Vitorina - A Igreja de Santa Vitória
1 Um provável casamento
Dia 03 de Dezembro de 2014, data comum para você que está aí, bom, se não contarmos que é o mês que finaliza o calendário e que é o mês que as datas comemorativas são as melhores desculpas para se gastar dinheiro e comprar tudo o que veio almejando durante o ano. Mas, além dessas razões, nessa semana, minha família irá realizar um casamento, seria muito feliz se não fosse por um único motivo: Eu sou a noiva! Ah, só não pense que é porque irei me casar com alguém que não gosto ou coisa parecida, o coitado do pretendente nem é ruim assim, tão bonzinho e amigável.
‘- Será que eu conto como o conheci? Ou só continuo a minha história sem preocupações? -‘
Enfim, acho que devo introduzir algumas coisas para não ficarem perdidos, certo? Ok! Eu me chamo Vitorina, particularmente, não tenho problemas com meu nome, sempre gostei da diferença que ele fazia na minha vida, tipo quando as crianças se lembravam que eu existia por causa dele — um nome diferente desses, ia ser lembrado em algum momento, pelo menos era o que acontecia quando algum professor contava uma história do século 18, pronto, aí vinha o coro “ Vitorina, Vitorina, a menina das antigas. Mais velha que minha avó, com esse nome de dar dó”, confesso que gostava da musiquinha, crianças são seres estranhos e curiosos! Meu nome sempre me deu destaque em situações escolares, foi aí que aproveitei e comecei a ficar popular. Sim, acredito que esteja imaginando aquelas meninas que são reconhecidas pela escola toda por ser bonita, atlética, talentosa e todas as qualidades colocadas por filmes e histórias, é, digamos que você está tendo pensamentos errados! Minha popularidade alcançou um nível grande, porque eu comecei a me vestir como personagens dos contos do século 18 e afins, e comecei a me comportar da mesma forma. Levei minha vida de aluna, vestindo uma roupagem de um alguém que eu não era.
E não pense que foi porque eu tive problemas com minha personalidade por causa das brincadeiras de criança, ou não me reconhecia de alguma forma, eu sempre soube quem eu era — já até me apresentei para vocês, Vitorina, e é isso! Sou ela, a pessoa que tem esse nome e nada mais, o que eu faria ou deixaria de fazer, bem, isso já é outro tipo de construção e de situação.
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— Carlito! Você por acaso comeu pés de cabritos?
— Eca, tia. Claro que não.
— Então faça o favor de parar de pular nesse troço aí, não sabemos o que isto faz e nem o que isso é, sabe que gente rica tem uns troços que parece que veio de outro planeta, se você estragar, como a gente vai sair pra comprar outro se nem carro temos, quanto mais um foguete?!
— Ta bom, tia Vina!
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Onde foi que eu parei mesmo? Ah sim, fui popular na época de escola, agora eu estou formada e trabalho numa empresa que produz panos novos com restos de outros panos. Fiz faculdade de administração, só que fui perceber que aquilo tudo é um porre, quando fiz o último estágio, vocês devem se perguntar por que eu não parei e mudei o curso, ou só desisti. Olha, não foi por falta de vontade não, mas o universo não é amigo nestas horas. Contando brevemente, toda vez que eu ia comentar algo com um professor ou professora sobre minha desistência, eles me diziam que tinham algo novo para eu fazer e que eu ia adorar, porque de alguma forma, as pessoas sabiam o que eu mais gostava: Me apresentar em palestras e congressos, só que não como Vitorina — não apenas no nome, mas como a menina que veio do século 18, com trajes à caráter e discurso combinado, encaixando problemas do século passado ao momento de hoje, fingindo que eu era um livro de auto-ajuda. Ah! Como isso era ótimo! Já pensou em ser alguém com o mesmo nome que você tem, porém, ter a oportunidade de ser diferente, agir diferente?
Vamos ver se eu não esqueci de algo — sou Vitorina, sou a noiva do mês, fui popular na época de escola, fiz administração, agora trabalho numa empresa têxtil ecológica. Acredito que seja isso por enquanto. Hum, minha idade, quase esqueci, sou a famosa Trintona ~ nice! Gosto desta fase, não tenho do que me queixar, apesar de estar casando!
Ah é, eu to fazendo isso por causa desta situação, olha aí, já tava começando a querer dar uma de Clarice Lispector.
Meu casamento, o que dizer sobre este dia tão incrível para minha família? Uma coisa que eu sempre escutei foi: “Você vai ficar pra titia, tem que arranjar um marido logo!” Eu nunca vi muita coerência nisso, eu já era tia aos 20 anos e nem por isso via problema, e ser tia é só mais um título que foi criado, para todos da família ter um papel. Eu hein, até parece que ser mãe é tão diferente de ser tia, ou qualquer outra coisa.
Tá! Deixando isso pra lá. Eu conheci um rapaz chamado — Julberto Almeida. De primeiro momento, o nome espanta um cadin, né? Mas é aí que me desperta curiosidade. Ok, sei que vão pensar que não é legal se interessar por alguém apenas pelo nome, e não foi exatamente isso que aconteceu, nomes são curiosos, são criados em diversos lugares e carregam histórias que, geralmente, não sabemos. Já se perguntou de onde veio o seu? Se tem alguma história por traz da escolha? Se você pode criar histórias a partir deste nome? Enfim, muitas são as perguntas que faço quando ouço nomes diferentes (não que eu não me interesse por nomes que já carrego em minha lista — lembre-se: Nomes são escolhas de outras pessoas para uma só carregar, então há histórias, mesmo que seja a mais simples).
Julberto trabalhava numa empresa que contatou a que eu trabalhava, precisavam de algum material para algum projeto, aparentemente. Então, a pessoa que representou, foi ele. Veio de forma tímida, mas destemido, parecia uma criança que estava afim de batalhar para conseguir realizar seu desejo. Neste momento, tive que exercer o papel de administradora da organização, logo, fui responsável em conversar com aquele que carregava o brilho de inocência em seus olhos. Assim que soube seu nome, notei que não conhecia ninguém que se chamava desta forma. Pronto! Curiosidade de conhecê-lo, e só se intensificou, no momento em que a reunião terminou e o vi como alguém cheio de histórias de vida (mesmo com apenas 29 anos). Depois disso, nós conversávamos bastante, e, modéstia parte, eu acertei em cheio sobre aquele homem ter muitas coisas para contar (canções para os meus ouvidos) — e durante dois anos, vivemos juntos numa pequena casa, compartilhando vivências e personagens de eras.
Como uma surpresa (daquelas bem desagradáveis), minha família decidiu nos reunir do nada, inventaram uma data comemorativa nova — ‘O dia da despedida de Santa Vitória’ — no começo, pensei que era mais uma brincadeira das tias religiosas (devotas aos santos, tanto, que sempre pensei que elas tinham sonhos eróticos com eles), no dia, percebi que o ‘Vitória’, era um pseudônimo que me deram. Oh céus! Como fui tola, nem reparei nisso (mas cá entre nós, eu gostei do nome novo — haha’). Daí pra cá, só foi planejamento atrás de planejamento, começaram a decidir que eu iria me casar: data, hora, lugar, roupa, convidados, festa, comidas e bebidas, tudo! Não me deixaram decidir nada, tomar conta de nada, e o Julberto? Vish, esse aí nem podia respirar em horas fora do cronograma (que não era diferente pra mim).
Bom, é aqui que chegamos, no dia do casamento. Até aqui, imaginem, não pude tomar frente de nenhum preparativo e nem de mim mesma! Então, estou frustrada, pior! Estou em chamas e queimando o que está a minha volta. Não aceito este casamento, não aceito ter que me casar nestas condições! Não me deixaram ser eu mesma, não me deixaram decidir o que eu queria! E para piorar, nem a pobre da Vitória pôde aparecer, ficaram chamando-a de Vitorina pra cá, Vitorina pra lá. Não deram chances de sua história ser escrita. Agora, sou eu quem tenho que ficar aqui, vestida com um vestido com mais camadas que o próprio bolo do casamento, que está lá na mesa quase caindo pro lado, de tão pesado. Vestida com uma cor branca, mais branco do que as roupas das propagandas de sabão (ficariam com inveja se vissem), com um cabelo sem graça, liso e solto pra baixo, só com uma flor — flor que foi maltratada, retirada de seu lugar, só para enfeitar uma cabeça. E daqui a alguns poucos minutos, estarei entrando numa igreja. Igreja! Vitória nem queria isso, ela sonhava com um casamento ao ar livre, poxa! Ninguém tem consideração.
Para encerrar o duro conto que faço deste fatídico dia, digo à vocês: Se tiverem oportunidades de escolhas, por favor, aproveitem e façam suas escolhas! Construam tudo o que acharem certo para suas histórias. Sejam quem vocês quiserem! E mais uma coisa: Se forem se casar, não inventem de usar um vestido que faz você sentir que não se move, porque de camada, já basta a camada de ozônio!
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— Tia Vina? Ta tudo bem?
— Rafinha, minha querida. To ótima, nunca estive melhor!
— Que bom. Eu fiquei preocupada, desde da hora que mencionei sobre site de histórias a senhora não saiu mais da frente do computador.
— Ah sim. Não pude sair, foi mais forte que eu. Quando vi, já estava fazendo uma inscrição e escrevendo.
— Espero que tenha sido algo bom então.
— Você não faz ideia, minha pequena. O quanto é bom ser alguém além de você mesma!
— Haha! Só você mesma tia. Não acredito como consegue.
— Não, eu mesma não! Vitorina que consegue, ela é a criadora mais vívida.
— Se a senhora diz. Com licença, irei me deitar. Boa noite.
— Boa noite, Rafinha. Sonhe com várias de você!
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