Viva la vida
20 Tédio
Notas iniciais
– Sabe esses dias em que horas não dizem nada, e você nem trocou o pijama pois tem que ficar de molho em casa?
– Ah... acho que nunca passei por isso, Dean.
– Claro, você é um sortudo. Até naquela vez em que você pulou do telhado fantasiado de Batman, você só quebrou o pulso.
– E você não quebrou nada. Você também pulou do telhado.
– Eu tenho agilidade de gato. Claro que não ia me machucar.
Sam sorriu condescendente.
– O que aconteceu agora foi independente da minha agilidade felina. — Dean falou triste.
– Eu sei, Dean. Você é um super-herói. — Sam se pôs à vontade na cadeira onde estava sentado próximo ao outro.
Ele tinha um pouco de pena de seu irmão, por ter que ficar imobilizado em casa, porque uma entidade fez um pesado objeto cair sobre sua coxa, quebrando-a. Dean estava agora de cama com uma espécie de aparato de ferro preso a sua perna, tracionando e ajeitando o osso no lugar. Ele estava de castigo pelas próximas semanas. E isso o estava matando.
– O que você vai fazer hoje?
– Vou interrogar testemunhas e obter informações do legista, sobre o corpo que foi achado no rio.
– Bom! — Dean fez uma careta de aprovação. — Esse serviço vai ser moleza, você vai se sair bem. É só não bancar o espertinho e tentar resolver tudo a toque de caixa.
– Haha! É você quem age assim, Dean.
Dean assumiu uma expressão triste.
– Tudo bem, eu gosto quando você segue sua intuição e resolve o caso rapidamente. Você sabe que é um excelente caçador. — Sam tentou amenizar a tristeza do outro.
– Não precisa me adoçar. Não sou uma criança que precisa ser paparicada. Você é quem precisa de ajuda sempre. — Dean encarou seu irmão com uma expressão de desdém.
Sam sorriu.
– E você adora ser o irmão superprotetor, mesmo que eu seja maior e mais forte.
– Certas coisas nunca mudam. Você sempre depende de mim pra tudo.
– Ok! Não vou negar, mas... às vezes eu só peço sua ajuda, porque eu sei que é isso que você espera de mim.
Dean piscou tentando entender.
– Eu quero dizer que com certeza eu conseguiria sobreviver sem você, Dean.
Dean baixou os olhos.
– Mas eu gosto de ter você por perto tomando conta de mim, como meu irmão mais velho.
Dean ficou com as faces rosadas e deu um meio sorriso.
– Vai embora, cara, antes que eu comece a chorar e peça abraços e beijos. — Dean falou gaiato.
Sam foi embora.
Dean ligou a TV. Uma loira recauchutada ensinava a cozinhar na TV. Mudou o canal. Uma modelo muito alta entrevistava um médico sobre sintomas de alguma doença. Mudou o canal. Um noticiário fazia a cobertura de uma conferência sobre o clima, em um país desconhecido. Mudou o canal. Barney, o dinossauro roxo cantava "Amo você, você me ama, somos uma família feliz". Dean sorriu, mas mudou o canal. Jogo de futebol italiano. Ele ficou assistindo por algum tempo e adormeceu, antes que qualquer jogador fizesse um gol. Quando acordou novamente estava passando propaganda. Desligou a TV.
O clima não estava muito quente, mas o fato de ficar na mesma posição o tempo todo fazia sua pele coçar. Ele se remexeu na cama o mais que pôde, sem prejudicar o osso quebrado. Quando desistiu de tentar rolar na cama, procurou pelo copo de água na cabeceira, que Sam deixara mais cedo. Olhou o sol pela janela. Gostaria de voltar a dormir, mas estava desgraçadamente desperto e com energia para gastar em nada.
– Tédio!
Procurou algo pra ler entre os papéis na gaveta do criado mudo, e achou o jornal de ontem. Leu as páginas amarelas. Leu cada quadradinho de "aluga-se", "vende-se", "procura-se" e "correio sentimental". Quando acabou foi ler o horóscopo. Leu as previsões de todos os signos, e tentou adivinhar os signos dos amigos, por suas características psicológicas. Por fim, queria arrancar os cabelos de tanto tédio. Amassou o jornal até virar uma bola que ele arremessou na porta do quarto.
– E é gol! Gooooaaaall!
A animação durou pouco e Dean se ajeitou na cama pensando em dormir novamente. Ficou esperando a volta de Sam, acompanhando os movimentos do relógio na parede. Por fim não se aguentou mais e ligou para Sam. Caiu na caixa postal.
– Sam, volta logo, cara! O tédio tá me deixando doido. Não sei o que sou capaz de fazer. Provavelmente nada, mas tenho vontade de pular pela janela. Vem logo!
Canção: Tédio (Biquine cavadão)
Sabe esses dias em que horas dizem nada
E você nem troca o pijama, preferia estar na cama
Um dia, a monotonia tomou conta de mim
É o tédio, cortando os meus programas, esperando o meu fim
Sentado no meu quarto
O tempo voa
Lá fora a vida passa
E eu aqui a toa
Eu já tentei de tudo
Mas não tenho remédio
Pra livrar-me deste tédio
Vejo um programa que não me satisfaz
Leio o jornal que é de ontem, pois pra mim tanto faz
Já tive esse problema, sei que o tédio é sempre assim
Se tudo piorar, não sei do que sou capaz
Sentado no meu quarto
O tempo voa
Lá fora a vida passa
E eu aqui a toa
Eu já tentei de tudo
Mas não tenho remédio
Pra livrar-me deste tédio
Vejo um programa que não me satisfaz
Leio o jornal que é de ontem, pois pra mim tanto faz
Já tive esse problema, sei que o tédio é sempre assim
Se tudo piorar, não sei do que sou capaz
Sentado no meu quarto
O tempo voa
Lá fora a vida passa
E eu aqui a toa
Eu já tentei de tudo
Mas não tenho remédio
Pra livrar-me deste tédio
Tédio, não tenho um programa
Tédio, esse é o meu drama
O que corrói é o tédio
Um dia, eu fico sério
Me atiro deste prédio.
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