Vitral

1 Vitral


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Vitral

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Lupin estava vazio. Tonks podia ver isso no vácuo profundo que eram seus olhos e nas olheiras negras em volta deles. O luto já durava meses, e durante metade desse tempo Tonks estivera esperando que Remus se embebedasse, que procurasse missões potencialmente suicidas, que se rebelasse de alguma forma, até perceber que ele já passara por todas essas fases de agonia quinze anos atrás, quando Sirius fora para Azkaban. Tudo o que restava agora era dor e um desespero silencioso.

Remus era o último, o único que sobrara. De novo. Tonks odiava Sirius por deixá-lo para trás, ao mesmo tempo em que tinha consciência de que essa solidão incurável era sua única chance. Sentia-se terrível quando tal pensamento aflorava, mas esse egoísmo a lembrava que ela também tinha sangue Black correndo nas veias, negro, espesso. Tonks desejava ardentemente que fosse o bastante, porque Remus amara tanto a Sirius, e no final ele fora todo um Black. Bastardo, filho de puta, egoísta o suficiente para não deixar nem mesmo um corpo para trás e colocar um ponto final naquilo; porque, ohh, em Azkaban Sirius estivera meio morto, ou pior do que morto, e tinha conseguido voltar. Lupin esperava um novo milagre.

Era por isso que, quando o lobisomem desapareceu, Tonks soube exatamente onde encontrá-lo.

Os corredores do Largo Grimmauld nº 12 estavam escuros e quietos. Havia algo agourento na poeira que enchia o ar, como uma magia antiga e maldita que se avolumava na solidão. Tonks tentou caminhar silenciosamente, mas o piso rangeu mesmo assim. Ela encontrou Lupin na sala, sentado no sofá, com a face escondida nas mãos. Todo desolação feita de calor, risadas e luas que não existiam mais. A dor de Remus tinha algo de encantador, tão pura e amarga, e mesmo assim Tonks gostaria de senti-la na língua. Sabia que ele estava de luto por Sirius, e por James, e por Lily, mas também por Peter e por si mesmo, por tudo o que eles haviam sido. Tonks desejou abraçá-lo e soprar por seus lábios, fazê-lo engolir as palavras – você ainda está vivo!

Lupin era feito de sentidos e instintos, e lutava há tempo demais para que Tonks fizesse ilusões de que passara despercebida, mesmo quando ele não deu mostras de notar sua presença. Sentia-se terrivelmente consciente de si mesma enquanto Remus a ignorava, músculos em tensão, um leve trincar de dentes, o coração batendo descompassado; por sua vez era como se o lobisomem não existisse, parado ali, quieto, respirando tão, tão leve.

— Remus? — ela chamou baixinho, sua voz cortando o ar como uma navalha, mas Remus não se moveu.

Tonks lançou um olhar para a árvore genealógica da família Black pendurada na parede. O nome queimado de Sirius destacava-se como a estrela mais brilhante do céu noturno. Tão apropriado. Perguntou-se por quanto tempo Lupin estivera olhando para aquela tapeçaria antes de ela entrar, para então decidir que preferia não saber.

Esse era o lugar que Sirius mais odiava no mundo, nada o faria voltar para a mui antiga e nobre Casa dos Black. Era por isso que Remus está ali. Era a esperança que o estava matando, e naquele lugar ela não existia.

Tonks inspirou, sorveu a ar como se estivesse tragando coragem, e então se aproximou, ajoelhou-se junto a Remus, tocou suas mãos. Oh, sentia tanta, tanta, dor por Remus. Não sabia como consolá-lo, provavelmente porque não havia consolo. Foi preciso um aperto mais forte, quase desesperado, para que Lupin finalmente baixasse as mãos e olhasse para ela. Em vez de lágrimas, o que Tonks encontrou foi tristeza, e desespero, e amargura.

— Vai ficar tudo bem — prometeu, um pouco porque acreditava mesmo nisso. — Eles ainda vivem em você, você sabe.

Por um instante Lupin apenas a encarou, e se não o amasse tanto Tonks se assustaria com o desprezo em sua expressão; e então ele riu, e seu riso era a coisa mais sinistra que já ecoara por aquelas paredes em muito tempo.

— O problema, Tonks, é a parte de mim que morreu com eles. Era a minha melhor parte.

Não havia pesar na voz dele, havia raiva e angustia e o eco de um monstro. Os olhos de Remus pareciam afiados. Tonks sabia que para ela haviam restado apenas cacos, mas era bonito mesmo assim, e ela não pôde evitar se apaixonar por esses estilhaços.

Notas finais
Por favor, me deixe saber o que você achou da história. ^^
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!