Viva la Vida
4 Calm like you
Notas iniciais
Maya
Eu e Nico passamos pelo pátio abarrotado de alunos e (ainda bem) ninguém me olha torto ou dá algum indício de que saiba que eu sou aluna nova, brasileira, etc.
Não que isso me faça especial de algum jeito, só que eu não quero um monte de gringo pedindo se lá no Brasil a gente mora em árvore e me pedindo para falar espanhol.
Já ouvi histórias tenebrosas sobre o assunto, acredite.
Nico põe a mão nas minhas costas enquanto me guia para dentro da construção.
—Ontem nós já adiantamos boa parte do processo, então hoje nós só vamos ter que te apresentar pro diretor e tal e te "apresentar pra turma", como me informaram — ele faz uma pausa, dando de ombros. — Não sei muito bem como é esse negócio de "apresentar pra turma", então se prepare.
Fato relevante sobre Nico Long: ele sempre gosta de se preparar para o pior, ou, como ele diz, "ser realista".
Reviro os olhos diante de sua dramaticidade (eu tenho uma teoria muito bem desenvolvida de que os homens são bem mais dramáticos que as mulheres) e seguimos pelas escadas dentro do colégio.
Chegamos a uma sala diferente da que fomos ontem com Aya, o que me leva a pensar se ela tem uma sala só pra ela, mesmo tendo tão pouca idade.
Anoto mentalmente perguntar isso ao Nico depois.
Ao entrarmos, vejo um homem de meia-idade com cabelos grisalhos que prontamente sorri para mim.
—E você deve ser a Maya — ele se levanta de sua cadeira e vem em minha direção, estendendo a mão para mim. — Diretor Fisher — ele se apresenta.
Dou a mão para ele, retribuindo o sorriso e dizendo que sim.
Ele mostra a cadeira à sua frente, indo para trás mesa.
—Maya, estou muito feliz em finalmente conhecê-la. Ontem a Aya atendeu vocês, certo? Creio que ela tenha mostrado a escola e terminado sua matrícula propriamente dita.
Assinto.
—Ótimo. Então agora eu só preciso acrescentar seu nome ao meu sistema e então os dados que Aya computalizou vão ser transferidos para mim — ele mexe no monitor à sua frente e termina logo, abrindo a boca para falar algo, mas sendo interrompido pelo telefone do colégio, que toca.
—Desculpem, eu normalmente não atenderia o telefone enquanto atendo pessoas, mas é um caso particular de um aluno que eu preciso resolver o quanto antes. Desculpem novamente, eu já volto — e então ele tira o telefone do gancho, saindo da sala enquanto fala apressadamente com quem quer que esteja do outro lado da linha: -
Alô? Sr. Smith? Sim, sim, sobre a situação do seu...hã...filho — e então a porta se fecha.
Nico se levanta e vai para trás da mesa, se encostando no armário do diretor e pegando uma bala do potinho sobre a mesa.
Rio do modo casual como ele faz isso.
Ele então olha para mim, levanta uma sombracelha, pegando outra balinha do pote e a estendendo em minha direção.
A pego, já que pela lógica, se o potinho está aqui para todos verem, o diretor espera que seus convidados comam os doces.
Nico então vai até o bebedouro do diretor e enche um copo, tomando tudo num gole só.
Ele gesticula pedindo se eu quero água, mas faço que não.
— Você se sente bem em casa aqui, né? — peço rindo.
—Mas é claro. Eu vivo infurnado nessa prisão desde que eu tinha dois anos de idade e ainda tenho que pagar pra sofrer. O mínimo que eles podem fazer por mim é me deixar comer um pouco de graça.
Rio mais ainda da lógica dele e então o diretor volta à sala.
Ele olha meio torto pro Nico, que ainda está de pé com o quadril encostado contra a cadeira do diretor, mas o Sr Fisher então tenta conter um sorriso e falha miseravelmente.
—Uzufruindo dos recursos alimentícios da minha sala, senhor Long? — pede ele.
—Sempre — Nico responde, voltando ao seu lugar de origem, ao meu lado.
O diretor Fisher ri do Nico e passa mão em seus cabelos, bagunçando-os.
Vejo que ele tem um olhar carinhoso ao olhar para Nico, quase paternal, e percebo que ele já deve estar no comando do colégio há tempos, pois trata todos com muito carinho e simpatia, como uma grande família, desde as ajudantes de limpeza até os alunos.
Sorrio comigo mesma, porque, ué, é fofo.
Acertos os detalhes finais em menos de cinco minutos e então o diretor Fisher (cujo primeiro nome acabo de descobrir que é Miles) nos libera, falando pro Nico me levar até nossa primeira aula (juntos).
Ele também me dá as chaves do meu armário (eu quase dancei de alegria quando descobri que ia ter um armário), que, à propósito, é o de número 239.
Nico vai me guiando por corredores pelos quais eu não tinha andado ainda e então eu me pergunto se, durante meu um ano aqui, vou conseguir conhecer o colégio inteiro, porque é muito grande, sério mesmo.
Depois de subirmos uma escada até o segundo andar, Nico avisa que meu armário é em algum lugar por ali.
Vamos andando pelo tumulto de estudantes e vou checando os números.
236, 237, 238...
Achei.
Meu armário, obviamente, é igual a todos os outros do colégio. Cinza, com os números gravados em preto e de tamanho médio.
Acerto minha senha e o abro.
É bem espaçoso.
Coloco os materiais extras ali dentro enquanto pergunto ao Nico onde é o armário dele.
Ele aponta para um ponto um pouco adiante no corredor, no lado oposto ao do meu armário, para o armário de número 260.
Sorrio por estarmos perto um do outro, mas minha atenção é desviada quando algumas pessoas se movem do centro do corredor para alguém passar.
—Sério, Walker? Voltou pro colégio de novo? Por que você não abandona isso aqui, hein? — ouço um cara moreno meio fortinho (fortinho do tipo gordinho, não bombado) bem na minha frente falar, olhando com ar debochado para o meio da multidão que se afastou para o canto.
Fico nas pontas dos pés pra olhar quem quer que esteja lá.
Um garoto alto, loiro, com os cabelos bagunçados, a pele branca e olhos tempestuosos vai passando pelas pessoas, que aparentemente "abriram caminho" para ele.
Ele passa pelo gordinho/cara aparentemente metido que o provocou com a história de " abandonar a escola" , não se dignando nem a olhar na cara dele, apenas passando e levantando o dedo do meio por cima do ombro enquanto vai embora.
Diante da ofensa, o moreno bufa, olha para os outros que pararam para ver a cena e diz pra irmos cuidar da nossa própria vida.
Acho meio hipócrita da parte dele, mas me viro para o Nico, que tem a testa franzida.
Ele me pega pelo braço depois que eu já fechei o armário e diz:
—Vem, vamos sair daqui.
Vamos andando enquanto o sinal bate, nos dirigindo para a sala de Biologia, nossa primeira aula.
No caminho, encontramos Aya, que luta para manter a pilha de cadernos e livros nos braços enquanto fala ao telefone, que ela mantém preso entre o ouvido e o ombro.
Chegamos perto dela, que sorri para nós e se despede de quem quer que ela esteja falando, franzindo as sombrancelha em confusão, mas então logo se recupera e diz:
—Oi!
Ela e Nico se abraçam como se não se vissem há uma eternidade e então ela se vira para mim, me abraçando animadamente.
—Vocês têm biologia agora? — ela pede.
—Sim — respondo enquanto vamos para a sala. Me sento na segunda carteira da fila do meio, Nico vai atrás de mim e Aya senta ao meu lado, na segunda cadeira da outra fila.
A professora entra, olha para a turma com cara de tédio, e, diz, com a voz mais entediada que eu já ouvi:
—Olá.
A turma responde em um coro de vários "oi", "bom dia" e até um "que merda hein".
Ela parece não se abalar e tira gizes só bolso, começando sua aula.
•••
No fim, a tal "apresentação à turma" sobre a qual o Nico fez suspense não passou disso:
Eu tava lá bem de boa na aula de Biologia quando, depois que o diretor entrou de repente na sala e cochichou no ouvido da professora que eu, Aya e Nico apelidamos de Srta. Tédio, a professora (Srta. Tédio) pareceu se "lembrar" de algo e falou:
—Ah, e sejam receptivos com todos os alunos novos, além da intercambista brasileira que temos na nossa turma, a Maya.
Eu não sabia muito bem o que fazer, então acabei só acenando com a mão para indicar que era eu.
Depois disso, a professora prosseguiu a aula como se nada tivesse acontecido.
Para falar a verdade, fiquei até feliz que minha "grandiosa" apresentação se deu na aula de biologia, porque do jeito que nossa professado é alheia a tudo, acabou que eu não precisei fazer algo do tipo "ir na frente da sala e me apresentar", foi bem simples até.
A programação até agora é a seguinte: vou ter a aula de química agora, que é uma das opções que o Nico não tem.
Depois dessa aula, que é a terceira da manhã, as duas últimas aulas antes do almoço serão ocupadas por um "boas-vindas" aos alunos, e eu ainda tô meio no escuro sobre o que isso se trata exatamente, então não vou dar pitaco. Aí depois disso tudo tem o almoço até a uma e vinte da tarde e então temos mais três aulas, com intervalos de dez minutos entre uma e outra, até às três e quarenta.
Aí tem a libertação dos escravos, vulgo fim da aula.
Enquanto caminho pelo corredor até a sala de química, encontro Aya, que não teve o segundo período comigo e com o Nico, mas que tem aula de química comigo.
Vamos caminhando juntas até a sala, conversando coisas aleatórias, e fico feliz por ver que já tenho até uma amiga.
Claro que eu sei que vão haver dificuldades durante meu intercâmbio, mas são os momentos simples como esse, com os amigos e pessoas novas que conhecemos, que fazem tudo valer à pena.
Olha, até filosofei agora.
Chegamos na sala e vejo uma criatura que não sei descrever.
Bom, certamente se trata de um professor.
A espécie ainda não foi reconhecida.
Ele parece ter algo entre uns cinquenta e sessenta anos (uma margem de erro grande, eu sei), mas pode ser mera aparência. Seus cabelos meio ruivos/pretos (ele deve pintar. Uma pintura bem mal-feita, aliás) são puxados para trás, como se ele estivesse fazendo alguma poção maluca e ela tivesse explodido na cara dele, deixando os cabelinhos repuxados (tipo o Albert Einstein mesmo).
Ele olha para os estudantes entrando e diz:
—Entrem logo ou senão eu vou estufar vocês.
Franzo a testa diante da expressão, mas como sou a única que parece confusa, assumo que "estufar" é o equivalente à "mandar para fora da sala".
Me apresso em entrar e observo a sala.
Na parte da frente tem várias carteira dispostas em fileiras, como mas outras salas, mas na parte dos fundos tem várias bancadas, equipadas com frascos, béckers, etc.
É um laboratório.
Quase me emociono.
Meu momento é interrompido quando o professor meio louco manda todos sentarem em alguma carteira.
Aya se senta ao meu lado, já para tentar garantir ser minha dupla de laboratório.
O que não dá muito certo, para nossa tristeza.
O professor, que se apresentou como Louis, parece bem determinado a deixar possíveis "grupinhos" separados, juntando nas culpas duas pessoas em cantos bem distantes da sala.
As duplas vão indo pro fundo da sala, para as mesas de laboratório, se sentando lá.
Já prevendo que não vou poder ser a dupla da Aya, uma vez que estamos sentadas uma do lado da outra, fecho os olhos, pedindo que não seja tão ruim.
Meu nome não demora a ser chamado:
—Maya Alencar... — fala o professor com um pouco de dificuldade, se atrapalhando com meu sobrenome — e Aaron Walker.
Olho ao redor, buscando identificar minha dupla, sentindo que já tinha ouvido um nome assim antes.
Meu olhar encontra o de um garoto no fundão da sala.
Sinto um frio no estômago..
Walker.
É o mesmo menino que mostrou o dedo do meio pra aquele garoto moreno mais cedo, quando esse último falou algo sobre como era melhor o que ele "abandonasse a escola", ou algo assim.
Ele tem um olhar impassível e os cabelos loiros rebeldes, como hoje de manhã, mas isso vem acompanhado por um traço de curiosidade.
Me levanto, lançando um olhar de tristeza (e de possível pânico) para Aya, ao mesmo tempo que o tal Aaron vai para a mesa.
Assim que me sento, o nome de Aya é chamado e ela parece ficar feliz com seu par, um garoto negro alto. Fazem um toquinho de punhos, aparentando ser amigos antigos (pelo jeito a tática do professor não funcionou com ela) e então se sentam numa das mesas.
Enquanto tiro meu caderno da mochila, olho pelo canto do olho para minha dupla, que anota algo em seu respectivo caderno.
Ele olha para mim e pergunta, com o sotaque mais evidenciado pela voz rouca.
—Então você que é a intercambista? -
Faço que sim.
Ele passa os olhos verdes pelo resto da sala, franzindo a testa. Abre a boca para falar mais alguma coisa, mas o professor (vou começar a chamá-lo de Louis), termina de organizar as duplas e começa a falar:
—Peguem os cadernos e abram os livros, agora.
Termino de abrir meu livro rapidamente enquanto vejo que Walker faz isso vagarosamente, como se não tivesse ouvido o tom imperativo do professor ou simplesmente não se importasse.
Concluo que a segunda opção é a mais provável.
—Hoje nós vamos aprender sobre propriedades de — ele fala algo em inglês que eu não capto muito bem, devido tanto aos termos técnicos quanto ao sotaque carregado do professor.
Franzindo a testa, tento anotar o máximo possível que ele fala. Fico meio desesperada, porque nas duas outras aulas que tive não encontrei problemas em entender os termos em inglês que os professores utilizavam para explicar a matéria, mas parece que encontrei um obstáculo aqui.
Tentando conter o tremor de pânico nas minhas mãos, foco no que o professor fala, pegando o máximo possível, mas ainda perdendo muita informação.
O fato de eu ter que anotar em inglês (para não gastar tanto tempo), também não ajuda muito, porque me enrolo com algumas letras e sons.
Minha dupla põe um dedo sobre meu caderno, apontando uma palavra.
Levanto os olhos e vejo ele me encarando.
—Aqui, é "metafísico", não "molecular" — ele fala, e percebo que o que eu tinha escrito naquela frase não tinha nada a ver.
Com a pressa, eu tinha confundido as palavras, e escrito molecular ao invés de metafísico.
Assinto com a cabeça, agradecendo-o, mas ele não parece estar mais prestando atenção, olhando para o professor.
O encaro rapidamente, debatendo mentalmente se eu deveria ter medo dele.
Aaron definitivamente parece ameaçador, todo de preto e com um olhar cortante para quem quer que se atreva a olhar para ele. Ao mesmo tempo, tenta manter uma expressão neutra, sem mostrar demais, mas dá pra ver que ele tem uma postura rígida, sempre alerta.
Olho para o professor novamente, me perguntando onde é que eu fui me meter, e então começamos a parte prática da aula, usando o laboratório propriamente dito e parando de fazer anotações teóricas.
•••
No fim do primeiro dia de aulas, Nico me encontra na saída da escola, meio suado por ter acabado de sair da educação física.
Eu tô morta, acabada, esmagada por um trator, pisada por um elefante e qualquer outro adjetivo que você queira usar para se referir a alguém extremamente cansado.
Ele vem até mim, sorrindo e pedindo como foi.
—Bem legal — digo — Mas eu tô muito morta.
—Imaginei — ele responde, ajeitando a mochila no ombro enquanto vamos andando pelo imenso pátio do colégio até a saída da escola.
Nico parece meio distraído com a vida e uma garota ruiva vem vindo na direção contrária à nossa, bem na nossa frente.
Detalhe: ela está com um fone de ouvido preto e ouve uma música tão alto que eu consigo distinguir que é um rock paulera daqui.
Quando vejo que nenhum dos dois nota o encontrão iminente, tento puxar Nico para o lado, mas é tarde demais: eles esbarram forte um no outro.
—Des... — ambos começam a falar simultaneamente, mas então a garota levanta o rosto, vendo Nico.
—Porque que não começa a prestar atenção por onde anda, Long? — ela pergunta com a cara fechada, adquirindo uma atitude completamente diferente da de segundos antes, quando se desculpava.
Nico levanta a cabeça com uma expressão aparentemente de descrença, que, entre tantas pessoas naquela escola, ele tinha esbarrado justo com aquela garota ruiva.
—Olha, Ericson, eu não...
A menina só revira os olhos, aparentando raiva, e sai, batendo o coturno preto velho pela grama.
Em seguida, é Nico quem revira os olhos, pegando minha mão e me puxando para continuarmos o caminho para fora do terreno da escola e em direção à estação de metrô.
—O que foi aquilo? — peço, apontando para trás por cima do ombro.
Nico, ainda meio irritado, faz um gesto displicente com a mão, como se não importasse.
—É só uma menina irritante que gosta de encher o saco — ele fala, e eu sinto que não é só isso.
Descemos as escadas para o subterrâneo e em direção à plataforma apinhada de gente. Tem vários estudantes a essa hora, inclusive. Além, obviamente, dos engravatados e das mulheres com terninhos, que falam apressadamente nos celulares, alheios à movimentação ao seu redor.
Movimentação essa a que eu estou muito atenta.
É incrível.
Acho que nunca, por mais vezes que eu desça aqui em baixo, vou me acostumar.
Tudo é uma engrenagem, um novo mundo, repleto de gente, cheiros, tecnologia e cor.
E agora eu sou parte disso tudo.
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