Viva la Vida
9 My World
Notas iniciais
"Welcome to my world
Where everyone I ever need
Always ends up leaving me alone"
Maya
Abro a porta da sala de química apressada, com Aya em meu encalço.
Eu e Nico nos atrasamos, e Aya também, mas nossa sorte é que conseguimos chegar segundos antes de Louis entrar na sala.
Sim, agora é aula de química.
Só tenho tempo de correr até a minha cadeira na bancada ao lado de Walker antes que o professor chegue.
A nossa sorte foi que eu e Aya chegamos antes dele, senão com certeza seríamos "estufadas" para fora da sala de aula.
Walker, ao sentir minha presença, levanta um pouco a cabeça da mesa, onde ele estava deitado.
Ele me espia com os olhos verdes por trás dos fios loiros rebeldes.
O encaro também.
—Trouxe as coisas pro trabalho? — ele pede com a voz rouca.
Ergo uma sacolinha de papel pardo em que guardo todos os materiais necessários para o trabalho em resposta.
Aaronsorri discretamente e pega sua parte dos materiais para o trabalho.
Olho para a frente da sala, onde Louis já brada para nos organizarmos rápido, antes que ele nos "estufe".
Nosso trabalho é sobre métodos de separação de substâncias, e tem partes teóricas e práticas. Vamos fazer tudo na escola, durante duas aulas.
Depois de arrumar os materiais em cima do balcão, Aaron de repente se aproxima de mim, baixando a voz:
—Como foi na delegacia ontem? — Aaron pergunta, o leve cheiro amadeirado se movimentando com ele, e por um segundo não sei o que fazer. Encaro Aya. Fico meio paralisada.
—A Aya falou que policial não pareceu muito convencido com a história, mas falou que ia "dar um olhada". Acho que elas têm um amigo policial, a mãe da Aya disse que ele vai ajudar — explico o mais brevemente que consigo, ainda meio confusa com a aproximação dele.
Aaron então assente, olhando pela janela da escola, para a garagem lá embaixo.
Eu e Walker começamos a trabalhar, primeiro focando na parte teórica.
Ele pegou o notebook da escola emprestado, e começamos a organizar os slides.
•••
Num determinado ponto da aula (percebe-se que eu estou muito bem informada quanto à hora), cutuco Aaron.
Ele, que estava misturando coisas num becker para a parte prática do trabalho, olha para mim com a sombracelha levantada.
Indico Aya com a cabeça. Ela olha apressada ao redor enquanto segura o celular nas mãos. Parece meio nervosa, e não sei o porquê.
—Vai dar merda — constata Aaron. Eu concordo com um sinal de cabeça.
Louis nos encara e, antes que ele possa chamar nossa atenção, eu e Aaron voltamos a trabalhar, apressados.
Olho no relógio da parede, vendo que faltam dez minutos para o fim da aula.
São os dez minutos mais longos da minha vida. Nem eu nem Aaron temos concentração para realmente focar no trabalho mais, e agradeço mentalmente nossa pressa no início, porque agora nós estamos com tudo praticamente pronto, e ainda temos a aula da semana que vem pra terminar o que ainda falta.
Nesse tempo que leva de tortura silenciosa, percebo uma coisa muito aleatória: Aaron fica passando os dedos pela palma sem parar.
É um tique nervoso. Ele traça as linhas da palma como se sua vida dependesse disso. Parece eu quando vejo um churros. E olha que eu amo churros.
Aaron fica olhando pela janela também, para a garagem.
Me pergunto qual é a dele com a garagem.
Tudo lá parece normal. Tem os carros dos alunos, uns alunos doidos matando aula, e um cara encostado num Porsche.
Miserável, o homem tem um Porsche.
Tento não dar uma de Henrique e ficar babando no carro até o sinal finalmente bater.
O sinal da minha temporária libertação de alguns minutos vem e eu e Aaron arrumamos nossas coisas na mochila apressados.
Aya nos chama apressada para sua carteira, e vamos até ela.
Ela não fala nada, só aponta para o canto superior direito da carteira dela.
Tem algo escrito lá. Em inglês, dã.
Another lesson burned.
Olho para a Aya com uma cara do tipo "É o ke?", mas sou a única, porque uma expressão de choque se espalha pelo rosto de Aaron.
Eita.
A cobra vai fumar.
Aya abre a mochila, tirando de uma pasta uma foto de uma faramácia pegando fogo.
Quando percebo que não é só uma farmácia, é a farmácia, quase me engasgo comigo mesma.
Desculpem, eu amo esse meme.
É a mesma farmácia de ontem, aquela do noticiário, que um criminoso vulgo pai da Aya estava assaltando.
Pelo visto ele não se contentou em só roubar, mas também tacou fogo e tudo.
A manchete em cima da foto diz: Após ser assaltada, farmácia no subúrbio de Londres é queimada. O criminoso ainda não foi identificado.
Agora a frase escrita na carteira da Aya faz sentido. Em português, significa "Outra lição queimada."
—É de uma música — fala Aya, e Aaron assente. — Uma música que eu vivo ouvindo. — ela então nós lança um olhar meio apavorado.
Há um compreendimento mútuo entre todos nós. A frase, a música, o modo como tudo aconteceu: o pai da Aya cansou de dar sinais e agir nas sombras. Ele está tentando mostrar alguma coisa para ela, observando ela, e não parece disposto a desistir.
O sinal bate, e Aya se levanta.
—Vou falar com o diretor Fisher. Já falei que estou com problemas familiares para ele, e preciso ligar para minha mãe. Volto pra aula daqui uns minutinhos — fala ela.
Enquanto ela vai para o lado oposto da escola, para a sala do diretor, eu e Aaron vamos para as próximas aulas, o mar de alunos nos separando.
•••
Pela primeira vez desde que cheguei aqui, há quase duas semanas, tenho que ir sozinha pra casa.
Nico tem treino de algum esporte que eu não consegui captar o nome, porque assim que me toquei de que teria de vazar sozinha para casa, quase tive um ataque cardiorrespiratório ali mesmo.
Quando Nico pediu alguma coisa que eu também não ouvi por causa do desespero silencioso, eu só dei dois tapinhas nos ombros dele e joguei no ar um comentário sobre como era bom ele não ser sedentário.
Eu sei que o comentário foi bem aleatório, mas é que eu estava muito ocupada pirando internamente de nervosismo.
Então aqui estou eu, dentro do trem.
Sozinha.
Com fome de churros.
E tem um cara fedendo do meu lado.
É, não são só os brasileiros que suam, meus amigos.
Porém, por incrível que pareça, tudo corre bem. A maior tragédia que quase aconteceu foi eu quase não conseguir entender quando o cara do trem anunciou meu destino e eu quase não sair no ponto, mas no final deu tudo certo.
Ao pisar para fora da plataforma do trem, suspiro aliviada, indo para casa.
•••
Ao entrar em casa, só Henrique está lá, mas não vejo ele em lugar nenhum no andar de baixo.
A única presença é uma garrafinha de achocolatado em cima da pia.
Bom, como aparentemente não vou ter churros tão cedo, decido pegar um achocolatado mesmo.
Abro a geladeira, e o terror me atinge.
Onde. Está. O. Achocolatado.?
—HENRIQUE SUA PULGA BIDESTRA! — grito, raivosa.
Ouço passos apressados descendo as escadas e Henrique para faltando três degraus para o fim da mesma. Ele arruma os óculos na cara.
Ah sim, Henrique usa óculos para ler.
Acho que também vai ter que usar aparelho auditivo depois desse berro que eu dei, mas não me importo.
—Você. Acabou. Com. O. Achocolatado.?
Ele olha para mim.
—Primeiramente, me chamar de pulga bidestra já é muito agressivo. Segundamente, sim. Eu tomei o último achocolatado.
Abro a boca para protestar. Sim, percebe-se que eu brigo muito por comida.
— Mas, como não sou mal-educado nem nada, estou indo comprar mais.
Depois de falar isso, ele põe os sapatos e um moletom grosso (o frio está chegando).
—Quer vir junto? — pergunta ele para mim. Quero ir, mas não posso. Tenho muito tema para fazer e coisas para estudar.
Nego com a cabeça, triste, e aponto para meus materiais empilhados na sala.
Henrique assente com pesar, desejando que eu sobreviva, e depois se manda.
Suspiro, também desejando sobreviver. Sem exagero, eu olho para aqueles cálculos de matemática e quase tenho um treco.
Me sento por ali mesmo, focando completamente nos estudos.
•••
Às seis da tarde, todos já estão em casa, e eu termino meus temas.
Adam, ao fechar a porta e tirar o casaco e os sapatos para entrar em casa, pede, sorrindo:
—Quem quer jantar no centro?
Eu, Henrique, Charlie e Nico (que eu agora descobri, estava ano treino de hóquei. Sim, menino prendado) pulamos de animação.
Nico já passa uma mensagem para a Aya, mas ela responde que não vai poder ir com a gente porque hoje a mãe dela não vai trabalhar até tão tarde, só até antes das seis, como ontem, e elas querem passar um tempo juntas.
Sei que a mãe dela trabalha muito, na maior parte dos dias até às nove, dez da noite, então fico feliz ao ver que mesmo assim elas ainda conseguem arrumar tempo juntas.
Nos arrumamos rápido, e nem comemos, já que Adam disse que vamos para lá justamente para visitar uma rua gastronômica da cidade.
A viagem de quarenta minutos até lá é tranquila, com Charlie roncando, Nico se revezando entre o sono e a consciência. Eu e Henrique e Adam cantamos as músicas do rádio que nem três loucos, e, em seus momentos acordado, Nico nos acompanha.
Nós quatro formamos um coral e tanto, só falta a afinação.
Olivia ri pra caramba da nossa cara, e é ela quem dirige, então não pode se juntar a nós na nossa cantoria desabalada.
Não sei como Charlie não acorda ou fica surda, porque a situação é crítica.
Chegamos lá e é lindo.
A rua se estende por cerca de um quilômetro e meio pelo que Olivia disse, e ela é toda iluminada com luzinhas penduradas de poste em poste.
Tem música tocando no ambiente, não muito alta para não atrapalhar. Tudo é fantástico, as luzes piscando me lembram do Natal.
Se o ambiente é fantástico, o cheiro é melhor ainda. Tenho vontade de recolher minhas trouxas e morar ali pra sempre.
Tudo de bom: comida e música. E as luzinhas de Natal.
Adam pede onde queremos comer. No final chegamos a um acordo (o que na verdade não demora muito): vamos num restaurante tipicamente britânico, com muita batata e coisas do gênero.
O bom é que o cardápio é bem variado, então não é difícil escolher.
Pedimos uma batata frita com molho de entrada e aí só vai.
•••
No fim da noite, quando eu estou quase explodindo de tanta comida e de tanta risada, meus pais ligam.
Atendo e todos nós seis nos juntamos na frente da tela, para que meus pais possam ver todos juntos.
—Olá! — falamos nós seis juntos para papai e mamãe. Eu e Henrique ensinamos Aya, Nico, Adam, Olivia e Charlie esses dias como falar "Oi" em português, e eles gravaram.
Meus pais riem do outro lado da tela, e vejo que estão felizes. Isso me deixa mais feliz ainda, se possível.
Felizmente, meus pais sabem falar inglês, então a conversa corre bem.
Rimos mais, contamos o que está acontecendo (inclusive toda a situação da Aya. Ela falou para mim que achava melhor eu falar o que estava acontecendo para meus pais, para eles falarem o que achavam que eu devia fazer, já que talvez eles não gostassem de que eu e Henrique nos envolvêssemos nisso tão longe de casa. Mas felizmente eles disseram que devemos dar força para ela, ficar ao lado dela e ajudar). No fundo eu já sabia que diriam isso, se tem uma coisa que meus pais são é compreensivos e apoiadores.
Depois de meus pais que morrerem de amores pela Charlie, eles falam sobre como vai a vida no Brasil, que geral tá quase pirando com as eleições e que o horário eleitoral tá que tá.
Rio, me lembrando dos meus tios que sempre zoam na hora do horário eleitoral.
Depois de uns vinte minutos falando, nos despedimos, e todos estamos satisfeitos.
Já são nove e meia, e temos que voltar para casa.
Nos levantamos e pagamos a conta.
Henrique passa os braços por meus ombros ao sairmos para o ar frio da noite, e vamos até o carro.
Acho que o ar do centro londrino tem algum poder sonífero, porque todos, menos Adam e Olivia, dormimos durante todo o trajeto de volta.
Quando acordo, mais lerda do que nunca, alguns minutos depois, tenho a leve impressão de que eu sonhei com um leão e mais alguma coisa. Eu hein. Volto a dormir antes de poder processar o que houve.
Com Nico roncando e Henrique dormindo como um lorde inglês ao meu lado, tenho a impressão de que posso vi ernar por meio século.
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