Vitta

20 O Fim


Meus dias de luto eram intermináveis. Não só por Juliana, mas por todos os que foram levados. Por minha culpa. Eu visitava Jess no hospital todos os dias, e todos os dias eu chorava em sua frente. Ela dizia:

- Já passou. Eu vou ficar bem.

E eu só conseguia me sentir pior. Em um surto de irracionalidade havia saído de casa e comprado roupas pretas. Luto. Gastei todo meu salário e mais as economias que havia feito. Havia parado definitivamente de falar com meus pais. Havia dado um último adeus.

Em uma manhã de outono – se sábado ou domingo, eu não lembro – saí para tentar refrescar os pensamentos, que estavam a cada dia mais confusos. Eu estava usando meu melhor vestido preto. Era de cetim, até os joelhos, e meias 7/8 pretas. Saí descalça. Fui para a antiga praça perto da igrejinha em ruínas. Não havia ninguém lá, ventava muito, as folhas se agitavam ao meu redor e os balanços rangiam indo para frente e para trás.

Sentei-me num banco de madeira caindo aos pedaços. Surpreendi-me quando Ian se aproxima, sorrindo. Seu sorriso era meio morto. Eu já nem me preocupava em ostentar sorrisos falsos.

- Como ela está? – ele pergunta

- Melhor do que ontem, não foi lá hoje ainda?

- Não – suspirou – vou só mais tarde – ele parou e me olhou, franziu o cenho, confuso. – Por que você está de vestido? Está frio.

- Não estou com frio – era verdade, o vento parecia mais acariciar-me do que incomodar-me. E o frio em si já deixara de ser problema, se comparado ao frio que estava por dentro.

Ele se levantou e estendeu a mão.

- Vem, vamos sair daqui. – Dei de ombros e segurei sua mão. Ouvi um estampido e de repente seus olhos ficaram vagos.

- Ian? – ele caiu nos meus braços. Quando vi o sangue ecorrendo em minhas mãos, não quis acreditar que aquilo acontecia de novo. Ian. Mais uma vida que se perdeu em minahs mãos. Uma bala perdida, uma vida interrompida.

Lágrimas começaram a descer por meu rosto copiosas e inevitáveis.

Encarei o monstro á minha frente, os olhos negros e frios olhando o corpo exangue sem vida em meus braços. Minha raiva chegou ao ápice e eu explodi.

- Como você pode fazer isso ? – me levantei, esquecendo do medo, dominada pela raiva e tristeza.

Vingaria as vidas perdidas, aquelas levadas por ele. Por um lado eu sabia que estava sendo itiota. Afinal, o que espera uma garota como eu ao enfrentar um ser tão sombrio e poderoso como esse? Certamente, não algo comum ou agradável. Talvez até a morte.

Mas naquele momento pouco me importava. Eu só conseguia pensar nas pessoas que eu amava, que foram levadas, cujas vidas foram tiradas cruelmente delas. Juliana, Dan, Ian.

- Como pode ser tão frio, Vithor ? – parei quando ele tirou os olhos de Ian, e virou-se para mim.

- O que disse ?

- Como pode matar tantas pessoas e não sentir culpa? Como? Por que? Qual o sentido disso ? – indignação era um dos sentimentos mais fortes que eu sentia.

- Não! Do queme chamou ?

- Vithor. Sim, eu sei quem você é. Inclusive, Jessica era da sua família, e agora ela está naquela droga de hospital – quando me lembrei desse detalhe, senti o ódio ferver em meu sangue novamente. Percebi que consegia enxergar melhor, ouvir melhor, sentir tudo á minha volta, mas minha atenção estava centrada em Vithor, que descarado fingia não saber do que eu falava.

- Você não conseguiria entender o porque, não sem pensar como eu.

- Entender o que ? – a essa altura eu já gritava a plenos pulmões – Não há porque entender.

Trovões começaram a ressoar alto no céu, eu não havia percebido como estava escuro.

- Fico pensando... – ele começou a se aproximar lentamente – por que você está sempre no meu caminho.

Eu estava toda manchada de sangue, meus cabelos estavam revoltos e se espalhavam em minha face banhada de lágrimas á medida que o vento soprava, meu peito fazia movimentos bruscos com minha respiração ofegante.

E Vithor continuava calmo. Como se não houvesse um garoto morto ao meu lado, como se meu ódio não preenchesse o espaço á nossa volta. Como se não fosse um monstro despresível e repugnante.

- Acredite, eu me faço a mesma pergunta sempre que você aparece – falei com frieza.

Mais trovões. Geralmente isso teria me assustado, mas não naquele momento. Era como se tudo á minha volta correspondesse ao meu humor sombrio.

- Você sabe o que fazer para acabar com isso. Sabe o que eu quero. E depois, eu desapareço. Viro nada.

- É esse o seu preço? Minha vida?

- É, mas você tem que se entregar. E aí, eu juro que desaparecerei do mundo. É sempre assim, não há volta.

A raiva era demasiada, mas em minha cabeça, havia espaço o suficiente para averiguar o quanto aquela proposta fazia sentido. Eu me entregaria, ele desapareceria, ninguém mais iria morrer. Não por minha culpa. Fui me acalmando. Eu aceitaria qualquer coisa para livrar o mundo daquele ser vil e repulsivo. Conformação, era o que eu sentia.

- Está bem, você venceu.

- Nós vencemos. Ambos conseguiremos o que queremos, e ambos vamos ‘morrer’.

Era isso então. O final, eu só precisava entregar minha vida. Ele havia me escolhido. Eu aceitei sua proposta. Não havia volta. Não havia solução. Estava acabado.

Andei até o tronco de uma árvore grande e antiga. Sentei-me e fechei os olhos. Pensei nas pessoas que deixaria para trás. Papai, mamãe, Jess, vovó, Thaís, e todos os outros com quam convivi nos últimos anos.

Senti sua aproximação, e quando se ajoelhou próximo a mim, as folhas secas do outono fizeram ruído.

- Abra os olhos – ele disse. E assim eu fiz.

Surpreendi-me quando, com um suspiro pesado, ele abaixou o capus, revelando-me suas aparência obscura.

Parecia jovem, mas suas feições denunciavam o longo tempo de existência. Exalava frio, não havia cor em seu rosto de ângulos retos e perfeitos, seus cabelos eram escuros, estavam revoltos com o vento e caía-le sobre os olhos. Os olhos. Eram ainda mais escuros e vazios.

Aquela era a face da Morte.

Ele foi se aproximando devagar como se quisesse ter certeza de que eu não me levantaria e sairía correndo como um ratinho covarde. Eu não o faria, tendo em vista a resolução de todos os meus problemas. Ele havia dito que se eu cedesse minha vida, ele desapareceria para sempre. E então ninguém mais morreria por suas mãos frias. A não ser eu. Fechei meus olhos de novo, não queria ver o que ele faria.

Quando seus lábios gélidos tocaram os meus, entreabertos pela respiração pesada, foi como se algo explodisse. Fui tomada por uma ansiedade agonizante, que foi morrendo junto comigo. Tudo começou a ficar turvo, as sensações foram desaparecendo até que a única coisa que eu podia sentir era o beijo da Morte, o beijo frio e acalentador. Desesperado e acalmante.

E depois nada.

Notas finais
ainda tem o epílogo ;)