Vivendo Do Passado
19 Cap 19 - A Reação de Mickey
Lília observava Mickey petrificada. Começara a lembrar da noite anterior, com tudo que lhe fora contado. Sentira um infinito arrependimento por tudo o que tinha feito, desde o início, ao perceber o quanto Mickey realmente amava a esposa. Sentiu que seu orgulho e sua paixão pela jovem haviam lhe cegado, de modo que a mesma tinha simplesmente invadido a vida de Mickey. Poderia ter destruído 12 anos de relacionamento, e talvez perdido para sempre a chance de conquistar o amor da outra. Olívia não merecia a esposa, sabia que não, mas naquele segundo ela compreendera que também não. Mickey tinha o direito de escolher quem ela amava, e o que ela queria fazer da vida dela, por mais que fosse ser infeliz ao lado de Olívia, vivendo do passado.
Sentindo-se culpada, Lília voltou a dizer.
— A culpa foi minha.
E antes que Mickey voltasse a dizer algo, que servisse como uma defesa de seu caráter, ela continuou. Estava na hora de abrir o jogo. Todos aqueles truques e encenações, a partir daquele momento, seriam colocados na mesa.
Lília contou tudo que fizera. Desde a carona, às ameaças, ao celular, e pra finalizar, a ligação falsa que recebera de sua amiga Ângela. Mickey permanecia em silêncio, séria, mas aparentemente aturdida. Sentada na cama, encostada na parede, e com os braços cobrindo o rosto, ela aparentava estar tentando compreender todas as loucuras que ouvia. Depois que finalmente Lília terminara sua história macabra, Mickey a encarou, com os olhos vermelhos.
— Então quer dizer que tudo isso... nós duas... foi tudo uma mentira?
— Não, claro que não. Eu realmente estou apaixonada por você. Só não soube exatamente como agir com relação a isso. Tentei criar artifícios para te conquistar, por achar que Olívia não merecia você, mas no final das contas, eu acho que também não.
— Mas você armou tudo isso... o tempo todo eu estava participando de uma encenação... Tudo que vivemos, e tudo que eu sinto, foi simplesmente fruto de suas armações.
Lília chorara. Dentro dela, tudo aquilo era real. Sempre fora. Talvez no final tivera se tornado muito mais, porém, sempre sentira. Embora tenha sido egoísta e manipuladora, também queria fazê-la feliz. E ser feliz.
— Não, por favor. Não pensa assim. — disse, em meio às lágrimas, tentando se aproximar de Mickey que se afastou — Olha. — disse, tentando recaptular tudo em sua mente — Eu sei que fiz muita coisa errada, nunca disse a você que era santa, e nem espero que você pense em mim como uma pessoa inocente. Não quero mais ser manipuladora, não quero mais encenar. Eu só quero você. Eu sei que fiz tudo errado, do modo errado, mas eu só queria ter você, te tirar dessa infelicidade que você estava vivendo. Olívia não está mais te fazendo feliz, e...
— Você não pode saber isso.
— Claro que eu sei, Mickey. Eu presenciei tudo, e mesmo quando não fazia nenhuma armação, ela não te deixava em paz. E você mesma me disse uma vez que o ciúmes dela vinha de muito tempo, mesmo antes que eu aparecesse em sua vida.
— Mas mesmo que fosse. Eu que deveria escolher o caminho que deveria seguir. Não você.
Agora Lília entendia que era verdade, ao mesmo tempo que Mickey no fundo concordara com o que Lília havia lhe dito, sobre sua vida com Olívia. As duas silenciaram, refletindo os últimos acontecimentos.
Lília continuou.
— Eu gostei tanto de você, logo quando nos conhecemos, nossas conversas e nossos interesses se encaixaram tão bem que eu... Eu sei que agi mal, por que eu forcei algumas coisas ...
— Algumas coisas? — interrompera, irritada.
— Tá. Muitas coisas. Mas muitas coisas aconteceram de você, não vieram de mim. Por mais que eu tivesse feito muitas coisas acontecerem, você também fez. Você aceitou vir jantar comigo, participou daquele abraço, quis me dar aquela carona, e me seguiu todos aqueles dias até em casa. Tudo aquilo não aconteceu do nada, Mickey. Você sentia algo por mim. O tempo todo, você sentiu algo por mim.
Mickey a olhava, magoada. Naquele segundo, tudo deixara de fazer sentido.
— Lília, você pode até ter razão quando diz que Olívia e eu não estamos felizes. E pode até ter razão no que diz respeito às coisas já não estarem ruim mesmo antes de sua presença em minha vida. Mas nada disso justifica nada do que você fez. Você me fez perder meu aniversário de casamento por mero capricho!
— Não foi capricho!
— Foi sim! Se você quisesse me conquistar de verdade, e tenho certeza que você teria todas as chances para isso, não precisaria utilizar nenhum desses artifícios baixos que você usou. Só precisava ser você, porque apenas isso já foi o suficiente.
Lília se calou, começando a chorar novamente, dessa vez com mais intensidade. Mickey acabara de admitir que já estava sendo conquistada com a afirmação que "apenas isso já foi o suficiente".
— Você fez muitas coisas por mim. Foi sempre tão meiga, tão divertida, me ajudou sempre que eu precisava, e... E, agora, olhando pra trás, eu não sei mais o que pensar. Sobre o que era real, e o que era fingimento.
— Nada era fingimento, Mickey, por deus! — defendera-se, aos prantos.
— Não sei mais o que pensar. Essa é a verdade.
Lília saiu do quarto, desesperada. Não suportava mais ver a expressão de incredulidade que visualizara no rosto de Mickey. Saíu do local, apenas repetindo, em voz trêmula:
— Perdão. Perdão. Perdão...
Mickey permanecera no mesmo lugar, imóvel — e, em silêncio.
Pouco tempo depois ouvira um bater da porta, indicando que Lília havia saído.
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