aquela voz rouca soou atrás dele. O apelido que apenas ele usava. Mickey não teve forças pra se mover mais nenhum centímetro, suas pernas vacilavam e ele lutava pra manter-se de pé e não cair ali de joelhos, derrotado.
— Mickey?! — a madeira rangia enquanto Ian se aproximava, sua voz soando tão baixa que se ele não tão estivesse próximo, Mickey não teria ouvido. — Olhe para mim!
O corpo inteiro de Mickey se arrepiou em resposta. A respiração de Ian era quente e familiar, constante em sua nuca. Ambos estavam tão próximos que apenas um centímetro os impedia de entrar em combustão.
— Maldito covarde, nem depois de todo esse tempo você tem a coragem de olhar pra mim! — Ian murmurou, consciente da respiração pesada de Mickey bem a sua frente. — Eu sempre soube que você não mudaria, Milkovich!
Mickey engoliu em seco e se virou, de forma que o rosto de ambos estivessem no mesmo nível e Ian pudesse ver seus olhos, agora cheio de lágrimas.
Surpresa estampava todo o rosto de Ian, o que acabou deixando suas maçãs do rosto coradas, de vergonha, talvez. Seus lábios entreabriram-se para murmurar mais uma cerca de bobagens quando Mick simplesmente o beijou. E naquele beijo cabiam todas as promessas quem um dia não puderam ser seladas. Era carregado de sonhos que nunca puderam ser feitos. Expressava aquilo que Mickey nunca fora capaz de dizer sobre todo aquela carcaça viva de covardia.
A língua de Ian explorava cada pedaço da boca de Mick como se a vida de ambos dependesse inteiramente daqueles segundos. Mick gemeu e se viu sendo forçado pra dentro do banheiro. O piso estava escorregadio, o que o fez vacilar e tropeçar em direção a pia. Com o embaraço, os corpos de ambos se separaram um pouco, dando tempo para recuperarem o fôlego e quem sabe, a sanidade.
— Que porra você veio fazer aqui?! — Ian cuspiu, lembrando da última vez que se viram, das palavras que Mickey nunca pronunciou, que poderiam terem o impedido de seguir em frente e entrar naquele ônibus.
Mick não conseguia acertar os pensamentos ou se forçar a falar. Tinha muito de Ian ali dentro, o gosto ainda estava em seus lábios e seu cheiro impregnado em seu corpo. Havia proximidade demais naquele maldito banheiro minúsculo.
— Você é uma maldita duma putinha mesmo, Mickey! — berrava Ian, ficando fora de controle com todo aquele silêncio — Igualzinho àquela maldita piranha russa com quem você cas..
— Cala a porra da boca, Ian! Pelo menos uma vez na tua vida! — Mick explodiu, apertando os punhos junto ao corpo. Ian inclinou-se para trás, surpreendido com a explosão de Mickey. — Quer saber por que eu tô aqui?! Eu lhe digo por que eu estou aqui, porra! Eu tô aqui por que você partiu e me deixou aqui na merda, sua bicha egoísta e dissimulada! Você sumiu sem nem ao menos eu poder te dizer o quanto te amava, seu merda! To aqui por que eu rezava toda noite pra nenhum daqueles miseráveis atingirem esse seu maldito rabo irlandês nessa guerra! É por isso que eu to aqui, maldito Gallagher! Você desapareceu daqui e acabou levando parte de mim, desgraçado! E eu quero de volta! Quero a porra da minha vida de volta! Eu quero ser capaz de sair na rua e não ver essa merda de rosto em cada esquina! Eu vejo malditos fantasmas de Gallagher por toda parte e isso me deixa louco! Você seguiu em frente, Ian Gallagher. E eu to pronto pra tocar com a minha vida, só preciso que você devolva a parte de mim que partiu com você!
— Sabia que isso seria um maldito erro, mas que se foda, Milkovich! — Ian atirou-se em cima de Mickey, beijando-o outra vez. Os lábios dele agora estavam salgados, banhados de lágrimas e saudade.
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