Vivendo uma canção

15 Só sei viver se for por você


Notas iniciais
É, eu não usei o nome da música, novamente. Então, inspirado em Oceano, do Djavan. Eu gosto muito mais de Nem um dia dele, mas ok... 15/09/2014

Hiccup continuava sentado na praia. Havia momentos em que ele gostava simplesmente de desaparecer. Gostava de ficar sozinho. Ele e Banguela, que agora dormia tranquilamente ao seu lado, emitindo alguns ruídos engraçados e um calor confortável.

Sorriu calmamente, acariciando a cabeça de seu companheiro. Puxou o bloco de notas que escondia em um de seus inúmeros bolsos e abriu-o. Aquele rosto tão conhecido e tão distante. Eles nunca mais se viram e aquilo ainda doía no moreno.

Ele ia todos os dias, nem que fosse somente por alguns minutos, àquela praia. Especificamente aquela área e aquele local da praia. Aquele ambiente em que viram-se pela última vez.

Ele ainda podia sentir o adeus do amigo. Não é como se na época tivesse acreditado que nunca mais se veriam, mas, pelo jeito, era assim que o destino agia. Fora cruel e levara-lhe a única pessoa que, antigamente, acreditava nele.

O que será que Jack diria se o visse agora? Piadinhas idiotas, com certeza, do tipo, “você bebeu todo leite em Berk?”, ou algo que faria Hiccup ficar brabo por alguns segundos e extremamente indignado. Porque ele sabia que mudara. Muito. Estava mais alto, bem mais alto, e mais forte, também. Não era mais um desastre. Ele unificara Vikings e dragões. Ele acabara com uma guerra que durava desde sempre.

E seu amigo fora o único que acreditava que aquela criança franzina e desastrada poderia fazer algo. O garoto mais adorado em Berk e mais preferido que ele mesmo, que era filho do chefe. Jack tinha um futuro, mesmo que detestasse matar dragões, diferente dos outros. E ele nem mesmo destacava-se pela força. Era alto, sim, mas era franzino e não tinha músculos, porém era ágil e tinha habilidade. Encantador, alegre e dedicado era pouco para lembrar-se completamente do amigo. Ele também era engraçado, fiel e um líder nato.

Hiccup adorava os olhos castanhos do amigo. Eram sempre tão amorosos e com um brilho divertido. E os cabelos meio chocolates sempre estavam caindo sobre eles, tapando-lhe a visão magnifica.

Ele sentia tanta falta do amigo.

Naquele mesmo local eles conversaram pela última vez. Jack ia com alguns outros vikings em uma jornada sem volta certa. Eles nunca voltaram. Mas ele prometera que estaria sempre esperando. E, depois, do alto do morro, afastado de todos, ele viu seu amigo subir no barco, com uma pequena trouxa nas costas. Ele chorava muito e não queria que Jack soubesse da sua fraqueza.

Hoje se arrependia de não ter corrido até Jack e implorado para ficar. Se arrependia, principalmente, daquele sentimento escondido até os dias atuais. Aquilo que mantinha vivo dentro de si, e que ainda o dava esperanças de que ele voltaria.

— Ei, amigo, vamos pra casa. — Cutucou o dragão, que demorou alguns segundos para levantar-se. Era sempre assim. Hiccup ficava deveras magoado depois de ir àquele local, uma expressão triste no rosto e uma voz arrastada pelo caroço na garganta e o aperto no peito.

Ele sentia-se tão solitário sem Jack, mesmo com a amizade de todos em Berk.

...

— Talvez, ficar esperando só piore as coisas. — Hic estava parado no porto, como todo pôr-do-sol. Era o último momento do dia que dedicava ao melhor amigo. Astrid estava ao seu lado, segurando o braço esquerdo enquanto olhava para seu rosto, mesmo que ele não dedicasse a ela.

— Eu prometi. — Astrid mordeu o lábio inferior, desviando o olhar. Ela passara a ter um sentimento mais forte por Hic, mas nunca seria correspondida, e sabia disso. Não se importava realmente. Mas ver a pessoa que se gosta sofrer não a deixava melhor.

— Não sei se Jack ia gostar de vê-lo assim, Hiccup. — Ela soltou, segurando o braço do amigo antes de se afastar.

Hic deixou sua mente vagar alguns segundos nas palavras da loira. Ele tentou gostar dela, realmente tentou. Mas a admiração que sentia por ela não fluiu além da amizade. Uma amizade que não conseguia aproximar-se da que nutria por Jack. O outro era especial de uma forma só dele e ninguém conseguiria ocupar seu lugar.

Ele poderia passar a vida plantado no porto esperando por Jack.

...

O garoto subiu ao mastro, encarando aquilo tudo com curiosidade. Os cabelos brancos acompanhavam o vento e ele sentia vontade de voar. Mas era tão bom ficar ali que continuou quieto por alguns segundos, encarando o longe com paixão. Os olhos azuis cintilaram ao reconhecer terra, e ele, antes do barco, chegou ao porto com um sorriso enorme.

Voara até ali e fora com rapidez, sentindo o vento levá-lo.

Inverno. Respirou fundo e sentiu o frio que dominava aquela ilha. Se perguntava como nunca a descobrira. Um homem berrava ordens para outras pessoas e elas obedeciam-no imediatamente. Uma garota deu um soco de leve no braço dele e ele acariciou-o, sorrindo para ela.

Eles estavam reconstruindo a vila, mas trabalhavam juntos para refazê-la. Uma coperatividade que Jack não via há muito tempo.

Ele amara aquele local e era quase como... se estivesse em casa.

Um flash passou em sua mente e ele segurou a cabeça, sacudindo-a. Encarou o garoto com mais atenção e viu-o acariciando um dragão. Ele não tinha parte da perna e vestia-se com uma armadura complicada, em preto, vermelho e verde. E era bonito. Os cabelos longos estavam desajeitados e tinha um trança em um dos lados. Ele conversava com o dragão com um sorriso calmo no rosto, e o animal arrastava a cabeça contra o dono, como um gatinho.

O homem virou-se para ele, e ele reconheceu aqueles olhos verdes. Aquela dor de cabeça insuportável voltou. Era impossível. Aprendera da pior forma possível que ninguém o via. E ali estava o menino, de boca aberta encarando-o abobadamente.

Seu nome era Hiccup Horrendous Haddock III. Jack lembrou-se de vários momentos em que passou naquele local e descobriu porque sentia-se em casa.

Mas ele estava morto. Ele era uma espécie de fantasma/espírito da natureza. Do inverno, para ser mais específico. E Hiccup ainda estava vivo.

O garoto subiu no dragão e voou. Assim que passou por ele, o animal segurou-o com força entre as patas e não deu chance de escape. E Jack não tentou. Afastaram-se rapidamente da vila e pararam em uma praia, não muito distante. E somente então o dragão soltou-o, antes de pousar e Hic pular de cima dele.

Não teve tempo para nada, pois já sentia os braços ao seu redor. Era primeira vez que alguém o via desde sua morte, e ter contato com alguém de sua outra vida deixava-o assustado, ao mesmo tempo que sentia-se vivo novamente. E então ele se agarrava com força àquela pessoa que deixara de ser uma criança no tempo em que se afastara.

Estar de volta deixava as memórias de seu passado, antes tão borradas e difusas, claras novamente. Como se elas fossem realmente suas.

Mesmo que de uma outra vida.

— Desculpe a demora. — Ele sentiu o calor de Hic e agradeceu por poder senti-lo e não ser transpassado. O outro afastou-se e bateu em seu ombro com uma força que sabia que ele não tinha quando saiu do local.

— O que aconteceu com você? — Ele não sabia como explicar aquilo. E não havia outra forma de fazê-lo sem ser a verdade.

— Eu morri.

...

Hiccup acordou com frio. O garoto ao seu lado gelava sua pele nua. Mas ele gostava da sensação, porque pelo menos tinha Jack de volta. Mesmo que poucos dias por ano. Ele negava-se a ficar muito tempo.

E Hic via o porquê. Ele estava envelhecendo, mais rápido do que pensava, enquanto o fantasma continuava o mesmo. E ele era o único que podia vê-lo. De certa forma, ainda era solitário. Mas era assim que o Viking sabia viver. Somente com Jack e por Jack. Ele estava bem daquela forma.

Ele vivia o máximo que podia quando o espírito estava com ele. Até mesmo esquecia-se a dor que era amar aquele ser eterno. Isso não importava enquanto olhava-o. O mesmo Jack, apenas com cabelos brancos e olhos azuis. E eterno. Com poderes ilimitados, mas ainda assim seu Jack.

Anos depois ele definhava na cama e Jack não estava ao seu lado. Proibira-o de visitá-lo naquele momento, e agradeceu por estar morrendo fora da estação de Jack. Era quase como se o Homem da Lua, o que dera uma segunda chance a Jack, fosse bondoso o suficiente para que o espírito não sofresse mais.

Quando Jack voltasse, Hiccup não estaria mais ali e, melhor, o espírito não teria que sofrer com sua morte iminente.

...

Jack ajoelhou-se sobre a grama onde descobriu que seu amado estava enterrado. A dor em seu peito fazia um caroço subir por sua garganta e seus olhos umedecerem. Então ele chorava, pequenos cristais, que era sua verdadeira natureza.

Era o frio, o inverno, a neve.

— Então, essa é a sensação de estar morto. — Ele sentiu mãos sobre seus cabelos, bagunçando-os. Olhou rapidamente para trás e viu Hiccup ali. Hiccup, o chefe, aquele que conhecera quando voltou para Berk depois de morto. Ao seu lado estava Banguela, que morrera antes do dono. — Vamos nos ver constantemente a partir de agora, Jack. Desde que os dragões não precisem de mim.

Levantou-se rapidamente e beijou o amado. Aquele que fora definido como o protetor de Berk e dos dragões.

Eles só sabiam viver um pelo outro, e eram o motivo de continuarem a viver.

Notas finais
Yeah, ai está. Desculpem o tamanho, não consegui reduzir. Sofro muito disso. Então, não consegui corrigir, caso haja erros - não somente nesse cap, mas em todos eles - por favor, me avisem. Grata e até amanhã. Ah, Gêmeo, você é um amor *-* Obrigada mesmo pela ideia linda