Voar outra Vez

45 Capítulo 45 – De volta ao início


Notas iniciais
A festa foi boa, as férias foram legais, mas tá na hora de voltar pro colégio, né? E com a volta às aulas, voltam também muitas questões para dona Gabi decidir. Preparem-se porque vem muita coisa por aí... Aliás, tem alguém com saudades do Léo aí?

No capítulo anterior:

— Já imagino essa família maravilhosa desfilando por Nova York: Marco e Mel na frente, Alê e Gabi atrás representando a dinastia – foi a vez do Fernando falar.

— Peraí... Você também vai pra Nova York? – o Edu virou na minha direção, os olhos verdes fixos em mim, uma sombra de medo formando uma tempestade no verde dos seus olhos.

Era oficial: ele estava mesmo expondo as suas fraquezas naquele dia, até as que eu nem poderia imaginar.

— Oxiii.... Mas é claro que ela vai! Vai estudar música, dança, artes cênicas... Vai ser uma daquelas artistas completas que arrasam muito. Já imagino a Gabi fazendo um musical tipo Moulin Rouge.

Assim que o Fernando terminou a frase, três coisas se passaram pela minha cabeça: 1 – eu tinha um amigo com uma imaginação fora do sério. 2 – eu estava começando a me arrepender de ter contado para ele da minha viagem. 3 – pela cara do carioca, ele não curtia muito Nova York. Do tipo que não passaria nem pra fazer uma visita rápida.

— Bom, torço para que as palavras do Nando se profetizem, mas, por enquanto, eu sou apenas uma aniversariante vestida em um estilo metade odalisca, metade jovem descolada e que precisa terminar de organizar essa bagunça. Quem me ajuda?

Pensei em uma solução rápida para desviar o assunto que funcionou. Todos voltaram aos seus afazeres e, em menos de 30 minutos tudo estava em ordem. Também não demorou para que meu pai ligasse com notícias. Embora precisasse levar alguns pontos, dona Melissa estava bem e retornaria para casa em breve.

— Crianças, agradeço muito a ajuda. Sem vocês, demoraria muito para arrumar essa casa – minha mãe disse assim que terminamos de colocar tudo no lugar – Eu não sei vocês, mas agora eu preciso de um banho. Fiquem à vontade, tá? Vou subir para descansar... – ela veio até mim e me deu um beijo na testa – Parabéns, filha! Espero que tenha gostado da festa.

— Eu adorei, mãe. Foi tudo ótimo! Muito obrigada! – sorri para ela, o coração aquecido de tanta felicidade. Era tão bom estar em paz com a dona Beatriz, sem todo aquele sistema “ditatorial”.

Ela sorriu de volta para mim, desejou boa noite para todos e subiu.

— Cara, eu não sei vocês, mas eu “tô” morto. Que festa foi essa? – Alê se jogou no sofá sendo seguido por todos nós.

O pessoal começou a comentar sobre a festa e, lógico, começaram a zuar a Rebeca por causa do Caio. Os dois tinham passado a noite inteira juntos, no maior clima de romance. E era claro que isso não passaria em branco, principalmente, pelo Alê que adorava provocá-la.

— E aí, Hermione? Essa é a sua versão de Rony Wesley? Tanto estudo e tanta programação pra ficar justo com o Rei do Camarote?

— Ei...

Senti uma mão tocar de leve no meu braço. Ao olhar para o lado, vi o Edu me encarando.

— Quando você vai para Nova York? – ele falou com o tom de voz baixo para que só eu ouvisse.

— Ainda não está nada certo. Mas seria no final do ano, depois da formatura. E também é algo temporário – fiz questão de deixar claro.

Ele ficou em silêncio por um momento, como se estivesse analisando a situação.

— Nessas férias, eu conheci um projeto bem legal lá no Rio. Era de preservação de animais marinhos. Eles resgatam animais que encalham e tals... Trabalhei como voluntário ajudando o pessoal e achei a experiência muito legal. Decidi que quero fazer faculdade de biologia. Pensei em te levar lá para conhecer nas próximas férias...

A declaração me pegou totalmente de surpresa. Fiquei parada, encarando-o de volta, as palavras me faltando completamente.

— Bom, eu não pretendo fazer faculdade ano que vem. Posso conhecer o Rio depois que voltar de Nova York. Ooou... você pode ir com a gente. Deve ter algo sobre biologia em Nova York... – tentei animá-lo, já que ele me encarava de maneira triste.

— “Cê” é louca! Deve fazer um frio danado lá no inverno! – ele se encolheu no sofá – Já não gosto do frio daqui, pensa na “friaca” que faz na neve...

— Confesso que não tinha pensado no detalhe da neve... Mas também há suas vantagens, vai... Não é possível que não exista nada que você goste por lá – peguei o celular para começar a pesquisar, mas ele segurou a minha mão.

— Você não vai voltar... – por um segundo, ele deixou o jeito durão de lado, deixando transparecer o que estava o incomodando.

Puxei o braço, balançando a cabeça.

— Qual é, Gabi! Você é “mó” boa nisso aí... Arrasou na dança hoje, sempre manda bem nos clipes que o meu primo grava. Depois que você estudar e melhorar ainda mais, já era! Ninguém vai te parar mais – continuávamos falando sussurrando, o que dava um “ar” estranho à conversa. Parecia que estávamos trocando confidências, segredos que não teríamos coragem de falar com mais ninguém. Ao nosso redor, o pessoal continuava conversando, sem notar – ou, pelo menos, fingindo não notar – nós dois.

— Para de viajar, Eduardo! Não é tudo isso também...

— Gabi, tá tarde e eu “tô” morto. Vim do Rio direto pra cá. Preciso tomar um banho, trocar de roupa... – ele se levantou, colocando fim ao papo sem nem me dar chance de falar – Feliz aniversário! – se curvou para me dar um beijo demorado na testa – Você ficou linda com esses brincos – ouvi o carioca sussurrar antes de se endireitar.

— Galera, “tô” indo nessa! Preciso de um banho. Priminho, vou usar o seu banheiro, firmeza? Por favor, sem pegação entre você e a Laís no quarto hoje.

— Beleza, priminho! Mas ó, você dorme no sofá... A cama é nossa, beleza? – Alê piscou para ele, provocando.

— Não se eu chegar primeiro... – Edu retrucou de um jeito sarcástico antes de se virar e ir em direção à porta. Fiquei encarando ele ir, uma mistura de sentimentos tomando conta de mim.

Primeiro: que história era aquela de ir para o Rio nas próximas férias?

Segundo: isso queria dizer que não ia rolar mais nada entre a gente? Era isso mesmo? Depois dele vir do Rio com a ajuda de toda a minha família e amigos, de me dar presentes fofos, de dançar comigo e me beijar, ele vem com esse papinho de “você vai ficar em Nova York e lá é frio demais pra mim”?

Terceiro: COMO ASSIM EU O CONVIDAVA PARA VIAJAR COM A GENTE E ELE NEGAVA O CONVITE POR CAUSA DO FRIO? Ok, ele era um garoto do Rio, não curtia muito baixas temperaturas, mas aí dispensar um convite como o meu já era demais! E se eu falasse que não ia para a capital carioca porque era muito quente?

Ahhhh, Eduardo! Sempre me confundindo... Isso porque eu nem tinha parado de pensar no Léo, suas declarações de amor e mensagens misteriosas.

E foi com essas dúvidas e com o cansaço de uma festa bem longa e agitada que eu cai no sono ali no sofá mesmo, ao lado dos meus amigos.

Se fazer aniversário representava começar um novo ciclo, eu diria que eu estava prestes a começar um cheio de situações bem difíceis de serem resolvidas.

***

O único ponto negativo das férias é que, inevitavelmente, elas chegam ao fim. Assim, depois de uma semana de muita repercussão da minha festa, principalmente com o vídeo do “O que parece, mas não é”, a hora de voltar ao colégio chegou.

— Graças a Deus falta só um semestre pra esse martírio acabar – o Alê exclamou depois que todo o Time B se reuniu no nosso clássico lugar de sempre: nos bancos, perto das árvores do pátio – não vejo a hora de estar rindo disso tudo, enquanto dou uma volta pelo Central Park de skate – ele brincou.

— Fale por você, que vai pra Nova York, né? Pra mim, é o pior momento de todos: os meses antes do vestibular – ao contrário de nós, a Reb não tinha diminuído o ritmo de estudos nas férias. Ela queria passar em Medicina e estava se empenhando muito para isso.

— Bom, pra mim, o martírio até pode acabar daqui a seis meses. Mas aí começa a temporada exclusiva de: “não sei o que fazer da vida”.

— Mas achei que você iria se dedicar à fotografia, Nando – comentei.

— Ah Gabs, eu queria... Mas, sei lá... Às vezes dá impressão de que isso não é uma carreira de verdade, saca? Tipo você e o Miguel que querem estudar dança, a Beca que quer ser médica... Fotografia não parece algo bobo, principalmente com a tecnologia de hoje em dia? Qualquer pessoa pode fazer boas fotos... – ele desabafou.

— Cara, não fala bobagem! Ó, eu não “tô” nessa de carreira que nem vocês, mas estou lendo bastante para melhorar o meu canal do Youtube. E ó, tem muita coisa de filme, enquadramento, fotografia... Dá para fazer umas coisas incríveis com a fotografia e o enquadramento certo. Um vídeo simples pode virar uma parada incrível – Alê disse, em um dos raros momentos em que falava sério.

— Poxa, tá aí uma coisa que não tinha pensando: cinema. Eu pego “mó” bem com documentários – o olhar do Nando se acendeu com a possibilidade – Eu e o Miguel estamos conversando bastante sobre uma coisa que a Carol disse lá festa, sobre achar que todos os bailarinos são gays. É incrível o preconceito que existe nessa área. De um lado, o pessoal que é gay sofre por ser homossexual. Por outro lado, quem é hétero sofre porque as pessoas pensam que são eles gays. Eu tenho pensando muito nesse assunto. Queria mostrar histórias de bailarinos, dos preconceitos que sofrem, das lutas que enfrentam, das longas horas de ensaio, da ditadura por um corpo magro...

— Nossa! Achei a ideia incrível. O que você acha, Gabi?

Ouvi a Rebeca “passar a bola” para mim, mas, foi como se eu estivesse a quilômetros de distância. Isso porque, um minuto antes, uma Mari toda sorridente e cheia de si passou pelo portão da escola ao lado de ninguém mais, ninguém menos, que o Léo. O Cabeludinho estava de braços dados com a loira e os dois conversavam na maior intimidade, como se fossem amigos há muitos anos.

Então era isso o que ele queria dizer com “vamos nos ver sempre a partir de agora”?. Íamos estudar no mesmo colégio?

— Bom, pelo jeito você já está sabendo da novidade...

Demorei alguns momentos pra entender que a Carol, que eu nem vi se aproximar, falava comigo.

— Desde quando a Mari e o Léo são amigos? – Nando fez a pergunta que estava martelando na minha cabeça.

— Mari ficou com dor de cotovelo da festa da Gabi e resolveu fazer um esquenta de volta às aulas épico lá no Gueto. O Caio foi convidado e levou o Léo. O resto vocês podem imaginar... Ah, fica tranquila! O Caio não ficou com ninguém na festa... – ela emendou, olhando para a Rebeca de um jeito um pouco afetado demais.

— Eu sei. Ele me convidou para ir à festa. Não fui porque sou Team Gabi, né? – ela sorriu pra mim antes de encarar a Carolina de um jeito “aqui não, queridinha”.

— Bom... eles podem ser best friends forever. Só espero não ter que ficar aturando os dois na nossa sala... – mentalmente, repeti a frase do Alê: só faltam seis meses para esse martírio acabar. Mais um semestre e eu estaria bem longe de toda aquela loucura de colégio. Só seis meses e tudo estaria resolvido.

***

O sinal tocou logo na sequência e todos nós começamos a subir para a sala. E, como se o destino estivesse debochando de mim, assim que sentei no meu lugar de sempre descobri que o Léo agora fazia parte da nossa turma.

— Mas que ótimo, né? – murmurei para o Alê que me encarava de um modo especulativo, como se quisesse ter certeza que eu não ia “quebrar”.

— Assim... eu sei que a gente ficou zuando no dia do seu aniversário, falando que o cara tava arrependido e tals, mas “cê” sabe que era brincadeira, né? – o skatista parecia realmente preocupado – Você lembra que ele não é um cara legal, que já te fez chorar e todas essas coisas...

Apenas assenti com a cabela, enquanto pegava meus cadernos e organizava o material para a aula.

— Peraí... Ele é o Léo do aniversário do Caio, o que tinha namorada e tudo mais? – Nando praticamente gritou no meio da sala – E esse Léo é o mesmo da música do aniversário? Eu não tinha parado para ligar os nomes!

— Fala um pouquinho mais alto. O pessoal lá do outro lado ainda não ouviu – meu humor não estava dos melhores.

— Desculpa! Vacilei! Mas cara, que coincidência, hein? Justo ele vir parar aqui... – meu amigo se justificou.

— É o universo rindo da minha cara – respondi, sem nenhuma vontade. O que eu queria mesmo era que aqueles seis meses passassem voando.

— Calma, Gabi! Tudo vai dar certo! – a Rebeca pousou a mão no meu ombro gentilmente para me dar força.

— Bom dia, alunos! Bem-vindos de volta! – o professor Gabriel, de Artes, entrou na sala com seu típico jeito de hippie good vibes – Por favor, sentem-se porque temos muito trabalho pela frente.

Ele caminhou até a sua mesa e arrumou seus materiais enquanto os alunos iam se ajeitando em seus lugares.

— Pessoal, é o seguinte: eu tenho certeza que todo mundo aqui lembra que no primeiro semestre tivemos alguns casos de bullying que repercutiram muito na escola e, principalmente, na internet – nosso professor começou a falar, fazendo a maioria dos olhares recaírem sobre mim e a Marília – Por isso, agora que estamos de volta, gostaria que trabalhássemos mais esta questão em sala de aula. Acho que precisamos conversar mais sobre o assunto, debater ideias, minar essas diferenças... E não me olhem com essas caras – ele sorriu, fazendo graça – Eu não vou impor uma série de debates, nem nada dessas “coisas” consideradas mais “clássicas”. Na verdade, quero que a decisão seja democrática e, para isso, quero ouvir a opinião de vocês. Que tipo de atividades vocês estão a fim de fazer para combater o bullying?

O silêncio tomou conta da sala. Por um momento, os alunos apenas trocaram olhares, como se todos estivessem pensando “vou me fazer de desentendido para não sobrar pra mim”.

— Calma, calma! Falem um de cada vez! – o Gabriel provocou, tentando quebrar o gelo.

— Professor, sei que sou novo aqui, mas tenho uma sugestão... – ouvi a voz do Léo. Algo dentro de mim dizia que não ia sair algo bom dali...

— Opaaa! Fique à vontade! Mas, antes, se apresente. Diga da onde você veio, porque se juntou a nossa escola... – Gabriel ficou empolgado.

— Meu nome é Leonardo, estudava em uma escola no centro da cidade, mas fui expulso. Por isso precisei vir para cá... – O Cabeludinho anunciou, sem nenhum rodeio.

— Gabi e o seu excelente gosto para crushs – Nando disse baixinho, fazendo todo o grupo se segurar para não rir.

— Mas, enfim... a ideia é criar uma peça de teatro. Podemos escrever uma história que fale sobre bullying. Assim podemos debater o assunto de forma criativa e até bem-humorada – o Léo continuou a falar, ignorando as reações do resto da classe sobre a sua apresentação – Temos um grupo aqui na sala que é

muito bom em criar paródias. Acho que posso me unir a eles para criar um roteiro. A Gabi poderia ser a nossa protagonista...

Imediatamente todos os olhares da sala foram direcionados para mim.

Ótimo! Era exatamente o que eu queria...

— Ahhh, mas se a ideia é unir a sala, o justo seria organizar um teste para definir quem será a protagonista – óbvio que a Marília não ia perder a chance de implicar comigo.

— Na verdade, a ideia até é boa.... Mas prefiro que seja um vídeo ao invés de uma peça de teatro. A Gabi tem mais experiência com a câmera, ficaria melhor – Alê saiu em minha defesa, sendo apoiado pelo Nando. Senti orgulho de ter pessoas ao meu lado que não deixavam a Realeza ter a última palavra.

— Vamos fazer o seguinte – o professor entrou na conversa – que tal nos organizarmos em grupos e cada um apresentar um projeto diferente? Assim cada um pode trabalhar da maneira que se sentir mais confortável. Lembrando que o objetivo é mostrar formas de diminuir o bullying na escola, hein?

Meus colegas de classe começaram a se organizar em rodinhas para anotar ideias, enquanto alguns alunos iam tirar dúvidas com o professor. O burburinho romou conta do espaço e muitas pessoas falavam em tom de animação. Entretanto, minha mente só conseguia focar no Leonardo levantando da sua cadeira e vindo em direção ao nosso grupo.

— E aí? O que acharam da ideia? – ele perguntou, todo empolgado.

Troquei olhares com meus amigos implorando para que eles entendessem o meu pedido “de pelo amor de Deus, esse cara no grupo, não!”.

— Poxa, a ideia é legal pra caramba, cara. Mas acho que a gente curte mais trabalhar com paródias e vídeos mesmo. Acho que não rola muito esse lance de teatro... – Alê entendeu a minha deixa e começou a dispensar o garoto.

— Turma, estou olhando aqui vocês se organizando e acho que vou sugerir uma dinâmica diferente: quero que, dessa vez, vocês mudem os grupos. Chamem alguém diferente para fazer parte, trabalhem com pessoas que nunca trabalharam. Por exemplo, estou vendo que o Alexandre já está se acertando com o menino novo, o Léo. Muito bem! Acho importante a gente sair da nossa zona de conforto.

Ao ouvir isso, o Cabeludinho lançou um olhar de “e aí, cara? O que você estava dizendo mesmo?” de modo bem presunçoso em direção ao skatista.

— Ah, se o Léo pode ficar com vocês, eu também quero! – uma Carol toda sorridente e empolgada se aproximou de nós.

Vi o Alê mexer no boné, como se pensasse “era só o que me faltava!”.

— Já tive umas ideias ótimas para o roteiro, Léo. Posso te ajudar a escrever e eles arrasam na produção, como sempre – a amiga da Marília foi se oferecendo, super se sentindo parte do time.

Ao meu lado, a Rebeca revirou o olho. Se ela já não tinha muita paciência com a Carol antes, agora que estava com o Caio eu poderia apostar que as duas iam acabar saindo na briga.

Ou seja, aquele projeto tinha tudo para dar errado...

Respirei fundo, repetindo o meu novo mantra a partir daquele momento: faltam apenas seis meses. Uma parte de mim queria acreditar que não daria tempo de algo acontecer naquele curto período. Porém, outra parte de mim sabia que, em seis meses, muita coisa poderia acontecer. Bastava analisar o meu primeiro semestre para ter a confirmação. E era exatamente isso o que me assutava...

***

— Que volta às aulas, hein? – Nando comentou assim que nos sentamos na mesa que ficava nos fundos da casa do Alê.

Depois da minha festa de aniversário, a Beca exigiu que não estudássemos mais na biblioteca porque, assim, a Carol não poderia mais se juntar a nós. Para atende-la, mudamos o local para a casa do skatista, o que era ótimo para mim: bastava atravessar a rua e, pronto! Estava no meu quarto. Mais prático, impossível!

— Quando eu acho que vou me livrar da Carol... – a Hermione resmungou, visivelmente mal-humorada por causa do trabalho do professor Gabriel.

Passamos a tarde lamentando a nossa sorte por ter que aguentar Carol e Léo, colocando os resumos das matérias em dia e fazendo o dever de casa que alguns professores já tinham feito questão de passar, mesmo que fosse só o primeiro dia de aula.

— Pelo amor de Deus, chega por hoje! – Alê teve a coragem de falar o que todos nós estávamos pensando depois das primeiras duas horas de estudo. Não seria fácil retomar o ritmo depois do recesso – E antes que você diga qualquer coisa, eu fiz as mini-revisões que você mandou nas férias. Não estamos tão mal assim, pequena Nerd – ele foi logo se defendendo para a Beca, a nossa general.

Eu não podia negar que concordava com o skatista em gênero, número e grau, mas mantive o caderno e os livros abertos, porque duvidava muito que a Reb ia dar essa “moleza” para nós. Porém, a atitude dela me surpreendeu.

— É, tem razão. Por hoje deu, pessoal – nossa Hermione declarou enquanto começava a guardar o material na mochila.

— Meu Deus! É o início do apocalipse! – Fernando disse depois que trocamos olhares surpresos – Ou nossa nerd está doente. Alê, você tem um termômetro aí?

— Cara, acho melhor levá-la para o médico direto. Pode ser preciso internar – o outro revidou.

— Alô, alô, time! Encontrei um soldado perdido lá fora. E, segundo as atualizações da última festa, ele agora faz parte do squad – Eduardo, com seu típico sotaque carioca, foi entrando pelo corredor, seguido pelo Caio.

— Ahh, olha aí o motivo da “doença” da nossa Hermione: o rei do Camarote de Hogwarts – Alê não perdoou – Agora tudo faz sentido.

— Alexandre, por favor, tenha modos – Rebeca lançou um olhar fatal para ele.

— Opa! Me perdoe, general. Vou seguir as ordens daqui em diante – ele bateu continência, em um falso gesto de obediência.

A partir daí, todos eles continuaram conversando, mas eu me concentrei no carioca, que veio se sentar ao meu lado. Desde a minha festa, nós ainda não havíamos nos encontrado. Conversamos apenas por WhatsApp e, claro, ele fez questão de não comentar mais nada sobre a viagem para Nova York e o lance do Rio de Janeiro. Porém, eu já conhecia o Edu o suficiente para saber que ele precisava se sentir totalmente confortável e confiante para falar sobre assuntos mais sérios. E, sem dúvida, aquele item liderava a lista dos “temas constrangedores” para ele.

— E aí, sereia? Como é ser maior de idade? – ele puxou assunto.

— Até o momento, nada de diferente. Mas isso deve ser porque sou uma sereia de aquário. “Cê” sabe, né? Sem muitos riscos e tals...

— Bom, em breve, você vai sair do aquário...

Levantei a sobrancelha, questionadora. Será que ele estava mesmo querendo falar da viagem?

— Ué... Nova York. Vai nadar no rio Hudson, ser uma sereia internacional – provocou.

— Espero que não seja tão poluído como o Tietê e o Pinheiros – fiz uma cara de nojo, só pra enfatizar a ideia.

— A tia Melissa perguntou se eu queria ir com vocês...

Oi? Como é que era?

Levantei o corpo, de repente, ficando em alerta. Aquele era um cenário completamente novo para mim.

— Ela disse que conversaria com a minha mãe se eu me interessasse, assim como vão fazer com os pais da Laís... – ele ia falando de um jeito calmo, fazendo de conta que estávamos conversando sobre um assunto qualquer, totalmente sem importância.

— Nossa, seria muito legal se você fosse com a gente... Como eu disse, deve ter alguma coisa de biologia em Nova York – me esforcei para manter o tom de voz tão descontraído quanto o dele. Não seria eu a dar o braço a torcer, afinal.

— Eu não sei, Gabi. O projeto que te falei lá no Rio vai rolar durante as próximas férias também. E, se eu realmente me decidir pela “facul” de Biologia, o estágio lá me ajudaria a arrumar trabalho na área – dessa vez a resposta veio em um tom sério acompanhada de um olhar profundo de quem realmente não sabia o que fazer.

Apenas encarei de volta, a vontade de abraçá-lo e pedir para ir comigo crescendo a cada segundo. Seria muito egoísta da minha parte pedir para que ele fosse com a gente? E se eu pedisse? Será que ele iria?

Notas finais
E aí, gente? Edu vai ou Edu fica? O que “cês” acham? Tem mais alguém aí que está achando fofo Caio e Rebeca? E Carol que não se toca? O que a gente faz com ela? Sem falar no Léo que voltou todo determinado a fazer parte do Time B, ao mesmo tempo que é best da Marília. Isso soou como um deja vu para vocês? Lembrou Edu no começo do ano, não lembrou? Olha a história se repetindo, gente! Como será que a Gabi vai lidar com isso agora? Ai gente, essa reta final vai dar o que falar. Só digo isso. Beijão e até o próximo capítulo!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.