Vitta
10 Recomeçando
DOIS ANOS DEPOIS
Há um ano que não o vejo. A última vez foi no meu terrível anoversário de 15 anos. O único dia que eu mais queria esquecer, e seria aquele de que eu me lembraria pelo resto de meus dias.
Naquele dia, eu acordei de madrugada, assustada por causa de um pesadelo. Eu via tudo de fora. Ele me segurava em seus braços, meu rosto ocultado por sua forma obscura. Eu – corpo ou espírito – jazia inconsciente em seus braços, sem reação.
Olhei no relógio de cabeceira, ele marcava exatamente meia-noite. Eu havia completado 15 anos.
Durante o dia, eu, meu pai e minha mãe iríamos passar o final de semana na casa da minha avó materna, Ana. Mas, não conseguimos chegar. Uma carreta andava em alta velocidade na pista contrária. Meu pai desviou o carro, que capotou na floresta que margeava a estrada. A última coisa que eu vi, foram olhos escuros e sombrios da Morte.
Passamos dois meses e meio no hospital, mas não sofremos nenhum dano permanente.
Depois disso, decidi que iria morar com minha avó. Ela estava muito solitária depois da morte de meu avô.
Tudo voltou ao normal. Bem, quase normal. Colégio novo significava começar de novo, e eu já não era aquela garota animada e sociável de antes. As pessoas simplesmente decidiram me ignorar, só ocasionalmente falavam comigo. No começo foi difícil parecer invisível, mas acabei me acostumando.
Agora eu ficava deitada na minha cama, escutando música ou com minha avó, fazendo coisas que nós costumávamos fazer juntas.
Eu gostava muito dela. Ela era minha única e melhor amiga. Me fazia me sentir mais como uma pessoa normal do que como eu me sentia. Nós passeávamos com Ruffos, o labrador que ela tinha, tomávamos chá, assistíamos novela e fazíamos blusas de tricô e crochê.
Latidos me arrancaram dos meus pensamentos. Abri a porta e Ruffos entrou no quarto mordendo a bainha da minha calça. Ele me arrastou para fora da casa, ele foi correnedo até a margem do bosque que havia trás da casa da minha avó e começou a ganir e rosnar. Havia alguma coisa que o estava incomodando naquele bosque.
Decidi procurar, levei Ruffos comigo. Quando finalmente encontrei o que o incomodava, fiquei paralisada. O manto negro que tanto me assombrava, os olhos que repetidamente apareciam em meus sonhos se faziam presentes diante de mim.
— Naõ acredito. Você realmente tem um dom para me irritar – ele disse friamente.- O simples fato de você existir me incomoda.
— Desculpe, — eu usei o mesmo tom frio – eu não pedi para nascer.
— Nisso eu posso dar um jeito. – ele avançou um passo.
— Vá em frente! Me mate! – eu estava com muito medo, mas não consguia externar isso. Uma raiva me possuiu, e eu simplesmente enfrentei-o.
Ele grunhiu, mas depois se afastou.
— O que aconteceu? Onde está toda sua fúria? – provoquei-o.
— Você tem muita vida. Isso é extremamente irritante.
— Não entendi. Como eu posso ter muita vida, quando nem sequer eu a vivo direito.
— Vitta, minha perdição. Meu carma — ele sussurrou, os olhos brilhando sob seu manto escuro. Meu coração começou a acelerar. Fiquei paralisada com o choque e o medo que suas palavras me causaram. – Você tem mais vida do que uma pessoa normal. E é a única que pode me enxergar.
— Mas Thaís também podia...
— Só as pessoas que estão perto de morrer. Aquela noite que o pai dela morreu, não era para ser ele...
— Era ela... – murmurei.
— Exatamente. No entanto, ela tem muita sorte.
— Então você pode matar quem você quiser?
— Sim.
— Mas... aquele dia no hospital... por que você não fez nada?
— Eu já disse... você tem vida demais. Ás vezes é uma tentação. Mas quando eu estou perto... Não consigo lembrar o que eu estava prestes a fazer.
Ótimo. Agora eu não entendia mais nada. Encarei-o confusa.
— Como assim...? Você... esquece?
— Não sei o que acontece, eu simplesmente esqueço de tudo.
— Você esquece que é a Morte também? – eu estava completamente atônita.
— Tudo – arqueei uma sombrancelha. De repente vi um vulto negro vindo em minha direção, fechei os olhos e me encolhi.
Abri os olhos e vi que estava deitada no chão úmido no meio do bosque. Ruffos estava sobre mim, latindo baixinho no meu ouvido, como se estivesse tentando me acordar. Estava anoitecendo e eu estava sozinha. Voltei para casa. Vovó estava sentada á mesa, tomando seu chá.
— Onde você estava menina? – ela perguntou.
— Eu estava no bosque com o Ruffos. Sentei á sombra de uma árvore e acabei adormecendo. Desculpe.
— Não precisa se desculpar, isso acontece. Agora vá tomar um banho, você está cheia de lama.
— Estou indo – eu sorri, ela ainda me tratava como se eu tivesse dez anos.
Tomei um banho e fui para o meu quarto. Precisava pensar. Decidi que recomeçaria. Iria continuar a procurar, mas dessa vez eu não desistiria. Eu iria até o fim. Mas como? Só me restava responder essa pergunta, e eu poderia retomar meu objetivo de dois anos atrás.
Fale com o autor