Vivendo Do Passado

6 Cap 06 - A ameaça


Dias se passaram, e embora Lília se "esforçasse" em parecer normal, estava sempre olhando-a como se a comesse com os olhos, e sempre que a entregava algo, fazia questão de tocá-la displiscentemente. Mickey começara a sentir o desejo que vinha da outra, sempre que Lília a olhava, então a morena começou a evitar a todo custo ficar a sós com a assistente, e a deliberadamente desviar o olhar sempre que conversavam.

Percebendo que não estava fazendo efeito, que ainda não tinha o que queria, Lília começou a tentar novos joguinhos, como o do "endereço errado", e do "carro quebrado". Tudo isso nada mais tinha sido do que armações para conquistar Mickey.

Nesse dia, Lília chegou mais cedo no escritório, e esperou lá de cima (no 5º andar), olhando pela janela constantemente, o momento em que a outra atravessaria a rua do estacionamento e entraria no prédio. Não podia mais esperar para vê-la. Após o sinal de movimento no elevador, em direção à porta do escritório, dissera no telefone:

– Não, Ângela. Ele está me ameaçando sim. O que eu posso fazer? — Embora tenha abaixado a voz a medida que percebia Mickey entrando no lugar, a morena ouvira tudo.

– Interrompo?

– Não. — disse, colocando o celular no ouvido novamente. — Ângela, vou ter que desligar. Sim, eu sei. Terei que pensar em alguma coisa. Tenho que trabalhar, tchau.

Lília se sentou na cadeira, parecendo um pouco assustada. Mickey, que tinha ouvido a conversava, e ficara preocupada, decidiu se aproximar.

– O que houve? Posso te ajudar em alguma coisa?

– Não. Não se preocupe. Eu vou dar um jeito.


Um dia se passou, e Mickey presenciara uma estranha situação no corredor do 5º andar. À noite, em um horário que tinham poucas pessoas no prédio, e apenas as duas no escritório, arquivando os casos resolvidos.



Estava tudo em silêncio, até que Mickey ouviu uma gritaria vindo do corredor. Reconhecera a voz de Lília.



– Não pense que você vai querer me deixar e que eu vou deixar assim tão fácil. Ainda mais por uma mulher. À propósito, como ela é, hein? Mais macho que eu?


– Não seja ridículo. Você está me machucando. Saia daqui.

– Só vou esperar a sua querida paixão chegar aqui. Juro que depois vou embora.

– Não se atreva a tocar um dedo nela. Ou eu acabo com você! Juro! — ameaçou.

– Você está muito apaixonada por alguém que não está nem aí pra você, não acha?

Mickey saiu do escritório, e apareceu no corredor, embora tenha escutado a conversa desde o início.

– Posso saber o que está acontecendo aqui?

Mickey viu o rapaz segurando Lília firmemente pelo braço a ponto de machucá-lo — estava vermelho -, e partiu para cima do rapaz. Empurrou-o para longe da loira, fazendo-o bater as costas na porta do elevador do prédio. Brava, ela rosnou:

– Saia daqui antes que eu chame o segurança.

– AAAh, Lília, então é ela? É, eu não te culpo, muito gostosa.

– Saia daqui agora! — gritou novamente Lília, transtornada.

– Não a ouviu, rapaz? Suma daqui. Vou chamar o segurança. — Mickey pegou no telefone, e discou o número da portaria rapidamente, extremamente irritada.

– Tudo bem, tudo bem. Vou sair.

O homem agarrou Lília para um beijo forçado de despedida e a deixou chorando compulsivamente. Diante da seriedade da situação, Mickey ficou muito preocupada, e a abraçou, tentando consolá-la.

– Está tudo bem. Está tudo bem. Ele não vai encostar em você novamente.


Depois de muito tempo no chão, ainda abraçadas, Lília silenciou. Parou de chorar. Mickey então tocou no seu cabelo para ver seu rosto vermelho e inchado de tanto chorar. Estava sem graça, mas precisava perguntar.



– O que houve? Por que ele falou aquilo pra mim?



Mickey continuava acariciando seus cabelos de forma inocente. Queria que ela permanecesse calma durante a conversa.



– Eu tinha falado dele pra você. É o Marcos. Eu namorava ele quando comecei a trabalhar aqui. Lembra?


– Sim, acho que tenho uma mera lembrança. Mas o que isso tem a ver comigo?

– Eu terminei com ele há 2 meses atrás. Me apaixonei por... — desviou o olhar de Mickey, e pausou sua voz por um segundo — outra pessoa. E então ele ouviu uma conversa minha com uma amiga, e... e ele ouviu seu nome... e agora...

– Meu nome. — Repetiu baixinho, confirmando suas próprias suspeitas.

– Sim... Olha, eu não queria falar disso, eu sei que depois daquele dia nós prometemos não tocar mais no assunto, então eu entenderei se você quiser fingir que nunca ouviu essa conversa entre mim e o Marcos.

– Não. — Segurou suavemente o rosto de Lília — Eu estou perguntando. Quero saber o que está acontecendo, e se posso ajudá-la. Então pode me responder. Seja lá o que for, nós lidaremos com isso. Somos amigas lembra?

– Foi você. Terminei com ele por você. Me apaixonei, eu não queria, mas você é tão maravilhosa, que eu simplesmente nao pude evitar. Nunca tinha sentido nada assim antes, ainda mais por uma mulher. Sabe, sem nunca ter te tocado propriamente falando, eu já senti mais coisas do que senti com ele ou com qualquer outra pessoa na vida.

Mickey afastou-se um pouco, tirando as mãos do rosto de Lília. As palavras da jovem mechiam com ela. De certa forma, ela também sentia muitas coisas sem ser tocada de fato. Lília a lembrava do início de seu relacionamento com Olívia, onde tudo era paixão, impetuosidades e sexo.

– Tá vendo, eu disse que não era pra falar, e ... — Questionou Lília, apontando para o braço que Mickey tinha acabado de tirar do seu rosto.

– Não, pode falar. Fala.

Levemente vermelha, Mickey se encostou na parede, embora ainda tenha se mantivesse próxima de Lília, ombro-a-ombro.

– Aí ele começou a me ligar, me ameaçando. Disse que ia acabar comigo se eu não voltasse pra ele. Que minha família toda iria saber. E, Deus sabe como minha família é preconceituosa. Temo só de pensar no que meu pai faria a mim... ou a você. — Lília tocou de leve no canto esquerdo da face de Mickey, que se afastou instintivamente.

Fez-se um silêncio entre as duas.

– Eu acho que devo largar esse emprego.

– Eu... Lília, não vai adiantar você sair do emprego. Você ainda teria que enfrentá-lo. Ele é um covarde, pude perceber pela forma que ele te machucou, e como ele fugiu quando eu o enfrentei.

– Obrigada por estar aí pra mim. Pelo que você fez. Afastando-o de mim.

– E você também. Eu ouvi o que você disse pra ele. Que acabaria com ele se ela tocasse um dedo em mim. Obrigada. Além da Olívia eu nunca tive alguém que se preocupasse tanto comigo.

– E seu irmão ou sua família?

– Eles estão sempre muito preocupados com a vida deles... sabe?

– Enfim, amigas são pra essas coisas. — concluiu Lília, sorrindo, não disfarçando a alegria que estava por ter ouvido Mickey lhe comparando a Olívia. Estava cada vez mais perto de conseguir o seu objetivo.

Embora Lília não considerasse seu desejo por Mickey como um capricho, pois realmente experienciava sensações e sentimentos verdadeiras por Mickey, a jovem tratava sua paixão pela chefe da mesma forma que sempre tratou tudo que teve em sua vida, sendo egocêntrica, inconsequente, criativa e insistente.

– É. Nós somos amigas. Não somos? — Disse Mickey, sorrindo.