Viver a vida
47 Emily
Notas iniciais
Superar é preciso
“Assim como o arco-íris depois da chuva, algo bom sempre irá acontecer depois que você experimentar a dor.”
Na manhã seguinte ao funeral de Sarah, nossa rotina voltou a cair na normalidade e logo veio o fim de semana. Aaron pareceu ter me perdoado por manter segredo sobre o estado de saúde de Sarah, a mesma parece ter admitido que no fundo ela gostava de mim já que me deu seu livro de receitas com uma carta bem tocante dentro. As crianças pareciam estar absorvendo a perda da avó, nunca antes eles haviam perdido alguém tão próximo.
No sábado Anne queria ir para casa de sua amiga Jessica e os gêmeos irem para a casa de Henry, mas eu disse a eles que tínhamos nosso próprio compromisso para a noite de sábado. Dessa forma, acabamos nós seis acampando no quintal, com direito a barracas e uma pequena fogueira.
Foi divertido quebrarmos a cabeça para montarmos a barraca, foi gratificante ver o sorriso deles enquanto assavam os marshmallows. Todos nós, incluindo Aaron e eu, contamos histórias de terror de acampamento, a expressão de medo de uns, aliado ao ceticismo de outros era divertida.
Ver minha família unida ali, ao redor de uma fogueira me deixava grata por tudo o que tenho. Eles são o que eu tenho de mais importante em minha vida, se errei no passado isso não importa no momento, o importante é que estamos todos aqui, unidos, juntos superando, e eu sei que se David estivesse aqui ele diria que eu sou abençoada por tê-los e eu não posso discordar.
Após as crianças irem para suas respectivas barracas dormirem, até mesmo Anne sem nenhuma objeção, eu pedi a Aaron que me acompanhasse até ao banco da varanda e ali nos sentamos.
Ele me olha curioso, sendo assim eu começo “Nasci Emily Elizabeth Prentiss, adotei Hotchner em 2000.” Ele sorriu levemente “Mas antes de ser a senhora Hotchner, eu passei por muitas coisas” ele apertou minha mão em sinal de apoio “Cresci em países estrangeiros, era realmente raro vir aos Estados Unidos. Acho que eu meio que era a garotinha do papai, eu e meu irmão tínhamos, ou melhor ainda temos uma relação de amor e ódio, mas o amor é maior. No final de agosto de 1985 meu pai se mudou para os Estados Unidos e trouxe meu irmão, eu meio que fiquei revoltada com isso, porque minha mãe e eu não tínhamos uma boa relação, acabei me envolvendo com garotos, drogas licitas e ilícitas e no fim acabei fazendo um aborto e perdendo meu melhor amigo, mas isso me fez criar a regra número um de sobrevivência Prentiss: Nunca confiar em ninguém além de si mesmo” Eu fiz uma pausa e observei seu olhar, ele se mantinha neutro “Terminei o ensino médio e decidir seguir minha paixão por linguística, mas eu tinha um objetivo fixo no fundo da minha mente: chegar a Unidade de Analise Comportamental do FBI.” Ele sorriu nessa parte e eu sorri também. “Após a faculdade, entrei para a academia, fui colega de quarto de uma ruiva chata chamada Andrea Swan, a qual eu apelidei de Andi. De acordo com Richard Collins eu tinha talento e eu estava deslumbrada com isso, porque a fama dele o precedia, portanto eu não hesitei em aceitar sua oferta de trabalho. Collins me colocou para trabalhar com um ex fuzileiro Jonathan Walker, especialista em explosivos e um atirador de elite. Demorou algum tempo, quase morremos no processo, mas Collins nos tornou uma das melhores duplas de operações secretas. Após dois anos tirei minha primeira folga e passei as férias com meus pais, foi quando eu conheci o segurança que estava encarregado de cuidar da filha um tanto rebelde da embaixadora. Não vou negar e dizer que não deixou de ser um pouco engraçado o fato de você duvidar que eu iria entrar no FBI quando na verdade eu já estava nele há um tempo, meus pais achavam que eu apenas estudava, mas eu meio que fazia a pós a distância, pois com todas as missões não sobrava muito tempo para frequentar uma sala de aula. Éramos bons todos sabiam, eu era obcecada com o trabalho e como consequência nenhum relacionamento meu seguia para frente, Jon era meu melhor amigo eu não confiaria em outro para proteger minhas costas, mas então houve uma missão e por causa da informação que eu recolhi crianças inocentes morreram, eu não podia viver com isso e por isso pedi que Collins me mandasse para o FBI, ele não queria lógico, mas no fim sempre fui boa em persuadir as pessoas. Ele me transferiu para Quântico e colocou uma história falsa nos meus arquivos, e bem essa parte você sabe nós começamos a namorar e casamos, paralelamente eu trabalhava no FBI longe de disfarces, bom isso até que a missão JTF-12 e eu tive que mentir para você. Durante o tempo em que tinha que manter meu disfarce, eu percebi que era oficial, eu não poderia mais viver aquela vida, eu já não era mais a Prentiss de antes, eu tinha uma casa para voltar, eu tinha uma família e bem a missão acabou e eu achei que havia sido o fim para aquela vida, por isso não contei a você, eu tinha medo do seu julgamento.” Eu o olhei para ver se ele me acompanhava então prossegui “Finalmente surgiu a oportunidade para entrar na UAC e eu não iria recuar, ainda lembro do seu sorriso confuso ao me ver entrar com minha caixa box em sua sala, você fez o que me foi prometido e me tratou como apenas mais uma e eu realmente achava que Gideon me odiava, as vezes até você era bem convincente. Então eu percebi o porquê você gostava tanto da sua equipe, eles eram, na verdade são demais. E por isso as vezes eu me sentia incomodada por omitir alguns fatos da minha vida para eles. Aqueles anos em que trabalhei sob sua supervisão e equilibrávamos tudo isso com sermos pais foram perfeitos, eu não trocaria nada. Foi horrível quando Foyet apareceu em nossa casa e pegou você desprevenido, eu deveria estar lá, mas após todo esse tempo eu percebo que o jeito como aconteceu foi o com menos danos colaterais, mas isso não muda o fato de chegar em casa e ver a mancha de sangue no escritório, o vidro quebrado e seu celular jogado no chão foi uma das piores visões da minha vida. Quando vi você deitado naquela cama de hospital eu me senti tão impotente e então tivemos que tomar uma decisão para o bem-estar das crianças e foi horrível passar todo aquele tempo longe deles e ainda fingir que nosso casamento estava em crise ao mesmo tempo em que minha gravidez se seguia. Mas então após pegarem Foyet os gêmeos nasceram e tivemos paz, por quase dois anos pelo menos. Então houve o retorno de Doyle, você arriscando não só sua carreira por mim, mas também mentindo para a equipe, você indo para o Oriente Médio e no meio disso tudo eu aceitei coordenar uma operação antiterrorista, isso foi difícil, não sei o que você passou lá, mas por muito tempo eu me culpei pela morte daqueles agentes, ainda me culpo, as vezes eu penso que se eu estivesse lá eu poderia ter percebido algo e notado que era uma armadilha e tirado todos de lá, penso também na possibilidade de que eu só percebesse tarde demais e perdesse todos, inclusive Jon.” Parei para respirar e verificar se ele ainda me acompanhava, foi então que ele perguntou “Você e Walker vocês já foram mais do que parceiros?” Eu fiz uma careta “Deus não! Jon é um grande amigo, um bom agente e um excelente parceiro, mas nós nunca cruzamos a linha, para mim ele é como um irmão mais velho, na verdade ele me lembra muito o Morgan” Ele assentiu e eu prossegui “Quando eu voltei, apesar de tudo, eu me senti em casa novamente. Eu, você e as crianças, estava tudo perfeito. O problema foi quando passou a fase de lua de mel e tivemos que enfrentar o fato que eu menti para você, Aaron... toda vez que eu tenho que mentir para você me machuca e ver você me acusando foi horrível, eu não aguentava aquilo mais, eu queria que parasse, então em um momento eu pedi o divórcio porque estava cansada de brigar, cansada de me machucar, mas a verdade é que eu não pensei que você aceitaria” Dei uma pausa para poder prestar atenção nele, sua expressão estava um pouco triste, creio que ele esteja se lembrado do fatídico dia em que eu pedi o divórcio. “Depois que iniciamos o processo de divórcio, eu já não me sentia mais à vontade na UAC e naquele dia no triatlo, quando você apresentou Beth as crianças como sua amiga, eu sabia que não era apenas isso e me machucou de uma forma que eu nem sabia que era possível. Eu realmente tentei ficar na UAC em memória dos velhos tempos, mas eu realmente não podia, eu precisava de um novo ambiente, eu precisa seguir em frente e foi quando eu aceitei a promoção que Strauss me ofereceu” “Emily eu sinto...” Eu o calei com um selinho “Eu sei querido, mas deixe-me terminar okay?” Ele assentiu. “A frente da UAT acredito que fiz um bom trabalho, infelizmente não posso falar muito a respeito com você, mas eu sei que você entende que devemos manter a ética. No entanto eu não segui em frente apenas com um novo emprego, eu meio que arranjei um namorada” Eu vi um olhar não muito amistoso em seu rosto e sorri “Você sabe que nunca funcionaria Aaron, eu apenas estava tentando esquecer você, mas isso é impossível.” Ele agora exibia um sorriso vitorioso “Eu me convenci que tinha seguido em frente, mas o que eu fiz de verdade foi me afastar dos meus filhos e até mesmo dos meus amigos, então veio o acidente e creio eu que aquilo era uma benção disfarçada. Foi um saco viver sem memórias em uma casa com crianças que me chamavam de mãe, com o chefe que era meu ex-marido e todo aquele drama de você não me contar as coisas, mas a verdade é que aquele acidente me fez perceber o que é importante. O mais importante na minha vida são as crianças e você, claro que meu emprego me deixa satisfeita, mas nada se compara ao que eu sinto quando vejo aquelas crianças sorrindo, quando vejo você sorrindo para mim, isso para mim não tem preço. Por isso eu pedi a Strauss a vaga na academia, eu precisava de tempo para me reajustar a essa vida, eu precisava dar atenção ao que era de fato mais importante para mim, sei que o sequestro de Anne foi culpa minha, mas eu só espero que um dia ela possa entender que nunca foi minha intenção machuca-la tudo o que eu queria era trazer justiça aqueles que somente a buscavam” E então eu já estava sem palavras, eu nem percebi, mas meus olhos estavam cheios de lagrimas que eu estava segurando para não deixar cair e Aaron, meu marido, meu melhor amigo, o amor da minha vida me olhava de um modo tão apaixonado, como se tivéssemos casados há pouco tempo e não há dezoito anos, como se o amor nunca estivesse se desgastado, apenas renovado e então ele me abraçou. Quando finalmente nos encaramos ele disse “Eu sei que você tem seus segredos, eu mesmo tenho meus próprios, e eu estaria mentindo se não dissesse que seus mistérios me atraem, mas eu quero que me prometa que nunca mais deixaremos que segredos nos afetem. Lembra-se do dia ruim?” Eu fiz que sim com a cabeça “Ele continua valendo, se não podemos falar o que nos afeta, falemos do que estamos sentido, mas não vamos deixar que segredos nos distanciem novamente Em e eu juro a você que eu amo você de uma forma que eu nunca amei ninguém na vida” E então eu o beijei, eu o beijei com a determinação de nosso primeiro beijo, com o amor de todos os nossos anos de convivência, mas também com a paixão ardente que nunca deixei de sentir. Quando nossos pulmões exigiram oxigênio nos afastamos, mas nossas testas permaneceram coladas uma na outra, encarando o olhar um do outro naquele banco com a luz da fogueira eu disse “Eu tenho segredos, problemas, medos e cicatrizes Aaron, mas eu também sou completamente apaixonada por você, portanto nunca, jamais se questione disso querido, porque eu realmente, fielmente amo você Aaron Hothcner”.

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