Vivendo Do Passado
10 Cap 10 - Saindo para Jantar
Elas foram ao mesmo restaurante de sempre, próximo ao escritório, e depois se sentaram na praça, de esquina ao restaurante.
– ... Aí teve um dia que eu não aguentei mais e disse pra ele. Cara, você tá muito por fora, eu nunca fui afim de você. Mas você insistiu tanto, que eu fiquei com pena.
– Coitado. Você disse isso mesmo? — Perguntou, sentindo quase "pena" do rapaz.
– Disse. — Abaixou os olhos, envergonhada. — Ele era muito chato, caramba, não aguentava mais ele me perseguindo. Ficava atrás o tempo todo, ligava o tempo todo, queria saber quem era quem o tempo todo, quem era cada um amigo ou amiga que eu tinha. Era possessivo demais.
– Sei como é... Mas isso deve ter magoado.
– É. Parando para pensar nisso agora, anos depois, eu agiria diferente. Acho que eu o magoei apenas por que não conseguia gostar e por que não conseguia dizer não a ele.
– E hoje em dia você diria como?
– Virei gay.
Elas começaram a gargalhar.
– O que é? Você que perguntou hoje o que eu diria... – argumentou, ainda rindo do que ela mesma tinha dito.
– Eu disse hoje em dia... não no sentido de "Hoje, agora"... — tentava falar, em meio as risadas incontidas.
Enquanto continuavam gargalhando, Lília mordeu de levinho os lábios, como fazia de costume, porém dessa vez inconscientemente, provocando uma outra fuga dos olhos de Mickey. Ela percebeu, se sentou na cadeira um pouco desanimada, e decidiu ter uma conversa de verdade com Mickey, sem truques ou encenações.
– Sabe, Mickey, isso as vezes me parece tão desconfortável.
– Como assim? O que é desconfortável?
– Não sei, tenho medo de estar atrapalhando você com sua esposa... sei lá, eu tenho alguma coisa a ver com tudo isso né? Não de propósito, mas...
– A situação vem de muito antes de você sequer entrar no quadro. Ela sempre foi assim. Você só está sendo a nova razão dela se afastar de mim.
– Eu sei mas... você não acha que se eu sumisse, essa razão acabaria, e ela voltaria ao normal...?
– ... Até ela arranjar outra razão? — amargou um sorriso, desgostosa, enquanto bebia mais um gole de seu vinho seco.
– Viu? Quem manda você ser tão sexy? Ela tem ciúme. — Lília sorriu, verdadeiramente. Mickey que não esperava por isso, acabou rindo também. — Sério agora, acho compreensível isso. Ela tem medo que você se apaixone por outra, e se afasta para não sofrer, caso você a largue.
Fez-se um momento de silêncio. Pela primeira vez, Lília sentira tudo que estava dizendo, compreendera tudo que a outra poderia estar sentindo. Ela estava realmente se apaixonando por Mickey. Talvez tudo tivesse começado por uma cobiça infantil, um capricho egoísta, mas agora ela estava realmente sentindo algo muito forte. E verdadeiro. Dissera tudo que realmente sentira, naquele momento. Por um momento conseguira até simpatizar por Olívia, mesmo sabendo que elas estavam em lados opostos nessa luta pelo coração de Mickey.
– Bom, você perguntou, então devo responder. Lília, hoje você foi minha única fonte de entretenimento em 3 semanas. E você me chamou pra jantar por sua própria vontade, não porque eu pedi ou para me agradar.
Lília tocou no rosto de Mickey, que tinha os olhos cheios de lágrimas. Sentira todo o sofrimento que a outra estava sofrendo, e só ela sabia o quanto ela queria livrar Mickey dele. A morena que estava meio bêbada, nem se tocou do carinho que estava recebendo da loira. E continuara sua discurso como resposta:
– E por que? Por que você se importa comigo. Nessas 3 semanas você foi a única que me fez sorrir. Então eu tenho que agradecer a você. Por me fazer sentir eu mesma de novo.
Lília usara o seu polegar direito para limpar uma lágrima que saiu dos olhos de Mickey, e a puxara para um forte abraço. Beijara o rosto de Mickey com todo o ímpeto que a prendia em seus braços. Mickey estava tão desligada, e se sentindo tão bem por estar sendo acolhida, que simplesmente se jogou no abraço, e continuou chorando.
Sem se mexer, Mickey continuara se entregando a emoção do momento.
– Esse é um lugar "nosso", né? Não do tipo "Eu e Olívia", nem do tipo "Eu" ou "Você"... Nosso lugar. Já viemos aqui várias vezes. Quando eu vier aqui a partir de hoje vou lembrar de você, mesmo que não esteja presente. — falava movimentando o dedo mindinho direito por trás das costas de Lília, como se estivesse discursando — bêbada — em frente a uma platéia.
Lília continuara com seus carinhos nas costas de Mickey, que depois de alguns minutos caiu em si, e se afastara de Lília.
– Eu... não... — tentava dizer, parecendo aturdida.
– O que foi? — confusa. A situação estava tão emocional, que finalmente havia acabado os scripts, e as previsões de acontecimentos. Lília estava totalmente vulnerável naquele momento, e parecia mais aturdida que Mickey.
– Eu estou bêbada... e carente... E você... Eu preciso ir. Desculpa. Eu preciso ir.
Mickey se afastara de Lília, e antes que ela dissesse "Eu te levo em casa", a morena já havia entrado em um taxi com destino a sua residência com Olívia. Estranhamente emocional, Lília chorara. Se apaixonara de verdade. Pela primeira vez na vida.
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