A escolha daquela vida estava em minhas mãos. Não era novidade para mim algo assim, era apenas mais um dia, e mais uma escolha que deveria fazer. Apenas.

O suor escorria por todo o rosto da pessoa à minha frente, a qual tinha uma expressão de total pavor enquanto fitava-me com receio de morrer. O homem deu um grunhido baixo de medo, enquanto gaguejava implorando por sua vida, em uma mistura de dialetos os quais muitos não entenderiam.

Meus olhos miraram no dele, e ele soube, tanto quanto eu, que a sua hora havia chegado. O rapaz fechou os olhos num último movimento de sua vida e em uma voz rouca disse em uma espécie de oração.

— Pacem. Mortem. Vitam aeternam. (Paz. Morte. Vida eterna.)

A adaga em minhas mãos cravou-se no coração do homem, fazendo com que o seu sangue jorrasse pelo ferimento, até que o corpo estivesse pálido, frio e sem nenhum resquício de vida. O cadáver caiu no chão feito de metal com um baque surdo e permaneceu ali, enquanto fazia uma poça avermelhada de seu sangue cobrir boa parte do chão à sua volta. Agachei-me ao lado do corpo e retirei do cinto que ele usava uma espécie de cartão transparente. Um sorriso sádico delineou-se em minha face quando achei o que procurava. Finalmente.

O homem não fazia parte de minha trilha, ele apenas aparecera ali como uma erva daninha surge em um belo jardim. E como uma erva daninha, ele precisou ser arrancado dali. A morte para mim é apenas um trajeto para algo melhor que nos acontecerá, e para a maior parte das pessoas naquele local ela era isto.

Aprendemos, ao decorrer dos anos que passaram depois da Grande Guerra de Raças que ocorrera em 2913, que lutar e morrer por uma causa patética não valia de nada. A Grande Guerra acabou e com isso deixou um rastro de mortes absurdo, os sobreviventes se dividiram em três grupos: os Comensais, os Telprians e os que chamamos de Clero. Três grupos; Três cidades distintas, que transformaram a grande Terra em um pequeno lugar sombrio.

Os Telprians, são em sua maioria, pessoas que acreditam na lenda de um homem o qual se sabe somente uma letra de seu nome: L. Eles acreditam que podem construir um corpo robótico e implantar as memórias e poderes deste homem naquele corpo, porém para isso eles precisariam de um resquício de DNA de L., porém, como a maioria sabe isso seria impossível. Os Telprians ocupam a cidade de Hibrids, o que muito e muito tempo atrás era a Ásia, África e Europa. Porém, eles sempre acreditaram que os restos mortais da grande lenda L., estava em Opahula, a cidade dos Comensais, antigamente tendo sido as Américas. Desde então há uma constante rixa entre estes dois grupos.

Os Comensais são guerreiros. Obviamente existem cientistas, assim como os Telprians também possuem guerreiros. Eles lutam por uma causa somente: encontrar L. antes dos Telprians e revivê-lo para que ele os obedeça, assim acabando por dominar as três cidades.

O Clero, situava-se onde antes era a antiga Oceania, agora chamada de Mitroh-z. Como o nome do grupo já diz, é povoado apenas por pessoas religiosas, pessoas que acreditam que o inferno que se instalou na Terra é apenas um teste para os sobreviventes para algo maior; mais grandioso, que nos aguarda depois de nossa morte.

Eu fazia parte do Clero.

A pergunta que deve estar circundando a sua cabeça deve ser: “Se é do Clero então porque diabo está matando alguém?” Simples. Porque sou uma Ceifadora do Clero. Fui treinada desde criança à matar, roubar, lutar, a fazer tudo o que um agente, espião, ou como queira chamar, deve saber fazer. Não, não sou má, apenas sou aquilo que me fizeram ser.

Os Ceifadores do Clero foram criados um pouco depois da rixa entre as duas grandes cidades começar. Muitas pessoas começaram a querer abrigar-se em Mitroh-z por ser o único lugar seguro da Terra (ou Inferno, como queira chamar). Porém, a entrada de pessoas na cidade do Clero é proibida, só podem entrar os “escolhidos”, crianças, adultos, adolescentes, que o Clero acha ter sido escolhido pela força após a morte. A função dos Ceifadores é simples: exterminar qualquer um que tente entrar em Mitroh-z; qualquer um que seja, desde criança à idosos. Estes invasores são considerados Ereges e carregam este título para o resto de suas vidas (caso continuem com uma e não morram nas mãos dos Ceifadores).

Fui pega pelo clero com cinco anos de idade. Vivia em Hibrids junto de meus pais e meu irmão gêmeo. O dia em que os membros do Clero – e alguns Ceifadores – foram me buscar em nossa pequena casa fora um dos piores dias de minha vida, e tenho certeza de que esta lembrança perdurará para sempre.

Desde muito tempo já não aguentava a ideia da rixa entre as cidades, e da passividade do Clero diante disto. Em meio a uma guerra, porque os que tem poder não podem interferir para acabá-la? O que éramos afinal? Observadores no meio do caos? Ou o Clero não tinha, ou não queria meter-se em uma causa improvável? Fiquei sem saber sobre essas respostas durante anos a fio, até que finalmente as respostas vieram até mim.

Lembro-me perfeitamente deste dia. Estava à noite e todos já estavam dormindo em seus específicos dormitórios dentro do imenso templo do Clero. Eu estava com insônia, e por este motivo resolvi caminhar pelos corredores escuros, enormes e altos do lugar. Duas silhuetas surgiram à frente virando para minha direção, inconscientemente me escondi atrás de uma pilastra gigantesca a qual fazia sombra sobre mim impedindo que qualquer um me visse. Não sabia por que havia me escondido. Não estava fazendo nada de mais, certo? Mas foi uma decisão esperta.

— A garota de cabelos loiros, Magane Rin, eu acho que ela sabe dos planos do Clero. – Disse um padre de pele escura e olhos amarelados, o qual eu reconheci sendo o padre Todoroki Eiichi.

— Não sabe, não. Caso soubesse estaríamos mortos, meu caro irmão. – Disse outro padre, o qual eu não reconheci.

— Bom, sabendo ou não acho melhor não subestimá-la. Não devemos deixar que ela descubra que o Clero incentiva esta guerra.

— Quanto mais mortes, mais fiéis, certo?

— Certo. Pacem, mortem, vitam aeternam.

Era isso. Eles haviam interpretado a grande frase de forma errada. Como se quanto mais pessoas morressem, mais vida as vivas iriam conseguir. E se o Clero estivesse procurando por L. também? Seria uma grande vantagem para eles, não seria?

Por este motivo eu fugi de Mitroh-z, com dois objetivos em mente: encontrar L. antes de todos para trazê-lo a vida, e acabar com esta maldita guerra.

Agora você deve pensar: Então porque diabos você matou alguém apenas para roubar um cartão transparente?

A resposta não é muito complicada.

No dia em que fugi do Clero já sabia exatamente para onde ir, para Opahula, já que seria lá que minha busca começaria. E assim o fiz. Não foi difícil sair de Mitroh-z, já que eu era uma Ceifadora tinha total acesso aos portões de saída que envolvia toda a cidade do Clero como uma gigantesca muralha. Saí de lá direto para a cidade de Opahula através do barco do Clero que transportava os padres junto de alguns Ceifadores para as cidades, em busca de novos escolhidos. Por eu estar com o uniforme dos Ceifadores: uma espécie de macacão justo de couro negro e meio fosco, um cinto cinza e fosco também, botas, uma capa negra a qual sempre tinha o capuz jogado sobre minhas cabeça e luvas, além de um coldre com uma arma, e algumas facas que ficavam em coldres menores em algumas partes do cinto. Nenhum Ceifador tinha broche, ou emblema do Clero, ao invés disso tínhamos uma espécie de marca de nascença em nosso rosto: uma espécie de tatuagem tribal que delineava nosso rosto, cada Ceifador a possuía na cor cinza (sendo poucas na cor negra que nem a minha) em um determinado local o qual não se repetia nos outros. No meu rosto, por exemplo, cotornava o lado direito começando de meu queixo, passando pela lateral de minha bochecha, pela minha orelha, até o meio de minha testa.

Chegamos em Opahula, na área principal, e rapidamente sai de perto do grupo do Clero, indo à uma direção específica.

Há muito tempo, havia ido até lá com alguns padres e conhecera padre Dell Honne, ou Irmão Honne, que montara um pequeno templo ali para que as pessoas pudessem se “converter”. Em uma conversa que tivera com ele, a qual o homem estivera completamente bêbado, Irmão Honne dissera:

— Sabe? HIC! Opahula já encontrou os restos de L., minha jovem Magane. HIC! Mas só irão se gabar quando conseguirem revivê-lo. HIC! Mas só um escolhido pode fazer isso, mas os tolos das outras cidades não sabem. – O padre disse isso dando uma gargalhada ao fim.

Naquele momento a frase dele fora patética para mim, a ignorei, mas agora fazia total sentido. O Clero não estava somente “incentivando” a guerra de certa forma, eles estavam pegando todos os escolhidos, os que podiam reviver L., para que nenhum possa trazê-lo a vida sem o consentimento deles.

Fui até o templo, o qual Irmão Honne administrava, precisava falar com ele sobre isto e convencê-lo a me dizer onde os Comensais guardavam os restos de L. Se somente escolhidos poderiam o reviver, bom, eu seria essa pessoa.

Ao chegar ao templo do Irmão Honne a primeira coisa que vi foi uma fumaça densa negra que tentava escapar pelos vidros fechados do local. Mas o que diabos estava acontecendo? Corri até o Templo e quebrei uma janela com apenas um soco, fazendo toda aquela fumaça sair, sem hesitar entrei no lugar, o qual estava sendo consumido aos poucos pelo fogo.

— Padre Dell Honne!

Gritei, mas tinha a plena certeza de que ele já não poderia mais me responder àquela altura.

Corri até a porta de trás do tempo, a qual dava para um grande jardim bem cuidado cercado por um muro bem alto. Quebrei a porta com um chute e rolei para fora do lugar antes de uma viga de madeira cair onde eu estava segundos antes.

Olhei em volta e ali vi o corpo do padre jogado ao chão cheio de queimaduras horrendas e machucados profundos, aparentemente feitos por facas. A grande pergunta era: o que havia causado aqueles ferimentos à faca? Corri até ele ajoelhando-me ao seu lado segurando o corpo do padre de modo que pudesse ver sua face desfigurada pelo fogo.

— MAX 1301. – Disse o padre entre sussurros enquanto tossia sangue. – Base três... Vicentino II...

Depois dessas palavras o padre morreu. Abaixei seu corpo ao chão e toquei seu peito ensanguentado sussurrando: “Pacem. Mortem. Vitam aeternam.” Levantei-me em seguida, e sabia exatamente para onde deveria ir: Base Três.

A cidade de Opahula, assim como Hibrids, era dividida em bases, tendo ambas o total de dez bases. A Base Três ficava em um lugar distante das outras bases, porém era um dos locais com mais tecnologia disponível, dava-se para entender porque os restos mortais de L. estavam sendo mantidos lá.

Não foi difícil chegar até lá, obviamente também não foi fácil. Quando se está vestindo o uniforme de Ceifadores do Clero é impossível não passar despercebido em um trem, onde as pessoas não tem muito que olhar e acabam te encarando com um misto de medo e adoração.

Olhei ao redor vendo as várias construções altas e modernas feitas pelos Comensais. Já havia estado na cidade de Hibrids por este motivo os prédios, carros voadores e telas gigantes que pairavam no ar não haviam me surpreendido nem um pouco. Antes de morrer o padre dissera Vicentino II, este fora um padre muito rico o qual saíra do aconchego do Clero para morar em Opahula e expandir sua riquesa. Ele conseguiu isso, mas depois de alguns anos morreu, acabando por deixar sua grandiosa empresa de pesquisa e toda sua fortuna para o governo desta Cidade.

Dirigi-me para o prédio dele. Era o maior que havia ali, e o que mais havia pessoas transitando, por este motivo eu adentrá-lo agora não seria uma ideia muito inteligente. Esperei que escurecesse, algo que não demorou, para poder entrar de outro modo.

Foi fácil escalar o prédio, já que havia apoios suficientes para meus pés e mãos, e já que estava escuro e ninguém conseguiria me ver, pelo menos foi o que eu achei no momento.

Passei por uma das janelas que estava aberta no penúltimo andar da construção. O corredor estava iluminado, mas não havia ninguém transitando por ali. Comecei a dar passos silenciosos à frente, precisava achar algo, qualquer coisa que fosse que me desse uma pista do que teria de fazer em seguida.

Talvez meus pensamentos tivessem sido ouvidos, porque no exato momento em que pensei isso alguém abriu uma porta ao meu lado, a qual eu não havia reparado anteriormente.

Tirei uma adaga de meu coldre e posicionei-me, pronta para agarrar quem quer que fosse e forçá-lo a dizer alguma coisa. “Ótimo! Só precisarei pegar a pessoa e...”

- O que faz aqui?! – Perguntei exaltada interrompendo meu pensamento anterior quando vi quem estava à minha frente.

A pessoa sorriu. Sorriso o qual eu sempre detestei. Um sorriso superior e irônico, aquele que toda pessoa tem vontade de socar a cara do portador do sorriso só para ver seus dentes fora da boca.

- Estou aqui porque sabia que um dia você viria para cá, Magane.

Foi então que ela abaixou o capuz que usava, o mesmo que eu vestia, mostrando sua face por completa e não somente aquele sorriso ridículo. Era Ruko. Ela usava um tapa-olho, mas não por ter o machucado, e sim por ter heterocrômica. Caso não usasse-o seria julgada por todos como uma aberração e provavelmente morta... Talvez ela não ter usado o tapa-olho, teria evitado muitos problemas.

Ruko foi levada para Mitroh-z com 12 anos de idade. Ela era muito quieta e na maior parte do tempo estava chorando com saudades da família, ou tentando fugir de lá. Eu sempre a via pelos cantos de Mitroh-z com aquele ar triste e seus olhos diferentes. Às vezes a via enfaixando o rosto, mais especificamente o olho vermelho, enquanto gritava para o nada porque nasceu assim. Nunca entendi porque toda a sua revolta por ter sido levada até lá. Eu nunca fui assim, apesar de ter sido pega pelo Clero quando tinha apenas cinco anos. Certo diz resolvi que ouvi-la reclamando era um saco, então a partir daí comecei a treiná-la. Até os 16 anos já havia ensinado a ela tudo o que aprendia, provavelmente não devia ter feito isso. Ruko matou meu mestre e depois fugiu do Clero dizendo que voltaria para destruir todos e vingar os Ceifadores.

A garota de cabelo negro com sua unica mecha azul tirou o tapa-olho do rosto e depois avançou correndo. Ela sempre fazia isso quando ia atacar alguém apenas para assustar a pessoa, e normalmente dava certo, afinal, quantas pessoas existem que possuem um olho azul e o outro vermelho? Porém isso não funcionaria comigo, já a vira centenas de vezes e inclusive a treinei durante toda sua vida. Ensinei a Ruko tudo o que ela sabe, e me arrependo demais de ter feito isso.

Deslizei para o lado quando a espada dela veio em minha direção, e em seguida pulei para suas costas fazendo um movimento com a adaga que ainda carregava, ela desviou também, mas me atacou em seguida com mais um movimento de espada. Agachei-me na mesma hora. Precisava terminar logo com essa babaquice, não tinha tempo para ficar brincando de lutinha com alguém que se achava tão superior para trair o Clero e vir se esconder em Opahula.

Ataquei-a novamente com a adaga, e ela –erroneamente – defendeu o golpe com a espada, fazendo com que minha adaga e sua espada formassem um X enquanto encarava-a. Sem pensar muito, com a outra mão livre pequei um punhal de outro coldre e enfiei-o na barriga de Ruko. Ela gritou de dor enquanto seus olhos se reviravam.

- Vai pagar... Magane... Seu irmão morrerá... – Disse ela em meio à um riso sádico que ecoou pelo corredor por um momento antes dela falecer.

- Pacem. Mortem. Vitam aeternam. E... Eu esperava mais de você, Ruko. Não me fez nem cansar. – Cuspi as palavras com ódio, enquanto corria pelo corredor deixando o corpo morto de Ruko jogado no chão. Não me importava com ela, não mais...

No fim do corredor havia uma grande porta de ferro, a qual tinha um sistema ao lado para passar-se um cartão e digitar uma senha aparentemente. Ok... Eu estava ferrada, porque eu não tinha cartão algum, e...

- O que faz aqui, Ceifadora? Não tem permissão para ficar nessa área.

Virei-me vendo que atrás de mim estava um homem alto de cabelo comprido e roxo. Ele usava óculos e um terno. Porém o que mais me chamou a atenção foi o cartão transparente que carregava em uma das mãos. O homem o guardou no bolso vendo que eu encarava o objeto.

- Fiz-lhe uma pergunta, Ceifadora. – Disse o homem.

- Vim buscar algo, apenas. – Retirei o capuz de meu rosto, e vi que o homem se assustou, a pergunta era: Por quê?

E foi aqui onde comecei.

Como já disse, peguei o cartão transparente que ele carregava, li o nome rapidamente: Gakupo. Um nome estranho, mas não importava. Passei o cartão no dispositivo, o qual abriu uma tela azul semitransparente à minha frente contendo letras e números. Uma senha. A primeira coisa de que lembrei foi das primeiras palavras sem sentido do padre. M-A-X-1-3-0-1. Digitei-a com expectativa.

Então a porta se abriu silenciosamente. Bem à minha frente, dentro de um vidro um esqueleto pairava. Este tinha escrituras no crânio as quais eu não conseguia ler de longe. Caminhei até à frente, mas parei quando o barulho de um gatilho soou atrás de mim. Sem ter muito o que fazer apenas levantei os braços colocando as mãos atrás da cabeça.

- Vejamos o que temos aqui. Uma escolhida, tão preciosa! Bom, eu teria usado a estúpida da Ruko, mas como ela está morta, você irá servir. Vire-se. – Disse uma voz a qual eu achei conhecer.

Não discuti e virei-me, e a cena que vi fez meu coração sair pela boca e quebrar-se ao mesmo tempo. Era meu irmão. Era Magane Len, tinha certeza disso. Ele tinha uma expressão fria, como a que ficava em meu rosto normalmente, e seus olhos transmitiam ódio. Len hesitou por um instante ao ver que era eu, e pude ver em seu olhar um pouco de afeto, mas logo ele voltou com a expressão anterior.

Ele usava uma roupa formal, e segurava a arma como se já tivesse feito isso muitas vezes. Vi que ele tinha uma faca em um pequeno coldre, e ela estava meio suja de sangue. Instantaneamente lembrei-me do padre Dell Honne. Len havia o matado. Havia incinerados a casa do padre, mas porque isso? Porque meu irmão?

Eu não sabia o que falar. Não tinha o que falar.

Len fez um gesto com a arma para que eu caminhasse até o “tanque” de vidro onde havia o esqueleto.

- Leia o que tem na testa dele. Rápido! – Gritou ele comigo empurrando-me.

Olhei para o crânio do esqueleto à minha frente, para as escrituras. De início não consegui entender nada, mas depois as letras começaram a se misturar e juntar-se, até que formavam palavras com sentido.

- Pacem. Mortem. Vitam aeternam. Adepto a tenebris. Mortem adomnes qui vis me mortuus. Obedire me. (Paz. Morte. Vida eterna. Levante-se das trevas. Morte à todos que me querem morta. Me obedeça.)

Na houve por um momento, porém em seguida meu rosto começou a formigar onde ficava a “tatuagem tribal” percebi que uma luz saia dela, uma luz negra, assim como uma luz saía das escrituras do crânio de L. Len ficou em silêncio, olhei-o sobre o ombro e vi que ele havia abaixado a arma e olhava boquiaberto para o esqueleto que agora iluminava-se por completo. Era a minha chance.

Corri até ele, retirando minha adaga. Podia ter pegado a arma e atirado em Len à distância, mas eu não gostava de armas, nunca gostei. Meu irmão só percebeu que eu havia me movido quando eu já estava com a adaga em seu pescoço, pronta para separar sua cabeça de seu corpo.

- Mate-me, Rin. Será um favor que me fará. – Falou ele com um sorriso no rosto.

- Do que está falando?

- Bom, você acabou de despertar o grande L., matou uma Ceifadora, um agente e bom, matará outro agente. Como você acha que as cidades verão o Clero agora? Esses malditos padres nunca mais poderão tirar criança nenhuma de nenhuma família! Nunca mais! Eles serão destruídos! – Len riu, uma risada totalmente insana.

Afastei-me dele. Apesar de parecer maluco meu irmão estava certo de uma coisa, o Clero seria culpado por algo que eu havia feito. Virei-me quando a luz negra cessou. Quem estava dentro do cone de vidro não era mais um esqueleto. Era uma pessoa. Era... Meu irmão? Não. Seus olhos tinham outra cor, seu rosto tinha outras emoções. Eu o conhecia? Sim. No instante em que L. fitou-me com seus claros e profundos olhos imagens começaram a surgir em minha mente, imagens as quais eu nunca vivera, pelo menos não nessa vida.

Vi imagens as quais eu e L., passeávamos juntos de mãos dadas por um campo de flores amarelas as quais não existem mais. Em outra estávamos usando roupas tão antigas que apenas estátuas de museus as tinham, como um vestido comprido e cheio de babados com um chapéu grande com flores o enfeitando, enquanto ele vestia um terno antigo com um monóculos sobre seu olho e um chapéu negro. Em uma imagem estávamos casando, um casamento do século XXI pelo que parecia e pude ver a alegria em seus olhos claros. Em outra memória o vi morrendo, mas com um sorriso no rosto enquanto beijava minha testa antes de morrer realmente. Na última lembrança me vi formando um círculo com várias pessoas e Len no meio dele, falávamos em uníssono em latim, como um feitiço, em seguida aquelas tatuagens estranhas surgiram em nossos rostos e uma frase em uma letra embaralhada surgiu na testa de Kagamine, sumindo em seguida. Soube no mesmo instante que aquele fora o feitiço que lançamos para que somente eu, e as pessoas do círculo pudéssemos revive-lo.

Em todas estas lembranças; vidas, eu e ele sempre estávamos juntos, apaixonados, e acredito que isso nunca mudará.

- Kagamine Len. – Foi o que eu consegui dizer depois do súbito de lembranças. Este era o nome de L. O mesmo nome de meu irmão, talvez apenas uma coincidência? Não acredito nisso.

Dei um passo à frente, e Kagamine Len, quebrou o vidro o qual estava preso, caminhando à minha direção também. Queria jogar-me em cima dele e abraça-lo durante horas, apenas pelo o que já vivemos, pelo o que eu lembrara que vivemos, mas não pude fazer isso, porque neste momento uma faca atravessou meu corpo.

Minha visão ficou turva com vários pontos negros enquanto uma dor aguda se espalhava pelo meu corpo. Caí ajoelhada no chão cuspindo um pouco de sangue. Eu iria morrer.

- Não, Rin... Você é minha! Não dele! – Gritou Magane à minhas costas retirando a faca que havia atravessado em mim. – E não deixarei que fique com ele. Nunca!

Uma pequena lembrança infeliz voltou a minha mente. Kagamine morrendo com um sorriso no rosto. No lado oposto o qual ele estava caído Magane jazia em pé, segurando um punhal ensanguentado, tanto quanto suas roupas. Ele estava com um olhar estático em Kagamine, enquanto eu chorava ali. Havia me levantado e ido até meu irmão. Palavras foram ditas, mas elas pouco importavam, peguei o punhal de Magane e cravei em meu peito, morrendo naquela vida junto de Kagamine. Outras lembranças semelhantes vieram até mim, todas elas terminavam do mesmo modo, ou Len ou eu éramos mortos por meu irmão, sempre...

Puxei a arma de meu coldre, cada movimento meu parecia tirar ainda mais o pouco de minha vida, mas eu precisava fazer algo, não queria viver para sempre do mesmo modo. Engatilhei a arma, e virei-me jogando-me no chão, antes que Magane pudesse fazer algo, atirei em sua cabeça. Foi a coisa mais dolorosa que já fizera tanto física quando psicologicamente. Matar meu irmão... Nunca pensara nisso, nem nesta vida e nem em outras.

- Pacem... Mortem... – Murmurei enquanto tentava puxar ar de meus pulmões para continuar falando.

- Vitam aeternam. – Terminou Kagamine ao meu lado com um sorriso confortador no rosto. – Nos vemos na próxima vida, meu amor. – Sussurrou Kagamine dando me um beijo e deixando que uma lágrima rolasse pelo seu rosto.

Sorri para ele apertando-lhe a mão e com muita força consegui beijar-lhe a testa.

- Nos vemos então... – Consegui dizer antes de todas as minhas forças se esvaírem e eu morrer, pronta para esperar por ele em minha próxima vida, onde quer que fosse, quando quer que fosse. Não importava, eu o esperaria... Por toda a eternidade.

Notas finais
Ficou bem tosco, mas é que como já disse, tive que diminuir TUDO. ): Bom, da próxima vez eu faço uma fanfic melhor. Mas espero que tenham gostado nem que seja um pouquinho. q
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!