Vita Mia
1 Não Consigo Viver Sem Teu Carinho
Notas iniciais
Se puderem ouvir a música enquanto leem: http://letras.mus.br/banda-tono/1830969/
Nevava naquele dia de dezembro. Ele não sabia qual e também não se importava: não tinha muito sentido saber das horas, se não as estava contando para, enfim, estar nos braços de sua amada. Nada fazia sentido, se não estivesse conectado a ela.
Não consigo viver sem teu carinho
Ela, que por sinal, estava deitada em casa, na casa que costumava ser dos dois, perguntando onde ele estaria agora e o que estaria fazendo. Costumava ser nessas horas que ele ligava, pedindo que ela se arrumasse para jantarem fora. Era assim, sem motivo algum, sem nenhuma comemoração aparente: eles saíam, se divertiam, e voltavam para casa, onde todo o amor do mundo parecia viver.
Não consigo viver sem teu carinho
Ele já nem lembrava mais porque haviam discutido. Discutiam o tempo todo, por quase tudo: um livro que ambos tenham gostado, um filme que assistiram juntos – ou que assistiriam –, comida, e o principal: ciúmes! Os dois eram ciumentos, e antes de o relacionamento se tornar sério, as coisas conseguiam ser ainda mais extremas, quando os sentimentos estavam todos à flor da pele...
- Tenho em mente que você merece alguém melhor! – ela esclarece, sem vergonha ou medo de repreensão.
A tua flor não é flor pra qualquer jardim
- Tipo quem? – ele tentava a todo custo não rir. Sabia bem qual seria a resposta, e sabia também que concordaria com todas as letras.
- Tipo não! Você merece a mim! – responde direta, mais próxima dele do que já ficara um dia. – E eu mereço você, porque não acho que vou encontrar um melhor por aí!
Quero pra mim, pois eu já cansei de capim
Ele adorava a forma direta com que ela falava com ele. Foi o que a tornou mais encantadora e o fez totalmente dependente dela e de suas manias.
- Depois de provar, só me resta beber de todo o copo! – não havia como ser mais literal e metafórico ao mesmo tempo: sorvera todo o whisky do copo, e tomara todo a paixão de seus lábios.
Os lábios que ele sempre procurava quando algo dava errado em seu dia. Os lábios que lhe proporcionavam todo o amor do mundo, quando tudo o que o rodeava era ódio, angústia, estresse. Os lábios que lhe sorriam o sorriso mais carinhoso de todos.
Eu não consigo mais viver sem teu carinho
Lábios que agora diziam palavras desconexas, de pura raiva e agonia. Ela precisava dele; ansiava por cada toque, cada beijo, cada palavra e até mesmo xingamentos que ele proferisse. Era um dia de neve: eles costumavam ficar em casa, sob cobertores, vendo um filme romântico que ambos detestassem, zoando casais que eram exatamente como eles: loucos um pelo outro, mas que demoraram tanto para admitir, que os amigos quase fizeram uma lista de abaixo assinado, para que assumissem logo um compromisso; ou então, escutariam os velhos discos que eles tanto amavam, como se tivessem crescido nos anos 80, e em algum momento tocaria a música deles, e eles não resistiriam ao amor que veriam um no olho do outro.
Negro no azul, banhados de amor, enquanto as mãos grandes dele delineavam cada curva dela, desde os lábios entreabertos, prontos para sussurrar as quatro palavras que mais o animavam, até os quadris, apertados contra os seus. Ela cruzaria as pernas ao redor da cintura dele, esperando por as carícias e amando cada uma delas
A tua mão quando desliza sobre mim
Vem lá do alto ela só para em meus quadris
Podiam estar longe – ela em casa, ele numa rua qualquer da selva de pedra, enfrentando a neve –, mas continuavam dividindo algo. Dividiam a saudade que sentiam um do outro, o sentimento de estupidez por terem deixado uma, de suas muitas, discussão boba, atrapalhar o que sentiam.
Dezembro era o mês dela, e ele queria estar ao seu lado. Ele faria de tudo para que isso acontecesse. Engoliria seu orgulho idiota, até mesmo seria clichê se precisasse ser, como os homens arrependidos dos filmes que veriam juntos em dias como aqueles: só precisava estar ao lado dela.
Dela, que estava pronta para atravessar Nova York inteira, vestindo apenas pijamas, apenas para pedir desculpas. Mas não conseguiu chegar à porta!
Azul no negro! As palavras faltaram, mas os sentimentos gritavam.
Eu não consigo mais viver se teu carinho
- Eu sou um verdadeiro idiota! – ele entra. Não pediria licença para entrar no único lar que conhecia e queria ter para sempre
- Eu que sou! – ela fecha a porta e encosta-se à mesma!
- Somos então! – ele sorri para si próprio, ainda de costas para ela – Já não consigo lembrar porque brigamos!
- Eu esqueço assim que termina! – ela sorri também, encarando as tatuagens no pescoço dele – Eu amo você, Nico! É tudo o que eu lembro!
Lá estavam as quatro palavras que ele suplicaria para ouvir, se preciso fosse, e que saíram espontaneamente dos lábios que ele mais amava.
- Eu me lembro de tudo, quando o assunto é você! – ele sente as mãos finas dela abraçarem sua cintura. – De como tudo começou e de todas as vezes que pensei que acabariam!
Puxou-a para frente, ainda encarando os dedos frágeis dela. Tão pequena em comparação à ele, mas tão grande em comparação com suas prioridades. Ela era tudo o que precisava.
- Não quero que acabe! Não vou deixar que acabe! – ela apertou sua mão, como se precisasse de algo para fazê-lo acreditar.
Me pegue pelas mãos
Me traga pra perto
- Nem que você deixasse isso acabaria, vita mia! Vai além de uma decisão! Amor não é feito de permissão! – lá estava a filosofia que a fazia sonhar.
Me pegue pelo coração
Fazendo só o que é certo
- Do que é feito então? – ela sussurra.
- O meu é puramente você: seus cabelos, sua pele, seu sorriso, seu corpo, seus olhos! – ele ergue seu rosto, em busca do olhar azul que ela baixara devido a lisonja – Olhe para mim, Thalia!
Não deixe, não deixe meu olhar (se desviar)
E vendo-se refletido ali, vendo-a sendo a sua Thalia: aquela que era puro amor e que em nada se parecia com o que o mundo dizia ser – insensível e arrogante, principalmente –, vendo-a em seus braços, ele se deu conta de que era isso o que procurou a vida toda, que procurou em cada dose que tomou.
Sempre fora ela quem ele, incansavelmente, procurou!
No amor eu quero me afogar
- Casa comigo? – repentino como ela, ele perguntou. Tão surpreso quanto ela também! Nunca pensou que proporia tal coisa, mas era Thalia. Ele não podia deixá-la ir.
Se for contigo eu quero entrar nesse mar
E ela, que era direta com as palavras, não as teve no momento! A surpresa e a felicidade que surgiram, a deixaram sem palavras e sua única reação foi abraçá-lo e enterrar o rosto em seu suéter, ouvindo o som descompassado das batidas de seu coração.
Tanto calor que surge em te abraçar
Mas esse fogo é fogo bom pra se queimar
Ele não precisou de uma resposta depois que ela se afastou, tomando sua mão nas suas, guiando-o pela casa deles, levando-o para o quarto que ele tão bem conhecia, e mostrando-o caminhos por curvas que ele sabia bem como percorrer.
E que pretendia percorrer pelo resto de seus dias!
Eu não consigo mais viver
Notas finais
Beijoos!!
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