Viva la vida
18 Missing
Notas iniciais
A vida em Lawrence era boa. Dias ensolarados, temperatura amena, vizinhos solícitos, amigos de infância. E Carmen, sua sexy namorada latina o amava. Sua mãe vivia muito bem de saúde e embora seu pai não vivesse mais, servia de consolo o fato dele ter sido imensamente feliz, enquanto vivo.
Dean desceu do trem e percorreu o caminho que levaria à antiga casa de Sam, que agora morava na Flórida. Esse tornou-se um hábito obsessivo de Dean. Ele fazia esse mesmo percurso toda a semana, quando Carmen enfrentava um plantão de 24 horas no hospital, e não poderia estar com ele durante um dia inteiro.
Ele poderia ir até a casa de sua mãe, mas não era a mesma coisa. Ela não era Sam. Dean foi até o prédio antigo do ex-apartamento de Sam e sentou nas escadarias. Ele não poderia ficar muito tempo ali, poderiam denunciá-lo à polícia, mas valia a pena o risco. Ele sentia-se perto de Sam de alguma forma, mesmo seu irmão não morando mais ali.
Sam... após a morte de sua mãe, ele teve que criar Sammy, pois seu pai ficara obcecado com a ideia de vingança... Dean fechou os olhos. Aquela estória, aquelas memórias estavam em sua cabeça. A mãe morta, pregada no teto, com a barriga rasgada e a casa pegando fogo... Seu pai com a barba por fazer, se acabando na bebedeira, falando em sobrevivência em um mundo infestado de criaturas sobrenaturais. Sammy abraçado a ele, dormindo em seus braços, segurando sua mão com a força de seus quatro anos, pedindo que ele lhe contasse uma história na hora de dormir...
Tudo isso fazia parte de uma outra vida, que não era a atual. Dean não sabia por que cargas d'água, ele agora não vivia naquela realidade sombria, que o fazia sentir frio nos ossos, mas ao contrário, ele agora vivia uma vida normal, com sua mãe viva, uma namorada fenomenal, e seu finado pai, morreu de causas naturais, digamos assim, e não assassinado por um demônio que manteve sua alma no inferno por séculos, até que ele conseguisse fugir e migrar para outro plano além da morte.
Sua vida atual era feliz. Todos eram felizes e prósperos. Seu irmão se formara em Direito e se casara com sua eterna namorada Jessica, e agora desfrutavam da boa vida no litoral. Quanto a Dean, seu trabalho como mecânico lhe preenchia o tempo vago, fazendo-o se sentir útil e produtivo. Sua namorada não se queixava do trabalho dele, e embora ainda não tivessem se casado, eles viviam de comum acordo um relacionamento amoroso e doméstico.
Por que então ele se sentia infeliz?
Este Sam advogado e bem sucedido não gostava dele. Isso o magoava. Ele o acusara de prejudicá-lo enquanto estavam crescendo. Ele o via como inimigo, ou ao menos como indesejável. Não gostava de ser chamado pelo apelido de infância, não gostava de abraços, nem de compartilhar experiências e fazer confidências. Ele nem olhava para Dean como um irmão, mas como um perfeito estranho. E isso era de cortar o coração.
Dean deveria esquecer Sam e virar as costas para ele, assim como o outro fez. Mas ele tinha saudade. Não deste Sam detestável e engomadinho, mas do outro Sam, seu irmão amigão do peito, por quem ele seria capaz de dar a própria vida. Dean sentia falta dele.
Imagens de seu irmão com os joelhos esfolados e os cabelos empapados de suor, correndo feliz e sorridente ao lado dele, enquanto empinavam uma pipa, passaram por sua mente. Deles dois brigando feito duas velhas rabugentas, xingando um ao outro para depois se rirem da situação. Da guerra de trotes, das refeições com sucrilhos luck charms; das tortas e sanduíches que ele obrigava Sam a comprar; das discussões idiotas por causa do uso do computador. Sam sempre inteligente, geek, emo, metódico, sensato, crente, compassivo, paciente, leal, companheiro, irmão.
Era disso que Dean sentia falta e que ele nunca mais poderia ter.
Era egoísmo dele, bem o sabia, pois sua mãe estava bem, Sam estava bem, e até ele mesmo tinha uma vida maravilhosa. Ele deveria ser grato por isso e não ansiar para ter de volta aquela realidade horrível, de pesadelos góticos e infernais. As coisas deveriam continuar como estavam, sem aberrações sobrenaturais e sem crimes paranormais. Tudo deveria ser perfeito e feliz e não sangrento e cruel.
Dean se levantou das escadas e fez o percurso inverso, para pegar o trem que o levaria para sua casa. Ele enxugou algo nos olhos, talvez poeira, talvez apenas pólen da primavera.
Canção: Missing (Everything but the girl)
I step off the train,
I'm walking down your street again,
and past your door,
but you don't live there anymore.
It's years since you've been there.
Now you've disappeared somewhere
like outer space,
you've found some better place,
and I miss you
– like the deserts miss the rain.
Could you be dead?
You always were two steps ahead
of everyone.
We'd walk behind while you would run.
I look up at your house,
and I can almost hear you shout
down to me
where I always used to be,
and I miss you -
like the deserts miss the rain.
Back on the train,
I ask why did I come again.
Can I confess
I've been hanging around your old address?
And the years have proved
to offer nothing since you moved.
You're long gone
but I can't move on,
and I miss you -
like the deserts miss the rain
I step off the train,
I'm walking down your street again,
and past your door,
I guess you don't live there anymore.
It's years since you've been there.
Now you've disappeared somewhere
like outer space,
you've found some better place,
and I miss you -
like the deserts miss the rain
and I miss you -
like the deserts miss the rain (deserts miss the rain)
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