Viva la Vida
15 Yellow
Notas iniciais
"Look at the stars
Look how they shine for you
And all the things that you do"
Maya
Uma semana depois da última aparição do pai de Aya, decido tirar meu traseiro sedentário da cadeira (eu estava estudando, mereço um crédito), e ir dar uma caminhada.
Desço as escadas e, como é sábado, encontro Nico esparramado pelo sofá dormindo de boca aberta com o videogame ligado na TV. Já Henrique, que normalmente encontra-se ou estudando ou no mesmo estado de Nico, está sentado na mesa da cozinha, com a mão na testa, lendo uns documentos esparramados à sua frente.
Ele levanta lentamente a cabeça enquanto desço e olha para mim. Seus olhos estão vermelhos e ele olha para o relógio da parede da cozinha, vendo que são seis e meia da tarde já. Olivia e Adam foram levar Charlie ao médico de rotina hoje e só voltarão mais tarde, então estamos só nós três em casa.
Henrique pigarreia antes de falar comigo, e percebo seu cansaço. Não sei há quantas horas ele tá com a cara enfiada nessa papelada.
—O que tá fazendo? — pergunto enquanto roubo um dos waffles que estão sobre a mesa.
—Preciso resolver a burocracia do apartamento novo. É alugado, mas parece que dá tanto trabalho quanto um comprado.
Ele olha pras folhas na frente da cara dele. Resmunga em sofrimento. Rio do seu desespero e bagunçou seu cabelo. Nico bufa enquanto dorme.
—Vou dar uma caminhada — declaro. — Preciso deixar de ser uma sedentária.
—Precisa mesmo — Nico resmunga enquanto se mexe se suavemente no sofá.
Eu e Henrique nos viramos para olhá-lo, assustados, mas ele ostenta a cara de paz de alguém no trigésimo sétimo sono.
Dou de ombros.
—Boa sorte com a fase fitness de sua vida então — Henrique fala, rindo.
Roubo outro waffle e coloco meus tênis, saindo de casa e dando tchau para meu irmão, que agora faz alguma conta aleatória em voz alta.
•••
Na oitava volta pela pista do parque Whitetorn, não muito longe da casa dos Long, avisto algo que me faz parar.
Corro pra região de floresta na margem direita da pista enquanto cubro melhor meu rosto com o capuz e aperto o moletom ao redor de mim, tentando evitar o frio de início de novembro.
O parque estava relativamente cheio a hora que cheguei, mas agora que asjá oitosão quase oito da noite, não há ninguém mais aqui.
Só eu.
E mais um cara que aparentemente está fazendo parkour pelas escadas de um prédio na frente do parque.
Me aproximo da saída do parque pela trilha na floresta, correndo contra o frio. Minha vantagem é que, surpreendentemente, eu consegui manter a forma nesses dois meses graças às aulas de patinação, então correr está sendo fácil.
Uhu.
Me aproximo correndo silenciosamente da base do prédio velho no qual o carinha encapuzado ainda desce rapidamente pulando entre os corrimão das escadas. Não consigo ver seu rosto, mas dá pra perceber que ele está com pressa.
Pulo sorrateiramente o portão do parque e saio para as sombras do prédio. Já é escuro, e, como o prédio é na frente do parque, consigo me esconder bem.
Eu sei que pareço uma louca fazendo esse tipo de coisa, perseguindo um maluco que tá pulando de um prédio, mas acho que sei quem é.
Ele aterrissa no chão a poucos metros de mim e eu pego uma pedrinha no chão e jogo no muro de metal que circunda o parque, agora à minha frente.
O barulho é um eco baixinho, mas audível.
O encapuzado que já começava a correr para o lado oposto, vira para ver a origem do barulho. Quando ele levanta os olhos, alerta, e se vira para o muro do parque, o cabelo louro e os olhos verdes ficam visíveis por debaixo do capuz e sei que é Aaron.
Eu sei que sou uma ótima espiã.
Saio do meu esconderijo quando ele ainda ostenta uma cara confusa, e dou Oi pra ele.
Ele revira os olhos e sorri, mas vejo que está com pressa e algo parece muito errado.
—Tem um cara que acabou de sair desse prédio. Ele foi embora com um carro com o adesivo do anel dourado. A parte das letras da placa era a mesma que você tinha me falado aquele dia: KID. Tô tentando ir atrás dele e pegar o resto da placa. — Aaron fala tão rápido que quase não entendo.
—Ah, ok. Vai fundo — digo e ele sai correndo.
Ou escalando, como você preferir.
Não sei direito o que fazer, mas acho que devo ajudar.
Enquanto Aaron escala outra escada de outro prédio e sai correndo atrás de algo (provavelmente do carro que ele viu antes), pego meu celular, ajusto o capuz na cabeça e corro enquanto digito o número de Henrique. Se minha ideia está certa, acredito que Aya deve estar na casa dos Long agora, então eu provavelmente vou conseguir avisar a todos.
Avisto um carro passando rápido na rua e acelero a corrida pra ver sua traseira.
O adesivo circular dourado brilha ali e vejo que o modelo de carro é um SUV. É uma Range Rover preta e, quando estou prestes a tentar pegar a placa completa do carro, algo pousa ao meu lado.
Aaron, esbaforido, fala:
—A placa é MR64 KID.
Fico repetindo a placa na cabeça enquanto fala com Henrique pelo telefone, só pra não esquecer. Digo ao meu irmão que acabamos de ver um carro com o adesivo dourado e pergunto se Aya já está na casa dos Long. Henrique diz que sim.
Como o carro estava aparentemente rumando para uma área da cidade onde fica a casa de Aya, achamos melhor ela ficar conosco por esta noite, e ela, depois de dizer umas mil vezes que não precisava, aceitou a oferta. A mãe de Aya vai ficar na casa de uma amiga também.
Henrique fala que vai ligar para a polícia e comunicar a placa do carro e o modelo, já que agora os policiais estão nos ajudando. Há umas duas semanas, logo depois que o pai da Aya invadiu a escola, contamos a todos os policiais que suspeitávamos que aquele sujeito era, de fato, o pai da Aya. O policial amigo da Aya ajudou a convencer os outros de que isso era realmente verdade, e, a muito custo, a polícia concordou em participar das investigações. Então aqui estamos nós, trabalhando com a polícia.
—Maya — Aaron me chama, tirando o capuz da frente da cara.
Me viro para ele, que está parado ao meu lado desde que aparentemente decidiu descer do teto de algum prédio aleatório, enquanto anoto a placa que ele havia me falado há uns minutos.
—Precisamos ir pra casa — ele fala, a voz rouca de frio.
—Ah sim — concordo, meio confusa. Droga. Vou ter que voltar pra casa a pé. E tá frio. E tá escuro. E, falando sério, eu tô com preguiça.
Então, quando Aaron diz que vai me levar até em casa, reluto, mas acabo concordando.
Ele estica o braço e pega minha mão, soltando-a logo depois, só pra me mostrar onde raios ele tinha deixado o carro dele estacionado.
Aaron já pode dirigir, já que fez dezoito anos já faz uns meses, e aqui os maiores de dezessete anos já podem tirar carteira. Então, ele e Henrique são meio que os motoristas particulares meus, da Aya e do Nico. Sim, a vida é bela.
Ando com ele até o carro e ele abre a porta pra eu entrar. Olho para ele com uma cara de deboche e ganho em resposta um sorrisinho sarcástico. Entro no carro de uma vez.
•••
Nunca pensei que viveria para ver essa cena.
Logo que entramos no carro, eu trato de achar uma rádio boa para ouvirmos, e como Aaron não reclama de eu estar mexendo na preciosa jeringonça que é o rádio de seu carro, sigo em frente.
Acho uma rádio meio punk/indie/rock, que é meu estilo.
Só não pensei que fosse também o estilo de Aaron. Claro que ele ouvir esse tipo de música não é impensável nem nada, mas achei que ele fosse do tipo "sou muito ocupado para gastar meus pavilhões auriculares ouvindo sons advindos de gargantas alheias".
Ledo engano.
Quando uma banda aleatória que ambos conhecemos começa a tocar a todo volume no rádio, nós dois fazemos nosso showzinho particular.
Eu particularmente acho que não canto bem, mas não dou a mínima para isso no momento. Aaron até que tem uma voz boa, surpreendentemente.
Enquanto fazemos headbangs e berramos dentro do carro parado na sinaleira, torcendo para não sermos multados, vejo o carinha do carro ao lado olhar para nós meio chocado, e é só aí que me dou conta de que estou com o vidro aberto.
Fecho a janela rapidamente.
Aaron me olha e ri genuinamente. Seus olhos brilham com a alegria estampada em seu rosto, e percebo que é a primeira vez que o vejo 100% como ele é, com a mente vazia de preocupações ou reações químicas muito complexas a serem resolvidas.
Quando o sinal abre e o carro acelera novamente, rio para ele em resposta, feliz por nenhum motivo em particular enquanto a música continua tocando a todo volume no rádio.
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